Entrevistamos a Luiza do canal Tá, Querida ♡

Como não jornalista que sou, porém muito curiosa nas artes da escrita, fui ousada e alegre em fazer uma entrevista. O problema de não ter nenhuma graduação em jornalismo é não ter um parâmetro de como entrevistar alguém (entre muitos outros problemas, risos), mas também pode ser uma grande virtude porque pode quebrar o formato academicista e quadrado. Tenho certeza que não sou pioneira, mas fiz essa introdução apenas para te confirmar que as coisas sairão dos trilhos nos próximos parágrafos, tá, querida? #AquiÉfreeStaile

Provavelmente conheci a Luiza em 2014 quando, no Rio de Janeiro, estavam bombando os encontros de coletivos e grupos virtuais de feminismo. Nos esbarramos várias vezes, entre eventos feministas, marchas, feiras de arte gráfica independente. Depois de um período sem internet no começo do ano, quando a luz do http voltou à minha vida, descobri com o maior sorrisão no rosto que ela havia aberto um canal no YouTube. Sem mais delongas, postarei nossa conversa maravilhosa em forma de uma entrevista desconstruída (palavra do ano, amo).

DICULGAÇAOCANAL (1)

Tá, Querida, #RumoAos15k

(Quem está lendo a entrevista em 2020 está rindo com o #RumoAos15k, certeza)

Ovelha: Oi miga, tudo bem? Desculpa a demora para te mandar a entrevista, é que é muito difícil entrevistar alguém que, apesar de você já conhecer pessoalmente e ter compartilhado ambientes de luta, admira tanto pode acabar sendo um empecilho, hahaha. Então na verdade eu não estava atribulada não, só chupando o dedo tentando não parecer uma idiota, fazendo perguntas mais do mesmo.
O que me leva à primeira pergunta. Como mulheres, sabemos que temos inseguranças mil e você trabalha muito bem a segurança de nossos corpos. Se você puder contar um pouco como foi realizar o seu trabalho de conclusão de curso, tenho certeza que muitas de nós vamos amar saber sobre!

Tá, Querida: quando eu fui num rolê que você tava fiquei muito besta de ver que a gente era tipo migas hahahahahaha. Enfim…fiquei muito feliz de saber que é um amor louco mútuo!!! <3 haha. Agora vamos as perguntas que eu tbm amei!!!! <3333

A história é meio longa. Vou tentar resumir. Em 2013 eu fiz um intercâmbio de 1 ano para a Inglaterra. Como era uma bolsa do Ciências Sem Fronteiras eu precisaria executar um projeto durante o intercâmbio para apresentar ao CNPQ. O projeto que fiz foi o #curtadocumentárioexperimental Espelho Torcido. O curta se trata de imagens de partes do meu corpo pelado, mostrando todas aos pedaços que mais odiava em mim. A ideia era tentar de alguma forma me forçar a encarar meu próprio corpo. Eu coloquei o vídeo na internet e tive uma ótima repercussão! Saiu em blogs, páginas, tumblrs etc. A partir daí várias pessoas me procuraram com depoimentos maravilhosos de como o filme havia ajudado em seus processos de empoderamento. E dessa forma eu acabei me empoderando também. E foi maravilhoso! Esse projeto serviu de partida inicial para eu depois vir a desenvolver meu TCC, um curta documentário chamado GORDA.

A ideia era tentar proporcionar a outras mulheres o mesmo processo que aconteceu comigo. Ao se deixarem ser filmadas, elas poderiam de alguma forma conseguir enxergar beleza em seus corpos. Sendo assim, o documentário trata da relação de 3 mulheres gordas com seus próprios corpos.

Quando fechei a ideia do projeto, coloquei na internet um formulário para a seleção das personagens! Em duas semanas, obtive 554 inscrições! Eu fechei imediatamente com medo de não dar conta do volume de depoimentos que teria para ler. (Os depoimentos desse formulário são maravilhosos, inclusive. Valeria fazer uma página só disso! haha) Fiquei uns bons meses debruçada nesses depoimentos para selecionar as personagens! Foi um processo bem difícil e demorado. As gravações também foram complicadas.

Produzi tudo praticamente sozinha entre arranjar locação, comprar figurino, conseguir equipamento, alimentação… Tudo saindo do meu bolso. Mas em compensação, tive uma rede de apoio imensa na internet. Toda a equipe do filme foi formada por mulheres que conheci na internet! Isso sem contar todas as outras que ajudaram compartilhando, apoiando e dando amor e força pra continuar! Foi um processo super difícil e desgastante, mas hiper recompensador e maravilhoso. Nunca havia experimentado tanto amor em uma relação de trabalho assim! Só pra falar que as minas são ABSOLUTAS! Enfim… O filme ainda não está pronto, mas vai sair! Se tudo certo até o final do ano eu lanço ele bem lindão no YouTube! A ideia é que todas as gordas (e as não gordas tbm) assistam! Como eu sei que não tô só, tenho fé que esse filme vai fazer muito barulho na interweb e vai ajudar muitas minas!

Espelhocapa2

Captura de Tela 2016-09-15 às 03.12.42

Ovelha: Como eu sempre queimo a largada, me conta, qual o seu nome, o que você faz, quantos anos você tem, onde você mora, de onde você é, qual o seu signo (brinks, sei que você não acredita) etc? Resumidamente, WHO ARE YOU IN THE LINE OF THE BREAD, Risos.

Tá, Querida: Meu nome é Luiza Santos Junqueira Ribeiro, eu trabalho como editora de vídeo (e trocentas outras coisinhas) no Canal Curta! que é um canal muito massa e um dos únicos independentes da TV brasileira. Tenho 24 anos. Moro no Rio de Janeiro. Sou de São José dos Campos – SP. Não acredito muito em signo (mas acredito um pouco haha), sou aquariana com os outros dois coisos em libra e um monte de outros coisos em capricórnio também. Eu curto muito comida! Acho que é isso!

Ovelha: Eu, como você, também migrei e isso mudou muita coisa em mim. Conhecer uma nova realidade, fazer parte dessa nova realidade e conhecer pessoas novas fora da minha zona de conforto mudou muito a minha cabeça. Como foi para você sair de Sanja City (São José dos Campos) para o Rio de Janeiro?

Tá, Querida: Meus primeiros 3 anos fora de casa foram bem difíceis. Nunca fui diagnosticada com depressão (porque nunca fui em psicólogo infelizmente), mas acredito que nessa época vivi uma depressão bem complicada. Não fiz muitos amigos, mas amadureci um monte também. Depois dessa época eu fui fazer intercâmbio e foi aí que deu restart na minha vida. O fato de você sair do país e poder ver as coisas de longe ajuda muito. Sou imensamente grata por ter tido esse privilégio. Durante o intercâmbio eu tinha muito tempo livre então comecei a ficar mais ativa em grupos do facebook. Nesses ambientes conheci pessoas, novas realidades e o feminismo. Melhorei e me desconstruí muito naquele ano. Voltei pro Brasil com outra cabeça e daí sim consegui aproveitar a distância de casa para abrir ainda mais minha cabeça pra um mundo bem diferentão do que era o meu em Sanja City!

Ovelha: Qual foi o seu primeiro contato com o feminismo e como ele se desenvolveu na sua luta/militância (eu considero que muito orgânica e maravilhosamente haha)?

Tá, Querida: Meu primeiro contato com feminismo foi em grupos do Facebook sobre o assunto. Eu consumo muito literatura de Facebook. Aprendi muito em grupos com depoimentos de várias minas. Aprendi sobre a importância dos recortes dentro do feminismo e principalmente me empoderei. Grupos como Zine XXX, Selfless Poirtrait das minas (que entrei por um acaso) e todas as outras vertentes de grupos das minas foram minha escola feminista. Nunca li Simone de Beauvoir! Nunca nem conseguiria pois não me dou muito bem com literatura tradicional. (medo de assumir isso aqui e perder minha carteirinha de feminista hahaha mas é a verdade). Mas foi o feminismo que me tirou do buraco que eu estava. O feminismo salva! Amém! Então acaba que tudo o que eu faço tem alguma mensagem feminista por trás. Mas não me considero militante justamente pelo meu afastamento em relação aos movimentos e tal. Acho que é isso mesmo que você falou. O feminismo se desenvolveu organicamente nos meus discursos porque eu absorvi muito dele na internet! Mas militante mesmo eu não sou. Nem de facebook hahaha (sou daquelas lê tudo e não dá um piu).

Ovelha: É difícil perguntar alguma coisa específica sobre o seu canal porque já vi todos os seus vídeos, mas qual a chamada que você gostaria de fazer para as leitoras da Ovelha conhecerem seu canal? Qual é o vídeo que você mais gostou de fazer?

Tá Querida: Oi, Querida! Eu tenho um canal no YouTube que é uma das coisas que mais amo na vida! O Tá, Querida aborda empoderamento feminino, auto estima, receitinhas mara, cabelo colorido, cultura pop diferentona e mais um monte de coisas que não necessariamente tem relação uma com a outra. É o meu canal e eu faço o que eu quero (no ritmo de It’s My Party). Meu vídeo preferido é o que eu ensino limpar a bunda com rolinho de papel em casos emergenciais.

Ovelha: Sabemos que você estudou cinema. Qual é a sua rotina de trabalho e pesquisa para o Tá, Querida? Para alguém que quer fazer um canal, o que você indica/sugere (material e coragi)?

Tá, Querida: Minha rotina é bem orgânica (adorei essa palavra, miga hahaha). As ideias dos vídeos vão surgindo a partir das sugestões dxs queridxs. Eu vou anotando tudo, meio desorganizada, mas anoto tudo. Como eu trabalho durante a semana, uso o final de semana para gravar os vídeos e aproveitar a luz do dia. Mas as vezes me enrolo e tenho que gravar dia de semana de noite. Deixo para editar durante a semana, depois que chego do trabalho. É BEM cansativo e às vezes eu penso em diminuir isso. Mas ao mesmo tempo é tão divertido e gratificante que eu acho que estou viciada! Por enquanto sigo firme!

Pra quem fez cinema dá sempre medinho de colocar qualquer produto audiovisual na internet e chover críticas. Mas a real é que raramente isso vai acontecer, e se acontecer, foda-se! Claro que eu prezo pela qualidade audiovisual do meu canal pois eu sou formada nisso e ele meio que funciona como meu portfolio. Mas no fundo eu sei que ninguém precisa ser bonzão em audiovisual pra fazer um ótimo canal no YouTube. Eu acho que acima de tudo, o canal tem que ser feito pra própria pessoa. Faça vídeos porque você gosta de fazer vídeos, porque você gosta de assistir seus vídeos! Assim, mesmo que ninguém mais goste, será divertido e gratificante!

Ovelha: Miga, se você pudesse indicar 5 canais no YouTube, quais seriam eles? Ah, obrigada por ter indicado o Dario, eu sou apaixonada por ele! Hahaha.

Tá, Querida: Conheço muito mais de 5 canais maravilhoooosos que eu indicaria, mas de supetão indico:

Mariri (vídeos lindos de um ponto de vista hiper sensível que é da mariri! É maravilhoso)

FaM (Isabella e Felipe postam vídeos TODO DIA do cotidiano deles. Os vídeos são absurdos com edição maravilhosa, imagens incríveis e o que há de mais topper shower em SP.)

Vinni Zone (acho que é um dos meus favoritos. Tenho muito orgulho de ser amiga desse menino. Os vídeos são MUITO engraçados. A edição é impecável e ele tem um jeito com a câmera maravilhoso. Fala sobre cultura pop e coisas diversas e sempre me faz rir muito)

Jana Viscardi (uma deusa maravilhosa que fala sobre comunicação e linguagem. É muita desconstrução e amor. Sem contar que as vezes rolam umas diquinhas de mercado de trabalho BAPHO)

Dario (Meu preferido sem dúvidas. Ele posta de dois a três vídeos POR DIA! Ele faz vídeos virais e essas coisas de internet (DIY, 100 camadas de alguma coisa…) mas com o jeitinho mais cativante do universo. Ele é muito engraçado, honesto e singelo. Não tem como não amar o Dário. Sou fã tiéte mesmo.

Captura de Tela 2016-09-15 às 02.51.37

Só temos a agradecer essa pessoa maravilhosa que a Luiza é. Ela tem uma percepção de que o trabalho dela não é um tipo de militância, mas miga, aqui sem tréplicas, é sim, haha! Falar sobre empoderamento feminino, mostrar que podemos ter escolhas dentro desse universo capitalista cheios de padrões inalcançáveis, quebrar isso é sem dúvida um tipo muito impactante de militância. Principalmente com o o trabalho de áudio, onde você mostra seu rosto e abre para pessoas que você nunca viu, quem você é. Apenas muito orgulho do seu trabalho, desejo que você tenha cada vez mais inscritos e seja felizona nessa vida de minha Deusa! Digo mais, você poderia pegar aqueles todos depoimentos e montar um livro, tenho certeza que ficaria incrível.

E se você curtiu a Luiza e alguns dos vídeos que postamos dela aqui, vai lá se inscrever no canal dela, mostra para as miga e sejamos todas felizes juntas! #migas Ai, vou deixar mais um vídeo dela aqui porque amo. Hahaha.

Mais de Bárbara Gondar

A breve história de um aborto

A ONU fez um pronunciamento pedindo que o aborto fosse legalizado diante da catástrofe da Zika e os casos de microcefalia. Muitas mulheres estão escolhendo abortar com medo do feto contrair a doença durante a gestação. Com isso, achei legal fazer mais um texto sobre o assunto, segura o textão cheio de paixão aí!

Era uma vez uma menina-mulher de 19 anos, branca, classe média, que transou com um amigo e engravidou. Contou pro seu pai, pediu que pagasse um aborto e ele pagou. Ela e uma amiga também branca e classe média, foram numa clínica de aborto em um bairro classe média da cidade de São Paulo. A consulta demorou 20 minutos, marcaram o procedimento para o mesmo dia dali umas horas com um médico ginecologista de um famoso hospital de São Paulo. Elas foram dar uma volta pelo agradável bairro, voltaram e o procedimento durou 15 minutos. Acabou. Ela foi para casa com uma cólica pequena e em uma semana estava nova em folha.

Essa é a breve história do meu aborto. Provavelmente dá pra reduzir para 140 caracteres. Apesar de todo o estresse e sentimentos diversos envolvidos, politicamente esse primeiro parágrafo é o único que importa de uma história de um aborto bem sucedido. Por quê? Porque mulheres morrem todos os dias por fazerem abortos em lugares não seguros, sem higiene, etc. O maior problema é que são mulheres pobres e negras que estão morrendo diariamente por causa de um procedimento médico simples que demanda 15 minutos apenas. Nós sabemos que é praticamente crime ser pobre e negro no Brasil, ninguém liga pra essas mortes. Pelo contrário, as culpam e estigmatizam.

 

HÁ UMA CHUVA DE HATERS SOB MEUS OLHOS, DIZENDO PRA MIM “VOCÊ É PECADORA!” E NÃO DEMORA PRO MEU SANTO CAGAAAA-AAAA-AAAAR!

 

Mentira, eu não cago, tanto é que eu tô aqui pra poder expor meus pontos acerca dos principais ‘contras’ de se fazer um aborto e ser pró aborto. Se você tiver algum ponto novo, eu vou adorar saber, por favor, ou comente nesse post, ou me mande pelo meu twitter @cruishcredo. Então bora lá, começar pelo básico:

 

    • Deus é contra (e tudo o que vem com o argumento religioso)

      R: Eu tenho tanto pra lhe falar, ainda bem que com palavras eu sei dizer, sim. A primeira coisa é, respeite o livre arbítrio alheio e ponto. Tá escrito no livro que eu sei. A única que pode me julgar é Deus, então deixa com Ela, tá bom? “Por que reparas tu o cisco no olho de teu irmão, mas não percebes a viga que está no teu próprio olho?”, isso aqui meu amigo, é a bíblia mandando você cuidar dos seus problemas. Mateus 7:5, fiz meu dever de casa!Tem outro ponto aqui, o Brasil é um estado laico, ou deveria ser (#foracunha). De forma que religião não deveria ser uma questão nesse debate em hipótese alguma, se você já estudou história alguma vez na sua vida, acho que você sabe a merda que deu quando a igreja era parte do Estado, certo?

      Fora que né? Amai-vos uns aos outros, então me ama. Haha. <3

      020

       

    • É uma vida que não pode se defender sozinha!

      R: Eu acho muito engraçado quem usa esse argumento e não é vegetariano, mas vamos lá. Acho que o problema maior é a linha tênue no que pode ser considerado vida ou não, e eu respeito se você acha que a vida é criada na fecundação, mas você precisa respeitar quem acha que não, quem acha que a vida humana e animal é criada a partir de um sistema nervoso central (a partir dos dois meses e meio de gestação, creio). É uma questão moral. Caso você ache que é sim uma vida e não quer respeitar quem acha que não é, eu te pergunto, e a vida da mulher que está em risco? Querendo ou não, o aborto não vai parar de acontecer porque alguém é contra. É por isso que é preciso ser descriminalizado, porque enquanto mulheres brancas e ricas – como eu – podem ser muito bem tratadas em clínicas particulares, mulheres pobres morrem em cima de macas sujas e são jogadas em frente a hospitais públicos. É essa vida com a qual eu me preocupo, essa vida, de uma pessoa que é minoria, uma mulher, que não teve dinheiro e acabou morrendo nas mãos erradas. Canalize sua energia para essa parte da questão. Quantas mulheres famosas já saíram em capas de revista dizendo que abortaram? Nunca nenhuma foi presa, nenhuma foi indiciada, a sociedade aceita esses milhares de casos isolados de pessoas brancas e ricas, somos todos hipócritas.

       

 

    • É um ato egoísta.

      R: É egoísta pensar que não vai ter como financeiramente criar uma criança? Pensar em como não conseguir lidar com as frustrações de um ser que o pai abandonou antes de nascer? Pensar que essa criança vai lembrar eternamente um estupro que aconteceu, se tornando um fardo? Esses são alguns porquês algumas mulheres fazem abortos. Mas existem outros porquês considerados egoístas que me fazem refletir, como por exemplo… Não querer ter um filho agora porque quer acabar os estudos, ou porque simplesmente não quer, ou porque quer focar na carreira… Em uma sociedade que nega direitos às mulheres, que não garante direitos iguais perante a lei, não há representatividade legal, pensar em si em primeiro lugar é resistir, pensar em si mesma e no seu futuro, é garantir o que a lei não nos garante. Sermos donas de nossos próprios corpos é nossa obrigação.

 

    • É ilegal!

      R: Eu sei que esse é um argumento ultra inocente, mas ainda tem gente que usa, e tudo bem. Sabe o que era legal há 25 anos atrás? Racismo! Sabe o que era legal há 130 anos? Escravismo! Sabe o que é ilegal em vários estados dos Estados Unidos? Sexo oral (anal então, highway to hell, haha). Sabe o que era ilegal há 65 anos atrás? Mulheres trabalharem sem pedir permissão pro marido (mulheres brancas né, porque as negras sempre trabalharam). Sabe o que era ilegal há 84 anos atrás? Mulheres votarem. Sabe há quanto tempo, ilegalmente, realiza-se aborto? Desde que o mundo é mundo. Sempre há um chá, uma erva, um remédio e dá-se um jeito. Homens (no nosso caso gênero também, mas quis dizer no sentido de humanidade) fazem as leis, homens são corruptos e fazem as leis de acordo com o seu grau moral, seu grau de instrução ética, sempre beneficiando a si mesmos e sua bolha. Então, as vezes o que é legalizado e o que não é são questões de debate e, como o corpo de políticos brasileiro não é plural, não temos nenhuma representatividade. É por isso que minoria é chamada de minoria, não é porque somos poucos em número, mas é porque temos pouca representatividade legal.

 

  • Se não quer engravidar, use métodos contraceptivos (ou o velho, na hora de fazer não pensou, né?), ou então lide com as consequências.

    R: A consequência esperada da maioria da população em fazer sexo é gozar e ter prazer. A consequência ficar grávida recai sobre a mulher porque muitas vezes com quem ela transou não está nem aí pra saber disso. Se essa consequência recai na mulher, ela é quem deve decidir levar à frente ou não, o corpo é dela e a decisão é e deve ser dela. Fim de papo. E muitas vezes a gente não pensa mesmo, ou porque bebeu, ou porque está bão demais, ou porque o cara falhou na hora de tirar, existem mil possibilidades, sem contar os estupros, que não são poucos. De qualquer forma, métodos contraceptivos falham. Pílulas do dia seguinte falham (me falharam). Nenhuma mulher não vai se proteger pensando em “ah, tudo bem, depois eu faço um aborto”. Não, não vai. Shhh. Nope. Ñ. Sem chance.

     

Por favor, você que é a favor da descriminalização do aborto, jamais use o argumento de que menos crianças indesejadas, menor é a população pobre e diminui o crime. Esse argumento é preconceituoso, e quando usado para ser a favor do aborto é eugenista. Apenas pare. O aborto deve ser apoiado por ser um direito da mulher escolher para si o que é melhor, e não usado para apoiar ~ limpeza social ~ (que expressão escrota).

 

Ainda para as pessoas que são a favor, não faço e acho que também não deveriam fazer a comparação de um aborto de uma mulher com um abandono de uma criança pelo pai pelo simples fato de achar que o abandono é extremamente pior. Cresce-se uma criança sozinha, abandonada, tendo que lidar com inúmeros fatores a mais por causa da sua história e é frustrante e recorrente.

Países como o Uruguai que descriminalizaram o aborto tiveram uma queda significativa em relação ao procedimento. Sabe o por quê? Porque quando um assunto deixa de ser um tabu e se torna uma questão de saúde pública, mulheres têm mais opções para lidar com o assunto, mais conhecimento sobre o procedimento, mais clareza, ajuda psicológica providenciada, etc. Você não precisa ser a favor do aborto para ser a favor da legalização dele, já pensou nisso? :) Olha só essa matemática feita especialmente para pessoas de humanas, como eu:

x fetos morrem por ano. Se o aborto é ilegal e inseguro: X fetos morrerão + um número Y de pessoas também morrerão pelas consequências de terem tentado fazer um aborto ilegal e inseguro. Tendo um aborto legal e seguro, salvamos Y. Eu fico com a opção que salva mais vidas, e você?

 

Ilustração feita com exclusividade por lovelove6.

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um canal no YouTube. Sem mais delongas, postarei nossa conversa maravilhosa em forma de uma entrevista desconstruída (palavra do ano, amo).

DICULGAÇAOCANAL (1)

Tá, Querida, #RumoAos15k

(Quem está lendo a entrevista em 2020 está rindo com o #RumoAos15k, certeza)

Ovelha: Oi miga, tudo bem? Desculpa a demora para te mandar a entrevista, é que é muito difícil entrevistar alguém que, apesar de você já conhecer pessoalmente e ter compartilhado ambientes de luta, admira tanto pode acabar sendo um empecilho, hahaha. Então na verdade eu não estava atribulada não, só chupando o dedo tentando não parecer uma idiota, fazendo perguntas mais do mesmo.
O que me leva à primeira pergunta. Como mulheres, sabemos que temos inseguranças mil e você trabalha muito bem a segurança de nossos corpos. Se você puder contar um pouco como foi realizar o seu trabalho de conclusão de curso, tenho certeza que muitas de nós vamos amar saber sobre!

Tá, Querida: quando eu fui num rolê que você tava fiquei muito besta de ver que a gente era tipo migas hahahahahaha. Enfim…fiquei muito feliz de saber que é um amor louco mútuo!!! <3 haha. Agora vamos as perguntas que eu tbm amei!!!! <3333

A história é meio longa. Vou tentar resumir. Em 2013 eu fiz um intercâmbio de 1 ano para a Inglaterra. Como era uma bolsa do Ciências Sem Fronteiras eu precisaria executar um projeto durante o intercâmbio para apresentar ao CNPQ. O projeto que fiz foi o #curtadocumentárioexperimental Espelho Torcido. O curta se trata de imagens de partes do meu corpo pelado, mostrando todas aos pedaços que mais odiava em mim. A ideia era tentar de alguma forma me forçar a encarar meu próprio corpo. Eu coloquei o vídeo na internet e tive uma ótima repercussão! Saiu em blogs, páginas, tumblrs etc. A partir daí várias pessoas me procuraram com depoimentos maravilhosos de como o filme havia ajudado em seus processos de empoderamento. E dessa forma eu acabei me empoderando também. E foi maravilhoso! Esse projeto serviu de partida inicial para eu depois vir a desenvolver meu TCC, um curta documentário chamado GORDA.

A ideia era tentar proporcionar a outras mulheres o mesmo processo que aconteceu comigo. Ao se deixarem ser filmadas, elas poderiam de alguma forma conseguir enxergar beleza em seus corpos. Sendo assim, o documentário trata da relação de 3 mulheres gordas com seus próprios corpos.

Quando fechei a ideia do projeto, coloquei na internet um formulário para a seleção das personagens! Em duas semanas, obtive 554 inscrições! Eu fechei imediatamente com medo de não dar conta do volume de depoimentos que teria para ler. (Os depoimentos desse formulário são maravilhosos, inclusive. Valeria fazer uma página só disso! haha) Fiquei uns bons meses debruçada nesses depoimentos para selecionar as personagens! Foi um processo bem difícil e demorado. As gravações também foram complicadas.

Produzi tudo praticamente sozinha entre arranjar locação, comprar figurino, conseguir equipamento, alimentação… Tudo saindo do meu bolso. Mas em compensação, tive uma rede de apoio imensa na internet. Toda a equipe do filme foi formada por mulheres que conheci na internet! Isso sem contar todas as outras que ajudaram compartilhando, apoiando e dando amor e força pra continuar! Foi um processo super difícil e desgastante, mas hiper recompensador e maravilhoso. Nunca havia experimentado tanto amor em uma relação de trabalho assim! Só pra falar que as minas são ABSOLUTAS! Enfim… O filme ainda não está pronto, mas vai sair! Se tudo certo até o final do ano eu lanço ele bem lindão no YouTube! A ideia é que todas as gordas (e as não gordas tbm) assistam! Como eu sei que não tô só, tenho fé que esse filme vai fazer muito barulho na interweb e vai ajudar muitas minas!

Espelhocapa2

Captura de Tela 2016-09-15 às 03.12.42

Ovelha: Como eu sempre queimo a largada, me conta, qual o seu nome, o que você faz, quantos anos você tem, onde você mora, de onde você é, qual o seu signo (brinks, sei que você não acredita) etc? Resumidamente, WHO ARE YOU IN THE LINE OF THE BREAD, Risos.

Tá, Querida: Meu nome é Luiza Santos Junqueira Ribeiro, eu trabalho como editora de vídeo (e trocentas outras coisinhas) no Canal Curta! que é um canal muito massa e um dos únicos independentes da TV brasileira. Tenho 24 anos. Moro no Rio de Janeiro. Sou de São José dos Campos – SP. Não acredito muito em signo (mas acredito um pouco haha), sou aquariana com os outros dois coisos em libra e um monte de outros coisos em capricórnio também. Eu curto muito comida! Acho que é isso!

Ovelha: Eu, como você, também migrei e isso mudou muita coisa em mim. Conhecer uma nova realidade, fazer parte dessa nova realidade e conhecer pessoas novas fora da minha zona de conforto mudou muito a minha cabeça. Como foi para você sair de Sanja City (São José dos Campos) para o Rio de Janeiro?

Tá, Querida: Meus primeiros 3 anos fora de casa foram bem difíceis. Nunca fui diagnosticada com depressão (porque nunca fui em psicólogo infelizmente), mas acredito que nessa época vivi uma depressão bem complicada. Não fiz muitos amigos, mas amadureci um monte também. Depois dessa época eu fui fazer intercâmbio e foi aí que deu restart na minha vida. O fato de você sair do país e poder ver as coisas de longe ajuda muito. Sou imensamente grata por ter tido esse privilégio. Durante o intercâmbio eu tinha muito tempo livre então comecei a ficar mais ativa em grupos do facebook. Nesses ambientes conheci pessoas, novas realidades e o feminismo. Melhorei e me desconstruí muito naquele ano. Voltei pro Brasil com outra cabeça e daí sim consegui aproveitar a distância de casa para abrir ainda mais minha cabeça pra um mundo bem diferentão do que era o meu em Sanja City!

Ovelha: Qual foi o seu primeiro contato com o feminismo e como ele se desenvolveu na sua luta/militância (eu considero que muito orgânica e maravilhosamente haha)?

Tá, Querida: Meu primeiro contato com feminismo foi em grupos do Facebook sobre o assunto. Eu consumo muito literatura de Facebook. Aprendi muito em grupos com depoimentos de várias minas. Aprendi sobre a importância dos recortes dentro do feminismo e principalmente me empoderei. Grupos como Zine XXX, Selfless Poirtrait das minas (que entrei por um acaso) e todas as outras vertentes de grupos das minas foram minha escola feminista. Nunca li Simone de Beauvoir! Nunca nem conseguiria pois não me dou muito bem com literatura tradicional. (medo de assumir isso aqui e perder minha carteirinha de feminista hahaha mas é a verdade). Mas foi o feminismo que me tirou do buraco que eu estava. O feminismo salva! Amém! Então acaba que tudo o que eu faço tem alguma mensagem feminista por trás. Mas não me considero militante justamente pelo meu afastamento em relação aos movimentos e tal. Acho que é isso mesmo que você falou. O feminismo se desenvolveu organicamente nos meus discursos porque eu absorvi muito dele na internet! Mas militante mesmo eu não sou. Nem de facebook hahaha (sou daquelas lê tudo e não dá um piu).

Ovelha: É difícil perguntar alguma coisa específica sobre o seu canal porque já vi todos os seus vídeos, mas qual a chamada que você gostaria de fazer para as leitoras da Ovelha conhecerem seu canal? Qual é o vídeo que você mais gostou de fazer?

Tá Querida: Oi, Querida! Eu tenho um canal no YouTube que é uma das coisas que mais amo na vida! O Tá, Querida aborda empoderamento feminino, auto estima, receitinhas mara, cabelo colorido, cultura pop diferentona e mais um monte de coisas que não necessariamente tem relação uma com a outra. É o meu canal e eu faço o que eu quero (no ritmo de It’s My Party). Meu vídeo preferido é o que eu ensino limpar a bunda com rolinho de papel em casos emergenciais.

Ovelha: Sabemos que você estudou cinema. Qual é a sua rotina de trabalho e pesquisa para o Tá, Querida? Para alguém que quer fazer um canal, o que você indica/sugere (material e coragi)?

Tá, Querida: Minha rotina é bem orgânica (adorei essa palavra, miga hahaha). As ideias dos vídeos vão surgindo a partir das sugestões dxs queridxs. Eu vou anotando tudo, meio desorganizada, mas anoto tudo. Como eu trabalho durante a semana, uso o final de semana para gravar os vídeos e aproveitar a luz do dia. Mas as vezes me enrolo e tenho que gravar dia de semana de noite. Deixo para editar durante a semana, depois que chego do trabalho. É BEM cansativo e às vezes eu penso em diminuir isso. Mas ao mesmo tempo é tão divertido e gratificante que eu acho que estou viciada! Por enquanto sigo firme!

Pra quem fez cinema dá sempre medinho de colocar qualquer produto audiovisual na internet e chover críticas. Mas a real é que raramente isso vai acontecer, e se acontecer, foda-se! Claro que eu prezo pela qualidade audiovisual do meu canal pois eu sou formada nisso e ele meio que funciona como meu portfolio. Mas no fundo eu sei que ninguém precisa ser bonzão em audiovisual pra fazer um ótimo canal no YouTube. Eu acho que acima de tudo, o canal tem que ser feito pra própria pessoa. Faça vídeos porque você gosta de fazer vídeos, porque você gosta de assistir seus vídeos! Assim, mesmo que ninguém mais goste, será divertido e gratificante!

Ovelha: Miga, se você pudesse indicar 5 canais no YouTube, quais seriam eles? Ah, obrigada por ter indicado o Dario, eu sou apaixonada por ele! Hahaha.

Tá, Querida: Conheço muito mais de 5 canais maravilhoooosos que eu indicaria, mas de supetão indico:

Mariri (vídeos lindos de um ponto de vista hiper sensível que é da mariri! É maravilhoso)

FaM (Isabella e Felipe postam vídeos TODO DIA do cotidiano deles. Os vídeos são absurdos com edição maravilhosa, imagens incríveis e o que há de mais topper shower em SP.)

Vinni Zone (acho que é um dos meus favoritos. Tenho muito orgulho de ser amiga desse menino. Os vídeos são MUITO engraçados. A edição é impecável e ele tem um jeito com a câmera maravilhoso. Fala sobre cultura pop e coisas diversas e sempre me faz rir muito)

Jana Viscardi (uma deusa maravilhosa que fala sobre comunicação e linguagem. É muita desconstrução e amor. Sem contar que as vezes rolam umas diquinhas de mercado de trabalho BAPHO)

Dario (Meu preferido sem dúvidas. Ele posta de dois a três vídeos POR DIA! Ele faz vídeos virais e essas coisas de internet (DIY, 100 camadas de alguma coisa…) mas com o jeitinho mais cativante do universo. Ele é muito engraçado, honesto e singelo. Não tem como não amar o Dário. Sou fã tiéte mesmo.

Captura de Tela 2016-09-15 às 02.51.37

Só temos a agradecer essa pessoa maravilhosa que a Luiza é. Ela tem uma percepção de que o trabalho dela não é um tipo de militância, mas miga, aqui sem tréplicas, é sim, haha! Falar sobre empoderamento feminino, mostrar que podemos ter escolhas dentro desse universo capitalista cheios de padrões inalcançáveis, quebrar isso é sem dúvida um tipo muito impactante de militância. Principalmente com o o trabalho de áudio, onde você mostra seu rosto e abre para pessoas que você nunca viu, quem você é. Apenas muito orgulho do seu trabalho, desejo que você tenha cada vez mais inscritos e seja felizona nessa vida de minha Deusa! Digo mais, você poderia pegar aqueles todos depoimentos e montar um livro, tenho certeza que ficaria incrível.

E se você curtiu a Luiza e alguns dos vídeos que postamos dela aqui, vai lá se inscrever no canal dela, mostra para as miga e sejamos todas felizes juntas! #migas Ai, vou deixar mais um vídeo dela aqui porque amo. Hahaha.

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