Misandria Robótica: Ex Machina

Ai, amo essas caras afetadas de cartaz de filme, hahaha!

Pelo menos um 8,5

8 Sci-fi verossímil
8 Roteiro inteligente
8 Atuações foderosas
9 Produção xóia
10 Direção de arte impecável
9 Trilha sonora incrível
10 Crítica à misoginia
8.9

 
[infobox maintitle="AVISO DE GATILHO + SPOILERS" subtitle="O post fala sobre relacionamento abusivo, misoginia e encarceramento. Além de spoilers! Teje avisada!" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]  
Posso começar pela nota? Porque esse filme é excelente. Posso dizer que é pelo menos 8,5. Tenho certeza de que muitas pessoas que escreveram uma resenha sobre o Ex Machina focaram na produção impecável e cenário completamente possível. Mas, muito provavelmente, tenha faltado um ponto de vista sobre violência contra mulher. Uma vez feminista, não tive como não imprimir uma crítica à misoginia que existe no cenário atual e no filme. Seguida de uma bela duma misandria muito bem aplicada.

O filme é incrível por diversos pontos, vou por partes. Vou contar o mote entre um tópico e outro e já deixo avisado, pode conter spoilers, especialmente a partir do tópico ~ Google, Facebook, Dados.

 
[caption id="attachment_6435" align="aligncenter" width="536"]Ava e Caleb, se curtindo Ava e Caleb, se curtindo[/caption]

 

Robôs e Teste de Turing

Tudo começa quando Caleb, um programador duma grande empresa de ferramenta de buscas, é sorteado para passar um curto período de tempo na casa do criador da tal empresa. O cara, enaltecido tanto pelos empregados quanto pela sociedade, vive completamente isolado e é tido como um gênio desde criança.

Ao chegar (deboas de helicóptero, diga-se de passagem) na casa do empresário, Caleb se depara com um personagem fora do que ele havia imaginado. Apesar de brilhante, o inventor, Nathan, é extremamente arrogante e visivelmente alcoólatra.

Por saber que vai ter que aturá-lo por pouco tempo, Caleb se esforça para aproveitar a genialidade de Nathan ao máximo: sua última invenção foi um tipo de inteligência artificial tão incrível que ele precisava fazer um Teste de Turing. E foi pra isso que Caleb foi recrutado.

 
[caption id="attachment_6441" align="aligncenter" width="612"]Ava, sexy sem ser vulgar Ava, sexy sem ser vulgar[/caption]

 

Filosofia

Caleb então conhece Ava, a robô. Por causa do teste, eles ficam juntos durante horas e o programador acaba se envolvendo. Há bastante filosofia sobre as sinapses de pensamento e o que torna humano o ser humano. As dicusssões do filme perpassam também por signos linguísticos, semiótica. O roteiro e os diálogos são extremamente bem escritos e realmente interessantes. Ava consegue fazer piadas com pequenas informações que Caleb transmite a ela e Caleb e Nathan têm uma conversa muito interessante sobre as relações humanas e como elas se dão.

Creio que a própria personalidade dúbia do Nathan seja interessante porque estamos acostumados a maniqueísmos – principalmente no mundo do faz-de-contas. Já o Nathan tem essa aura do gênio-escroto com a qual a gente não sabe lidar direito, mesmo no mundo real. Acredito que esse tipo de personalidade seja identificada por pessoas que tiveram relacionamentos abusivos com ~ pessoas incríveis ~ mas que no círculo menor sejam irreconhecíveis e opressoras.

 
[caption id="attachment_6438" align="aligncenter" width="735"]Kyoko e Nathan curtindo a vida adoidados Kyoko e Nathan curtindo a vida adoidados[/caption]

 

Google, Facebook e Dados

Bom, estamos falando sobre definições de consciência e, em certo momento, Nathan revela a Caleb que coleta e armazena em padrões os dados de sua empresa de ferramenta de buscas. E mais, que o governo o autoriza a utilizar não apenas esses dados, como também a ter acesso a TODAS as câmeras e microfones de smartphones e computadores para coletar expressões faciais correspondentes às conversas, as reações.

Sim, há uma crítica enorme sobre os algoritmos de busca do Google, sobre a coleta de dados do Facebook e, graças ao querido (e exilado) Snowden, sabemos que tudo isso é realmente possível e que está realmente sendo feito. A diferença é que isso ainda não está sendo aplicado em robôs… ou já está???? (m-e-d-o)

 
[caption id="attachment_6442" align="aligncenter" width="600"]AI MEU ZEUS SERÁ QUE SÔ ROBÔ? AI MEU ZEUS SERÁ QUE SÔ ROBÔ?[/caption]

 

Misoginia / Empatia

O que acontece é que o Nathan monta (e desmonta) robôs-mulheres para seu bel prazer, seja para satisfazê-lo sexualmente ou para serví-lo. Elas são meros brinquedos, trancafiadas, que ele ativa ou desativa de acordo com a evolução das escolhas de personalidade aplicadas. As que não se comportam da maneira que ele quer, acabam sendo desativadas. E isso é misógino pra caralho. (Soa familiar? Se a resposta for sim, leia este texto) Não vou evoluir para esse lado, mas pessoalmente me pareceu uma crítica muito clara a esse tipo de relacionamento abusivo.

 
giphy-4
 
Quando Ava descobre que outras mulheres robôs estavam encarceradas, decide então usar toda sua capacidade e armazenamento de dados para se ver livre dessa situação, com ajuda de uma amigue. <3

 
Ex-Machina-1
 
[caption id="attachment_6436" align="aligncenter" width="735"]Miga, vem cá, vamo bolar um plano (depois um beck, se der certo). Miga, vem cá, vamo bolar um plano (depois um beck, se der certo).[/caption]

 

Misandria (aqui tem bastante spoiler, do final inclusive)

O que achei lindo nesse momento foi que o filme consegue quebrar a ideia do amor romântico e do homem que acha que deve chegar num cavalo branco para salvar uma mulher de um relacionamento abusivo. A ideia de que toda história precisa de uma história de amor, na minha opinião, é completamente equivocada.

Spoiler:

Depois de mil reviravoltas e conflitos, Ava foge e simplesmente deixa Caleb – seu suposto herói – preso dentro da casa. Por que ela faz isso? Por achar que ele seria mais um homem a tentar subjulgá-la? Talvez por achar que ele não acredita que eles sejam equiparáveis – nem intelectualmente, nem biologicamente? Não importa. Esse não é o ponto. É a vontade dela. E isso, caras amigas, é extremamente atual e real. Nada de ficção nessa moral da história.

O que chamei de misandria, nada mais é do que a vontade e ação de uma mulher que vai contra as de um homem. Acredito que isso deveria se chamar ~ escolha ~ ou ~ reação ~ apenas. Mas não, sempre que tem uma mulher no meio, acabamos sendo enquadradas em alguma categoria específica. Por que diabos chamar de “literatura feminina”, o que deveria ser apenas “literatura”, por exemplo? ENFIM, DESABAFO ~

 
1
 
Analogias à parte, o filme é extremamente bem feito, trilha sonora incrível, direção de arte impecável, roteiro inteligente e atuações foderosas. Nota 8,5, já falei.

Coincidência ou não, acredito em internalização muito mais do que eu gostaria: deletei minha conta no Facebook esta semana, hahaha! Se tive qualquer comentário ou se você acha que eu viajei completamente na minha analogia a relacionamentos abusivos, me diga. Pode deixar aqui na página ou no Twitter, @crusihcredo! :)

Pra finalizar, uma propaganda gratuita:

Duck Duck Go – uma ferramenta de busca que não te rastreia. É uma ótima dica para quem, como eu, estiver convencida de que o lucro está acima de qualquer experiência antropológica e que as ferramentas de busca aliadas a propaganda interferem sim na condução de pensamento e consumo.

 
[caption id="attachment_6434" align="aligncenter" width="690"]Tchüss! Tchüss![/caption]

Mais de Bárbara Gondar

Eleições 2016 – Representatividade Importa

Chegou o dia, domingo, 02 de outubro! O dia em que, mesmo com muita descrença no sistema eleitoral brasileiro e, independente de sua visão política, é hora de fazer um voto pragmático (mais uma vez). Lembrando que, anular seu voto também pode ser considerado um voto pragmático, é seu direito.

Mesmo muito desacreditada do nosso sistema político, escolho votar por muitas questões, mas a principal ainda é a falta de representatividade. Particularmente depois do golpe (é golpe sim), várias cadeiras representativas caíram no novo governo federal. Para entender um pouco sobre representatividade, preciso falar sobre o termo minorias que usamos tanto nos movimentos sociais e em diferentes correntes feministas.

 
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Minoria é um grupo na sociedade que é subordinado sócio e economicamente. Um grupo excluído e que apesar do termo ser confundido com sinônimos diretos do termo que significam ‘menor’ e/ou ‘pequeno’, as minorias no Brasil são maioria em número de pessoas, porém não em representatividade política. Não sei se você sabe, mas, no Brasil, temos menos mulheres no Legislativo do que no Oriente Médio, aquele território que conhecemos pouco mas que julgamos muito.

 

 
Mas Bárbara, então eu devo votar em mulheres, não importando as propostas? Não. Não devemos votar em quem não conhecemos propostas, planos de governo, as pautas e alianças e não, não devemos votar em mulheres apenas por serem mulheres, isso não significa que ela vá fazer um governo representativo. Vejamos o caso da Hillary Clinton, por exemplo, hoje, caso eu fosse estadunidense, eu votaria pragmaticamente nela por questões de Donald Trump (me perdoem porquinhos). Porém, ela não seria a minha primeira escolha quando começou a corrida eleitoral. Infelizmente, votar na Hillary, é dar continuidade em uma agenda bélica, de guerras e neo-liberalismos. ~ God bless ‘Merica (and nobody else)! ~

E apesar de tudo isso, ainda há uma enorme importância em votar em mulheres, fazer recorte de gênero na política é essencial para repararmos a nossa falta de contribuição histórica, ou melhor dizendo, nosso silenciamento e exclusão, em qualquer âmbito, seja social e/ou político.

Mesmo que, com cotas para mulheres dentro da política, partidos preenchem as vagas mas não dão espaço ativo para elas, apenas cumpre-se uma tabela burocrática. E isso em qualquer partido, não puxando pano mais para um ou para outro porque muitos só usam mulheres e minorias no geral como token. Pessoalmente, já tive a experiência de ser diminuída em espaços ditos-democráticos, o que me fez pensar e questionar muito sobre espaços seguros e o quanto ainda precisamos nos unir se quisermos fazer alguma coisa, nos unir e ocupar esses espaços que são majoritariamente masculinos.

Dito isso, acho que é de primeira importância termos noção do que faz um prefeito e o que faz um vereador, cadeira das quais votaremos hoje. Chamei uma convidada muito especial (quem dera que eu tivesse essa intimidade, haha) para falar sobre esse assunto tão importante, a nossa queridinha JoutJout.

 

 
Pronto, já está craque? Já sabe que não poderemos votar na legenda para não cair na manobra política? Agora que tal entrar no site do merepresenta.org.br e tirar um tempinho (ainda há tempo) para pesquisar uma pessoa super maneira para representar quem precisa ser representado? Eu gosto muito desse nome, Me Representa, mas mais importante que nos representar, é fazer uma reflexão para saber quem ainda precisa ser mais representado do que nós mesmos, ou melhor, para além de nós mesmos. E assim, migues, exercemos nosso altruísmo e cidadania e claro, empatia.

Me Representa é o ‘tinder’ político com agenda para minorias, você clica nas pautas que não abre mão que sejam representadas pelo seu candidato e a plataforma ~ dá um match ~ com os vereadores que estão aptos a receber seu voto!

Além do site citado acima, também temos alguns links úteis caso você queira ganhar um tempinho antes de sair para fazer o seu voto. Temos o Guia de Justiça Alimentar e Cidadania, o site e twitter do Gênero Número que apresenta narrativas jornalísticas guiadas por dados sobre as assimetrias de gênero, o site de Mobilidade Ativa (somente SP) e o Truco, que checa fatos ditos por candidatos. Existem muitos outros e se quiserem compartilhar com a gente, deixe nos comentários!

 
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Bom domingo e boa votação!♡

 

Leia mais
Teste de Turing. E foi pra isso que Caleb foi recrutado.

 

 

Filosofia

Caleb então conhece Ava, a robô. Por causa do teste, eles ficam juntos durante horas e o programador acaba se envolvendo. Há bastante filosofia sobre as sinapses de pensamento e o que torna humano o ser humano. As dicusssões do filme perpassam também por signos linguísticos, semiótica. O roteiro e os diálogos são extremamente bem escritos e realmente interessantes. Ava consegue fazer piadas com pequenas informações que Caleb transmite a ela e Caleb e Nathan têm uma conversa muito interessante sobre as relações humanas e como elas se dão.

Creio que a própria personalidade dúbia do Nathan seja interessante porque estamos acostumados a maniqueísmos – principalmente no mundo do faz-de-contas. Já o Nathan tem essa aura do gênio-escroto com a qual a gente não sabe lidar direito, mesmo no mundo real. Acredito que esse tipo de personalidade seja identificada por pessoas que tiveram relacionamentos abusivos com ~ pessoas incríveis ~ mas que no círculo menor sejam irreconhecíveis e opressoras.

 

 

Google, Facebook e Dados

Bom, estamos falando sobre definições de consciência e, em certo momento, Nathan revela a Caleb que coleta e armazena em padrões os dados de sua empresa de ferramenta de buscas. E mais, que o governo o autoriza a utilizar não apenas esses dados, como também a ter acesso a TODAS as câmeras e microfones de smartphones e computadores para coletar expressões faciais correspondentes às conversas, as reações.

Sim, há uma crítica enorme sobre os algoritmos de busca do Google, sobre a coleta de dados do Facebook e, graças ao querido (e exilado) Snowden, sabemos que tudo isso é realmente possível e que está realmente sendo feito. A diferença é que isso ainda não está sendo aplicado em robôs… ou já está???? (m-e-d-o)

 

 

Misoginia / Empatia

O que acontece é que o Nathan monta (e desmonta) robôs-mulheres para seu bel prazer, seja para satisfazê-lo sexualmente ou para serví-lo. Elas são meros brinquedos, trancafiadas, que ele ativa ou desativa de acordo com a evolução das escolhas de personalidade aplicadas. As que não se comportam da maneira que ele quer, acabam sendo desativadas. E isso é misógino pra caralho. (Soa familiar? Se a resposta for sim, leia este texto) Não vou evoluir para esse lado, mas pessoalmente me pareceu uma crítica muito clara a esse tipo de relacionamento abusivo.

 
giphy-4
 
Quando Ava descobre que outras mulheres robôs estavam encarceradas, decide então usar toda sua capacidade e armazenamento de dados para se ver livre dessa situação, com ajuda de uma amigue. <3

 
Ex-Machina-1
 

 

Misandria (aqui tem bastante spoiler, do final inclusive)

O que achei lindo nesse momento foi que o filme consegue quebrar a ideia do amor romântico e do homem que acha que deve chegar num cavalo branco para salvar uma mulher de um relacionamento abusivo. A ideia de que toda história precisa de uma história de amor, na minha opinião, é completamente equivocada.

Spoiler:

Depois de mil reviravoltas e conflitos, Ava foge e simplesmente deixa Caleb – seu suposto herói – preso dentro da casa. Por que ela faz isso? Por achar que ele seria mais um homem a tentar subjulgá-la? Talvez por achar que ele não acredita que eles sejam equiparáveis – nem intelectualmente, nem biologicamente? Não importa. Esse não é o ponto. É a vontade dela. E isso, caras amigas, é extremamente atual e real. Nada de ficção nessa moral da história.

O que chamei de misandria, nada mais é do que a vontade e ação de uma mulher que vai contra as de um homem. Acredito que isso deveria se chamar ~ escolha ~ ou ~ reação ~ apenas. Mas não, sempre que tem uma mulher no meio, acabamos sendo enquadradas em alguma categoria específica. Por que diabos chamar de “literatura feminina”, o que deveria ser apenas “literatura”, por exemplo? ENFIM, DESABAFO ~

 
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Analogias à parte, o filme é extremamente bem feito, trilha sonora incrível, direção de arte impecável, roteiro inteligente e atuações foderosas. Nota 8,5, já falei.

Coincidência ou não, acredito em internalização muito mais do que eu gostaria: deletei minha conta no Facebook esta semana, hahaha! Se tive qualquer comentário ou se você acha que eu viajei completamente na minha analogia a relacionamentos abusivos, me diga. Pode deixar aqui na página ou no Twitter, @crusihcredo! :)

Pra finalizar, uma propaganda gratuita:

Duck Duck Go – uma ferramenta de busca que não te rastreia. É uma ótima dica para quem, como eu, estiver convencida de que o lucro está acima de qualquer experiência antropológica e que as ferramentas de busca aliadas a propaganda interferem sim na condução de pensamento e consumo.

 

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