Jogue: Her Story

Uma mulher encara um ponto ligeiramente à esquerda da câmera. Nunca a olha diretamente. Sua postura é um pouco tensa, cabisbaixa, e traz um sorriso melancólico – mas caloroso – no rosto. A gravação engasga em alguns momentos enquanto capta o pequeno retângulo luminoso que é a sala da delegacia: apenas um painel de madeira clara ao fundo, uma mesa de mesmo material, e a mulher em foco. Em fragmentos de tons saturados, a presenciamos conversando com um interlocutor que não vemos ou ouvimos – nesta fita usando uma blusa azul, naquela outra um blazer vermelho –, mas o motivo de suas múltiplas visitas à sala de entrevistas vai ficando mais claro a cada clipe de poucos segundos. Seu marido desapareceu em circunstâncias misteriosas e a polícia busca por respostas; quer Hannah Smith as tenha ou não. Essa é a história dela.

 

O Jogo  Com quantos fragmentos se faz uma verdade?

Em junho de 1994, Simon Smith, um humilde vidraceiro britânico, some bruscamente, alarmando familiares e amigos de uma cidadezinha interiorana no Reino Unido.  No dia seguinte, sua esposa, Hannah, vai à delegacia de polícia dar queixa do incidente. Suas palavras soam sinceras quando diz que o marido não possuía inimigos e que certamente não é do tipo que “some” quando dá na telha. Ela parece preocupada com o destino de Simon e implora para que a polícia o encontre logo. Sua comoção não impede, no entanto, que o delegado local a chame para questionário inúmeras vezes – sete no total –, todas registradas pela lente atenta de uma câmera; graças a qual agora, num presumido 2015, podemos presenciar o seu relato.

Her Story é um jogo detetivesco que, de fato, exige investigação, interpretação e sagacidade para responder às perguntas que pairam no ar: O que houve com Simon? O que Hannah tem ou não tem a ver com isso? Aqui você não vai clicar em pontos aleatórios do cenário esperando vagamente que seu personagem descubra pistas por você, nem vai tentar combinar itens estapafúrdios para solucionar quebra-cabeças ainda mais absurdos. Não. Toda a dinâmica de Her Story envolve sentar-se confortavelmente em frente ao computador e… assistir a uma série de vídeos antigos. Mas não se engane por essa aparente falta de interatividade; pois para avançar pelos mistérios que envolvem o suposto desaparecimento de Simon Smith, você precisará compreender primeiro a vida de Hannah e os caminhos que a levaram até a cadeira do outro lado da lente. Quão confiável pode ser a voz de uma narradora acusada de homicídio? Bem, isso também caberá a você decidir…

Criado por Sam Barlow (que também trabalhou nos igualmente aclamados Aisle e Silent Hill: Shattered Memories), Her Story é um daqueles games que não podem ser jogados com o cérebro no modo automático. Todo o mistério revelado será porque você, e apenas você, juntou as peças. O jogo é a investigação em si, e é nela em que reside sua interatividade.

Em termos meramente mecânicos, toda a história se passa em frente a um computador meio capenga da polícia. Não sabemos quem é você ali – tudo o que podemos inferir é que é uma pessoa interessada em saber mais sobre o relato de Hannah. Você está explorando um banco de dados antigo, e o sistema do computador, como é de se imaginar, é tão antiquado que estabelece um limite de vídeos a que você tem acesso. E, como o banco de dados é uma bagunça, para procurar os vídeos em questão você precisará digitar um termo supostamente dito por Hannah e torcer para que tenha sido pego na transcrição. Por exemplo, se você procurar pela palavra “murder” (assassinato) encontrará alguns vídeos nos quais ela estará dizendo coisas como “So do you think this is a murder case?” (Acha que este é um caso de assassinato, então?), o que não necessariamente acrescenta muita coisa para a sua compreensão de todo o cenário. Para avançar em Her Story, portanto, você precisará ouvir as palavras de Hannah e, camada por camada, estabelecer uma lógica entre os sete dias nos quais foi interrogada a respeito do sumiço (ou assassinato) de seu marido. 

 

“E todas essas histórias que temos contado um para o outro…?  Nada além disso, histórias…”

 

 
O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).

Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.

Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.

E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.

Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.

Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.
 

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Escrito por
Mais de Vanessa Raposo

Jogue: Odallus – The Dark Call

Em condições normais de temperatura e pressão, eu sou a primeira pessoa na sala a entrar no Team Hoje na cansativa briguinha de “Jogos Antigos versus Jogos Atuais”. Não é que eu não tenha os meus quadradões favoritos, mas só porque eu fico nostálgica ao som de chiptune isso não significa que aquele jogo-quase-humanamente-impossível-de-mil-novecentos-e-oitenta-e-bananas seja a melhor coisa já criada pela raça humana. Quero acreditar que estamos avançando no entendimento de como games funcionam, tornando suas narrativas mais orgânicas, seu design mais certeiro. O passar dos anos é bom. No entanto, de vez em quando descubro um game que capta bem o espírito retrô de algum gênero em falta – e aí me lembro de como aquelas experiências eram ótimas também; e de como é perfeitamente possível misturar as duas coisas.

Pela segunda vez a brasileira JoyMasher me deixa nesse humor. A primeira foi pouco há mais de um ano atrás, quando joguei Oniken, um side-scroller a la Ninja Gaiden, mas com algumas soluções de game design particularmente modernas e originais. Odallus: The Dark Call, nosso jogo da vez, também tem um feeling oitentista, mas abusa de um estilo exploratório mais próximo de um Castlevania, e mostra que estúdio continuou amadurecendo no meio tempo entre um jogo e outro.

Financiado pelo site de crowdfunding IndieGogo, ele é tudo o que você poderia esperar de um jogo de NES e um pouquinho mais. A trama é propositalmente simples e escala da típica maneira épica dos classicões: o protagonista é Haggis, um caçador que, certo dia, presencia sua vila ser atacada por monstros. Seu filho é sequestrado na confusão e, implacável, Haggis parte numa jornada para recuperá-lo, mesmo que tenha que passar por cima do universo inteiro e enfrentar semidivindades. No percurso, descobre mais sobre o tal Odallus do título, sobre a escuridão que tomou o mundo após o desaparecimento dos deuses e sobre o perigoso vácuo deixado por eles.

 

Welcome, stranger: O lado bom

Odallus é um jogo para quem sentia saudades daquela experiência de ação em duas dimensões. Se você já teve algum videogame pré-gráficos 3D sabe do que estou falando: ataque inimigos e descubra seus padrões de movimento para derrotá-los, salte por plataformas com precisão, encontre passagens secretas e colete itens para ficar mais forte. Tudo em um caprichado visual pixelado e com uma soundtrack carismática que talvez te lembre de tardes mais simples com os amigos depois da escola, tentando derrotar aquele chefão escrotíssimo.

E apesar de eu estar batendo na tecla de que este é um jogo com uma “cara antiga”, isso não significa que ele seja uma mera cópia de games já existentes. Na verdade, o que Odallus faz muito bem é pegar um estilo em desuso e dar a ele uma cara própria e moderna. Ninguém nega que o jogo se senta sobre o proverbial “ombro de gigantes”, mas seria injusto resumi-lo a isso. Muitos games tentam reproduzir o estilo de outros já aclamados sem compreender o porquê de certas características funcionarem, o que acaba fazendo com que falhem em acertar na mão. Não é o caso de Odallus. Aqui, a história acontece durante o gameplay e não apesar dele – um acréscimo importante se formos considerar a maior parte dos jogos que de fato saíram vinte ou trinta anos atrás. O bom game design garante que o jogo não seja só mais um “derivado” de um Ghosts n’ Goblins da vida, mas um game que caminha com as próprias pernas.

De quebra, há ainda espaço para uma – enxuta em termos de cutscene, mas sempre presente durante a jogabilidade – narrativa um pouco mais alinhada com contexto de hoje. Ela é repleta de diálogos épicos entre guerreiros musculosos e monstros sanguinários, mas nada nessa meiuca anula a participação de uma vilã poderosa e não objetificada, por exemplo. Sem contar que a “donzela em perigo” a ser resgatada não é, afinal de contas, uma “donzela”, mas sim o filho de nosso protagonista. Pequenos detalhes intencionais que são importantes e que não “estragam a diversão” de ninguém, como se gosta de propagar por aí.

 

Darkness is calling: O outro lado

Não chega a ser um ponto necessariamente negativo, mas Odallus é um jogo mais difícil do que os que a gente está acostumada a ver no mercado hoje. Na real, para muita gente, essa é justamente a característica que mais atrai.

A questão da dificuldade acima da média também faz parte da aura retrô. Antigamente os games quase sempre eram difíceis: 1- como parte de uma estratégia para te obrigar a gastar mais fichas num fliperama; 2 – para fazê-los durar mais quando ainda eram relativamente curtos e não havia formas de salvar o seu progresso; 3 – por dificuldade de equilibrar desafio e recompensa.  Diferente do que diz a opinião popular, portanto, dificuldade alta não torna magicamente um jogo ruim em uma obra-prima. Pelo contrário: muitas vezes ela é resultado de um design falho.

Jogos devem ser propositalmente complicados por uma questão de estilo e unidade, e Odallus na maior parte do tempo oferece uma experiência muito satisfatória neste sentido. Ele é bem menos punitivo que seu antecessor Oniken e a tendência é ir ficando mais fácil conforme você coleta novos itens, pega as manhas nos combates e vai conhecendo os inimigos. No entanto, pode sim ser frustrante se você não está acostumada com o estilo. Vale também dizer que é possível se ter uma boa experiência jogando direto no teclado, mas ele é um game mais agradável quando se tem um controle na mão.

Não é um sentimento universal mas, pessoalmente, acredito que há mérito na sensação de ir gradualmente se sentindo mais forte e cascuda conforme avançamos pelas fases – aquele feeling de lutar de olhos fechados com um inimigo que dava trabalho uma hora atrás, e não apenas porque seu personagem consegue dar pulos mais altos agora, mas porque você entende melhor como os adversários funcionam. É nessa hora que você percebe como é merecido que seu Caçador Bombado seja visto pelo mundo inteiro como “o fodão”, porque você de fato é (e seus dedos calejados provam isso). É o payoff mais satisfatório justamente por causa do esforço para se chegar lá.

 

Is dangerous to go alone: Em resumo

Odallus: The Dark Call é um jogo de ação que testa de verdade as suas habilidades. Ele recompensa a exploração, possui uma quantidade razoável de cenários e inimigos diferentes, e promete umas boas horas de diversão – provavelmente algo entre 6 e 12 horas.

Se você sentia saudades deste tipo de jogo e quer dar uma força para um estúdio brasileiro, pode obtê-lo na Steam, na página do desenvolvedor e no GOG.com.
 

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O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).

Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.

Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.

E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.

Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.

Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.
 

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