Uma mulher encara um ponto ligeiramente à esquerda da câmera. Nunca a olha diretamente. Sua postura é um pouco tensa, cabisbaixa, e traz um sorriso melancólico – mas caloroso – no rosto. A gravação engasga em alguns momentos enquanto capta o pequeno retângulo luminoso que é a sala da delegacia: apenas um painel de madeira clara ao fundo, uma mesa de mesmo material, e a mulher em foco. Em fragmentos de tons saturados, a presenciamos conversando com um interlocutor que não vemos ou ouvimos – nesta fita usando uma blusa azul, naquela outra um blazer vermelho –, mas o motivo de suas múltiplas visitas à sala de entrevistas vai ficando mais claro a cada clipe de poucos segundos. Seu marido desapareceu em circunstâncias misteriosas e a polícia busca por respostas; quer Hannah Smith as tenha ou não. Essa é a história dela.
O Jogo – Com quantos fragmentos se faz uma verdade?
Em junho de 1994, Simon Smith, um humilde vidraceiro britânico, some bruscamente, alarmando familiares e amigos de uma cidadezinha interiorana no Reino Unido. No dia seguinte, sua esposa, Hannah, vai à delegacia de polícia dar queixa do incidente. Suas palavras soam sinceras quando diz que o marido não possuía inimigos e que certamente não é do tipo que “some” quando dá na telha. Ela parece preocupada com o destino de Simon e implora para que a polícia o encontre logo. Sua comoção não impede, no entanto, que o delegado local a chame para questionário inúmeras vezes – sete no total –, todas registradas pela lente atenta de uma câmera; graças a qual agora, num presumido 2015, podemos presenciar o seu relato.
Her Story é um jogo detetivesco que, de fato, exige investigação, interpretação e sagacidade para responder às perguntas que pairam no ar: O que houve com Simon? O que Hannah tem ou não tem a ver com isso? Aqui você não vai clicar em pontos aleatórios do cenário esperando vagamente que seu personagem descubra pistas por você, nem vai tentar combinar itens estapafúrdios para solucionar quebra-cabeças ainda mais absurdos. Não. Toda a dinâmica de Her Story envolve sentar-se confortavelmente em frente ao computador e… assistir a uma série de vídeos antigos. Mas não se engane por essa aparente falta de interatividade; pois para avançar pelos mistérios que envolvem o suposto desaparecimento de Simon Smith, você precisará compreender primeiro a vida de Hannah e os caminhos que a levaram até a cadeira do outro lado da lente. Quão confiável pode ser a voz de uma narradora acusada de homicídio? Bem, isso também caberá a você decidir…
Criado por Sam Barlow (que também trabalhou nos igualmente aclamados Aisle e Silent Hill: Shattered Memories), Her Story é um daqueles games que não podem ser jogados com o cérebro no modo automático. Todo o mistério revelado será porque você, e apenas você, juntou as peças. O jogo é a investigação em si, e é nela em que reside sua interatividade.
Em termos meramente mecânicos, toda a história se passa em frente a um computador meio capenga da polícia. Não sabemos quem é você ali – tudo o que podemos inferir é que é uma pessoa interessada em saber mais sobre o relato de Hannah. Você está explorando um banco de dados antigo, e o sistema do computador, como é de se imaginar, é tão antiquado que estabelece um limite de vídeos a que você tem acesso. E, como o banco de dados é uma bagunça, para procurar os vídeos em questão você precisará digitar um termo supostamente dito por Hannah e torcer para que tenha sido pego na transcrição. Por exemplo, se você procurar pela palavra “murder” (assassinato) encontrará alguns vídeos nos quais ela estará dizendo coisas como “So do you think this is a murder case?” (Acha que este é um caso de assassinato, então?), o que não necessariamente acrescenta muita coisa para a sua compreensão de todo o cenário. Para avançar em Her Story, portanto, você precisará ouvir as palavras de Hannah e, camada por camada, estabelecer uma lógica entre os sete dias nos quais foi interrogada a respeito do sumiço (ou assassinato) de seu marido.
“E todas essas histórias que temos contado um para o outro…? Nada além disso, histórias…”
O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).
Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.
Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.
E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.
Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.
Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.
Uma mulher encara um ponto ligeiramente à esquerda da câmera. Nunca a olha diretamente. Sua postura é um pouco tensa, cabisbaixa, e traz um sorriso melancólico – mas caloroso – no rosto. A gravação engasga em alguns momentos enquanto capta o pequeno retângulo luminoso que é a sala da delegacia: apenas um painel de madeira clara ao fundo, uma mesa de mesmo material, e a mulher em foco. Em fragmentos de tons saturados, a presenciamos conversando com um interlocutor que não vemos ou ouvimos – nesta fita usando uma blusa azul, naquela outra um blazer vermelho –, mas o motivo de suas múltiplas visitas à sala de entrevistas vai ficando mais claro a cada clipe de poucos segundos. Seu marido desapareceu em circunstâncias misteriosas e a polícia busca por respostas; quer Hannah Smith as tenha ou não. Essa é a história dela.
O Jogo – Com quantos fragmentos se faz uma verdade?
Em junho de 1994, Simon Smith, um humilde vidraceiro britânico, some bruscamente, alarmando familiares e amigos de uma cidadezinha interiorana no Reino Unido. No dia seguinte, sua esposa, Hannah, vai à delegacia de polícia dar queixa do incidente. Suas palavras soam sinceras quando diz que o marido não possuía inimigos e que certamente não é do tipo que “some” quando dá na telha. Ela parece preocupada com o destino de Simon e implora para que a polícia o encontre logo. Sua comoção não impede, no entanto, que o delegado local a chame para questionário inúmeras vezes – sete no total –, todas registradas pela lente atenta de uma câmera; graças a qual agora, num presumido 2015, podemos presenciar o seu relato.
Her Story é um jogo detetivesco que, de fato, exige investigação, interpretação e sagacidade para responder às perguntas que pairam no ar: O que houve com Simon? O que Hannah tem ou não tem a ver com isso? Aqui você não vai clicar em pontos aleatórios do cenário esperando vagamente que seu personagem descubra pistas por você, nem vai tentar combinar itens estapafúrdios para solucionar quebra-cabeças ainda mais absurdos. Não. Toda a dinâmica de Her Story envolve sentar-se confortavelmente em frente ao computador e… assistir a uma série de vídeos antigos. Mas não se engane por essa aparente falta de interatividade; pois para avançar pelos mistérios que envolvem o suposto desaparecimento de Simon Smith, você precisará compreender primeiro a vida de Hannah e os caminhos que a levaram até a cadeira do outro lado da lente. Quão confiável pode ser a voz de uma narradora acusada de homicídio? Bem, isso também caberá a você decidir…
Criado por Sam Barlow (que também trabalhou nos igualmente aclamados Aisle e Silent Hill: Shattered Memories), Her Story é um daqueles games que não podem ser jogados com o cérebro no modo automático. Todo o mistério revelado será porque você, e apenas você, juntou as peças. O jogo é a investigação em si, e é nela em que reside sua interatividade.
Em termos meramente mecânicos, toda a história se passa em frente a um computador meio capenga da polícia. Não sabemos quem é você ali – tudo o que podemos inferir é que é uma pessoa interessada em saber mais sobre o relato de Hannah. Você está explorando um banco de dados antigo, e o sistema do computador, como é de se imaginar, é tão antiquado que estabelece um limite de vídeos a que você tem acesso. E, como o banco de dados é uma bagunça, para procurar os vídeos em questão você precisará digitar um termo supostamente dito por Hannah e torcer para que tenha sido pego na transcrição. Por exemplo, se você procurar pela palavra “murder” (assassinato) encontrará alguns vídeos nos quais ela estará dizendo coisas como “So do you think this is a murder case?” (Acha que este é um caso de assassinato, então?), o que não necessariamente acrescenta muita coisa para a sua compreensão de todo o cenário. Para avançar em Her Story, portanto, você precisará ouvir as palavras de Hannah e, camada por camada, estabelecer uma lógica entre os sete dias nos quais foi interrogada a respeito do sumiço (ou assassinato) de seu marido.
“E todas essas histórias que temos contado um para o outro…? Nada além disso, histórias…”
O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).
Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.
Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.
E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.
Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.
Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.
Uma mulher encara um ponto ligeiramente à esquerda da câmera. Nunca a olha diretamente. Sua postura é um pouco tensa, cabisbaixa, e traz um sorriso melancólico – mas caloroso – no rosto. A gravação engasga em alguns momentos enquanto capta o pequeno retângulo luminoso que é a sala da delegacia: apenas um painel de madeira clara ao fundo, uma mesa de mesmo material, e a mulher em foco. Em fragmentos de tons saturados, a presenciamos conversando com um interlocutor que não vemos ou ouvimos – nesta fita usando uma blusa azul, naquela outra um blazer vermelho –, mas o motivo de suas múltiplas visitas à sala de entrevistas vai ficando mais claro a cada clipe de poucos segundos. Seu marido desapareceu em circunstâncias misteriosas e a polícia busca por respostas; quer Hannah Smith as tenha ou não. Essa é a história dela.
O Jogo – Com quantos fragmentos se faz uma verdade?
Em junho de 1994, Simon Smith, um humilde vidraceiro britânico, some bruscamente, alarmando familiares e amigos de uma cidadezinha interiorana no Reino Unido. No dia seguinte, sua esposa, Hannah, vai à delegacia de polícia dar queixa do incidente. Suas palavras soam sinceras quando diz que o marido não possuía inimigos e que certamente não é do tipo que “some” quando dá na telha. Ela parece preocupada com o destino de Simon e implora para que a polícia o encontre logo. Sua comoção não impede, no entanto, que o delegado local a chame para questionário inúmeras vezes – sete no total –, todas registradas pela lente atenta de uma câmera; graças a qual agora, num presumido 2015, podemos presenciar o seu relato.
Her Story é um jogo detetivesco que, de fato, exige investigação, interpretação e sagacidade para responder às perguntas que pairam no ar: O que houve com Simon? O que Hannah tem ou não tem a ver com isso? Aqui você não vai clicar em pontos aleatórios do cenário esperando vagamente que seu personagem descubra pistas por você, nem vai tentar combinar itens estapafúrdios para solucionar quebra-cabeças ainda mais absurdos. Não. Toda a dinâmica de Her Story envolve sentar-se confortavelmente em frente ao computador e… assistir a uma série de vídeos antigos. Mas não se engane por essa aparente falta de interatividade; pois para avançar pelos mistérios que envolvem o suposto desaparecimento de Simon Smith, você precisará compreender primeiro a vida de Hannah e os caminhos que a levaram até a cadeira do outro lado da lente. Quão confiável pode ser a voz de uma narradora acusada de homicídio? Bem, isso também caberá a você decidir…
Criado por Sam Barlow (que também trabalhou nos igualmente aclamados Aisle e Silent Hill: Shattered Memories), Her Story é um daqueles games que não podem ser jogados com o cérebro no modo automático. Todo o mistério revelado será porque você, e apenas você, juntou as peças. O jogo é a investigação em si, e é nela em que reside sua interatividade.
Em termos meramente mecânicos, toda a história se passa em frente a um computador meio capenga da polícia. Não sabemos quem é você ali – tudo o que podemos inferir é que é uma pessoa interessada em saber mais sobre o relato de Hannah. Você está explorando um banco de dados antigo, e o sistema do computador, como é de se imaginar, é tão antiquado que estabelece um limite de vídeos a que você tem acesso. E, como o banco de dados é uma bagunça, para procurar os vídeos em questão você precisará digitar um termo supostamente dito por Hannah e torcer para que tenha sido pego na transcrição. Por exemplo, se você procurar pela palavra “murder” (assassinato) encontrará alguns vídeos nos quais ela estará dizendo coisas como “So do you think this is a murder case?” (Acha que este é um caso de assassinato, então?), o que não necessariamente acrescenta muita coisa para a sua compreensão de todo o cenário. Para avançar em Her Story, portanto, você precisará ouvir as palavras de Hannah e, camada por camada, estabelecer uma lógica entre os sete dias nos quais foi interrogada a respeito do sumiço (ou assassinato) de seu marido.
“E todas essas histórias que temos contado um para o outro…? Nada além disso, histórias…”
O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).
Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.
Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.
E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.
Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.
Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.
Tá achando que games são brincadeira? Pois pense bem!
[volte à programação normal como se nada tivesse acontecido]
Dados do começo deste ano mostram que jogos não apenas são responsáveis pela criação de mais de 4 mil empregos pelo país, como pela movimentação de centenas de milhões de reais por ano. Além disso, temos um dos maiores mercados de games do mundo: ou seja, o que não falta é gente para comprar. Embora ainda sofra com pesados impostos e, em termos de produção, o Brasil esteja apenas engatinhando em relação a países como Estados Unidos, Japão e até mesmo Canadá, é inegável o aumento do prestígio dessa mídia por aqui, tanto em termos econômicos como culturais.
Produzir games no Brasil ainda é um empreendimento complicado, porém, e vale a pena prestigiar aqueles que se arriscam pelos mares pouco dantes navegados da produção independente nacional – e descobrir as histórias de aprendizado de quem tem experiência para contar.
Na semana passada, a Ovelhita recomendou o emocionante game nacional Toren, lançado para Playstation 4 e PC. Hoje decidimos trazer uma entrevista com Vitor Leães, produtor do game. Aos 31 anos, Vitor é um dos sócios da Swordtales – o estúdio por trás de Toren –, e conta para a gente em primeira mão um pouco do processo de criação: das dificuldades de se ser um produtor independente às principais inspirações do jogo.
Chega mais!
Ovelha: É de conhecimento público que Toren foi um dos primeiros jogos a serem contemplados pela lei Rouanet, o que inclusive aumentou a visibilidade da Swordtales na época da produção. Vocês sentem ou sentiram algum tipo de responsabilidade neste sentido?
Vitor: Com certeza, antes da Lei Rouanet tínhamos um compromisso apenas com nós mesmos. Após esta conquista, nosso compromisso passou a ser público, pois tínhamos que concluir o projeto dentro das regras da Lei Rouanet, cumprir os prazos, usar a verba de forma responsável, gerar os empregos e contratar os serviços previstos no projeto proposto.
O: Quais foram as maiores dificuldades durante o período de produção, se é que houve alguma coisa mais óbvia?
V: Tudo foi difícil, enfrentamos desafios diários ao longo desses anos em todas as frentes: problemas técnicos, de arte, de roteiro, de produção e marketing.
Tivemos que tomar várias decisões difíceis, a mais importante delas foi a escolha de refazer o jogo praticamente do zero quando conseguimos mais recursos com a Lei Rouanet. Após quase dois anos de desenvolvimento, nós não estávamos contentes com o jogo e vimos uma oportunidade de recomeçar.
O: Há algo de Team Ico nas inspirações mais óbvias para Toren, né? Além delas, quais foram as outras inspirações para a produção do jogo?
V: Toren tem um clima um pouco nostálgico porque nós queríamos fazer uma homenagem aos jogos que jogávamos na nossa adolescência na era do PS1 e PS2, por isso a relação com o ICO. Muitas pessoas veem muito de Zelda também, depende muito do passado de cada jogador, mas a verdade é que os jogadores mais velhos sentem falta daquele estilo de Adventure japonês que esteve tão presente no início dos anos 2000. Fora do universo dos games, os quadrinhos do Allan Moore, as animações do Studio Ghibli e filmes com temática “dark fantasy” como O Labirinto do Fauno, do Del Toro.
O: Há alguma “marca nacional” implícita ali?
V: Nunca tivemos a intenção de referenciar o folclore brasileiro. Os gringos adoram o visual do Toren, acham incomum e pensam que é um “Brazilian art style”, mas a verdade é que é apenas o estilo do nosso diretor de arte, o Alessandro. O jeito que ele trabalha com os efeitos de câmera, com a paleta de cores, tornam o seu estilo único.
Na minha opinião, a maior “marca nacional” do Toren é o sincretismo presente na história do jogo. Toda essa mistureba de religiões e mitologias que fizemos é uma característica brasileira muito forte, com mistura de culturas, religiões e crenças que temos em nosso país. Isso não foi feito de forma intencional para fazer uma referência à cultura brasileira, é apenas algo que faz parte da nossa bagagem cultural.
O: Toren entrou para o hall dos games com protagonistas mulheres fortes. A decisão do protagonismo da MoonChild esteve lá desde o início?
V: Sim. A protagonista ser uma mulher foi uma decisão muito consciente por duas razões. A primeira é que queríamos fazer um protagonista diferente do que os jogadores estavam (e ainda estão) acostumados. Queríamos furgir do guerreiro fortão, sem medo e cheio de armas. O feminismo nos games não era uma pauta tão discutida quando começamos a fazer o jogo como é hoje em dia, mas nós queríamos propor algo que o jogador não estivesse acostumado. A segunda razão é que ter uma protagonista mulher faz todo sentido dentro da história do jogo. A maneira mais óbvia de perceber isso é a inversão do conto tradicional da donzela em perigo. Mas o mais importante para a mitologia de Toren é que Moonchild representa a Lua (“deusa mãe”), que era um astro adorado por muitas culturas matriarcais antigas, como a celta. Enquanto o Cavaleiro Solidor representa o Sol, astro idolatrado normalmente em culturas patriarcais como a romana e a egípcia.
O: Uma das coisas que sempre pega a gente numa história é usar a questão da passagem do tempo e a experiência do crescimento. De O Rei Leão a Boyhood, a gente sabe como a temática é cara ao cinema, por exemplo. Pode contar para a gente um pouco como foi trabalhar essa ideia em um game?
V: A passagem do tempo é um elemento muito importante no mundo de Toren. Enquanto dentro da torre ele passa muito mais rápido do que o normal, fora da torre ele está parado. É um conceito difícil de assimilar, mas nós queríamos trabalhar mais com a temática dos ciclos do que com a passagem do tempo em si. O personagem nasce, cresce, enfrenta desafios, morre e seu sucessor precisa usar o legado deixado para trás e superar os desafios que seu antecessor não conseguiu ultrapassar. Apesar de confuso, esse é um conceito comum na cabeça do gamer, algo como “tenho três vidas para completar o jogo”.
Nós queríamos que isso fizesse sentido também na história do jogo e não apenas na mecânica. Logo no início do projeto notamos que isso seria bem difícil de fazer e custaria caro demais em termos de produção. Então optamos por uma abordagem mais linear para esse tema de passagem do tempo e destacar alguns momentos impactantes em que o jogador pudesse sentir isto.
O: E os projetos para o futuro? Já há alguma coisa no forno da Swordtales?
V: Sim, estamos amadurecendo novas ideias. Queremos usar toda a experiência que ganhamos com o Toren para desenvolver projetos de forma mais rápida. Mas, ao mesmo tempo, vamos experimentar novas abordagens, temáticas e mecânicas. Nós queremos fazer alguns jogos mais leves e recarregar as energias antes de mergulhar em algo tão denso como foi o Toren.
O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).
Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.
Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.
E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.
Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.
Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.