Bela, Recatada e do Lar, minha orelha!

Aí que um grande veículo de comunicação foi lá e fez um perfil da Marcela Temer, mulher do ainda vice-presidente Michel Temer. A reportagem a mostra como sendo uma moça “bela, recatada e do lar”. Até aí tudo bem. Ela pode ser o que ela bem quiser. Aliás, os comentários misóginos que ela sofreu quando apareceu pela primeira vez na grande mídia, na época da posse da presidente Dilma, foram de embrulhar o estômago.

O problema não é a Marcela. Cada mulher deve seguir o modelo que mais lhe agrada. O problema é a exaltação do padrão de vida que ela escolheu como sendo O mais adequado para mulheres. Dizem que ela é uma “mulher de sorte” por ter um marido romântico que a levou para jantar no mês passado. *Nhó *Escorre uma lágrima. Por ser uma mulher bela, que se veste bem, que é low profile… #ANossaGraceKelly QUE SORTE DO TEMER, não é mesmo?

[caption id="attachment_10517" align="aligncenter" width="964"]cerveja queimada Em vez de foto, eles podiam logo ter ilustrado com uma publi dos anos 50. *”Não se preocupe, querida. Você não queimou a cerveja!”[/caption]

 

Chega! Apenas parem!

Ninguém aguenta mais. E graças à Deusa, a internet tem deixado isso bem claro nos últimos dias. Um tsunami de fotos maravilhosamente cagadas invadiram as redes zombando dos padrões aceitados pela #TradicionalFamíliaBrasileira. A hashtag #BelaRecatadaEDoLar virou um dos assuntos mais comentados no Twitter nesta quarta-feira (20/04). E claro que as melhores já viraram Tumblr porque a internet é magnânima.

Este post do Face resume bem o porquê de tudo isso ser machista:

que lokura
Pra terminar, as fotos mais Belas, Recatadas e do Lar de algumas Ovelhas.

barbaramalagoli

barbarawagner
fernandagarcia raphaela_salles

nina tais_bravo estelarosa

anna

Ah, e tó mais essa playlist pra dançar usando saias de tons claros no joelho.

 

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2015, o ano em que só li mulheres

Por Estela Rosa*

No começo do ano ganhei um Kindle de aniversário e parti praquela loucura de baixar livros e mais livros e, dentro desse cenário, resolvi ler alguns livros que ganharam prêmios importantes em décadas passadas. Escolhi de cara “How to kill a mockingbird”, vencedor do Pulitzer em 1960, um livro que fala sobre o fim da segregação racial visto pelo olhar de uma menininha, escrito por Harper Lee.

Comecei a ler o livro sem muito procurar saber dele porque sou dessas que foge de spoiler de tudo, dessas que morre de medo de se decepcionar com o escritor ao buscar saber mais sobre ele. Fui lendo e me apaixonando, me envolvendo, até que não deu mais e resolvi procurar saber mais sobre o livro. E foi então que descobri: Harper Lee é uma mulher, uma incrível mulher.

Confesso que fiquei com vergonha, constrangida comigo mesma por ser alguém formada em Letras que nunca tinha ouvido falar nela. Mas conforme comentava sobre o livro (lembre-se que ele foi super premiado e aclamado pela crítica), percebia que meus amigos também não a conheciam.

Eu, recém-convertida ao feminismo, nunca havia parado para pensar de verdade nas escritoras mulheres. Sempre fui louca por elas, principalmente as brasileiras, tive professoras que deram cursos inteiros sobre mulheres brasileiras autoras. Lá conheci Marina Colassanti, Livia Garcia-Roza, Angélica Freitas, Beatriz Bracher, Marília Garcia, me aprofundei em Clarice Lispector, amei Lygia Fagundes Telles e Adélia Prado, acreditava que meu conhecimento sobre autoras mulheres era grande, mas inocentemente não pensava no mundo que ainda me aguardava.

 
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Depois desse baque de ver que Harper Lee era uma mulher, que por sinal assinava assim para disfarçar ser mulher, minha cabeça explodiu. Decidi passar todo o ano de 2015 lendo autoras mulheres, consumindo mulheres, divulgando mulheres, elogiando mulheres. Nesse tempo, li mais dois livros da Angélica Freitas, um da Verônica Stigger, li muito quadrinho feminino, como o Batoquim, de Thais Ueda e Yumi Takatsuka, conheci a Alison Bechdel e surtei de amor, li Amanda Palmer, Brené Brown. Nesse tempo, descobri autoras fantásticas que, se não fosse por essa dedicação, eu jamais conheceria.

Digo tudo isso para incentivar vocês, moças e moços, a darem uma chance para essa luta de divulgar nossas escritoras brasileiras além da Clarice Lispector! Vamos buscar saber mais sobre autoras negras, como a lindíssima Chimamanda, vamos sair do eixo Europa-Estados Unidos e descobrir outras realidades. Vamos nos dedicar a divulgar esse universo incrível de autoras que batalham diariamente para serem reconhecidas no mundo literário que, ainda que não pareça, é extremamente machista e patriarcal.

Vamos consumir, devorar, mastigar, engolir tudo o que for feito por mulheres. Eu continuo firme nessa empreitada e acho que ela ainda vai se estender por anos. Não sinto como se estivesse abrindo mão de nada ao fazer essa escolha, a verdade é que expandi meu olhar e sinto a sororidade brotar a cada nova palavra. E que venham mais mulheres!

 

 

Lista de livros lidos

Angélica Freitas – Um útero é do tamanho de um punho
Amanda Palmer – A arte de pedir
Brené Brown – A coragem de ser imperfeito
Harper Lee – O sol é para todos
Thais Ueda e Yumi Takatsuka – Batoquim
Verônica Stigger – Opisanie Swiata
Chimamanda Ngozi Adichie – Americanah
Inês Pedrosa – Fazes-me falta
Angélica Freitas e Odyr – Guadalupe (HQ)
Alison Bechdel – Você é minha mãe? (HQ)
Vanessa Barbara e Fido Nesti – A máquina de Goldberg (HQ)

PS: Aceitamos sugestões e indicações. <3  


*Estela Rosa é crazy cat lady, meio piadista meio poeta, ama chuva&vento e, como boa caipira, curte ouvir e contar histórias. É redatora na Cyan Design e produz conteúdo para o blog Casar é um barato.

**Ilustrações feitas com exclusividade por Fernanda Garcia

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perfil da Marcela Temer, mulher do ainda vice-presidente Michel Temer. A reportagem a mostra como sendo uma moça “bela, recatada e do lar”. Até aí tudo bem. Ela pode ser o que ela bem quiser. Aliás, os comentários misóginos que ela sofreu quando apareceu pela primeira vez na grande mídia, na época da posse da presidente Dilma, foram de embrulhar o estômago.

O problema não é a Marcela. Cada mulher deve seguir o modelo que mais lhe agrada. O problema é a exaltação do padrão de vida que ela escolheu como sendo O mais adequado para mulheres. Dizem que ela é uma “mulher de sorte” por ter um marido romântico que a levou para jantar no mês passado. *Nhó *Escorre uma lágrima. Por ser uma mulher bela, que se veste bem, que é low profile… #ANossaGraceKelly QUE SORTE DO TEMER, não é mesmo?

 

Chega! Apenas parem!

Ninguém aguenta mais. E graças à Deusa, a internet tem deixado isso bem claro nos últimos dias. Um tsunami de fotos maravilhosamente cagadas invadiram as redes zombando dos padrões aceitados pela #TradicionalFamíliaBrasileira. A hashtag #BelaRecatadaEDoLar virou um dos assuntos mais comentados no Twitter nesta quarta-feira (20/04). E claro que as melhores já viraram Tumblr porque a internet é magnânima.

Este post do Face resume bem o porquê de tudo isso ser machista:

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Pra terminar, as fotos mais Belas, Recatadas e do Lar de algumas Ovelhas.

barbaramalagoli

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fernandagarcia raphaela_salles

nina tais_bravo estelarosa

anna

Ah, e tó mais essa playlist pra dançar usando saias de tons claros no joelho.

 

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