‘Chimas’ e o Meio Sol Amarelo ♡

Chimamanda Ngozi Adichie, a nossa 'Chimas'

Chimas foi o apelido carinhoso que eu e minhas amigas demos à Chimamanda Ngozi Adichie quando resolvemos fazer um clube do livro e começarmos pelo segundo livro escrito por ela, o Meio Sol Amarelo. Em verdade eu gostaria de ter começado com um dos outros títulos que eu já havia comprado e estavam aqui aguardando leitura, mas por votação, adentramos ao maravilhoso mundo de Chimas, ainda bem.

Meio Sol Amarelo é um romance que costura ficção e história de uma forma muito peculiar e excelente por causa dos lapsos de tempo que nos fazem sentir com menos impacto o terror de uma guerra. A guerra de Biafra, a guerra civil da Nigéria. Uma das muitas histórias silenciadas pelo ocidente.

 
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O contexto histórico é o seguinte, nos anos 60 a Nigéria tinha acabado de se emancipar da Inglaterra e enfrentava muitas dificuldades com sua diversidade étnica e herança colonial. Bem resumidamente, a guerra envolveu dois grandes povos nigerianos, os Hauças do norte (noroeste) da Nigéria, em sua grande maioria muçulmanos e os Igbos, do sul (sudeste), cristãos em sua maioria.

 

Biafra em vermelho :(
Biafra em vermelho :(
 
Os afrontamentos se davam por disparidades étnicas e religiosas. Em 1965 ocorreram diversos motins em que 30 mil Ibos já haviam morrido e mais de um milhão de Ibos estavam refugiados. Em 1966 começou então uma revolta militar separatista para que a região sudeste se separasse da Nigéria. Iniciando então a Guerra de Biafra.

 

Meio sol amarelo na bandeira de Biafra
Meio sol amarelo na bandeira de Biafra
 
No livro, toda essa história é introduzida em meio ao romance que é narrativo e se passa em partes diferentes dentro de – o que vem a ser – uma mesma família. O livro se inicia com a história de Ugwu, um rapaz que vai servir um professor universitário como um empregado doméstico. E quando eu digo servir é, abandonar a família dele numa vila rural para ser serviçal de um professor da Universidade de Nssuka, o Odenigbo. O professor é a favor do separatismo de Biafra e namora Olanna, uma mulher de uma família muito rica da Nigéria em que todos os membros, incluindo sua irmã gêmea Kainene, estudaram na Inglaterra. Há também o ponto de vista de Richard, um inglês que mora em Biafra e é namorado de Kainene. A trama se passa com esses personagens e suas percepções e realidades durante a guerra.

Confesso que até a página 200, eu, que não sou muito de romances, não estava achando nada muito demais. A comparação entre as muitas realidades, entre as classes sociais da Nigéria e as partes históricas, foram as partes que eu mais estava gostando. Claro que a forma de transitar entre personagens diferentes e os lapsos de tempo já tinham me captado bastante, mas foi a partir da página 200 que eu comi o livro. Comi porque até esse ponto você não entende que está completamente imerso no dia a dia da família e quando começa a guerra é um ponto de virada muito forte. A partir daqui, li mais de 100 páginas por dia, acabando o livro nos próximos 3 dias, acreditem se quiser. Hahaha.

A história é muito forte. É uma história que a gente não aprende na escola, é uma história que a gente aprende a ver mais de um ponto de vista por trás dos estereótipos que nos são ensinados. E sobre isso, nada melhor que a própria Chimas falando sobre o perigo do discurso único, que é também o perigo do silenciamento.

 

Tem legenda em português!

 
Fica muito clara, no livro, a posição dos intelectuais nigerianos em relação aos brancos que estão no país querendo ajudar numa posição de privilégio soberano. Há um entendimento total sobre os resquícios da colonização, condenação de reprodução de racismo, auto degradação cultural e uma proposta de resgate muito forte. A repressão é além da força física, é uma repressão ideológica, e isso é muito bem relatado e retratado.

Lendo sobre isso, são incansáveis as pontes que se podem fazer para as questões de apropriação cultural, silenciamento do feminismo negro, white savior(ismo?) ou ‘complexo de Princesa Isabel’, etc.

Procurei todas as palavras em Ibo que estão no livro, as cidades e locais específicos onde ocorreram alguns acontecimentos e os pratos típicos que são sempre comentados, procurei as receitas, hahaha! Fiquei em fase de negação total quando acabei o livro. Posso dizer que fiquei completamente apaixonada e não vejo a hora de ler todos os outros livros da nkem, Chimas♡. É uma história que consegue transitar entre uma doçura e uma dureza muito bem colocadas, críticas intensas e valor histórico inestimável.

Ainda não vi o filme, tenho um baita medão de desconstruir os personagens que a minha imaginação elencou, mas possivelmente devo assistir daqui a um tempo, se alguém aqui já viu, me fala se é bão?

Caso você não conheça nadica sobre a Chimas, ela ficou bem mais conhecida depois que a Beyoncé colocou uma parte de um de seus discursos na música Flawless. Vou deixar aqui abaixo tanto o discurso quanto o clipe, por que, né? De nada. Hahaha.
 

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  • Kari Salander

    Arrasou!!!

  • suely rodrigues

    muito bom seu texto!!!

  • Regina Porto

    Adorei a ideia do clube dos livros de Chimamanda. Estou na metade da leitura de Meio Sol Amarelo e como quando lí Americanah e Hibisco Roxo estou encantada com a excelência da escrita da moça. Chimamanda mostra a África que o mundo esqueceu. Nós brasileiros podemos ver nosso país em muitas situações nigerianas. Tanto no atraso, na cultura religiosa e gastronômica, quanto no machismo e na corrupção. Recomendo a todos a leitura do livro. E antes de finalizar, parabenizo pelo ótimo blog. Abraço.