Mulheres no tatame

Ilustração exclusiva por Thais Cortez

Eu me incomodo muito fácil com o papel atribuído a mulheres em programas de tv. Mas se tem um tópico bem específico que me incomoda bastante são chamadas constrangedoras para matérias sobre como praticar artes marciais sem perder a feminilidade ou não perder o charme mesmo de kimono.

E os absurdos do tipo, infelizmente, são mais constantes do que seria levianamente recomendado. Sinto como se tratassem as lutadoras, eu inclusa já que pratico Karatê há mais 12 anos, como uma descoberta exótica, da qual eles não conhecem nenhum hábito. Como se precisasse de ainda mais reforço para os estereótipos da sociedade como, por exemplo:

“Ah… mulheres que lutam querem ser meio homens, né?”

Não, amigo. Não criei uma genitália masculina, nem sou nenhum tipo de ogro só porque encontro nas lutas a minha forma de equilibrar o estresse do dia a dia. Também não faço isso para pegar homem nenhum e nem porque está na moda.

Há uma dificuldade enorme em aceitar que uma mulher pode ter gosto por tudo quanto é coisa nesse mundo. Pior ainda é quando começa a contestar a sua sexualidade por conta disso. O que diabos uma coisa tem a ver com a outra?

Comecei a lutar ainda criança. Ouvia muito desses comentários desnecessários quando ainda nem entendiam o que eles significavam. Me surpreendia que os meninos que eu gostava não queriam falar comigo por eu ser mais forte e isso ser algo que os deixa assustados. Por isso acho um grande desserviço a mídia comentar vagamente sobre lutadoras e só para dizer que elas são “mulheres de verdade” fora dos ringues, octógonos ou tatame.
 

Ilustração exclusiva por Thais Cortez
 
Ela é mulher lá dentro. Fazendo o que gosta. Desafiando preconceito. Correndo atrás do sonho ou apenas relaxando com uns socos depois de uma semana puxada. Se ela quer se maquiar depois é uma escolha única e exclusivamente dela. Parem de esconder as lutadoras como se o que elas fazem fosse um problema.
 
Ilustrações por Thais Cortez.

Tags relacionadas
, ,
Mais de Mari Rodrigues

Mulheres no tatame

Eu me incomodo muito fácil com o papel atribuído a mulheres em...
Leia mais
  • Eu fiz karatê por 6 meses, quando tinha 13 anos. É um esporte realmente incrível, mas por uma série de questões eu tive que sair. Só havia uma turma infantil, composta por vários garotinhos de uns 7 anos. Todos eles questionavam por que eu não estava na classe de ballet, por que eu ficava jogando Pokémon enquanto a aula não começava, se eu estava lá obrigada… Se eu cometia algum erro era porque eu “era menina”.

    Na escola as pessoas riam, diziam que eu não podia lutar porque eu era magra demais, fraca demais. “Olha a finura do seu braço”.