Deixa ela brincar de carrinho

Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)
Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)

Eu dei sorte, muita sorte por sinal, de não ter a infância limitada aquilo que seria ou não apropriado para uma garota fazer. Mesmo sem nenhuma noção do que seria feminismo e enfrentando os próprios complexos, o que é perfeitamente normal, minha mãe me deu desde cedo duas coisas muito preciosas: liberdade e apoio para eu ser aquilo que eu quisesse.

Bem… não vou dizer que ela não tentou. Afinal, ao ser mãe de primeira viagem de uma menina depois dos 40, você meio que segue tudo que as suas amigas fizeram até ali. Compra vestidos com babados fofinhos, barbies, brinquedos rosas. Porque é assim que a coisa funciona, não?

Digamos que aprendemos juntas que não é bem assim que a banda toca. Eu ainda não podia falar, mas já sabia deixar bem claro que não queria aqueles vestidinhos perto de mim. E ela reagiu a todas as minhas “diferenças” da melhor maneira possível ao longo dos anos.

Quando ficou claro que eu não gostava de brincar com bonecas, ela as recolheu e apareceu no dia seguinte com a coleção de bonequinhos dos Cavaleiros do Zódiaco. Os vestidos foram substituídos por camisetas e moletons. Coisas de casinha foram trocadas por uma coleção de carrinhos. Sem contar o apoio a interesses diversos como astronomia, pintura, quadrinhos e esportes.

Até quando fiquei com vergonha de ir para a escola com meu fichário do Batman, numa tentativa tola de me enquadrar a um padrão, ela ficou do meu lado, ao mesmo tempo que dizia que eu não precisava fingir ser o que não era.
 
[caption id="attachment_4017" align="aligncenter" width="700"]Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy) Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)[/caption]

O grande ponto foi quando, com sete anos, decidi trocar o ballet por karate. Perdi a conta de quantas vezes ela rebateu os comentários maldosos das tias intrometidas de que aquilo não era atividade para uma garota com um “É o que ela gosta. E ela pode fazer o que quiser”.

Não sou nenhuma psicóloga educacional para dizer que essa é forma correta de se educar uma criança. Inclusive nós não somos perfeitas, tivemos nossos próprios defeitos nesses 22 anos de relação. Mas essas escolhas que a minha mãe me deu quando criança foram fundamentais para eu ser a pessoa que sou hoje. Para ser dona das minhas decisões, para não ligar para a opinião alheia e para descobrir o meu rumo na vida.

Então, deixa a menina brincar. Deixa ela se sujar jogando bola. Deixa ela pintar a parede. Deixa ela brincar de carrinho sem dizer que isso é coisa de menino. Desconstrói essa ideia de que ela tem que ser assim ou assado. Esquece essa de ser uma lady. Deixa ela ser uma criança livre que tá conhecendo o mundo sem nenhum complexo.
 
[caption id="attachment_4016" align="aligncenter" width="700"]Desenho da Clara Sato, priminha de 4 anos da ilustradora Fernanda Garcia (Kissy), que fez seu Tartaruga Ninja favorito :} Desenho da Clara Sato, priminha de 4 anos da ilustradora Fernanda Garcia (Kissy), que fez seu Tartaruga Ninja favorito :}[/caption]

Tags relacionadas
, ,
Mais de Mari Rodrigues

A nova fase da Harley Quinn

GalleryComics_1900x900_20131218_HARLEY1_52aca4c6243f51.65528728

Felizmente, faz um tempo que a Harley Quinn deixou de ser apenas a namorada do Coringa e conquistou espaço como uma das personagens mais amadas do universo da DC Comics. Tanto que, em 2013, a personagem ganhou um selo solo com texto do casal de roteiristas Amanda Connor e Jimmy Palmiotti.

Não espere pela origem da personagem pois não é esse o propósito dessas novas edições. O passado como psiquiatra no Arkham Asylum e de criminosa ao lado de seu paciente mais notório ficaram para trás.

Nessa nova fase, Harley está recomeçando a vida longe da péssima influência que o Coringa tem sobre ela. Depois de herdar um prédio caindo aos pedaços de um antigo paciente no Arkham Asylum, ela se torna síndica, defensora dos animais, volta a clinicar como psiquiatra e entra para um time de roller derby. Ah, vale lembrar que no meio disso tudo ela ainda encontra tempo para ser uma heroína.

Sim, ela está bem longe de ter a personalidade de uma heroína clássica, defensora da paz e dos direitos, por mais que suas ações sejam motivadas para fazer algo bom. Divertida e meio psicótica, Harley está mais preocupada com os fins e não com os meios.

Ela fica tão indignada com situações de maus tratos, seja um cara arrastando um cachorro no asfalto quente ou uma família que negligencia a matriarca, que escolhe os meios mais violentos para dar um fim a elas e tornar o mundo um lugar melhor. Por isso a acho tão cativante. Harley coloca em prática aqui o que uma parte de nós só faz em pensamento.

GalleryComics_1900x900_20140827_HARLEY_Cv10_53d17d8ee76992.34813689

Um toque muito bom do roteiro de Amanda e Jimmy foi colocá-la em um time de roller derby. Harley passou pelo relacionamento mais abusivo das histórias em quadrinhos quando estava com o Coringa. O esporte vem justamente para empoderá-la depois de tudo isso. É lá que ela pode ser ela mesma, onde encontra outras garotas para apoiá-la e ainda se diverte.

O roller derby tem realmente esse poder na vida de várias mulheres. Para quem quiser saber um pouco mais sobre recomendo esse texto da Tati Lapatiuk.

Não são só as jogadoras de seu time que dão apoio nessa nova fase. Vez ou outra, Poison Ivy aparece para saber como Harley está se virando e dar uma força se preciso. Inclusive, a editora anunciou que as duas são namoradas, mas sem o ciúmes da monogamia.

A bonita ainda decidiu montar uma “gangue das arlequinas” para ajudá-la a combater o crime. Além de representar a própria luta para trazer verdade e justiça para o mundo, Harley busca meninas corajosas e que inspirem outras a fazer o mesmo.

Em várias discussões, vi comentários de pessoas que acham que as roupas da Harley ainda estão muito sensualizadas. Isso tem sido apontado como um ponto negativo das HQs. Na minha opinião, vejo as roupas curtas (que ela não usa o tempo inteiro) como parte da personalidade dela e, se comparada com os traços das edições de Suicide Squad, onde era realmente esse o propósito,  houve uma significativa melhora.

Aqui no Brasil, o selo solo está sendo lançado em encadernados de capa cartão pela editora Panini.

Para quem quiser saber mais sobre a origem da personagem e toda a sua trajetória vale a leitura do ótimo artigo da Louise.

Leia mais
" />