Assista, ouça e conheça: Chavela Vargas

A vida da cantora que se atreveu a enfrentar os padrões sociais

Chavela Vargas morreu em 5 de agosto de 2012 no México. Morreu depois de fazer o que mais gostava: cantar. Depois de seu último show, feito na Espanha, ela caiu doente e pediu à sua agente que se apressasse a voltar ao México. A morte se aproximasse e ela queria se deixar levar por ela em seu país.

A música e a solidão calada de seu falecimento definem bem, de certa forma, os 93 anos vividos por esse grande ícone da música tradicional mexicana e do movimento de mulheres lésbicas no México. A vida dessa cantora de rancheras que se atreveu a enfrentar padrões sociais é retratada lindamente em uma hora e meia de fotos antigas, entrevistas, imagens de shows e muitos outros materiais coletados pelas diretoras Catharine Gund e Daresha Kyi no seu filme documental “Chavela”.

[caption id="attachment_16043" align="aligncenter" width="630"] Foto de Maj Lindström[/caption]

Em uma época que mulheres mexicanas usavam vestidos floridos, tinham fala doce e eram muito submissas aos homens, Chavela se vestia com calças, camisas e ponchos e mantinha casos com diferentes mulheres, inclusive com nada mais nada menos do que com Frida Kahlo – sim, ela mesma. A cantora fez inclusive uma participação no filme “Frida”, em que canta “La Llorona”.

[caption id="attachment_16049" align="alignnone" width="1600"] Frida Kahlo e Chavela Vargas (Aubin Pictures)[/caption]

Isabel Vargas Lizano chegou à Cidade do México nos anos 30, ainda adolescente. Vinha de uma cidade pequena da Costa Rica, onde nasceu e já teve as primeiras dificuldades por sua aparência e identidade de gênero. Seus pais, um casal muito católico e tradicional, tinham vergonha da filha por não se comportar da forma feminina esperada. Por vezes, quando tinham visita, eles a escondiam no quarto tanto era o medo do julgamento alheio. Quando a separação veio, a pequena Isabel foi morar com tios que não a tratavam tão diferente dos pais.

Fugiu para o México, um país cheio de cultura e música que prometia tanto. “O México me recebeu, mas não foi com beijos e abraços, mas a tapas e pontapés. Como se dissesse ‘agora vou te fazer mulher’”, relembra a própria Chavela. Quando chegou, a adolescente começou a cantar nas ruas da Cidade do México. Ao longo dos anos começou a levar sua voz para bares e foi ganhando espaço na cena boêmia da cidade. Nos anos 50, ela já era um sucesso local.

Chavela se tornou cantora profissional muito em parte pela admiração do compositor José Alfredo Jiménez, seu amigo de festas e bebedeiras. Nessa época, a cantora já era conhecida por sua aparência rebelde: usava ponchos e calças; o cabelo estava sempre preso; os sapatos altos nem entravam em questão. De “Marimacho” ela era chamada muitas vezes por esse estilo masculino. Mas também foi esse estilo masculino que a fez ganhar respeito dentro da cena de música ranchera.

[caption id="attachment_16044" align="alignright" width="436"] Foto de Ysunza[/caption]

Além da forma de se vestir, Chavela também tinha que se comportar como os “típicos machos” mexicanos: carregava uma pistola consigo e “bebia mais do que os machos bebiam, ela tinha que se mostrar mais macho que os próprios homens”, descreve uma das entrevistadas no documentário. Em uma sociedade em que mulheres, e principalmente mulheres lésbicas, não eram respeitadas, a solução era se tornar quase que uma espécie de homem, como se fosse necessário negar a identidade feminina para se obter sucesso.

Toda essa pressão em cima de seu comportamento a levou a frequentar cada vez mais festas e a beber cada vez mais. O resultado foi um severo alcoolismo e um isolamento. Em um determinado momento, ela deixa a música e passa a se dedicar somente à bebida.

É por uma paixão a uma mulher que Chavela começa a esquecer das garrafas de tequila. Depois de 12 anos fora dos palcos, ela retorna com seu talento e com a garganta úmida apenas de água.

Seu renascimento acontece já na década de 1990, quando Chavela já tinha 70 anos e os tempos já eram outros. Sua aparência e orientação sexual já não eram problema tão grande (todas nós sabemos que mesmo em tempos diferentes, isso AINDA é um problema em muitos espaços sociais). É apenas nessa segunda fase de sua carreira que a cantora se assume abertamente como homossexual. No México dos anos 50, os (muitos) casos de Chavela com mulheres já estavam na boca do povo em forma de fofocas, mas a palavra “lésbica” ainda tinha um peso negativo e era quase que impronunciável.

Muitos definem a voz de Chavela como algo tão pesado e marcante que levava qualquer um facilmente às lágrimas. Uma das entrevistadas define sua voz como o tom perfeito para interpretar o canto desesperado e emocionado da música folclórica mexicana. De fato. Chavela parecia ter uma voz que vinha de um lugar fundo de sua mente e de seu ser. Parecia tomada de uma força incrível. Ela mesma diz que quando fazia pausas durante os versos não era porque havia se esquecido a letra, mas para se preparar para o verso que estava por vir.

Uma das definições que achei mais bonita sobre seu estilo de cantar é a dada por Pedro Almodóvar. O diretor usou muitas de suas músicas em seus filmes, como em “De Salto Alto” e “Kika”, e diz que chorava ouvindo suas canções. Almodóvar relembra que Chavela era uma cantora muito corpórea e orgânica, por isso, quando colocava sua música em uma cena, era como se a personagem continuasse falando através da voz de Chavela.

Muito provavelmente a força com que se deixava levar pelos seus cantos vinha dos anos de solidão e dificuldades que passou. Isso fica claro no documentário, assim como a importância dessa mulher única para gerações futuras de mulheres que não se sentem representadas por estereótipos femininos latino-americanos. Chavela Vargas abriu caminhos com sua voz: “eu canto para todas as mulheres do mundo, para as mães, as filhas, as irmãs, as esposas e as amantes”.

Escrito por
Mais de Débora Backes

Chicas na luta contra a exploração sexual

Ao ler um jornal tradicional de Madri, a diretora espanhola Mabel Lozano se deparou com um estranho anúncio: “Chicas Nuevas 24 horas”. Já era claro do que se tratava. Esses tipos de anúncios não são incomuns nas páginas de jornais espanhóis. Era um bordel que oferecia a seus clientes a possibilidade de encontrar ali meninas jovens, disponíveis a qualquer hora do dia.

Depois do breve choque – afinal, qual mulher não se sentiria chocada a ver esse tipo de anúncio no seu jornal diário? –, Mabel teve uma ideia para um novo documentário sobre tráfico de mulheres. Foi daí que começou a surgir o filme “Chicas Nuevas 24 horas”, exibido durante a Semana de Cinema Feminista de Berlim de 2016.

A diretora espanhola já é engajada com o tema desde 2007, quando lançou o seu primeiro longa documental “Voces contra la trata de mujeres” (Vozes contra o tráfico de mulheres, em português), em que denuncia a compra e venda de mulheres e meninas com fins de exploração sexual. No último documentário, Mabel quis abordar a prática criminosa desde sua fonte, ou seja, desde o rapto de jovens em cidades pobres na América Latina até a chegada à Europa.

Segundo dados revelados em “Chicas Nuevas 24 horas”, Madri é o terceiro lugar do mundo em que mais se paga por sexo, somente atrás de cidades na Tailândia e Porto Rico. Muitas das prostitutas nesses lugares foram trazidas até ali contra a vontade. Estima-se que o tráfico de pessoas gera só na Espanha 5 milhões de euros por dia. No mundo, é o terceiro negócio ilícito mais lucrativo, depois da venda de armas e do contrabando de drogas.

Chicas Nuevas 24 horas 3

A diretora compara o tráfico de pessoas com qualquer outro comércio lucrativo para explicar como seu funcionamento se assemelha ao de uma grande empresa. O documentário começa com uma cena ficcional. Em uma sala de reuniões, uma palestrante ensina aos ouvintes os segredos para montar um negócio que possa gerar US$ 32 bilhões ao ano – estimativa do que o tráfico de pessoas gera ao ano no mundo todo. O primeiro passo é pensar como transformar o produto bruto (jovens vulneráveis) em produto de consumo (escravas em bordeis europeus). A mesma palestrante aparece várias vezes ao longo do documentário e toca em pontos importantes para montar um negócio de sucesso: agradar o cliente, fazer boa propaganda, fazer a mercadoria render ao máximo e descartá-la quando houver defeito, afinal esses objetos são substituíveis.

As cenas ficcionais constróem a narrativa para a entrada das entrevistas e dados. A diretora percorreu países sul americanos, como Peru, Colômbia, Argentina e Paraguai e entrevistou vítimas atuais e recuperadas, integrantes de ONGs, Ministérios e Secretárias, policiais, jornalistas… Enfim, gente que também trabalha para dar um fim ao tráfico de pessoas.

As histórias dos entrevistados revelam aos poucos o sistema complexo por trás da prostituição de meninas jovens: o convencimento de jovens que precisam de dinheiro para suas famílias, o transporte dessas garotas, a chegada, a pressão para que vendam seus corpos e o “descarte”, quando já não conseguem mais trabalhar. Tudo funciona muito bem interligado, em uma rede que conta muito com a corrupção de autoridades tanto nos países “fontes” quanto nos “receptores”.

Algumas das vítimas conseguem retornar – deportadas ou escapando – a seus países de origem, mas ali sofrem com preconceitos, são criminalizadas por terem se prostituído e culpadas por terem se deixado cair nessa armadilha. Algumas conseguem fugir, mas não conseguem voltar para casa, pela falta de dinheiro ou por dívidas que ainda tem que pagar nos países de origem – dívidas, inclusive, às pessoas que lhes pagaram a passagem para a Europa.

4,5 milhões de mulheres e crianças são vítimas desse negócio por ano. Na União Europeia, só em 2014, foram identificadas 30 mil vítimas do tráfico sexual. O conceito “mulher objeto” é levado ao pé da letra no tratamento dessas mulheres e meninas. Elas são como mercadorias que se valorizam conforme cresce o desejo dos clientes. Estes que querem chicas nuevas à sua disposição 24 horas por dia. É a lei de oferta e procura aplicada à venda de seres humanos.

Sobre a diretora

Antes de fazer filmes, Mabel Lozano trabalhava como atriz, mas decidiu mudar sua carreira de rumo ao conhecer Irena, uma mulher que vivia na Espanha e havia sido vítima desse grande business que se tornou o tráfico de mulheres e meninas. Irena foi atraída por seu namorado da época até Madri. Lá, ele a levou a um lugar onde a trocou por um envelope cheio de dinheiro. Irena entendeu, então, que havia sido vendida e foi obrigada a se prostituir.

Essa triste história inspirou Mabel a fazer seu primeiro documentário e a se engajar na causa contra o tráfico de mulheres. Seus documentários e outros trabalhos de curta-metragem são usados por organizações públicas e não governamentais na conscientização sobre o problema. Recentemente a diretora ganhou o prêmio Mujeres em Unión na 25ª premiação da Unión de Actores e Actrices, promovido pelo sindicado de atores e atrizes em Madri.

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