Apropriação cultural

amandla stenberg

Muita coisa já foi escrita sobre apropriação cultural, essa discussão realmente não é nova. Mas como apropriação cultural é um negócio que parece continuar rolando infinitamente, escrever os parágrafos a seguir foi inevitável.

A apropriação cultural acontece quando elementos de uma cultura são adotados por indivíduos que não pertencem a esta cultura. Isso inclui o uso de acessórios e roupas, a exploração de símbolos religiosos, o sequestro de tradições e de manifestações artísticas. A apropriação cultural é especialmente terrível quando se trata de elementos de uma cultura historicamente marginalizada e explorada.

A linha entre apropriação cultural e intercâmbio cultural é tênue. Intercâmbio cultural é um fenômeno natural e bem frequente. Mas a apropriação cultural é um processo bem problemático que precisa ser mais bem compreendido, pois dá uma margem enorme para que elementos de uma cultura sejam banalizados, trivializados e estereotipados. Um grande problema de sequestrar elementos de culturas não dominantes e adotá-los de maneira descontextualizada, é que as pessoas que fazem a apropriação se beneficiam dos aspectos que julgam “interessantes” de uma cultura, ignorando os significados reais desses elementos, enquanto os membros dessa cultura tem que lidar com opressão diariamente.

Nos últimos tempos, cada vez mais gente passou a reconhecer a apropriação cultural como uma coisa problemática, mas ainda vemos muita gente apropriando elementos de outras culturas como se eles fossem apenas tendências passageiras. No começo deste ano, a Amandla Sternberg (que fez o papel da Rue no Hunger Games) e uma amiga chamada Quinn Masterson produziram um vídeo para a aula de história delas que ficou bem famoso. Intitulado “Don’t Cash Crop My Cornrows”, o vídeo postado no tumblr da Amandla é basicamente uma aula sensacional (e bem completa) sobre apropriação cultural e cultura negra.

 

 
Nesse vídeo, a Amandla fala do papel do cabelo na afirmação da identidade negra e como isso se relaciona com a cultura do hip hop. A Amandla eloquentemente descreve o processo que levou muitas marcas e celebridades a se apropriarem da cultura negra, explicando que pessoas brancas começaram a usar acessórios, roupas e penteados associados ao hip hop conforme ele se popularizou.

Isso me leva ao recente caso de apropriação cultural da Kylie Jenner. Ela, assim como muitas outras celebridades brancas, sempre dá umas cagadas muito sérias quanto o assunto é raça e apropriação cultural. Em janeiro, a menina postou fotos usando dreads; em abril, rolou um incidente com blackface; e na semana passada, ela postou uma foto usando cornrows. A Amandla respondeu a essa foto da Kylie fazendo um post no instagram, onde ela explica que enquanto as mulheres brancas capitalizam e são elogiadas ao se apropriarem de elementos da cultura negra, mulheres negras continuam submetidas a fetichismo, violência e constantes ataques à sua aparência. Segue um vídeo muito bom da Chescaleigh (maravilhosa, vocês devem conhecer do “Shit White Girls Say to Black Girls”) contextualizando e comentando esse caso:

 

 
Um detalhe muito importante da foto da Kylie, é que a legenda foi escrita em ebonics. Mais uma vez, a apropriação cultural, dessa vez por meio da linguagem, abre portas para que muitos estereótipos sejam perpetuados. Ao usar essa variação coloquial do inglês americano, a Kylie reafirma a narrativa midiática de que todos os negros americanos falam de uma determinada maneira.  A linguagem tem um papel importante na apropriação da cultura negra. A voz natural da Iggy Azalea, por exemplo, é um sotaque rural australiano, mas assim que ela pisa em um estúdio, ela começa a cantar com uma voz que tenta imitar uma linguagem normalmente associada a mulheres negras americanas. Ela reproduz trejeitos, sotaque e vocabulário de forma caricatural, interpretando uma personagem com o que ela imagina ser uma representação da mulher negra americana.
 

O que muita gente não leva em consideração ao fazer apropriação cultural é a forma com que essas culturas foram tratadas historicamente.

 
Um exemplo de apropriação da cultura negra que todo mundo conhece são os turbantes. De uns tempos pra cá, muitas revistas, editoriais e marcas começaram a mostrar os turbantes como uma nova “tendência”. Mulheres negras sempre usaram turbantes, não se trata de uma tendência cool que surgiu no Instagram para meninas brancas parecerem mais descoladas. Muita gente branca ignora o significado dos turbantes para a identidade da mulher negra. Se considerarmos também como as religiões de matriz africana são perseguidas na sociedade brasileira, é impossível tratar os turbantes como meros acessórios, despidos de significado.

Vivemos em uma sociedade onde as escolhas estéticas e capilares de mulheres negras são escolhas políticas. Isso significa que o uso de turbantes e a valorização do cabelo natural devem ser vistos como resistência, e não como tendências passageiras.

Outro aspecto bem perverso da apropriação cultural é que, muitas vezes, elementos de uma cultura são comercializados e capitalizados, mas em nenhum momento membros dessa cultura se beneficiam desse processo de maneira significativa.  A indústria da moda é um grande exemplo disso. Sabemos como as mulheres negras têm sido sistematicamente excluídas da moda. Não faz muito tempo, a modelo Nykhor Paul, fez uma declaração no seu Instagram, onde afirmou estar cansada de ter que constantemente se desculpar por ser negra. Além de lembrar que pouquíssimas modelos negras são contratadas, Nykhor fala de como a grande parte dos maquiadores não estão preparados para maquiar modelos negras, nunca carregando produtos adequados para peles escuras. Nesse cenário de baixíssima representatividade negra, muitas grandes marcas lançam coleções com estampas africanas, ou de inspiração africana, enquanto empregam uma quantidade super pequena de pessoas negras como modelos e estilistas.

Uma coisa que me incomoda bastante é que ao mesmo tempo em que vemos revistas de moda, grandes marcas, gravadoras e artistas fazendo apropriação cultural, em especial da cultura negra, vemos pouca disposição dessas instituições para combater e desconstruir o racismo. Esse apoio seletivo é desconcertante.

É justamente disso que a Azealia Banks tá falando quando critica a Iggy Azalea por se apropriar do rap e, simultaneamente, se omitir de posicionar contra a violência policial direcionada à juventude negra. É justamente essa a crítica da Amandla na foto da Kylie, uma pessoa que se apropria de características e de partes da cultura negra, mas se recusa a usar sua posição de poder para ajudar americanos negros no combate ao racismo. É justamente esse o problema com as festas pseudo-descoladinhas com temática afrobrasileira. Esse negócio de querer “prestar homenagem” por meio de apropriação cultural, enquanto rola o genocídio da população negra é o fim. Podem parar que já deu.

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    clap clap clap

  • Mimi Pimentinha

    legal, videos em ingles sem legenda, não dá pra entender

  • VRAA, adorei!

  • barbarrá

    xará, c é demais! e a chesca, amo muito!

  • Philsk Muscaria

    HUE querem fazer cosplay sem ter olho puxado, estudar pra caralho e ter um avô que passou por uma bomba nuclear. Sério, essa história de “apropriação cultural” foi o maior tiro no pé que eu já vi na minha vida…. quanto mais as pessoas ACEITAREM a cultura negra, naturalmente o preconceito em cima de esses costumes vai desaparecendo, o que seria MELHOR para a população negra…..eu sou contra o machismo, contra o elitismo e contra o racismo. Mas as vezes alguns representantes dessas lutas dão umas bolas fora que pelamor de deus, deixam claro que estão mais interessados em SEPARAR as pessoas do que unir…..continuem assim! E assim que o racismo vai acabar, cada um com sua cultura, sem mistura!

  • frieda ness

    Essa questão de apropriação cultural fica claro pra mim quando é uma celebridade, ou em revistas e desfiles de moda, no uso de algum elemento cultural como algo exótico ou de “exotismo”, mas é muito difícil na “vida real”, eu sou branca, ascendência europeia, e passo em estandes na frente do metro republica (sp) em que africanos vendem roupas, lenços e outros acessórios bem característicos africanos, ou então tudo que a Baobá Brasil faz http://www.elo7.com.br/6987E
    acho lindo então não posso comprar/usar? nunca comprei pq fico pensando q vão apontar o dedo pra mim…

    • Giovana Meneses

      Exato. Sou louca para usar box braids mas, além de ter medo das brigas que virão com minha família (que continuam reproduzindo aquelas velhas opiniões idiotas), fico pensando em quanta gente que conheço vai se afastar de mim, ou quanta gente que nem conheço vai adotar alguma postura grosseira quando me virem, por ser branca e usar…

  • Pingback: Quanto vale a sua cultura? |()

  • Lara Flores

    Oi! Eu entendi o que é apropriação cultural, entendi a carga histórica que os elementos de cada cultura representam ,como um símbolo de resistência.
    E concordo como é injusto os que deram origem a determinada cultura não partilharem dos bons frutos dela, porém eis o meu caso, eu sou afrodescendente, embora que a maior parte de minha família seja negra eu nasci branca.
    Tenho muito orgulho da minha origem africana que é muito maior geneticamente que a origem branca.
    Eu sou branca e tenho o cabelo 4b e estou em período de transição e então pretendia fazer box braids seria apropriação cultural já que faz parte também da minha cultura, já que eu convivi com essa cultura a minha vida inteira, já que esse sangue está em minha veia?
    Embora eu seja branca eu tenho traços da cultura afro que vão muito além da cor da pele já que EU SOU AFRODESCENDENTE… Moça me perdoe qualquer coisa, mas realmente eu gostaria de ser esclarecida e realmente estou aberta para ouvir, pois eu sou afrodescendente e herdeira dessa cultura como qualquer outra pessoa de origem africana.

  • Marinha Luiza

    Fiquei mais confusa do que esclarecida… Amo turbante, mas por ser branca eu não posso usar? (Não tem nenhum tom irônico/sarcástico na pergunta…

    • Heracles Patroclo

      Pode usar Marina sem problemas

  • Heracles Patroclo

    Olha li toda a matéria, mas na minha opnião isto é uma grande besteira, falta no nosso pais educação ai ficaria facil terminar com este ditame de apropriação cultural, primeiro pois se formos levar isso a ferro e fogo, quem não for alemão ou americano não pode mais andar de carro, o carro foi inventado por alemães e americanos, ninguem mais poderá usar lampadas elétricas se não for americano, pois thomas edson era americano e assim por diante, turbante ja se usava na europa a séculos, constantino que fez constantinopla no século 3 usava turbante e assim por diante, é mesma coisa das tranças nos cabelos usadas pelos guerreiros da Gália ou mesmo os Vikings que eram homens, mulheres se vocês quiserem comprar turbantes, roupas de qualquer cultura, tanto por que não existe grupo, etnia ou povo que nunca escravisou ou foi escravizado na historia do mundo, caso alguem queira fazer uma conversa de idéias estou a disposição, só não podemos ficar nestas amarras de parvo, pronto#faeli!

  • Beatriz Ferreira

    Achei muito legal a matéria é gostaria da opinião das leitoras sobre uma coisa.Tenho pensado em fazer box braids no meu cabelo principalmente pelos benefícios mas eu realmente tenho medo de que pessoas se ofendam ou me acusem de apropriação cultural, e gostaria de saber a opinião de vcs…

  • João Leonardo Bottazzo

    Tanta coisa mais importante para se discutir (como educação, por exemplo, pessoas morrendo em filas de postos de saúde), e vcs ficam com esse papo de esquerda. Vcs dizem a todo momento que devemos respeitar os negros porque eles são negros, mas não, nós devemos respeitar os negros, os homossexuais, os heterossexuais, os brancos, os pobres, os ricos, mas não porque eles são essas coisas, mas porque eles são seres humanos. Devemos cuidar mais das nossas vidas e parar de nos intrometermos na vida do outro.

    • barbarrá

      Por que você não pega o seu próprio conselho e aplica na sua vida? Se intrometendo em assunto que não entende até porque não tem idade, por que não vai cuidar da sua vida? A discussão construtiva sobre branquitude e racismo vai acontecer com ou sem a sua presença, e outros assuntos vão ser debatidos paralelamente sim, como saúde, educação, se você quiser ler sobre, só buscar. Ficar assistindo filme do Iron Man e falar mal de qualquer coisa na internet não muda absolutamente nada. Pare de reproduzir discurso sem argumentação e preste mais atenção na aula de história.

  • Giovana Meneses

    Sei que minha opinião não condiz muito com o que é tido como consenso, mas… continuo vendo um grande problema nesse argumento de “pessoas brancas não podem usar porque pessoas negras sofrem violência por usarem”, além de não ter muita lógica, continuamos nos prendendo ao direito ou falta de direito dos brancos usarem algo que seja considerado signo de uma outra cultura ao invés de prestar realmente atenção no problema, que é o porque de negros continuarem sofrendo essa violência.