Wild: para respeitar Reese Witherspoon

Wild

Não vou mentir, fui assistir Wild porque uma amiga e minha terapeuta além de me recomendarem, disseram que se lembraram de mim. Apesar da Reese Witherspoon ter feito papéis fortes como  June em Walk The Line, eu não tinha uma memória afetiva dela pra querer assistir a um filme seu, talvez por não associar a filmes bons. Mas não me alonguei, acendi um e assisti o filme. Com certeza já posso virar essa página sobre Reese por muitos motivos.

A trama é auto-biográfica, Cheryl Strayed teve uma infância relativamente difícil e sofre com a morte prematura de sua mãe por causa de um câncer. Depois de alguns anos lidando com esse sentimento, decide fazer a trilha Pacific Crest Trail, apelidada de PCT, como um ato simbólico de ressurreição e empoderamento pessoal. A atuação de Reese está arrebatadora. Não é a toa que foi indicada em mais de 15 prêmios diferentes.
 
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[caption id="attachment_2883" align="alignnone" width="900"]Cheryl Strayed na PCT Cheryl Strayed na PCT[/caption]  
O filme, apesar de não fazer corte de classe e raça (e eu só perdôo porque é auto-biográfico), é feminista por algumas razões, não curto listar, mas acho que hoje é um bom dia pra fazer isso, haha.

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1) Lida com a sexualidade de forma natural.
2) Retrata disfunções da vida de forma natural.
3) Mostra o corpo de uma forma real, não objetificada ou sexualizada.
4) Respeita a história e não transforma em um filme sobre mulheres, não universaliza experiências.
5) Não menospreza a experiência de uma mulher que viaja sozinha (não tô dizendo que personagens não o fazem, afinal, é uma história verídica).

 
Wild
 
Eu me entreguei. Amo viajar, nunca fiz com o mesmo propósito, mas querendo ou não é sempre empoderador e eu amo viajar sozinha. Também tive problemas com a minha mãe, quem não teve? Até onde chequei, Freud ainda está sendo bem requisitado, hahaha. Mas é completamente diferente da vida de Cheryl. A aproximação acontece por afidamento. A própria trilha não acontece sem aperreio, claro, situações de misoginia latente, medo de ser abusada e/ou estuprada, sentir-se sozinha num mundo que te pressiona pra ter bom humor todos os dias da sua vida, acontecem. Então é natural se identificar e sentir empatia.

Cinematograficamente me foi surpreendente. A direção de arte e a fotografia são boas, mas senti bastante falta de tomadas abertas, que mostrassem mais a trilha e a pequenez da personagem diante da imensidão da natureza, das dificuldades da trilha, correlacionando à muitas questões da vida e história da personagem, foi uma onda minha. A trilha sonora não é nada demais, achei ok. Gostei bastante de terem colocado First Aid Kit e Portishead, uma das minhas bandas favoritas. Gostei do filme não ter o selo Hollywoodiano. Creio que a maioria já associa Reese à Hollywood, mas é um filme indie.
 

 
Agora, a página que eu tinha da Reese virou completamente quando eu soube que ela havia produzido o filme. E muito mais do que isso, ela sentiu a necessidade de há algum tempo atrás criar a produtora Pacific Standard Productions com a Bruna Papandrea. A decisão veio para criar e gerar material de conteúdo feminino no cinema. Quando Reese se tocou em algum momento que havia apenas um estúdio recrutando mulheres acima de 30 anos para um papel, decidiu “se ocupar”. E ainda bem que se ocupou, a produtora já conta com três filmes produzidos em três anos de existência, entre eles o polêmico Gone Girl, e pelo que eu pude pesquisar, a lista de produções futuras é extensa. Vida longa à Pacific Standard Productions! Abaixo, palavras da miss Witherspoon:

Minha filha tinha 13 anos, eu queria que ela visse filmes com líderes femininas e heroínas e histórias de vida

[caption id="attachment_2884" align="aligncenter" width="670"]Bruna Papandrea e Reese Witherspoon, da produtora Pacific Standard Bruna Papandrea e Reese Witherspoon, da produtora Pacific Standard[/caption]
Mais de Bárbara Gondar

Assista: 3%, a série brasileira da Netflix

Nossa mãe, que rebuliço que deu essa primeira série brasileira original da Netflix, não é mesmo? Como tudo que tem sido a vida e o nosso dia a dia brasileiro, todas as opiniões foram pautadas num maniqueísmo só, ou as pessoas odiaram ou amaram. E eu, mesmo com todas as minhas críticas, estou no ~ time ~ das pessoas que amaram.

Sei esse já é um assunto da década passada para assuntos de internet, peço desculpas pelo atraso, mas ainda assim gostaria de falar sobre ele. Principalmente agora que a segunda temporada foi confirmada.

 

 

Bom, talvez a maioria já saiba do mote da série: em um mundo pós apocalíptico, há um sonho coletivo, ir para uma sociedade alternativa, um oasis em meio a todo o caos. O lugar se chama Maralto e a medicina é super avançada. Rola todo um estereótipo primeiro mundista, pessoas ~ civilizadas (como odeio essa palavra) ~, construções lindas, ordem e progresso (expressão não meramente ilustrativa e ilusória).

Anualmente, há um processo seletivo para adentrar ao Maralto. Na transição da adolescência para a idade adulta, aos 20 anos, você pode participar, ou melhor, você tem a chance de participar do Processo (agora com letra maiúscula). Como a sociedade pós apocalíptica é o antagonismo do Maralto, rola o estereótipo de uma sociedade esculhambada, mais ou menos o que a gente vive hoje, porém, um pouco mais olho por olho, dente por dente. Sem muitas condições básicas de sobrevivência, diria melhor.

 
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Claro que nesse momento você já faz comparações mil com Jogos Vorazes, Divergente, até mesmo Maze Runner, pelo mote, claro. A série passa pela parte filosófica da construção do herói, que, pessoalmente, eu adoro, por mais que seja uma fórmula tão repetida diversas vezes, mas enfim, sou uma ~ aficcionada ~ em ~ ficção ~ científica. E olha que isso é bem construído. Há uma parte com testes e é muitíssimo interessante,  as locações foram bem escolhidas, não são extremamente futuristas e bem acabadas mas passou muito bem.

O interessante é que, apesar de não ser muito subjetivo, o mote da série faz uma grande alusão à meritocracia na nossa sociedade brasileira (e por que não, mundial, se saindo do eurocentrismo e Estados Unidos?) e isso eu achei que fez a diferença. É praticamente desenhado para o espectador como é estar numa sociedade meritocrática, para uma minoria. A representatividade na série é a mais incrível, no núcleo principal temos mulheres brancas e negras, cadeirante, muitas pessoas negras na série no geral, pessoas de vários lugares do Brasil, sotaques diferentes e uma realidade só, passar por um processo injusto em que só 3% de milhares de pessoas poderão ~ ascender socialmente ~, ou, ter acesso ao Maralto.

 

 

Agora, é impossível passar batido pelos pontos baixos (e põe baixos nisso) da série. Há muitíssimos problemas de execução, direção e figurino, todos são muito fracos. Meu companheiro é figurinista e não quis assistir mais a partir do segundo capítulo. Eu respeito.

Não sou especialista no assunto e fiquei muitíssimo incomodada. Em peças teatrais de escolas, já vi figurinos muito melhores e mais trabalhados no sentido de, não serem tão clichê em se tratando de roupas que denotam pobreza, por exemplo. Senti vergonha alheia. Parece que quem fez o figurino está em uma bolha muito isolada. :(

Nas roupas das pessoas do Maralto, há uma abertura no braço, para mostrar a marca de uma vacina. Na abertura da roupa, não havia acabamento algum. Você vê claramente que cortaram a peça de roupa e não deram acabamento. Dá para ver os fiapos sem costura. Uó.

A atuação de atores incríveis que já conhecemos ficou super engessada, sem uma fluidez. Foi incômodo. Era notável que a direção e preparação dos atores não estava boa, sendo muito eufemista. Ainda assim, durante a narrativa, eu esqueci completamente dessa atuação arrastada, na minha cabeça, depois de uns 3 ou 4 episódios, virou uma chavinha e virou uma linguagem. Parou de incomodar. Porém, o figurino incomodou até o final.

 
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A série não só deu o que falar depois que foi lançada, não. Antes mesmo da estreia, ainda na seleção de atores, a empresa que foi contratada para fazer a seleção foi extremamente racista e por isso desligada do projeto. Infelizmente, pelo que pude averiguar, ninguém deu parte na polícia. Confiram o caso clicando aqui.

Pra não terminar a resenha falando das partes ruins da série, gostaria de elogiar muito a escolha da trilha sonora, que não é nada mais, nada menos que A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares, rainha da porra toda.

 

 

No final, até que não dei tanto spoiler, vai? Falei sobre o mote e as minhas impressões boas e ruins sobre as partes técnicas da série. Espero que para a próxima temporada, leiam bastante as críticas e reformulem algumas coisas porque 3% tem absolutamente tudo para dar (mais) certo. Agora, é preciso sim falar um pouco sobre o final da série. QUE FINAL FOI ESSE, BRASEEL? Joanna rainha da porra toda (sei que repeti, mas é merecido, sim), estou aguardando ansiosamente a segunda temporada. Caso você já esteja com saudade, pode conferir o episódio piloto, disponível no YouTube, pode deixar que eu deixo aqui pra você! ;)

 

 

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Wild porque uma amiga e minha terapeuta além de me recomendarem, disseram que se lembraram de mim. Apesar da Reese Witherspoon ter feito papéis fortes como  June em Walk The Line, eu não tinha uma memória afetiva dela pra querer assistir a um filme seu, talvez por não associar a filmes bons. Mas não me alonguei, acendi um e assisti o filme. Com certeza já posso virar essa página sobre Reese por muitos motivos.

A trama é auto-biográfica, Cheryl Strayed teve uma infância relativamente difícil e sofre com a morte prematura de sua mãe por causa de um câncer. Depois de alguns anos lidando com esse sentimento, decide fazer a trilha Pacific Crest Trail, apelidada de PCT, como um ato simbólico de ressurreição e empoderamento pessoal. A atuação de Reese está arrebatadora. Não é a toa que foi indicada em mais de 15 prêmios diferentes.
 
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O filme, apesar de não fazer corte de classe e raça (e eu só perdôo porque é auto-biográfico), é feminista por algumas razões, não curto listar, mas acho que hoje é um bom dia pra fazer isso, haha.

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1) Lida com a sexualidade de forma natural.
2) Retrata disfunções da vida de forma natural.
3) Mostra o corpo de uma forma real, não objetificada ou sexualizada.
4) Respeita a história e não transforma em um filme sobre mulheres, não universaliza experiências.
5) Não menospreza a experiência de uma mulher que viaja sozinha (não tô dizendo que personagens não o fazem, afinal, é uma história verídica).

 
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Eu me entreguei. Amo viajar, nunca fiz com o mesmo propósito, mas querendo ou não é sempre empoderador e eu amo viajar sozinha. Também tive problemas com a minha mãe, quem não teve? Até onde chequei, Freud ainda está sendo bem requisitado, hahaha. Mas é completamente diferente da vida de Cheryl. A aproximação acontece por afidamento. A própria trilha não acontece sem aperreio, claro, situações de misoginia latente, medo de ser abusada e/ou estuprada, sentir-se sozinha num mundo que te pressiona pra ter bom humor todos os dias da sua vida, acontecem. Então é natural se identificar e sentir empatia.

Cinematograficamente me foi surpreendente. A direção de arte e a fotografia são boas, mas senti bastante falta de tomadas abertas, que mostrassem mais a trilha e a pequenez da personagem diante da imensidão da natureza, das dificuldades da trilha, correlacionando à muitas questões da vida e história da personagem, foi uma onda minha. A trilha sonora não é nada demais, achei ok. Gostei bastante de terem colocado First Aid Kit e Portishead, uma das minhas bandas favoritas. Gostei do filme não ter o selo Hollywoodiano. Creio que a maioria já associa Reese à Hollywood, mas é um filme indie.
 

 
Agora, a página que eu tinha da Reese virou completamente quando eu soube que ela havia produzido o filme. E muito mais do que isso, ela sentiu a necessidade de há algum tempo atrás criar a produtora Pacific Standard Productions com a Bruna Papandrea. A decisão veio para criar e gerar material de conteúdo feminino no cinema. Quando Reese se tocou em algum momento que havia apenas um estúdio recrutando mulheres acima de 30 anos para um papel, decidiu “se ocupar”. E ainda bem que se ocupou, a produtora já conta com três filmes produzidos em três anos de existência, entre eles o polêmico Gone Girl, e pelo que eu pude pesquisar, a lista de produções futuras é extensa. Vida longa à Pacific Standard Productions! Abaixo, palavras da miss Witherspoon:

Minha filha tinha 13 anos, eu queria que ela visse filmes com líderes femininas e heroínas e histórias de vida

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