Pangeia: a vida dos refugiados sírios no Brasil

Arte do livro Pangeia - arte por Pedro Faria de Conti
Livro-reportagem escrito por Gabrielle Albiero e Luiza Aguiar traz depoimentos de refugiados sírios no Brasil

Escrito por Gabrielle Albiero e Luiza AguiarPangeia – Fragmentos da guerra da Síria no Brasil é um livro que traz depoimentos de refugiados sírios no Brasil.

Com diferentes relatos de famílias e pessoas distintas – mas que compartilham a mesma realidade geopolítica e choque cultural – Pangeia é um livro-reportagem produzido inicialmente em 2015, durante o Trabalho de Conclusão de Curso de Gabrielle e Luiza em Campinas, São Paulo. Dando continuidade ao projeto, as jornalistas criaram uma efetiva campanha no Catarse, em 2016, para o financiamento da publicação.

Além do amplo conteúdo jornalístico – pesquisas, entrevistas e análises das experiências individuais e coletivas – a obra ainda conta com participações artísticas de diversos colaboradores que ilustram os capítulos do livro. O site com todas as informações e venda do Pangeia está para ser lançado ainda este mês.

De acordo com a UNHCR (a Agência da ONU para Refugiados), desde 2011 mais de 5 milhões de pessoas fugiram da Síria para países vizinhos buscando segurança e 6,3 milhões encontram-se deslocados internamente em seu país.
 
[caption id="attachment_15825" align="alignnone" width="800"] ilustração de Bruna Dias para o Pangeia – Fragmentos da Guerra da Síria no Brasil.[/caption]  

Ovelha: Como surgiu a ideia inicial de escrever sobre a guerra na Síria? 

Gabrielle: Nós precisávamos de um tema para o TCC. Sabíamos que seria um livro, jornalismo literário, mas não tínhamos tema. No dia exato da entrega da ficha da tese, a irmã da Lu foi almoçar no restaurante de refugiados sírios, e nos contou a história deles. E aí a luzinha do Eureka acendeu.

Ovelha: Ouvir depoimentos de refugiados deve ter sido além de um aprendizado, uma experiência bastante forte. Como vocês se sentiram?

Gabrielle: É muito impactante! Sinto que cresci infinitamente com o relato deles. Costumo dizer que somos tão privilegiados que não sabemos o quanto somos privilegiados. Você está ali, reclamando da sua vida, e de repente senta na sua frente um senhor de setenta anos que teve que largar tudo que tinha na Síria e vir reconstruir a vida em um país cuja cultura ele desconhecia completamente. E ele diz: “sem problema, we are strrrrrrrrrrrrong” (com aquele sotaque). E aí você diz: “tô reclamando do quê?”.

Mas foi mais que isso, claro. Nós fizemos entrevistas longas, de duas/três horas, durante oito meses, quase todos os dias. Eles ainda não falavam bem português, mas sabiam um pouco de inglês. Fazíamos a entrevista assim, uma mistura de português (eu conversando com Luiza), árabe (eles conversando entre si), e inglês (tentando fazer a ponte). Uma Torre de Babel! Também fizemos entrevistas individualmente com eles.

Depois de um tempo, você acaba criando laços e a dor do outro dói muito mais em você. Aí é preciso focar pra que isso não atrapalhe o processo do livro. Um dia eu fiquei bem mal, bem indignada e a Lu disse: ‘a melhor maneira de você fazer algo sobre isso é escrever algo bom pra caralho! Vai lá e escreve’. Então foi saber usar essa suposta fragilidade pra tornar o trabalho mais forte.
 
[caption id="attachment_15884" align="alignnone" width="596"] trecho do livro Pangeia[/caption]  
Ovelha: Por produzirem de maneira totalmente independente, acreditam que o fato de vocês serem mulheres trouxe alguma dificuldade extra no percurso?

Gabrielle: Muito! Nada novo sob o sol, né? Além de sermos mulheres, temos 23, 24 anos. Ninguém levou a sério duas crianças falando sobre a guerra na Síria. Antes mesmo do livro ter uma proposta independente. Nós pensamos no projeto e, na própria Academia, ouvimos palavras de desmotivação. Tudo bem, continuamos. O livro estava pronto, e aí, mais paulada. Vida que segue. Resolvemos fazer o financiamento coletivo, fizemos palestras pelo interior de São Paulo, e a sensação era: olha essas duas, estão brincando de escrever… Claro, muitas pessoas apoiaram, contribuíram, mas sempre teve uma aura de menosprezo rondando o trabalho.

Um belo dia, você tem o livro impresso na mão. E ele é lindo, com detalhes em relevo e ilustrações maravilhosas e ele tem uma história a contar. Você manda releases pra mídia, e isso gera certa repercussão. Seu livro aparece em um veículo a que as pessoas dão certa credibilidade. E uma pessoa que esteve ali do lado o tempo todo pergunta: ‘como você conseguiu isso?’ Como assim, você não viu eu aqui trabalhando? Você quer dar um tapa na cara dela, mas já tem toda uma narrativa que você escreveu contra a violência. Então opta pela ironia e diz: ‘tudo começou quando eu escrevi um livro’. Ponto. (risos)

Isso sem contar aquela lógica comum: se você é mulher é conseguiu alguma coisa foi porque deu para algum homem que proporcionou aquilo.

Ovelha: Qual a parte mais prazerosa ao final do processo todo?

Gabrielle: Pegar o livro na mão e sentir que você contribuiu com uma fagulha de lucidez em um mundo louco.

Ovelha: Quais os planos a partir de agora?

Gabrielle: O site, além de trazer tudo sobre o livro e o projeto, vai possibilitar que as pessoas comprem o livro online. Os planos agora são divulgar o livro da melhor maneira possível.

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Ouça: Noname

Noname é o nome artístico de Fatimah Warner, uma rapper americana de Chicago que traz – seguindo influências de artistas como Lauryn Hill e Nina Simone – uma sonoridade cativante balanceado com suas letras fortes.

Em uma entrevista para a The Fader ela explica:

Eu tento existir sem me ligar a rótulos. Eu realmente não ligo para rótulos, mesmo a maneira que eu me visto; Normalmente não uso nada com nome de uma marca. Para mim, não ter um nome expande minha criatividade.

Pois é, essa jovem rapper (de 25 anos) tem um lado literário bastante forte. Sua mãe foi dona de uma livraria por muitos anos, o que facilitou seu interesse pela leitura durante a adolescência e posteriormente a aproximou da escrita criando poesias.

Seu álbum de estreia, Telefone (2016), foi produzido inicialmente em 2013 de forma livre e bem aberta. Inspirado em conversas com amigos e parentes, ela quis transmitir a sensação de poder conversar algo sobre si com alguém de quem gosta muito. Coisas que existem apenas em seu telefone.

A sensação é de estar ouvindo Noname contar uma parada importante, mas sem ser muito séria. Num ritmo envolvente, ela torna as coisas mais interessantes – e mais leves também.

Dá um play nessa apresentação que ela fez recentemente na NPR:

Inclusive já quero os bonés oficiais de Telefone:

(1974)

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Ah! Segue ela no Spotify e no Soundcloud também!
 

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