“Espelho, espelho meu…como você é? Como você joga?”
O ser humano é um ser repleto de narrativas. Nós as construímos enquanto somos também construídas por elas, moldando sonhos, desejos, medos, expectativas. Quem nunca leu um livro ou assistiu a um filme que mudou sua vida? Que produziu um desejo de repensar escolhas ou decisões? Que te ensinou mais sobre você, sobre os outros à sua volta?
Bem, mas e ao jogar videogame?
Eu e meu marido adoramos jogar The Elder Scrolls V: Skyrim, um RPG de mundo aberto, com cenário fantástico-medieval. A maneira com a qual jogamos, porém, é bastante diferente. Eu tenho mais de uma personagem, mas jogo principalmente com aquela que é projeção minha no jogo. Temos aparência semelhante e as decisões dela, ainda que em contexto bastante diferente do meu, refletem meus ideais e princípios. Meu namorado, porém, tem diversos personagens e joga bastante com todos, ainda que vezes mais com um ou outro. Nenhum personagem se assemelha a ele e seu prazer vem, em muito, de tomar caminhos ou decisões que não correspondem àquilo que ele faria. Ele gosta de explorar outros modos de ser, pensar ou viver em seus personagens. Seja através de um Khajiit egoísta e mau-caráter, seja através de uma guerreira nórdica honrada, que não pega itens em tumbas ou de personagens que não a atacaram primeiro.
O jogo, portanto, nos possibilita experiências bastante diferentes, ainda que suas mecânicas não se alterem pra mim ou para meu marido.
Ao jogar Heavy Rain, narração-interativa sobre um pai tentando salvar seu filho de um misterioso serial-killer, costumo conseguir passar por quase todos os desafios impostos pelo assassino com facilidade. Menos um: matar um pai de família. Ainda que eu tenha jogado e terminado o jogo mais de uma vez, para ver diversos finais, não consigo o achievement que esta morte me daria. Por algum motivo, ainda que as crianças não existam no mundo real, não consigo privá-las do pai. Não consigo tirar gratuitamente uma vida, independente de não ser uma vida. A situação sempre me vira o estômago, me faz suar frio. Existem limites que eu não consigo romper nem mesmo na virtualidade.
A diversidade de jogadores, porém, significa também uma diversidade de limites. Pode haver outros caminhos que alguns se recusam a traçar. Ou pode, ainda, tudo ser apenas um jogo.
O que nossas formas de jogar dizem sobre nós? Talvez eu seja uma pessoa para quem coerência ética e de princípios são valores máximos. Talvez algumas pessoas que passam por tudo como apenas um jogo sejam mais abertas a novas experiências, a adotarem novos pontos de vista. Talvez a pergunta: “até onde você iria para salvar alguém que você ama”, feita na campanha publicitária do jogo, realmente possa ser algo que respondemos a nosso respeito ao jogar.
Outra experiência interessante é proporcionada pelo simples, mas intenso Loneliness. Aviso aqui que, se você pretende jogar este jogo, minha descrição poderá arruinar a experiência. Você é um ponto no espaço, repleto ou não de outros pontos e só pode mover-se e avançar nesse espaço, através do uso das setas no teclado. Aproximar-se dos outros pontos possui apenas um resultado, algo que você só tem certeza após o fim do jogo. Como já abordado na série de vídeos sobre games, Extra Credits, que muito recomendo que qualquer mulher aqui confira, a cada vez que decidimos nos aproximar ou não de um ou mais pontos, de insistir ou não na interação, dizemos algo sobre nós e sobre nossa relação com a solidão.
Se ao ler um livro ou assistir a um filme podemos suscitar transformações ou ampliar compreensões a nosso respeito, não seriam os jogos uma mídia privilegiada neste aspecto? Ao nos tirar da posição de expectadores e nos colocar na posição de jogadores, protagonistas, transformadores da narrativa, ao nos colocar em interação com a mecânica, prontos a fazer dela o que desejarmos e nos for possível, será que os jogos não nos colocam também em um espaço de nos evidenciarmos a nós mesmos? E, portanto, nos transformarmos?
Será que, ao ligarmos nossos consoles ou abrirmos o Steam, não estamos também sussurrando: “espelho, espelho meu…”?
Se sim, abre-se uma potencialidade a ser explorada não apenas por desenvolvedores e jogadores, mas também terapeutas e professores. E, havendo este potencial, podemos pensar na sua relação também na transmissão e construção de cultura, nos aspectos étnicos e de gênero.
Imagens:
1. Minha personagem em Skyrim
2. Heavy Rain
3. Loneliness
“Espelho, espelho meu…como você é? Como você joga?”
O ser humano é um ser repleto de narrativas. Nós as construímos enquanto somos também construídas por elas, moldando sonhos, desejos, medos, expectativas. Quem nunca leu um livro ou assistiu a um filme que mudou sua vida? Que produziu um desejo de repensar escolhas ou decisões? Que te ensinou mais sobre você, sobre os outros à sua volta?
Bem, mas e ao jogar videogame?
Eu e meu marido adoramos jogar The Elder Scrolls V: Skyrim, um RPG de mundo aberto, com cenário fantástico-medieval. A maneira com a qual jogamos, porém, é bastante diferente. Eu tenho mais de uma personagem, mas jogo principalmente com aquela que é projeção minha no jogo. Temos aparência semelhante e as decisões dela, ainda que em contexto bastante diferente do meu, refletem meus ideais e princípios. Meu namorado, porém, tem diversos personagens e joga bastante com todos, ainda que vezes mais com um ou outro. Nenhum personagem se assemelha a ele e seu prazer vem, em muito, de tomar caminhos ou decisões que não correspondem àquilo que ele faria. Ele gosta de explorar outros modos de ser, pensar ou viver em seus personagens. Seja através de um Khajiit egoísta e mau-caráter, seja através de uma guerreira nórdica honrada, que não pega itens em tumbas ou de personagens que não a atacaram primeiro.
O jogo, portanto, nos possibilita experiências bastante diferentes, ainda que suas mecânicas não se alterem pra mim ou para meu marido.
Ao jogar Heavy Rain, narração-interativa sobre um pai tentando salvar seu filho de um misterioso serial-killer, costumo conseguir passar por quase todos os desafios impostos pelo assassino com facilidade. Menos um: matar um pai de família. Ainda que eu tenha jogado e terminado o jogo mais de uma vez, para ver diversos finais, não consigo o achievement que esta morte me daria. Por algum motivo, ainda que as crianças não existam no mundo real, não consigo privá-las do pai. Não consigo tirar gratuitamente uma vida, independente de não ser uma vida. A situação sempre me vira o estômago, me faz suar frio. Existem limites que eu não consigo romper nem mesmo na virtualidade.
A diversidade de jogadores, porém, significa também uma diversidade de limites. Pode haver outros caminhos que alguns se recusam a traçar. Ou pode, ainda, tudo ser apenas um jogo.
O que nossas formas de jogar dizem sobre nós? Talvez eu seja uma pessoa para quem coerência ética e de princípios são valores máximos. Talvez algumas pessoas que passam por tudo como apenas um jogo sejam mais abertas a novas experiências, a adotarem novos pontos de vista. Talvez a pergunta: “até onde você iria para salvar alguém que você ama”, feita na campanha publicitária do jogo, realmente possa ser algo que respondemos a nosso respeito ao jogar.
Outra experiência interessante é proporcionada pelo simples, mas intenso Loneliness. Aviso aqui que, se você pretende jogar este jogo, minha descrição poderá arruinar a experiência. Você é um ponto no espaço, repleto ou não de outros pontos e só pode mover-se e avançar nesse espaço, através do uso das setas no teclado. Aproximar-se dos outros pontos possui apenas um resultado, algo que você só tem certeza após o fim do jogo. Como já abordado na série de vídeos sobre games, Extra Credits, que muito recomendo que qualquer mulher aqui confira, a cada vez que decidimos nos aproximar ou não de um ou mais pontos, de insistir ou não na interação, dizemos algo sobre nós e sobre nossa relação com a solidão.
Se ao ler um livro ou assistir a um filme podemos suscitar transformações ou ampliar compreensões a nosso respeito, não seriam os jogos uma mídia privilegiada neste aspecto? Ao nos tirar da posição de expectadores e nos colocar na posição de jogadores, protagonistas, transformadores da narrativa, ao nos colocar em interação com a mecânica, prontos a fazer dela o que desejarmos e nos for possível, será que os jogos não nos colocam também em um espaço de nos evidenciarmos a nós mesmos? E, portanto, nos transformarmos?
Será que, ao ligarmos nossos consoles ou abrirmos o Steam, não estamos também sussurrando: “espelho, espelho meu…”?
Se sim, abre-se uma potencialidade a ser explorada não apenas por desenvolvedores e jogadores, mas também terapeutas e professores. E, havendo este potencial, podemos pensar na sua relação também na transmissão e construção de cultura, nos aspectos étnicos e de gênero.
Imagens:
1. Minha personagem em Skyrim
2. Heavy Rain
3. Loneliness
“Espelho, espelho meu…como você é? Como você joga?”
O ser humano é um ser repleto de narrativas. Nós as construímos enquanto somos também construídas por elas, moldando sonhos, desejos, medos, expectativas. Quem nunca leu um livro ou assistiu a um filme que mudou sua vida? Que produziu um desejo de repensar escolhas ou decisões? Que te ensinou mais sobre você, sobre os outros à sua volta?
Bem, mas e ao jogar videogame?
Eu e meu marido adoramos jogar The Elder Scrolls V: Skyrim, um RPG de mundo aberto, com cenário fantástico-medieval. A maneira com a qual jogamos, porém, é bastante diferente. Eu tenho mais de uma personagem, mas jogo principalmente com aquela que é projeção minha no jogo. Temos aparência semelhante e as decisões dela, ainda que em contexto bastante diferente do meu, refletem meus ideais e princípios. Meu namorado, porém, tem diversos personagens e joga bastante com todos, ainda que vezes mais com um ou outro. Nenhum personagem se assemelha a ele e seu prazer vem, em muito, de tomar caminhos ou decisões que não correspondem àquilo que ele faria. Ele gosta de explorar outros modos de ser, pensar ou viver em seus personagens. Seja através de um Khajiit egoísta e mau-caráter, seja através de uma guerreira nórdica honrada, que não pega itens em tumbas ou de personagens que não a atacaram primeiro.
O jogo, portanto, nos possibilita experiências bastante diferentes, ainda que suas mecânicas não se alterem pra mim ou para meu marido.
Ao jogar Heavy Rain, narração-interativa sobre um pai tentando salvar seu filho de um misterioso serial-killer, costumo conseguir passar por quase todos os desafios impostos pelo assassino com facilidade. Menos um: matar um pai de família. Ainda que eu tenha jogado e terminado o jogo mais de uma vez, para ver diversos finais, não consigo o achievement que esta morte me daria. Por algum motivo, ainda que as crianças não existam no mundo real, não consigo privá-las do pai. Não consigo tirar gratuitamente uma vida, independente de não ser uma vida. A situação sempre me vira o estômago, me faz suar frio. Existem limites que eu não consigo romper nem mesmo na virtualidade.
A diversidade de jogadores, porém, significa também uma diversidade de limites. Pode haver outros caminhos que alguns se recusam a traçar. Ou pode, ainda, tudo ser apenas um jogo.
O que nossas formas de jogar dizem sobre nós? Talvez eu seja uma pessoa para quem coerência ética e de princípios são valores máximos. Talvez algumas pessoas que passam por tudo como apenas um jogo sejam mais abertas a novas experiências, a adotarem novos pontos de vista. Talvez a pergunta: “até onde você iria para salvar alguém que você ama”, feita na campanha publicitária do jogo, realmente possa ser algo que respondemos a nosso respeito ao jogar.
Outra experiência interessante é proporcionada pelo simples, mas intenso Loneliness. Aviso aqui que, se você pretende jogar este jogo, minha descrição poderá arruinar a experiência. Você é um ponto no espaço, repleto ou não de outros pontos e só pode mover-se e avançar nesse espaço, através do uso das setas no teclado. Aproximar-se dos outros pontos possui apenas um resultado, algo que você só tem certeza após o fim do jogo. Como já abordado na série de vídeos sobre games, Extra Credits, que muito recomendo que qualquer mulher aqui confira, a cada vez que decidimos nos aproximar ou não de um ou mais pontos, de insistir ou não na interação, dizemos algo sobre nós e sobre nossa relação com a solidão.
Se ao ler um livro ou assistir a um filme podemos suscitar transformações ou ampliar compreensões a nosso respeito, não seriam os jogos uma mídia privilegiada neste aspecto? Ao nos tirar da posição de expectadores e nos colocar na posição de jogadores, protagonistas, transformadores da narrativa, ao nos colocar em interação com a mecânica, prontos a fazer dela o que desejarmos e nos for possível, será que os jogos não nos colocam também em um espaço de nos evidenciarmos a nós mesmos? E, portanto, nos transformarmos?
Será que, ao ligarmos nossos consoles ou abrirmos o Steam, não estamos também sussurrando: “espelho, espelho meu…”?
Se sim, abre-se uma potencialidade a ser explorada não apenas por desenvolvedores e jogadores, mas também terapeutas e professores. E, havendo este potencial, podemos pensar na sua relação também na transmissão e construção de cultura, nos aspectos étnicos e de gênero.
Imagens:
1. Minha personagem em Skyrim
2. Heavy Rain
3. Loneliness
A primeira vez que eu considerei não continuar com essa tal “vida” eu tinha seis anos. Eu havia brigado com a minha irmã mais velha e me sentido muito culpada por isso. Sentindo-me não merecedora de continuar, misturei detergente (que, na minha imaginação, seria capaz de me matar) no leite do sucrilhos e comecei a tomar. O gosto ruim me impediu de continuar e só então fui tomada pela culpa da dor que poderia estar causando à minha mãe – dor que segurou minha mão e minha cabeça diversas vezes.
Depois dessa foram poucas tentativas, mas muitos e muitos planos, numa batalha interna exaustiva. Por vezes, quando agir contra minha vida me parecia extremo ou dramático, eu celebrava adoecimentos internamente e negligenciava minha saúde, como maneira de, quem sabe, deixar a própria morte chegar, ajudando-a a acelerar o passo.
A verdade é que existir me é uma coisa muito cansativa com a qual nunca me dei bem – e parar para olhar as flores ou os grafites da cidade, que me agradam mais, não reduz em nada essa fadiga. Não importa quais planos ou projetos eu tenha pro futuro, eles nunca parecem compensar um dia-a-dia de estar num mundo que muito me incomoda – não importa meu humor ou quão bem eu esteja.
Setembro, coincidentemente mês do meu aniversário, é também mês da prevenção ao suicídio (conhecido como Setembro Amarelo). Muitas campanhas que vejo pela internet me incomodam porque parecem partir de pessoas que não sabem o que é considerar morrer, desejar morrer. Porque isso não é, definitivamente, questão de parar para cheirar as flores ou apreciar as pequenas coisas. Se você está namorando a única porta de saída é porque o perfume da flor deixou de compensar tem um tempo.
Decidi escrever sobre isso, então, como aconselhamentos de quem sabe o quanto essa briga dentro da nossa cabeça é difícil.
Não é sempre que eu considero suicídio. Eu tenho crises em que, repentinamente, acho a vida ou demasiadamente insuportável ou me acho não merecedora da vida, entrando numa espiral de culpa e autodestrutividade. É difícil, mas é importante aprender a romper com a espiral.
Você pode tentar se distrair. Enganar sua cabeça pra que ela foque em outra coisa. Às vezes isso é possível. Ler um livro, ver um filme, uma série, olhar o tumblr, jogar videogame. Tem vez que tudo que você precisa é esquecer essas ideias. Mas eu sei que nem sempre isso é possível.
Lembre-se das coisas que te mantém aqui. Você tem um sonho para o futuro e tem enfrentado as dores para realizá-lo? Pense nele. Se pensar nos seus sonhos te levar a pensar na impossibilidade deles, pense no quanto você já tem feito para atingi-los e no quão injusto contigo seria parar agora.
Se você é como eu e fica no mundo pela companhia, pense nas pessoas que você ama. É muito fácil, quando entramos nessa espiral, que pensar nessas pessoas nos faça nos sentirmos egoístas por querermos abandonar a vida e sabermos que isso causará dor a elas – o que pode piorar ainda mais a culpa e autodestrutividade – então tente pensar nos motivos pelos quais aquelas pessoas te amam. Pense no que elas valorizam em você. Pense que você tem valor pra elas – e que elas não podem estar tão erradas sobre você, afinal, você também gosta delas, você sabe que elas são pessoas inteligentes.
Pense nas coisas que você faz e que você valoriza. Você as tem. Você não se odeia sempre. É difícil lembrar-se disso nessas horas, mas o esforço é importante. O que você gosta em você? O que é bom em você? O que você pode fazer pra mudar aquilo que você não gosta em você?
Se você sente que não fará falta, lembre que você está mentindo pra si mesmo. Você faz falta – e se for pra uma pessoa já é muita coisa. O nosso mundinho capitalista muitas vezes nos faz pensar quantitativamente ou associar nosso valor a coisas estúpidas – mas você tem muito valor. Você é uma pessoa única com potencialidades únicas. E, num mundo cheio de gente, isso pode não parecer muita coisa, mas é.
Conte para alguém em quem você confia. Ligue para a pessoa e diga: “eu estou pensando em me matar, me ajuda”. Eu sei que isso é muito difícil – a gente tem medo de não ser compreendida ou de machucar a outra pessoa – mas ter ajuda e companhia nessas horas pode fazer toda a diferença.
Se a vida está muito, mas muito difícil, lembre que por um fim nela acaba com a possibilidade de você viver tempos melhores. A fase em que eu mais tive ideações suicidas – ou seja, desejei e planejei me matar – foi na minha adolescência, um tempo bastante complicado da minha história. Eu sou uma pessoa muito mais feliz hoje (e sim, mesmo que eu ainda tenha uma série de crises e uma série de questões de saúde mental, eu me considero uma pessoa muito feliz. Pode parecer contraditório, mas eu acho que existir como humana é uma contradição mesmo, haha). Eu conheci pessoas com as quais me dou muito bem. Conheci o amor da minha vida, com quem estou já há sete anos. Eu conheci causas pelas quais eu quero lutar. Eu estou me tornando uma pessoa da qual eu me orgulho.
E, nos aspectos de pensar uma vida melhor, um conselho que eu acho fundamental é: livre-se das pessoas que te fazem mal. Saia dos relacionamentos abusivos. Se afaste de pessoas que querem que você seja outra. Eu sei que nem sempre isso é possível, pois muitas vezes essas pessoas são da sua família e você precisa conviver com elas, morar com elas. Mas reduza ao máximo essas pessoas e se aproxime ao máximo daquelas que te aceitam e te amam. Eu sei que cortar relacionamentos é algo difícil e a gente pode pensar “poxa, mas fulana não faz por mal” – foda-se. Você está protegendo a sua vida e não importa quão bem intencionada a sua prima é quando diz que você deveria ser x ou y, se ela está potencializando ideias negativas tuas, isso precisa acabar.
Procure ajuda. Procure acompanhamento psicológico – e, o mais importante nisso, procure uma profissional com a qual você se sinta confortável, em quem você confie. Terapia só funciona quando você se sente à vontade. A depender do teu caso e situação, pode ser que você precise de ajuda psiquiátrica. Não há nada de errado com isso. A gente precisa das ajudas que precisa e precisar de ajuda não faz ninguém ser fraca.
Eu sei que nem todo mundo vive as ideações da mesma maneira. Esses conselhos são apenas o que funciona pra mim e como cada pessoa é uma pessoa, cada cabeça é uma cabeça e cada caso é um caso. Mas se funcionar e ajudar duas ou três pessoas eu já me sinto bastante feliz.
Se você ama alguém que sofre de ideações suicidas, esteja do lado dela e demonstre estar lá pra ela. Escute os choramingos, desabafos, crises. Mas não se culpe se você não aguentar ou não der conta de vez em quando. Nós todos temos que cuidar da nossa própria saúde mental e cuidar de alguém em profundo sofrimento pode ser cansativo.
Mais importante: não se culpe se a pessoa eventualmente perder essa luta. É uma luta dela e, por mais que pessoas ao nosso redor possam ajudar ou apoiar, no fim quem tem que derrotar nossos monstros somos nós. E a última coisa que nós desejamos é que vocês se sintam culpados. Mesmo.
Suicídio não é uma questão fácil de lidar, de se conversar. É um tema rodeado de estereótipos, de medos, de tabus. Mas é um tema que a afeta a vida de muitas pessoas, de maneiras extremamente dolorosas e sobre o qual precisamos falar. Precisamos conversar e assumir nossas experiências para que mais pessoas possam sentir-se confortáveis em se abrir sobre o tema, procurar ajuda. Precisamos nos unir, nos fortalecermos.
E, por fim, se você estiver pensando: “afe, mas psicóloga e com esses problemas?” deixe-me responder que psicólogos são pessoas, humanas, imperfeitas, sujeitas a todo tipo de sofrimento e adoecimento – e que isso não reduz em nada nossa capacidade de ouvir, compreender, esclarecer e auxiliar a jornada dos outros. Talvez isso até garanta que, na hora em que você estiver sofrendo, saibamos que parar para cheirar flores não resolve tudo.
Ilustrações feitas com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)
“Espelho, espelho meu…como você é? Como você joga?”
O ser humano é um ser repleto de narrativas. Nós as construímos enquanto somos também construídas por elas, moldando sonhos, desejos, medos, expectativas. Quem nunca leu um livro ou assistiu a um filme que mudou sua vida? Que produziu um desejo de repensar escolhas ou decisões? Que te ensinou mais sobre você, sobre os outros à sua volta?
Bem, mas e ao jogar videogame?
Eu e meu marido adoramos jogar The Elder Scrolls V: Skyrim, um RPG de mundo aberto, com cenário fantástico-medieval. A maneira com a qual jogamos, porém, é bastante diferente. Eu tenho mais de uma personagem, mas jogo principalmente com aquela que é projeção minha no jogo. Temos aparência semelhante e as decisões dela, ainda que em contexto bastante diferente do meu, refletem meus ideais e princípios. Meu namorado, porém, tem diversos personagens e joga bastante com todos, ainda que vezes mais com um ou outro. Nenhum personagem se assemelha a ele e seu prazer vem, em muito, de tomar caminhos ou decisões que não correspondem àquilo que ele faria. Ele gosta de explorar outros modos de ser, pensar ou viver em seus personagens. Seja através de um Khajiit egoísta e mau-caráter, seja através de uma guerreira nórdica honrada, que não pega itens em tumbas ou de personagens que não a atacaram primeiro.
O jogo, portanto, nos possibilita experiências bastante diferentes, ainda que suas mecânicas não se alterem pra mim ou para meu marido.
Ao jogar Heavy Rain, narração-interativa sobre um pai tentando salvar seu filho de um misterioso serial-killer, costumo conseguir passar por quase todos os desafios impostos pelo assassino com facilidade. Menos um: matar um pai de família. Ainda que eu tenha jogado e terminado o jogo mais de uma vez, para ver diversos finais, não consigo o achievement que esta morte me daria. Por algum motivo, ainda que as crianças não existam no mundo real, não consigo privá-las do pai. Não consigo tirar gratuitamente uma vida, independente de não ser uma vida. A situação sempre me vira o estômago, me faz suar frio. Existem limites que eu não consigo romper nem mesmo na virtualidade.
A diversidade de jogadores, porém, significa também uma diversidade de limites. Pode haver outros caminhos que alguns se recusam a traçar. Ou pode, ainda, tudo ser apenas um jogo.
O que nossas formas de jogar dizem sobre nós? Talvez eu seja uma pessoa para quem coerência ética e de princípios são valores máximos. Talvez algumas pessoas que passam por tudo como apenas um jogo sejam mais abertas a novas experiências, a adotarem novos pontos de vista. Talvez a pergunta: “até onde você iria para salvar alguém que você ama”, feita na campanha publicitária do jogo, realmente possa ser algo que respondemos a nosso respeito ao jogar.
Outra experiência interessante é proporcionada pelo simples, mas intenso Loneliness. Aviso aqui que, se você pretende jogar este jogo, minha descrição poderá arruinar a experiência. Você é um ponto no espaço, repleto ou não de outros pontos e só pode mover-se e avançar nesse espaço, através do uso das setas no teclado. Aproximar-se dos outros pontos possui apenas um resultado, algo que você só tem certeza após o fim do jogo. Como já abordado na série de vídeos sobre games, Extra Credits, que muito recomendo que qualquer mulher aqui confira, a cada vez que decidimos nos aproximar ou não de um ou mais pontos, de insistir ou não na interação, dizemos algo sobre nós e sobre nossa relação com a solidão.
Se ao ler um livro ou assistir a um filme podemos suscitar transformações ou ampliar compreensões a nosso respeito, não seriam os jogos uma mídia privilegiada neste aspecto? Ao nos tirar da posição de expectadores e nos colocar na posição de jogadores, protagonistas, transformadores da narrativa, ao nos colocar em interação com a mecânica, prontos a fazer dela o que desejarmos e nos for possível, será que os jogos não nos colocam também em um espaço de nos evidenciarmos a nós mesmos? E, portanto, nos transformarmos?
Será que, ao ligarmos nossos consoles ou abrirmos o Steam, não estamos também sussurrando: “espelho, espelho meu…”?
Se sim, abre-se uma potencialidade a ser explorada não apenas por desenvolvedores e jogadores, mas também terapeutas e professores. E, havendo este potencial, podemos pensar na sua relação também na transmissão e construção de cultura, nos aspectos étnicos e de gênero.
Imagens:
1. Minha personagem em Skyrim
2. Heavy Rain
3. Loneliness