Ser ociosa: como fazer nada

É coisa de deuses e infantes – o berço de grandes obras de arte, filosofia e ciência. O hábito de não fazer nada é super importante para o nosso bem-estar individual e cultural, no entanto, parece estar morrendo em nossa era digitalizada.

Longe de ser preguiça, a ociosidade adequada é o pilar da alma. Antes de planejarmos ou amarmos ou decidirmos ou agirmos ou contarmos histórias, nós somos ociosos. Antes de aprendermos, nós assistimos. Antes de agirmos, nós sonhamos. Antes de brincarmos, nós imaginamos. A mente ociosa está acordada, mas sem restrições, livre para deslizar sem amarras de ideia a ideia ou desviar da teoria potencial à verdade potencial. Tomás de Aquino argumentou que “é necessário para a perfeição da sociedade humana que haja pessoas que dediquem suas vidas à contemplação.”

O verdadeiro ócio é uma habilidade perdida? Quantas vezes nós nos sentamos, serenamente desocupadas? Quantas vezes nós caminhamos, como Henry David Thoreau aconselhou, sem agenda ou destino, presentes e livres? Que visão incomum: um indivíduo solitário, sua cabeça não enterrada em um jornal ou laptop ou telefone, simplesmente sentado – sua mente bem afastada.

[caption id="attachment_10725" align="aligncenter" width="700"]http://hannaeaberg.tumblr.com/ Foto: Hanna E. Åberg[/caption]

Sete anos atrás, eu morava em um apartamento sem conexão com a internet. Eu tinha um telefone celular flip que só funcionava para fazer chamadas e enviar mensagens de texto de 40 caracteres. Sem a distração da internet ou a opção de assistir a um filme, eu certamente era mais produtiva, de acordo com certas medidas. Uma mente que deriva em um mar de sua própria fabricação é muito mais interessante do que uma mente seguindo uma trilha de hiperlinks. Mas o que me parece uma perda maior – quando eu comparo esses anos com agora – é todo o tempo que gastei fazendo “nada”. O meu quarto tinha uma vista do terceiro andar para uma rua movimentada no centro. Era pequeno, e a cama ficava empurrada contra a janela. Tenho certeza de que as horas que passei olhando pela janela somaram semanas de tempo. Eu assisti à nada e nada. Eu (ocasionalmente) fumava cigarros e bebia café… dois hábitos que, embora pouco saudáveis para o corpo, tinham, em determinadas circunstâncias, benefícios para a alma.

A produtividade não é a única medida de tempo bem gasto. Algumas das inovações e invenções científicas mais importantes aconteceram “em cima da hora”, não planejadas, após anos de improdutividade intrigante, vagarosa. Meu filho de cinco meses de idade entende isso intuitivamente. Ele vai aprender toda uma linguagem e como fazer para sentar, levantar, engatinhar e andar na maioria das vezes fazendo o que, para um adulto, seria parecido com “nada”.

Estou convencida de que o tempo gasto com o ócio ajuda a um estado saudável da mente. Queremos menos e estamos mais em paz quando conseguimos isso. Nós dormimos melhor e trabalhamos mais. As coisas mais simples nos trazem alegria. Quando nós diariamente observamos as nossas imediações, estamos mais fundamentados em nosso contexto, mais sintonizados com os ritmos de qualquer estação ou lugar em que nos encontramos.

Além disso, as formas mutantes das nuvens precisam de nossa atenção.

 

[separator type="thin"]
Tags relacionadas
,
Mais de Letícia Mendes

Como chorar muito com um filme

Cheguei à conclusão de que os filmes que mais me fizeram sentir alguma emoção, lágrimas intensas e sorrisos sinceros, são os feitos pelo Studio Ghibli. Se você não conhece, amiga, pare de perder seu tempo. O Studio Ghibli foi fundado no Japão em 1985 por quatro caras: Hayao Miyazaki, Isao Takahata, Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma. Certamente Miyazaki é o mais famoso deles. Quase todo mundo já ouviu falar de “A viagem de Chihiro” (2001), uma das animações que ele dirigiu mais encantadoras de todas.

hotaru-no-haka-la-tumba-de-las-lucirnagas-novela-original-de-ayuki-1280x720

Mas o que me levou a escrever esse texto foi um longa do Takahata, chamado “Túmulo dos vagalumes” (1988). Céus! É uma das histórias mais tristes que já vi na vida. São dois irmãos, Seita e a pequenina Setsuko, que ficam órfãos durante a 2ª Guerra Mundial. A cumplicidade deles é linda e é o que faz você chorar mais ainda por conta do final trágico. É uma pena que não seja um filme tão conhecido no Brasil, mas tem legendado no YouTube.

tumulo

Do Takahata também tem os belíssimos “PomPoko: A grande batalha dos guaxinins” (1994) e “O conto da princesa Kaguya” (2013). Do Miyazaki, a recomendação é que você veja todos os filmes possíveis. Para citar alguns: “Meu amigo Totoro” (1988) – foooofo demais –, “O serviço de entregas da Kiki” (1989) – eu queria voar numa vassoura e usar um laço vermelho enorme na cabeça –, “Porco Rosso” (1992), “Princesa Mononoke” (1997), “O castelo animado” (2004), “Ponyo” (2008), e, o mais recente, “Vidas ao vento”.

Aliás, o drama de “Vidas ao vento” também se passa durante a 2ª Guerra Mundial, em que um jovem superinteligente chamado Jiro desenha aviões que ganham a finalidade de carregar bombas. “Le vent se lève il faut tenter de vivre” ou “o vento se vai é preciso tentar viver”, é uma frase citada pelo personagem. Studio Ghibli acaba comigo. É muita dor no coração, mas uma dor do bem.

10527844_10203638101569829_8256774737946907344_n

Outra dica, para quem é fanática como eu, é ver o documentário “Yume to kyôki no ohkoku” ou “The kingdom of dreams and madness”, que mostra a rotina do Miyazaki e de todos os funcionários do Studio Ghibli. É demais ver como as animações são criadas e todo o processo dos japas para distribuírem essas histórias que mexem com gente do mundo todo. Chorei.

Leia mais
na revista “Kinfolk”, traduzido por Letícia Mendes.
" />