Vale jogar: Missing Translation

Acho que a melhor palavra que eu tenho para descrever Missing Translation é “agradável”.

Ãhan. Esse deve ser o game mais agradável que eu jogo em semanas.

Gratuito, simples e tão gracinha, Missing Translation é um jogo redondinho, daqueles que estimulam a exploração e o ato de se perder num mundo curto, mas surpreendentemente carismático. Peguei para jogar numa manhã de sábado antes de colocar as mãos nos freelas-nossos-de-cada-dia, e, duas horas depois, já me sentia mais leve e disposta para começar o dia. Esse jogo me lembrou da experiência de ler um livro de aventuras deitada numa rede: descomprometida, calma e feliz.

Agradável.

A premissa? Você é uma pessoinha comum de saco cheio da velha rotina do acorda-trabalha-vai-dormir até que certo dia é puxada – claro que é – para um mundo paralelo bucólico com trilha sonora de RPG dos anos 1990 (que é linda por sinal). Você se vê em uma pacífica vila com moinhos de vento, nuvens preguiçosas, gatos everywhere e alguns moradores locais para conversar. Mas aí é que está a pegadinha: o idioma pelo qual eles se comunicam é completamente incompreensível! Você pode até ensaiar algumas palavras com o estranho sistema de símbolos que o game te dá, mas é certo que será apenas com muito esforço, observação e tentativa e erro que você será capaz de estabelecer uma conexão com aqueles habitantes. O mundo deles é completamente alienígena para você. E isso é de certa forma um alívio.

Para voltar para casa, será necessário coletar quatro pedras mágicas – claro que são – que se espalharam pelo mundo – claro que sim – depois que você atravessou o portal misterioso. Em termos mecânicos, isso significa completar quatro séries de quebra-cabeças progressivamente mais complicados. Embora os quebra-cabeças em si não representem nada de mais em termos de inovação ou dificuldade, é interessante como eles te colocam em um estado de concentração quase meditativo de encontrar um diálogo entre um processo comunicativo que nunca se completa plenamente com os habitantes e a tarefa semiconsciente de resolver uma charada com respostas possíveis.

(Ou pelo menos foi assim que li.)

O jogo é radical em te lançar em um universo novo retirando de você a capacidade entender e se fazer entender. A sensação de novidade e descoberta é quase infantil. Toda a palavrinha nova é um mistério solucionado e ainda existem “espaços escuros” suficientes neste universo para te causar admiração. O nosso mundo também possui milhares de lugares ocultos, mas as rotinas quase sempre nos fazem esquecer de que existem espaços além dos pavimentados e gastos que percorremos todo santo dia. De tempos em tempos, precisamos lembrar que ainda existe frescor se mudarmos nossas trilhas de vez em quando.

Missing Translation é uma pausa gostosa nessa marcha. Ele acaba na hora certa e não tem a pretensão de mudar a sua vida – mas isso está longe de ser uma coisa ruim. Jogos como ele são os que me lembram por que eu gosto tanto de videogames. São um lembrete de que nem todo jogo precisa ser sobre explosões espaciais e sobreviventes num mundo morto. Ou sobre grandes decisões morais e descobertas que podem mudar toda uma vida. Alguns games podem ser apenas isto: agradáveis.

Desenvolvedor: Alpixel

Lançamento original: 2014

Jogue: GameJolt, Steam, itchio, Google Play (pago)

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Escrito por
Mais de Vanessa Raposo

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  • Julia Mello

    mano! <3 que bacaninha! Me lembra muito um jogo que eu não lembro o nome, pra playstation, em que os personagens se falavam em outra língua também….

  • Eliander Gomes da Silveira

    sinceramente, achei o jogo muito bom, sensacional mesmo, só que achei que ele foi um pouco desperdiçado, porque ele tem uma ideia muito boa, eu acho que ele poderia ter se estendido mais, acho que a galera que fez ele poderia ter feito um jogo imenso, é bacana vc ficar tentando aprender as palavrinhas do jogo, mas não tem um objetivo isso tudo, vc só aprende… e só. Acho que faltou alguma coisa nele, mas não sei dizer bem o que é :v
    em um todo o jogo é muito divertido, dá pra perder varias horas andando pela minuscula cidade dele ^,^