xereca existencial

xereca na ugra press 2014

“Miga, faz um zininho, eu coloco na minha bancada!”

Foi o que me disse a Elisa, minha BFF no Rio e dona, junto com seu companheiro, da Editora Criatura. Isso faz um ano e meio, a gente se conheceu fazendo um curso aleatório no Parque Lage e ela e o Andrei foram meus primeiros amigos (que eu mesma fiz) no Rio.

 
[caption id="attachment_5100" align="aligncenter" width="960"]criatura Bancada da criatura na Pão de Forma em Abril de 2014, no Rio[/caption]  
Eles iam expor na Feira Plana em Março de 2014 e fiquei pensando sobre qual assunto eu poderia fazer, afinal, pode tudo! Hahaha, muita liberdade chega até a ser um tanto castrador. Pensei em fazer um zine sobre política, eu já tinha participado de zines durante a faculdade, mas não eram meus, sempre como convidada, escrevendo poesias concretas (risos) e as vezes desenhando.

 
[caption id="attachment_5103" align="aligncenter" width="500"]giphy1 Quem sou eu pra escrever sobre qualquer coisa? *medinho*[/caption]  

Faltando poucos dias para a Elisa partir pra São Paulo, eu ainda não havia começado a fazer o zine. Já tinha um nome, mas não tinha escrito nada, ia chamar A Febre do Rato, em homenagem ao filme brasileiro que é excelente, inclusive se você ainda não tiver assistido, fica a dicona. Criei página no fb, porque sou dessas, adoro colocar o carro na frente dos bois e depois pensei: “vou fazer xerocado mermo”. E da palavra xerocar, eu pensei: “xerecado, xereca!”. E foi nesse momento que eu resolvi fazer o zine xereca, a partir da palavra xerox, para decepção de muites, hahaha!

 
[caption id="attachment_5105" align="aligncenter" width="500"]1 Quem dera se tivesse sido assim, ou não! HAHA[/caption]  
Fiz uns desenhos de tudo o que me lembrava xereca e pronto, estava pronto, estava tosco, xerocado, papel a4 dobrado ao meio, xerox zoadona e entreguei os zines pra Elisa já em São Paulo. Eu tinha ido visitar o meu pai (que mora lá) e fui na feira Plana entregar os zines. Estava ficando doente, com a resistência baixa e por isso não fiquei pela feira, fui embora, mas voltaria no dia seguinte pra saber como tinha sido. Cheguei no final da feira, já no melhor momento, a xepa! Elisa me disse que um grupo de meninas feministas tinham visto o zine e queriam falar comigo, fiquei super animada! Elisa apontou onde elas estavam e fui falar com elas, e eu não sabia quem eram, mas me aproximei da Gabi (lovelove6) e perguntei se ela queria falar comigo, a Gabi nem sabia do que eu estava falando, fiquei ultra envergonhada, HAHAHA. Mas no final, juntou uma meninada boa e trocamos nossos zines, eu era virjona dessa galera conhecida (ainda sou), tinha acabado de trocar zines com a lovelove6, magra de ruim, tailor com seu maravilhoso queer horror, as meninas do zine xxx como um todo (Aline, Laura, Morgana, Mazô, Beatriz, isso eu só fui descobrir muito depois).

 
1
 
Um novo mundo estava se desdobrando na minha frente, o mundo das feiras de arte independente, o mundo do feminismo, da militância artística, foi tudo muito novo e engrandecedor e eu tenho tudo a agradecer à Elisa! ♡ – a própria já era uma punkinha desde os 15 anos, já manjava dos paranauês há muito tempo. Apesar de no espírito eu já ser feminista desde adolescente, eu não conhecia nenhum termo, tudo era bem novo pra mim.

 
[caption id="attachment_5147" align="aligncenter" width="389"]4 Elisa atrapalhando o trânsito da Ellen e melhorando o meu astrológico[/caption]  
Por causa do xereca, que começou a fazer um sucesso ridículo no facebook (eu atribuo a rapidez ao nome), pude conhecer mulheres fantásticas e comecei a fazer parte de um coletivo de mulheres incríveis, o coletivo Raiotage. Foi com o Raiotage que eu me tornei feminista, aprendi o que é interseccionalismo, fiquei muito amiga da Rosário, rainha da maternagem feminista, bissexual, cangaceira migrante do Piauí/Tocantins, me ajudou a desconstruir muita coisa na base do amor, doía mas doía de leve, hahaha. Havia também a Ingrid, paraense arretada, produtora infalível e divertida demais, namorada da Amanda, primeira pessoa da família dela a fazer faculdade e que nesse momento está brilhando muito estudando engenharia em Berlim pelo Ciências Sem Fronteiras. Hanna, sucesso mundial (piada interna carioca), de Queimados, super desenhista e uma tímida musicista, Micha de Belford Roxo, desenha muito, super fã de Frida e Jodie Foster, Joy que tem uma banda ótima chamada Vivá e é vegana no sentido real da palavra. Um tempo depois fui conhecer a Genice que estava adormecida no grupo mas que fui me tornar muitíssimo amiga e por fim, e propositadamente deixei por fim, a Soso.

 

soso

 

Soso é queen of the tretas na internet, se você conhece a Soso ao vivo você jamais vai identificar a fortaleza online que é essa mulher, hahaha. Com a Soso foi com quem eu mais desconstruí dolorosamente, foi com ela que eu entendi que feminismo não é um clube, não é uma bolha, é política e foi com ela que eu aprendi o real significado de interseccional. Soso é uma mulher negra, lésbica e acho que ela se auto apresentaria também como periférica. Foi com ela que aprendi a importância e urgência do feminismo negro, essa luta que eu sempre vou colocar na frente da minha e apoiar ao máximo, e por isso só tenho a agradecer miga, obrigada.

 

Digna de Bethânia alterar a música para:

‘rainha das treeeeetas, treta boa, treta ruim’

 
Depois de um tempo, entrei numa onda de me fechar, diante de tantas mulheres fodas com seus lugares de fala e protagonismos, achei melhor sair do Raiotage e continuar sozinha, só com a página xereca que agora já nem fala sobre o zine e não o vendo mais online. Já havia realizado duas feiras Piranha (uma feira só de expositoras mulheres), tinha feito um Cine xereca, havia dado palestra no Ministério da Saúde do Rio, estava um pouco cansada de achar que eu tinha uma certa responsabilidade em manter diálogo e querer compartilhar minhas desconstruções. Cada um tem sua hora, se peita o embate e não ouve quem tem lugar de fala, vai ser confrontado de novo em outro espaço de discussão em outro momento, não tem como escapar. O que precisei entender é que não precisava me sentir culpada por isso. Resolvi ir me desligando de todos os grupos feministas dos quais fazia parte e na grande maioria deles o mesmo ponto sempre se cruzava: feminismo branco pedindo sororidade pra feminismo negro, aquela vergonha alheia do caramba, ninguém sabendo conduzir nada (eu inclusive) e tenho certeza que a impessoalidade de ter um computador como intermédio numa discussão piora muito as coisas.

 

Deixo aqui uma ótima trilha sonora para pós tretas

 
Do zine, virou uma página e hoje em dia a página xereca virou uma página de feminismo interseccional que só fornece notícias ótimas, sem nenhum gatilho e acho que vai continuar a ser isso até quando eu cansar de alimentar a página (esse dia não está longe!), hahaha. Recebi um convite da Nina (Ovelha mãe) para fazer parte do grupo das Ovelhas e apesar de nos últimos tempos estar um pouco ausente (faz parte da minha onda de desfechos), é como eu pretendo manter estimulado o meu feminismo. Dividir experiências empiricamente pra quem quiser ler e fazer mais trocas ao vivo, porque online estamos em nossas bolhas e quem realmente precisa, está fora dela.

Os planos são muitos, daqui a pouco a xereca vai pousar em Barcelona e muitas novidades virão, enquanto isso, a última grande feira que xereca vai participar vai ser a Tijuana em SP, em Agosto. Possivelmente vai rolar uma festinha até o final do ano, pra fechar esse ciclo com xereca de ouro. Esse último 1 ano e meio foram de pouca grana, muito amor e se eu pudesse, eu faria tudo de novo. Só tenho a agradecer a todas (e quando eu digo todas, eu quero dizer todas) as pessoas que cruzaram meu caminho nesse tempo, mesmo as que os embates foram calorosos e não findados, especialmente às mulheres.

Nunca escrevi textos pessoais e tenho feito direto aqui na Ovelha. Isso tem sido muito importante pra mim e pela quantidade de mensagens que recebo e comentários positivos acerca dos assuntos abordados, acredito que tenha feito bem à outras pessoas também. Quis compartilhar um pouco dessa história porque em Julho, xereca chegou a 20 mil curtidas no fb e eu acredito que nesses tempos de negatividade política e problematizações doídas, nossas amizades, nossos projetos pessoais ainda possam nos dar um pouco de esperança!
 

Juntxs somos mais fortes!
O futuro da xereca só à deusa pertence. ♡
A-woman. ♀

 
bless

Tags relacionadas
, , , ,
Mais de Bárbara Gondar

Gilmore Girls aos 30

Muitas amigas postaram no Facebook, em meados de Junho, assuntos sobre Gilmore Girls e contando que estavam revendo a série. Falavam sobre as experiências nostálgicas, identificações com a Rory por ter a mesma idade na época em que foi lançada, por serem tímidas, por lidarem com assuntos escolares, primeiros amores, etc. Decidi então começar a ver também para poder interagir com o assunto e ter essa memória coletiva com minhas amigas.

 

 

Preciso avisar que vai ter spoiler, será?

 


 

 
Quando vi a abertura pela primeira vez, há mais ou menos três meses, achei que fosse ser uma série muito tosca. Vamos combinar, não há nada mais ano dois mil do que uma abertura em sépia com uma música cafonérrima (e o armário da Lorelai, risos), certo? Mal sabia que, pelas próximas três semanas, eu veria as 7 temporadas e não pularia a abertura para bater palmas no ritmo da música, aquela, cafonérrima.

 

 
Antes de começar, eu estava com medo porque sabia um pouco do mote e não tive um relacionamento muito bom com a minha mãe durante boa parte da minha vida. Talvez por isso eu tivesse evitado essa série 15 anos atrás, tinha medo da série me gerar gatilhos emocionais fortes por causa disso. Os gatilhos aconteceram, por mais que eu tenha esperado 15 anos, mas por motivos que eu jamais iria imaginar.

Comecei a assistir a série e muito resumidamente, eu era a Lorelai, hahaha. Eu estava ali me vendo, vendo meu humor sarcástico, irônico e rápido (com piadas ruins sim, haha) ser usado em defesa de babaquices atuais e traumas de infância. Eu estava vendo a personagem que, desde de que saiu de casa, não conseguiu se relacionar construtivamente com seus pais. Tanto eu quanto Lorelai carregávamos uma sensação de justiça misturada com culpa e auto salvação nesse tal ~ sair de casa. Até mesmo o meu pai é ao mesmo tempo o Richard e a Emily (pais da Lorelai e avôs da Rory), a semelhança é muito gritante em muitos aspectos. Isso foi bastante surpreendente, e é claro que eu não me identificaria com a Rory, eu tenho 30 anos, eu me identifiquei com a Lorelai (que tem 32 quando a série começa) na hora, haha. A adolescente problema, expansiva, que começou a transar cedo, beber e quebrar impostos padrões de comportamento e ser bastante julgada por isso.

 

 

Acho que já estamos íntimas o suficiente para chamar Gilmore Girls de GG, risos.

 
Percebi que, mesmo não tendo lido nada sobre a série antes, GG havia sido criada e escrita por uma mulher. Os motivos eram todos óbvios, o mote principal é uma mãe solteira que teve sua filha adolescente. Os personagens masculinos são personagens muito reais aos olhos de uma mulher, falhas reais, diálogos tão reais que chegam a gatilhar relacionamentos passados. As personagens secundárias não ficam para trás, mulheres fortíssimas como as apaixonantes e diferentes Lane e Paris, a maravilhosa Sookie e as personagens femininas mais distantes do núcleo principal tão maravilhosas quanto, Miss Patty, uma mulher grande e lasciva, Babete com sua incrível voz e por que não, Gipsy? A mecânica da cidade. Uma mulher mecânica. Quem não gostaria de se mudar para Stars Hollow?

Inclusive, fiquei um tempão pensando, “cara, da onde eu conheço essa menina (Paris)?”, perguntei pro meu companheiro e ele matou a charada: de HTGAWM! Cara, se é pra tombar, tombei, hahaha! Inclusive, tirei uns prints de algumas pessoas que conheci fora da série e aí elas surgiram e eu ficava: “AH MAS OLHA ALI FULANO DE NUM SEI ONDE!”. Vem comigo para alguns prints reveladores, risos.

 

 
Quero fazer um belo adendo aqui sobre a personagem Sookie. Ela é gorda, ela emagrece, ela engravida duas vezes, ela engorda e em NENHUM momento da série, NENHUM, alguém fala sobre o corpo dela. Eu sei porque, como sou gorda, fiquei esperando esse momento chegar e nunca chegou, gordofobia, não há. Obrigada a todos os envolvidos. <3

 

 
Nos primeiros episódios já senti que viriam incríveis temporadas à frente. Apesar de achar que GG reproduz bastante machismo, é uma série muito real, de situações e relacionamentos reais, com diálogos reais e portanto, apesar de ficcional, o ambiente é a nossa sociedade patriarcal. Porém, como já disse, logo nos primeiros capítulos, Rory lança a maravilhosa frase, que me fez escalonar o amor pela série rapidamente:

É o nome da minha mãe também (Rory falando com Dean). Ela me nomeou por causa de seu nome. Ela estava deitada no hospital pensando como homens nomeavam garotos com o nome deles todo o tempo, sabe, então por que mulheres também não poderiam? Ela disse que o feminismo dela meio que tomou conta

Falando em Dean, vi que muitas pessoas estão escolhendo times de possíveis maridos para a Rory. POR QUE, GENTE? POR QUE? Apesar da série ter diferentes pares românticos para cada uma das personagens principais, o mais importante são os relacionamentos de amizade, de mãe e filha, são os sentimentos puros entre as mulheres da série! Eu sou #teamRory, #teamLorelai! Até porque, é muita (falta de) sacanagem você delimitar o futuro companheiro da Rory entre os 3 primeiros caras com quem ela se relacionou, PLMDDS, ponha-se no lugar dela! Não sei vocês, mas as três primeiras pessoas com quem eu me relacionei podem ficar guardadinhas na memória lá no meu passado, muito obrigada, de nada, vamos cancelar agora mesmo o churrasco da escola, valeu?

 

 
Pisciana que sou, apesar de achar estranho todo esse revival da série entre as minhas amigas em meados de junho, só depois de ter terminado as 7 temporadas e chorado por pelo menos 2 minutos com a cara afundada no travesseiro que eu fui saber que teria a volta de GG em novembro. Acredite ou não, história verídica, hahaha. Isso valeu por mais 2 minutos de choradas no travesseiro. Agora faltam apenas 7 dias para os 4 episódios de 90 min. cada de Gilmore Girls. Já combinei de ver junto cazamiga, já mandei fazer camiseta (juro), já estamos selecionando todas as comidas deliciosas que vamos pedir e bom, acho que depois a gente conversa pra saber se as expectativas foram alcançadas, não é mesmo?
 

 
Ilustração feita com exclusividade por Sarah Assaf.
 

Leia mais
BFF no Rio e dona, junto com seu companheiro, da Editora Criatura. Isso faz um ano e meio, a gente se conheceu fazendo um curso aleatório no Parque Lage e ela e o Andrei foram meus primeiros amigos (que eu mesma fiz) no Rio.

 

 
Eles iam expor na Feira Plana em Março de 2014 e fiquei pensando sobre qual assunto eu poderia fazer, afinal, pode tudo! Hahaha, muita liberdade chega até a ser um tanto castrador. Pensei em fazer um zine sobre política, eu já tinha participado de zines durante a faculdade, mas não eram meus, sempre como convidada, escrevendo poesias concretas (risos) e as vezes desenhando.

 

 

Faltando poucos dias para a Elisa partir pra São Paulo, eu ainda não havia começado a fazer o zine. Já tinha um nome, mas não tinha escrito nada, ia chamar A Febre do Rato, em homenagem ao filme brasileiro que é excelente, inclusive se você ainda não tiver assistido, fica a dicona. Criei página no fb, porque sou dessas, adoro colocar o carro na frente dos bois e depois pensei: “vou fazer xerocado mermo”. E da palavra xerocar, eu pensei: “xerecado, xereca!”. E foi nesse momento que eu resolvi fazer o zine xereca, a partir da palavra xerox, para decepção de muites, hahaha!

 

 
Fiz uns desenhos de tudo o que me lembrava xereca e pronto, estava pronto, estava tosco, xerocado, papel a4 dobrado ao meio, xerox zoadona e entreguei os zines pra Elisa já em São Paulo. Eu tinha ido visitar o meu pai (que mora lá) e fui na feira Plana entregar os zines. Estava ficando doente, com a resistência baixa e por isso não fiquei pela feira, fui embora, mas voltaria no dia seguinte pra saber como tinha sido. Cheguei no final da feira, já no melhor momento, a xepa! Elisa me disse que um grupo de meninas feministas tinham visto o zine e queriam falar comigo, fiquei super animada! Elisa apontou onde elas estavam e fui falar com elas, e eu não sabia quem eram, mas me aproximei da Gabi (lovelove6) e perguntei se ela queria falar comigo, a Gabi nem sabia do que eu estava falando, fiquei ultra envergonhada, HAHAHA. Mas no final, juntou uma meninada boa e trocamos nossos zines, eu era virjona dessa galera conhecida (ainda sou), tinha acabado de trocar zines com a lovelove6, magra de ruim, tailor com seu maravilhoso queer horror, as meninas do zine xxx como um todo (Aline, Laura, Morgana, Mazô, Beatriz, isso eu só fui descobrir muito depois).

 
1
 
Um novo mundo estava se desdobrando na minha frente, o mundo das feiras de arte independente, o mundo do feminismo, da militância artística, foi tudo muito novo e engrandecedor e eu tenho tudo a agradecer à Elisa! ♡ – a própria já era uma punkinha desde os 15 anos, já manjava dos paranauês há muito tempo. Apesar de no espírito eu já ser feminista desde adolescente, eu não conhecia nenhum termo, tudo era bem novo pra mim.

 

 
Por causa do xereca, que começou a fazer um sucesso ridículo no facebook (eu atribuo a rapidez ao nome), pude conhecer mulheres fantásticas e comecei a fazer parte de um coletivo de mulheres incríveis, o coletivo Raiotage. Foi com o Raiotage que eu me tornei feminista, aprendi o que é interseccionalismo, fiquei muito amiga da Rosário, rainha da maternagem feminista, bissexual, cangaceira migrante do Piauí/Tocantins, me ajudou a desconstruir muita coisa na base do amor, doía mas doía de leve, hahaha. Havia também a Ingrid, paraense arretada, produtora infalível e divertida demais, namorada da Amanda, primeira pessoa da família dela a fazer faculdade e que nesse momento está brilhando muito estudando engenharia em Berlim pelo Ciências Sem Fronteiras. Hanna, sucesso mundial (piada interna carioca), de Queimados, super desenhista e uma tímida musicista, Micha de Belford Roxo, desenha muito, super fã de Frida e Jodie Foster, Joy que tem uma banda ótima chamada Vivá e é vegana no sentido real da palavra. Um tempo depois fui conhecer a Genice que estava adormecida no grupo mas que fui me tornar muitíssimo amiga e por fim, e propositadamente deixei por fim, a Soso.

 

soso

 

Soso é queen of the tretas na internet, se você conhece a Soso ao vivo você jamais vai identificar a fortaleza online que é essa mulher, hahaha. Com a Soso foi com quem eu mais desconstruí dolorosamente, foi com ela que eu entendi que feminismo não é um clube, não é uma bolha, é política e foi com ela que eu aprendi o real significado de interseccional. Soso é uma mulher negra, lésbica e acho que ela se auto apresentaria também como periférica. Foi com ela que aprendi a importância e urgência do feminismo negro, essa luta que eu sempre vou colocar na frente da minha e apoiar ao máximo, e por isso só tenho a agradecer miga, obrigada.

 

Digna de Bethânia alterar a música para:

‘rainha das treeeeetas, treta boa, treta ruim’

 
Depois de um tempo, entrei numa onda de me fechar, diante de tantas mulheres fodas com seus lugares de fala e protagonismos, achei melhor sair do Raiotage e continuar sozinha, só com a página xereca que agora já nem fala sobre o zine e não o vendo mais online. Já havia realizado duas feiras Piranha (uma feira só de expositoras mulheres), tinha feito um Cine xereca, havia dado palestra no Ministério da Saúde do Rio, estava um pouco cansada de achar que eu tinha uma certa responsabilidade em manter diálogo e querer compartilhar minhas desconstruções. Cada um tem sua hora, se peita o embate e não ouve quem tem lugar de fala, vai ser confrontado de novo em outro espaço de discussão em outro momento, não tem como escapar. O que precisei entender é que não precisava me sentir culpada por isso. Resolvi ir me desligando de todos os grupos feministas dos quais fazia parte e na grande maioria deles o mesmo ponto sempre se cruzava: feminismo branco pedindo sororidade pra feminismo negro, aquela vergonha alheia do caramba, ninguém sabendo conduzir nada (eu inclusive) e tenho certeza que a impessoalidade de ter um computador como intermédio numa discussão piora muito as coisas.

 

Deixo aqui uma ótima trilha sonora para pós tretas

 
Do zine, virou uma página e hoje em dia a página xereca virou uma página de feminismo interseccional que só fornece notícias ótimas, sem nenhum gatilho e acho que vai continuar a ser isso até quando eu cansar de alimentar a página (esse dia não está longe!), hahaha. Recebi um convite da Nina (Ovelha mãe) para fazer parte do grupo das Ovelhas e apesar de nos últimos tempos estar um pouco ausente (faz parte da minha onda de desfechos), é como eu pretendo manter estimulado o meu feminismo. Dividir experiências empiricamente pra quem quiser ler e fazer mais trocas ao vivo, porque online estamos em nossas bolhas e quem realmente precisa, está fora dela.

Os planos são muitos, daqui a pouco a xereca vai pousar em Barcelona e muitas novidades virão, enquanto isso, a última grande feira que xereca vai participar vai ser a Tijuana em SP, em Agosto. Possivelmente vai rolar uma festinha até o final do ano, pra fechar esse ciclo com xereca de ouro. Esse último 1 ano e meio foram de pouca grana, muito amor e se eu pudesse, eu faria tudo de novo. Só tenho a agradecer a todas (e quando eu digo todas, eu quero dizer todas) as pessoas que cruzaram meu caminho nesse tempo, mesmo as que os embates foram calorosos e não findados, especialmente às mulheres.

Nunca escrevi textos pessoais e tenho feito direto aqui na Ovelha. Isso tem sido muito importante pra mim e pela quantidade de mensagens que recebo e comentários positivos acerca dos assuntos abordados, acredito que tenha feito bem à outras pessoas também. Quis compartilhar um pouco dessa história porque em Julho, xereca chegou a 20 mil curtidas no fb e eu acredito que nesses tempos de negatividade política e problematizações doídas, nossas amizades, nossos projetos pessoais ainda possam nos dar um pouco de esperança!
 

Juntxs somos mais fortes!
O futuro da xereca só à deusa pertence. ♡
A-woman. ♀

 
bless

" />