Meu casamento x Construções sociais

Eu nunca quis casar. Nunca mesmo, ou se quis foi sempre um desejo muito entranhado e nunca externado na vida. Como quando eu era criança aqui no Rio e na praia eu fazia alguns amiguinhos novos, alguém lançava a ideia de brincar de Power Rangers e eu tentava dizer primeiro “EU SOU A AMARELA!”, eu queria ser a rosa, lá no fundo, eu queria ser a rosa. Mas todo mundo queria ser a rosa, aliás, todas as meninas queriam ser a rosa e isso me dava no saco.

 
[caption id="attachment_5230" align="aligncenter" width="700"]1 Trinity ♡ (mas a que eu realmente amei foi a do Matrix)[/caption]  

Eu fui criada pelo meu pai, ele nunca casou, logo, eu não via o menor sentido naquilo tudo. Claro que quando eu era criança gostava das Princesas, a Ariel sempre foi a minha favorita, juntamente com a Úrsula (que mais tarde eu fui descobrir que foi inspirada na Divine <3). Portanto, a construção social do ‘felizes para sempre’ ou mesmo do ‘final feliz’ sempre me perseguiu e creio que persiga a maioria das mulheres da minha geração.

 
[caption id="attachment_5232" align="aligncenter" width="700"]♡ ♡[/caption]  

Isso é engraçado porque eu sempre ‘lidei’ com frustrações, rejeição e angústia desde muito cedo, mas nunca soube colocar em palavras o que eu estava sentindo, eu tentava explicar com uns 6, 7 anos: “É como se um Elefante e uma formiga levantassem vôo ao mesmo tempo”, e contrapondo o pesado e o leve eu tentava expor minha angústia. Mas mesmo com a perseguição inóspita do ‘felizes para sempre’, sempre desconfiei de que houvesse algo errado. Concluí que havia algo errado quando a conotação de ~ borboletas no estômago ~ para outros era algo bom e pra mim sempre foi péssimo, muito forte, eu sabia que tinha algum descompasso, o que mais tarde, bem mais tarde, viria a entender meu problema real com ansiedade.

 
[caption id="attachment_5233" align="aligncenter" width="500"]Ariel também foi criada pelo pai, representatividade importa! Ariel também foi criada pelo pai, representatividade importa![/caption]  

De qualquer forma, por ironias do destino, me caso em 4 dias. Meu pai ontem mesmo me disse: “Te criei pra ser atéia e não casar, olha só no que deu!”, hahaha! Sou espírita com períodos otimistas e pessimistas intermitentes e caso na quarta-feira dia 22. O negócio é o seguinte, eu já moro com meu companheiro há 3 anos e meio e vamos nos mudar pra Barcelona no final do ano. Estamos guardando dinheiro faz 1 ano para isso e de acordo com todas as especificidades a serem cumpridas pelo consulado espanhol é incrivelmente mais fácil adentrar à família tradicional brasileira para conseguir um visto temporário para morar fora, infelizmente. “Vamos casar, então!”, pensei. Estava tudo bem, estava tudo muito bem, eu casaria por causa de papéis para poder ir viver o sonho, ESTAVA TUDO BEM.

 
[caption id="attachment_5235" align="aligncenter" width="500"]5 HAHAHA! Não me levem a mal, nos amamos muitíssimo e eu tenho a maior sorte de estar casando com meu melhor amigo![/caption]  

Pretendia casar de chinelo mesmo, minha indumentária favorita. Não iria fazer nada, fazer alguma coisa pra quê? Só estava cumprindo uma tabela, gastar dinheiro com isso quando posso juntar mais dinheiro pra viajar? E aí começou a vir a galera que grita primeiro “EU SOU A ROSA!”, e aquele desejo entranhado de ser a rosa eu já tinha conseguido desconstruir, mas mesmo sendo a amarela, ainda eram Power Rangers, se é que você me entende. Fui convencida por amigos e familiares à ser a amarela, porque a rosa já estava distante demais e todos sabiam disso. Depois do cartório, resolvi fazer um almocinho para poucos e bons e depois uma festa no melhor estilo Felipe Dylon, cada um paga o seu, mas vamos lá beber juntos porque a vida é uma só e como futura historiadora (quem sabe), assumo que rituais são momentos importantes.

 
[caption id="attachment_5242" align="aligncenter" width="700"]Muita gente riu e criticou na época, mas apoio 100% esse tipo de iniciativa! Muita gente riu e criticou na época, mas apoio 100% esse tipo de iniciativa![/caption]  

O problema é que comecei a ver isso tudo faltando uns 15 dias pro casamento e aí um novo personagem na saga de animação (auto) destruidora adentrou a lista do superego que já contava com a Power Ranger rosa suprimida, a amarela, a Ariel e a Úrsula (com certeza tem outras), chegou então, a BRIDEZILLA. Que já era o contraponto em si, a bridezilla é a mocinha e a bandida na mesma personagem. Além de uma fobia social gigalesca, ela é auto sabotadora.

 
[caption id="attachment_5236" align="aligncenter" width="160"]ahã miga ahã miga[/caption]  

Saí da terapia na terça-feira passada com duas opções, comprar um ansiolítico e um tampão de ouvido para tentar dormir melhor. Tentei o tampão primeiro, funcionou. Hoje começou a insônia e acho que agora, pela primeira vez na minha vida, vou introduzir um remédio pra ajudar a passar por esses últimos 4 dias de pesadelo, ainda não me decidi. Ontem fui tentar comprar uma roupinha nova, quando eu disse que tinha um vestido que eu gostava e tinha usado no casamento de um amigo, criticaram. “O vestido é preto, ninguém casa de preto, tem que comprar uma roupa nova!”, essas coisas nos consomem, a gente acaba fazendo um dia como outro qualquer num cartório, que é um serviço do qual abomino um pouquinho, um dia especial, em que muitas expectativas são impostas, só que a maior lição da vida adulta para todes nós sempre foi suprimir as expectativas, então não sei lidar com momentos como esse. Já pensei em desistir mil vezes, todos os filmes estadunidenses de pessoas que querem fugir dos seus casamentos caíram como uma luva, estou vivendo o estereótipo.

 
[caption id="attachment_5238" align="aligncenter" width="700"]8 pra que casar de branco, gente? aff, me deixa ser gótica ~[/caption]  

Voltando para a roupinha, fui a dois shoppings aqui no Rio. Gostei de uma blusa que era um pouco mais curta e uma calça com a cintura um pouco alta mas nem tanto.

 

– Moça, você pode me ajudar?
  Gostaria de experimentar aquela blusa ali da vitrine!
– Claro, qual é o seu tamanho?
– É 42 ou 44!
– Ah, nós só fazemos peças até o 42!

 

Agradeci e não quis nem experimentar o 42. Esse tipo de coisa me deixa triste, brava, frustrada, insegura pra caralho, tudo ao mesmo tempo. Quis ir embora. Não sou o padrão há muito tempo e hoje em dia luto para me sentir confortável não sendo padrão e luto para que outras possam ser felizes fora do padrão. Já entendi que familiares não entendem isso e externam de uma forma que machuca mas que no fundo querem o seu bem, “Você precisa ser padrão porque a sociedade só aceita o padrão!” é o que eles querem dizer, eles todos que na grande maioria tomam anti-depressivos e ansiolíticos e não são padrão e tentam se encaixar desesperadamente mesmo que isso precise fazer eles tomarem mais remédios e passar mais fome e gastar mais dinheiro. A verdade é que também são vítimas, se não é quebrado o ciclo da opressão com empoderamento e consciência, ela é reproduzida. De qualquer forma, acredito piamente que quem se sente completamente feliz e encaixado nessa sociedade doente é quem tem mais problemas, se anula, é muito 1984 pra mim. Padrão é mais uma construção social, apenas. Entendam isso, lidem com isso, sou linda e sou gorda e sou saudável e sou vegetariana. As proteínas estão bem, obrigada.

 
[caption id="attachment_5239" align="aligncenter" width="360"]hihi hihi[/caption]  

Enfim, caso em 4 dias. Hoje acordei 5:40 por pura e espontânea ansiedade. A cada “Parabéns!” recebido, meu estômago revira. Amigos me chamam de ‘noiva’ por puro bullying do milho verde. Hahaha! Eu não estou acostumada a ser o centro das atenções, isso me deixa nervosa. Outro dia fiz um cineclube no dia das bruxas na minha casa para eu e as amigas verem ‘Jovens Bruxas‘ e tomar ‘margaritas da meia noite’, fui a primeira a ficar bêbada e capotar, às vezes vou com sede ao pote como se ainda tivesse 7 anos tentando explicar os contrapontos de tamanho e peso para as minhas angústias.

 
[caption id="attachment_5241" align="aligncenter" width="500"]Twin Peaks, melhor série ♡ Twin Peaks, melhor série ♡[/caption]  

Ainda assim, até esses meus 29 anos, tem valido a pena. Vou com sede ao pote, capoto, mas levanto, haha! Fico extremamente feliz por ser lembrada pelas minhas piadas sem graça e risada altíssima. Siga la pelota, 8h30 vou tomar café da manhã, beixota!

Mais de Bárbara Gondar

A Síndrome do Pânico e Eu

Achei necessário escrever um texto sobre minha experiência com essa crise de ansiedade que tem assolado muitas pessoas. Muitos amigos vêm me perguntar sobre ela, apelidei ‘carinhosamente’ de orgasmo do terror. Porque chega devagar, tem um ápice horroso e quando acaba te deixa esgotadx. Mas vamos lá, é terror sem susto, prometo. Haha!

Há três anos e meio, tomei uma grande decisão, me mudaria de volta para a cidade em que nasci depois de viver 16 anos em São Paulo. Havia tomado uma outra grande decisão, sair do mercado da publicidade de vez, mercado esse que me deixava extremamente estressada, frustrada, desmotivada com a vida, seres humanos, futuro, passado, fauna e flora (tema pra outro texto).

 

 
Cheguei então no Rio de Janeiro (uhúuuu), eu e meu namorado decidimos morar juntos e eu fui trabalhar num albergue pra dar uma desintoxicada da publicidade. Seis meses depois, arranjei alguns clientes e fiquei trabalhando como designer freelancer, mas como eu havia pegado coisas que pagavam pouco de muita gente, eu trabalhava muito, muito mesmo, e não tinha tempo pra mais nada, comia mal, dormia mal, o aluguel era muito alto e eu ia dormir fazendo contas.

 

 
Um belo dia, eu estava me sentindo super estranha na frente do computador, mas continuei trabalhando normal, o Ivan (meu companheiro) me chamou pra comer alguma coisa na lanchonete que tinha embaixo do nosso prédio e lá fomos nós. Assim que eu dei a última mordida no meu sanduíche, bateu uma sensação muito forte de que eu fosse desmaiar, começou um formigamento nas mãos, nos pés, taquicardia, eu coloquei sal na boca achando que fosse pressão baixa, uma tremedeira que não passava, levantei, joguei água no rosto e não passava, era uma sensação de que eu ir ter um treco, um desmaio, um derrame, uma sensação horrorosa da qual eu fui tomada por medo, muito medo.

 

 
Ivan perguntou se eu queria ir pro hospital e eu disse que sim, achei que eu pudesse estar tendo um pré-ataque-de-alguma-coisa que eu não sabia explicar. Minha sogra demorou um pouco, mas acabou nos levando num hospital que eu era segurada na época. Fui atendida por uma médica super simpática que mediu minha pressão e disse que todos os sinais vitais estavam perfeitos, não havia com o que eu me preocupar. Eu pensei estar ficando maluca, saí do hospital e cheguei em casa num estado completamente esgotado, de como se o corpo tivesse ficado tão tenso por um tempo que agora eu não tinha forças pra mais nada. Resolvi não contar nada pro meu pai porque ele ainda morava e mora em São Paulo, eu não queria deixar ele alarmado com alguma coisa que não tinha nem nome ainda!

 

 
Os dias seguintes foram de um pouco de medo, medo de não saber o que tinha acontecido, medo de acontecer de novo, de não saber o porquê tinha acontecido, mas os dias foram passando e eu voltei normalmente à minha rotina ~ da pesada. Na semana seguinte a esse episódio, eu comecei a me sentir estranha da mesma forma que eu tinha estado no dia do primeiro piripaque, essa sensação é difícil de expor, é uma sensação da qual parece que você está desconfortável dentro de você mesma, tem alguma coisa de errado e você sabe. Eu estava trabalhando na frente do computador quando e comecei a sentir a sensação chegando, achei melhor então interromper e ir dormir (já era tarde, na madruga boladona). Desliguei o computador, escovei os dentes e deitei.

 

 

Perguntei pro Ivan: “Amor, você sabe o número do SAMU? É 192, tá? Caso aconteça alguma coisa comigo.”

 
Eu não queria assustar ele, mas como eu senti a parada chegando e já era tarde, achei melhor avisar. Acho que não deu nem 5 segundos depois que eu fiz a pergunta e um novo piripaque começou. Foi bem intenso, eu pedia socorro, achava que ia morrer, as mãos e os pés estavam novamente formigando e suando a taquicardia muito forte, a cabeça parecia que ia explodir, e eu não desmaiava, meu corpo não desligava, eu não sabia o que estava acontecendo, Ivan ficou desesperado sem saber muito o que fazer. E lá fomos nós para o hospital mais uma vez. Dessa vez fui atendida por um homem que estava um pouco impaciente (pregs), era de madrugada, viu meus sinais vitais e me disse que estavam perfeitos e queria me dar um calmante, mas eu não estava nervosa, fiquei ofendida e quis voltar pra casa. Mais uma vez, a sensação de desgate completo, exaustão.
 

Eu estava com medo. Eu queria um diagnóstico e não um remédio pra dormir.

 

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Resolvi então ligar para o meu pai para dizer que alguma coisa estava acontecendo e eu não sabia o que era. Já tinham acontecido dois piripaques comigo e pelo visto eu tinha alguma coisa que não sabia o que era. Achei que eu pudesse chegar com um diagnóstico, mas infelizmente não tinha nenhum. Liguei e abri o jogo, contei o que tinha acontecido, contei que já tinha acontecido antes quando meu pai, após uma pausa dramática me falou:
 

“Filha, o que você tem é Síndrome do Pânico, convivo com isso desde os meus 28 anos. Estou indo para o Rio agora para te ajudar, mas fique tranquila que é possível viver numa boa com isso, eu vou te ajudar a passar por isso.”

 

 
Me senti uma completa ignorante. Como meu pai tem isso desde antes de eu nascer e eu não tinha ideia do que era ou melhor, de como era? Eu tinha uma imagem na minha cabeça dessa Síndrome de que era uma pessoa que tinha medo de sair de casa, que ficasse num canto com medo, eu não sabia que era assim! Quanta falta de informação, imagina quanta coisa a gente pinta na nossa cabeça por pura ignorância. Mas porra, bota no google imagens ‘síndrome do pânico’ pra vocês verem o que aparece! Hahaha.

 

 
Meu pai chegou no Rio e me confortou muito, me ensinou algumas técnicas de respiração para interromper a evolução do piripaque, que agora eu chamava de crise, me falou da importância de começar a fazer terapia, de ir a um médico pra saber de eu precisaria tomar remédios ou não. Me deixou tranquila, disse que no começo seria difícil mas que as coisas iriam se normalizar. E se normalizaram mesmo.

 
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☻ Não há um perfil exato de pessoas com pânico, não tem um porquê exato dele se manifestar, podem ser muitos fatores, traumas, estresse, mudanças bruscas, situações, é muito importante procurar tratamento, fazer terapia, pra que possamos entender a causa das crises e aprender a lidar melhor com isso.

 
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☻ O nosso corpo tem muitas válvulas de escape, nós somatizamos, nós temos gastrites nervosas e temos crises de ansiedade. A Síndrome do Pânico nada mais é quando o nosso corpo vai acumulando adrenalina e de repente tem uma descarga muito forte dela, seja onde você estiver. É como se naturalmente fossemos acumulando um copinho de adrenalina no cérebro e a crise é quando esse copinho entorna e vaza. Quando isso acontece, os sintomas são de morte iminente, sudorese, palpitações, taquicardia, pressão na cabeça, falta de ar, tontura, náusea, formigamento, tremedeira, etc. :( Basicamente você acha que vai ter um treco. Acha não, você tem certeza de que vai ter um treco.

 

 
☻ O esgotamento que sentimos depois das crises é por causa da tensão em que o corpo se mantém durante, é um exercício físico e mental muito pesado.

☻  Meu pai me passou uma série de respirações que relaxam os músculos do corpo e eu consegui interromper todas as futuras crises, só experienciando o princípio da crise, isso até hoje. Resumidamente, no começo, ele pedia pra que eu deitasse no chão e respirasse em tempos, aspira em 3 tempos e expira em 6, fazendo com que mais ar saia do seu corpo. Por que no chão? Porque você consegue sentir o seu corpo tensionado e consegue concentrar onde tem que relaxar, se você está num colchão macio é mais difícil de perceber os músculos tensionados.

☻ Eu escolhi não tomar remédio porque eu pude escolher, mas por favor, não se enganem, eu consegui interromper o ciclo do medo, mas mudei completamente a minha rotina, passei a ter hora pra acordar, pra trabalhar, pra comer, comia mais saudável, parei de beber por um tempo, praticava esportes, comecei a fazer yoga e terapia. Mas ainda assim tem gente que precisa sim tomar remédio pra que isso aconteça, então por favor, vá num médico de confiança, e se não tiver um, como é o meu caso, vá em mais de um até se sentir confortável com alguém que acredite em você, te entenda e queira te ajudar.

 
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☻ Não seja duro com você mesmo, demorei mais de seis meses pra poder me sentir um pouco segura de fazer as coisas normais de novo, demora um pouco mas é de pessoa pra pessoa. Acredite que você pode ser uma pessoa completamente normal e conviver com a Síndrome. Eu ainda tenho alguns princípios de crise, mas nunca mais tive nenhuma crise. Conheço muitas pessoas que nunca mais tiveram nem princípio de crise, então acredite, podemos sair dessa! :)

 
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É isso, galeura. Coloquei muitos gifs pra tentar passar a informação de forma mais bem humorada possível mesmo sabendo que é um assunto delicado. Gosto de lidar com meus problemas dessa forma, me ajuda a tornar as experiências mais leves. Espero que essa minha experiência possa servir de ajuda pra alguém. Se ainda precisarem saber alguma coisa, podem deixar comentários que eu vou ter o maior prazer de ajudar, se for possível. Beixota. ♡

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Eu nunca quis casar. Nunca mesmo, ou se quis foi sempre um desejo muito entranhado e nunca externado na vida. Como quando eu era criança aqui no Rio e na praia eu fazia alguns amiguinhos novos, alguém lançava a ideia de brincar de Power Rangers e eu tentava dizer primeiro “EU SOU A AMARELA!”, eu queria ser a rosa, lá no fundo, eu queria ser a rosa. Mas todo mundo queria ser a rosa, aliás, todas as meninas queriam ser a rosa e isso me dava no saco.

 

 

Eu fui criada pelo meu pai, ele nunca casou, logo, eu não via o menor sentido naquilo tudo. Claro que quando eu era criança gostava das Princesas, a Ariel sempre foi a minha favorita, juntamente com a Úrsula (que mais tarde eu fui descobrir que foi inspirada na Divine <3). Portanto, a construção social do ‘felizes para sempre’ ou mesmo do ‘final feliz’ sempre me perseguiu e creio que persiga a maioria das mulheres da minha geração.

 

 

Isso é engraçado porque eu sempre ‘lidei’ com frustrações, rejeição e angústia desde muito cedo, mas nunca soube colocar em palavras o que eu estava sentindo, eu tentava explicar com uns 6, 7 anos: “É como se um Elefante e uma formiga levantassem vôo ao mesmo tempo”, e contrapondo o pesado e o leve eu tentava expor minha angústia. Mas mesmo com a perseguição inóspita do ‘felizes para sempre’, sempre desconfiei de que houvesse algo errado. Concluí que havia algo errado quando a conotação de ~ borboletas no estômago ~ para outros era algo bom e pra mim sempre foi péssimo, muito forte, eu sabia que tinha algum descompasso, o que mais tarde, bem mais tarde, viria a entender meu problema real com ansiedade.

 

 

De qualquer forma, por ironias do destino, me caso em 4 dias. Meu pai ontem mesmo me disse: “Te criei pra ser atéia e não casar, olha só no que deu!”, hahaha! Sou espírita com períodos otimistas e pessimistas intermitentes e caso na quarta-feira dia 22. O negócio é o seguinte, eu já moro com meu companheiro há 3 anos e meio e vamos nos mudar pra Barcelona no final do ano. Estamos guardando dinheiro faz 1 ano para isso e de acordo com todas as especificidades a serem cumpridas pelo consulado espanhol é incrivelmente mais fácil adentrar à família tradicional brasileira para conseguir um visto temporário para morar fora, infelizmente. “Vamos casar, então!”, pensei. Estava tudo bem, estava tudo muito bem, eu casaria por causa de papéis para poder ir viver o sonho, ESTAVA TUDO BEM.

 

 

Pretendia casar de chinelo mesmo, minha indumentária favorita. Não iria fazer nada, fazer alguma coisa pra quê? Só estava cumprindo uma tabela, gastar dinheiro com isso quando posso juntar mais dinheiro pra viajar? E aí começou a vir a galera que grita primeiro “EU SOU A ROSA!”, e aquele desejo entranhado de ser a rosa eu já tinha conseguido desconstruir, mas mesmo sendo a amarela, ainda eram Power Rangers, se é que você me entende. Fui convencida por amigos e familiares à ser a amarela, porque a rosa já estava distante demais e todos sabiam disso. Depois do cartório, resolvi fazer um almocinho para poucos e bons e depois uma festa no melhor estilo Felipe Dylon, cada um paga o seu, mas vamos lá beber juntos porque a vida é uma só e como futura historiadora (quem sabe), assumo que rituais são momentos importantes.

 

 

O problema é que comecei a ver isso tudo faltando uns 15 dias pro casamento e aí um novo personagem na saga de animação (auto) destruidora adentrou a lista do superego que já contava com a Power Ranger rosa suprimida, a amarela, a Ariel e a Úrsula (com certeza tem outras), chegou então, a BRIDEZILLA. Que já era o contraponto em si, a bridezilla é a mocinha e a bandida na mesma personagem. Além de uma fobia social gigalesca, ela é auto sabotadora.

 

 

Saí da terapia na terça-feira passada com duas opções, comprar um ansiolítico e um tampão de ouvido para tentar dormir melhor. Tentei o tampão primeiro, funcionou. Hoje começou a insônia e acho que agora, pela primeira vez na minha vida, vou introduzir um remédio pra ajudar a passar por esses últimos 4 dias de pesadelo, ainda não me decidi. Ontem fui tentar comprar uma roupinha nova, quando eu disse que tinha um vestido que eu gostava e tinha usado no casamento de um amigo, criticaram. “O vestido é preto, ninguém casa de preto, tem que comprar uma roupa nova!”, essas coisas nos consomem, a gente acaba fazendo um dia como outro qualquer num cartório, que é um serviço do qual abomino um pouquinho, um dia especial, em que muitas expectativas são impostas, só que a maior lição da vida adulta para todes nós sempre foi suprimir as expectativas, então não sei lidar com momentos como esse. Já pensei em desistir mil vezes, todos os filmes estadunidenses de pessoas que querem fugir dos seus casamentos caíram como uma luva, estou vivendo o estereótipo.

 

 

Voltando para a roupinha, fui a dois shoppings aqui no Rio. Gostei de uma blusa que era um pouco mais curta e uma calça com a cintura um pouco alta mas nem tanto.

 

– Moça, você pode me ajudar?
  Gostaria de experimentar aquela blusa ali da vitrine!
– Claro, qual é o seu tamanho?
– É 42 ou 44!
– Ah, nós só fazemos peças até o 42!

 

Agradeci e não quis nem experimentar o 42. Esse tipo de coisa me deixa triste, brava, frustrada, insegura pra caralho, tudo ao mesmo tempo. Quis ir embora. Não sou o padrão há muito tempo e hoje em dia luto para me sentir confortável não sendo padrão e luto para que outras possam ser felizes fora do padrão. Já entendi que familiares não entendem isso e externam de uma forma que machuca mas que no fundo querem o seu bem, “Você precisa ser padrão porque a sociedade só aceita o padrão!” é o que eles querem dizer, eles todos que na grande maioria tomam anti-depressivos e ansiolíticos e não são padrão e tentam se encaixar desesperadamente mesmo que isso precise fazer eles tomarem mais remédios e passar mais fome e gastar mais dinheiro. A verdade é que também são vítimas, se não é quebrado o ciclo da opressão com empoderamento e consciência, ela é reproduzida. De qualquer forma, acredito piamente que quem se sente completamente feliz e encaixado nessa sociedade doente é quem tem mais problemas, se anula, é muito 1984 pra mim. Padrão é mais uma construção social, apenas. Entendam isso, lidem com isso, sou linda e sou gorda e sou saudável e sou vegetariana. As proteínas estão bem, obrigada.

 

 

Enfim, caso em 4 dias. Hoje acordei 5:40 por pura e espontânea ansiedade. A cada “Parabéns!” recebido, meu estômago revira. Amigos me chamam de ‘noiva’ por puro bullying do milho verde. Hahaha! Eu não estou acostumada a ser o centro das atenções, isso me deixa nervosa. Outro dia fiz um cineclube no dia das bruxas na minha casa para eu e as amigas verem ‘Jovens Bruxas‘ e tomar ‘margaritas da meia noite’, fui a primeira a ficar bêbada e capotar, às vezes vou com sede ao pote como se ainda tivesse 7 anos tentando explicar os contrapontos de tamanho e peso para as minhas angústias.

 

 

Ainda assim, até esses meus 29 anos, tem valido a pena. Vou com sede ao pote, capoto, mas levanto, haha! Fico extremamente feliz por ser lembrada pelas minhas piadas sem graça e risada altíssima. Siga la pelota, 8h30 vou tomar café da manhã, beixota!

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