O gótico é negro

Vamos celebrar o dia de hoje! Não, não porque é feriado, tolinha. Hoje, 20 de novembro, é dia da consciência negra. Um dia para festejar a cultura, raízes e características afro-descendentes. Mas também é um dia para tomar consciência sobre os males sociais enfrentados por conta do racismo (e, por favor, se você ainda é contra cotas e acredita em racismo reverso, pode fechar este site, okay?).

A discriminação contra o negro precisa ser falada e combatida. Por isso que o nome do feriado fala de consciência. E já que estamos abordando sobre uma minoria, que é a maioria desprovida de respeito e privilégios ao redor do mundo, quero fechar o cerco mais ainda. Vou somar e falar da mulher negra. Mais ainda: vou falar das negras dentro da subcultura gótica.

O motivo é que eu acredito que esta é uma boa maneira de exemplificar como o negro pode e deve fazer parte em um contexto que muitos pensam ser um privilégio exclusivamente branco. Para isso, conversei com a Luana Carvalho, conhecida na cena como Moon. Ela criou a fanpage Góticos Afrodescendentes, com o intuito de dar visibilidade aos negros dentro da subcultura e, assim, oferecer um ponto de representatividade e diálogo na comunidade. A página, aliás, usa como referência a rainha vampira Akasha, que foi interpretada pela belíssima Aaliyah (r.i.p.) no filme “Rainha dos Condenados” (2002).

Ovelha: Moon, o que é a subcultura gótica?

Moon: A subcultura gótica é uma “tribo urbana” que teve seu início no país nos anos 80 (saudosos anos 80), inicialmente chamados de dark e hoje como góticos mesmo.

É uma filosofia de vida onde estilo musical e vestimenta são bem marcantes. Muita gente acha que abrange religião também, mas não – como foi originária do movimento pós punk, a cena nem se quer levanta qualquer ponto de discussão sobre religião (não, não adoramos ao diabo). Também temos uma boa carga de gosto pela filosofia, literatura e artes em geral. Hoje em dia temos várias vertentes dentro do movimento: gótico clássico, vitoriano, darkwave, cyber, deathrock, etc.

Ovelha: Em que momento você descobriu e se apaixonou pelo gótico?

Moon: Eu sempre sou fisgada pela música. Foi ainda criança que o Sisters of Mercy (vídeo acima) me encantou e, como uma coisa puxa a outra, me apaixonei loucamente pela subcultura gótica.

Ovelha: Por que você decidiu criar a página?

Moon: Toda a referência visual do gótico é importada da Europa, onde a grande maioria das pessoas é branca. Sendo assim, o gótico de tom de pele diferente sofre com o choque de referência (consigo mesmo e perante os demais do mesmo círculo). Quando criei a página há quase 3 anos, não havia a menor referência de como eram os visuais góticos elaborados e combinados com nossa pele negra. Maquiagem então… A primeira coisa que se via nos tutoriais era a moça passando pancake branco no rosto, o que para meu gosto fica uma máscara totalmente fora do aceitável para peles escuras. Claro que se observava claramente essa tentativa de ficar pelo menos parecido com o esteriótipo da referência. Por isso mesmo que criei a fanpage. Queria quebrar esse tabu de que gótico tem que ser branco e, de quebra, acostumar os olhos de todos à beleza do gótico afro, dando inúmeras referências a nós que temos um tom de pele diferente do branco.

[caption id="attachment_1303" align="aligncenter" width="685"]Marjorie Foto: modelo Marjorie[/caption]

Ovelha: Você já sofreu preconceito de membros da subcultura por ser negra?

Moon: E quem não? De tempos em tempos estamos denunciando manifestações de preconceito contra nós e comigo não aconteceu diferente.

Ovelha: E nas ruas, na família: você já sofreu preconceitos por ser gótica?

Moon: Existe preconceito e existe ignorância. O ser humano tem medo de tudo que não conhece. Quando você está pronta, com aquele visual super bem montado, você entra na condução e todos olham para você. Ninguém senta ao seu lado, ninguém quer ficar perto. Crianças acham que você é bruxa e por aí vai. Eu já me divirto com isso.

[caption id="attachment_1304" align="aligncenter" width="1024"]Liryc Suicide Foto: modelo Liryc Suicide[/caption]

Ovelha: O Brasil é um país tropical, cuja maioria dos habitantes gosta de sol e praia – além viver torcendo o nariz sobre a aparência dos outros. Como a subcultura gótica é vista no país?

Moon: Volto a questão da referência Européia. Lá o clima é frio e por isso se usa vestimenta pesada. Aqui precisamos adaptar os visuais para o clima tropical, sobretudo no calor. Por isso que quando uma pessoa passa vestindo roupas pesadas num calor de 40 graus, todos vão estranhar. Até eu.

Ovelha: Obrigada pelo papo, Moon! Gostaria de dar algum conselho para outras mulheres negras que desejem abraçar subculturas (punk, decora, lolita, gótico, etc)?

Moon: Nada te impede de gostar e adotar certos elementos da vestimenta em seu guarda-roupa. O que importa é você ser autêntica e original. Não ligue para a opinião dos outros. Vai lá e seja feliz.

 
(imagens retiradas da fanpage Góticos Afrodescendentes)

Mais de Nina Grando

Com que roupa eu vou atrás do bloco?

Está chegando o carnaval e você ainda não faz ideia do que vestir? Se você já é leitora da Ovelha acho que nem preciso dizer que black face ou qualquer tipo de apropriação cultural (como fantasias de gueixas e índios) não são opção para uma pessoa inteligente, respeitosa e criativa, certo? Pois bem, dito isso, vasculhamos na internet algumas boas ideias de fantasias de última hora que são super fáceis de fazer. Mas também tem uma dica para as preguiçosas endinheiradas no fim do post.

 

Abacaxi

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Se você tem um vestidinho amarelo mofando no armário, este é o momento de vestí-lo mais uma vez antes de fazer uma doação. O cocar da cabeça é feito de papel e o passo-a-passo pode ser visto clicando aqui, no blog Studio DIY. Simples, criativo e tropical pra você que é docinha mas também sabe ser ácida.

 

Rosie The Riveter

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Abrace de vez seu poder de mulher lutadora com este ícone feminista. E é tão fácil de fazer que não tem mistério: pegue um lenço vermelho, vista sua camisa jeans, ponha um delineador e um batom vermelho e pronto. We can do it!

 

Carmem Miranda

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O que é que a baiana tem? A gente sabe que fantasiar-se de Carmem Miranda é fantasiar de um Brasil pra gringo ver. Mas a gente adora. Até porque, suas roupas e acessórios tem toda a alegria que o carnaval evoca. Se você sabe onde encontrar umas frutas falsas perto de onde mora (ou sabe fazer frutas de origami, como na foto), tem um tutorial bacana do turbante da Carmem Miranda que a equipe da Elo7 fez.

 

Caveira

ovelha-skull-maquiagem

Aqui não tem mistério. Você pode ir de camiseta preta, um shortinho e um tênis. O lance é a maquiagem. E paciência. Vocês podem conferir um passo-a-passo de como fazer o make no Youtube, com a Bruna Castelucci:

Achou muito dark ou muito Halloween para a festinha tupiniquim? Coloque uma coroa de flores na cabeça para relembrar da Lana Del Rey. We are born to die.

 

Pássaro

ovelha-fantasia-passaro-diy

Para celebrar a liberdade em lindas cores ou para simbolizar um renascimento pessoal como a ave Fenix, essa é sua fantasia. Tem gente que tá vendendo um look desses por assombrosos R$ 400 reais, mas você pode se animar para fazer o seu. Para fazer as asas, siga o passo-a-passo clicando aqui. Depois é só caprichar na maquiagem.

 

Agora, se você não quer nem pensar em fazer algo você mesma e prefere investir em um acessório lindo que se responsabiliza sozinho por todo o look carnavalesco nós recomendamos dar um pulinho na Can-Can (responsável pelos gifs fofos acima). Já tem muita coisa esgotada, mas tudo de lá é lindo e vale investir para este ou outros carnavais.

(imagens via, via, via, via, via, via, via)

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cotas e acredita em racismo reverso, pode fechar este site, okay?).

A discriminação contra o negro precisa ser falada e combatida. Por isso que o nome do feriado fala de consciência. E já que estamos abordando sobre uma minoria, que é a maioria desprovida de respeito e privilégios ao redor do mundo, quero fechar o cerco mais ainda. Vou somar e falar da mulher negra. Mais ainda: vou falar das negras dentro da subcultura gótica.

O motivo é que eu acredito que esta é uma boa maneira de exemplificar como o negro pode e deve fazer parte em um contexto que muitos pensam ser um privilégio exclusivamente branco. Para isso, conversei com a Luana Carvalho, conhecida na cena como Moon. Ela criou a fanpage Góticos Afrodescendentes, com o intuito de dar visibilidade aos negros dentro da subcultura e, assim, oferecer um ponto de representatividade e diálogo na comunidade. A página, aliás, usa como referência a rainha vampira Akasha, que foi interpretada pela belíssima Aaliyah (r.i.p.) no filme “Rainha dos Condenados” (2002).

Ovelha: Moon, o que é a subcultura gótica?

Moon: A subcultura gótica é uma “tribo urbana” que teve seu início no país nos anos 80 (saudosos anos 80), inicialmente chamados de dark e hoje como góticos mesmo.

É uma filosofia de vida onde estilo musical e vestimenta são bem marcantes. Muita gente acha que abrange religião também, mas não – como foi originária do movimento pós punk, a cena nem se quer levanta qualquer ponto de discussão sobre religião (não, não adoramos ao diabo). Também temos uma boa carga de gosto pela filosofia, literatura e artes em geral. Hoje em dia temos várias vertentes dentro do movimento: gótico clássico, vitoriano, darkwave, cyber, deathrock, etc.

Ovelha: Em que momento você descobriu e se apaixonou pelo gótico?

Moon: Eu sempre sou fisgada pela música. Foi ainda criança que o Sisters of Mercy (vídeo acima) me encantou e, como uma coisa puxa a outra, me apaixonei loucamente pela subcultura gótica.

Ovelha: Por que você decidiu criar a página?

Moon: Toda a referência visual do gótico é importada da Europa, onde a grande maioria das pessoas é branca. Sendo assim, o gótico de tom de pele diferente sofre com o choque de referência (consigo mesmo e perante os demais do mesmo círculo). Quando criei a página há quase 3 anos, não havia a menor referência de como eram os visuais góticos elaborados e combinados com nossa pele negra. Maquiagem então… A primeira coisa que se via nos tutoriais era a moça passando pancake branco no rosto, o que para meu gosto fica uma máscara totalmente fora do aceitável para peles escuras. Claro que se observava claramente essa tentativa de ficar pelo menos parecido com o esteriótipo da referência. Por isso mesmo que criei a fanpage. Queria quebrar esse tabu de que gótico tem que ser branco e, de quebra, acostumar os olhos de todos à beleza do gótico afro, dando inúmeras referências a nós que temos um tom de pele diferente do branco.

Ovelha: Você já sofreu preconceito de membros da subcultura por ser negra?

Moon: E quem não? De tempos em tempos estamos denunciando manifestações de preconceito contra nós e comigo não aconteceu diferente.

Ovelha: E nas ruas, na família: você já sofreu preconceitos por ser gótica?

Moon: Existe preconceito e existe ignorância. O ser humano tem medo de tudo que não conhece. Quando você está pronta, com aquele visual super bem montado, você entra na condução e todos olham para você. Ninguém senta ao seu lado, ninguém quer ficar perto. Crianças acham que você é bruxa e por aí vai. Eu já me divirto com isso.

Ovelha: O Brasil é um país tropical, cuja maioria dos habitantes gosta de sol e praia – além viver torcendo o nariz sobre a aparência dos outros. Como a subcultura gótica é vista no país?

Moon: Volto a questão da referência Européia. Lá o clima é frio e por isso se usa vestimenta pesada. Aqui precisamos adaptar os visuais para o clima tropical, sobretudo no calor. Por isso que quando uma pessoa passa vestindo roupas pesadas num calor de 40 graus, todos vão estranhar. Até eu.

Ovelha: Obrigada pelo papo, Moon! Gostaria de dar algum conselho para outras mulheres negras que desejem abraçar subculturas (punk, decora, lolita, gótico, etc)?

Moon: Nada te impede de gostar e adotar certos elementos da vestimenta em seu guarda-roupa. O que importa é você ser autêntica e original. Não ligue para a opinião dos outros. Vai lá e seja feliz.

 
(imagens retiradas da fanpage Góticos Afrodescendentes)

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