Tudo bem ser feminista e odiar sua menstruação

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)
Não deixe jamais a sua dor ser negligenciada: nem por médicos, nem pela ideia de naturalizar a dor de quem tem útero

Eu sempre odiei menstruar. E, considerando que eu menstruo desde os nove anos de idade, pode levar esse sempre bem a sério. Eu nunca havia pedido que isso acontecesse comigo e, de repente, tinha que andar com absorventes na mesma mochila que eu levava lanche para as aulas do primário.

Mas, conforme a maturidade foi chegando, esse sentimento de ódio permaneceu, mesmo que todos os incômodos da infância já tivessem passado. Ficaram dores, muitas dores, não só na barriga, mas também nas costas, nas pernas, de cabeça. Períodos longos – na TPM, antes do início do ciclo, e uns dias depois do fim do ciclo – de imunidade básica, perda de peso, enjôos. Eu praticamente ficava doente, de cama, uma vez ao mês. E para quem começou a trabalhar cedo, isso não era nada legal.

Muitas vezes, desmaiava de dor no trabalho e acordava no repouso de alguma clínica, tendo sido levada por colegas de trabalho preocupadas e tomando medicamentos na veia. Tive sorte de encontrar patrões compreensivos com minha condição, mas até todo apoio do mundo não compensava minhas faltas e quebras de tabelas no trabalho.

Eu odiava ter que ficar de cama, odiava não conseguir trabalhar e estudar, odiava me sentir tão indisposta sendo tão jovem. Eu odiava menstruar. Para ser honesta, ainda odeio. E escrever sobre isso faz parte de um processo de aceitação de um corpo doente, de um tratamento desse corpo doente e negação de alguns ideais de feminilidade que, por incrível que possa parecer, o feminismo me impôs.

A negligência (e até racismo) dos médicos

Se somente minha dor não era suficiente para convencer os médicos de colocarem um fim naquele sofrimento, eu argumentava sobre trabalho. “Não posso continuar assim, perdendo vagas por causa dessas dores”, eu dizia e pedia exames para investir a possibilidade de uma endometriose, uma doença que eu tinha visto por alto na TV.

Mas eu sempre ouvia de volta: “Você é muito jovem para ter essa doença”, “Magina, isso faz parte da vida da mulher”, “Dores são normais, você precisa aprender a lidar com elas”, “Toma esse remedinho aqui que passa”.

Alguns médicos chegaram a me prometer que depois de perder a virgindade ou ter filhos as dores passariam, mas a mais dolorosa foi: “Mulheres da sua cor são mais resistentes a dor, você vai se acostumar”.

A menstruação e o feminismo

Eu nunca me acostumei, ao invés disso, só fiquei pior, só odiei mais. Os enjoos começaram a ficar muito constantes e logo a diarreia não me deixava sair de casa durante os dias de ciclo. O sangramento durante a relação sexual passou a ser frequente e intenso, deixando meu marido preocupado (ele sempre achava que estava me machucando) e eu cansada de toda aquela situação.

O contato com o feminismo me fez estudar e perceber que os “remedinhos” dos médicos eram só maneira de beneficiar a eles e não a mim, que só ingeria hormônios a toa para garantir a comissão deles. Sem ser guiada corretamente pela medicina, recorri então a grupos e informações de feministas na internet, muitas delas falando sobre as experiências maravilhosas de terem largado o anticoncepcional. Fiz o mesmo e acredito que foi uma das melhores decisões da minha vida, pois meu corpo não precisava de sofrimentos artificiais, os “naturais” (entre aspas porque para os médicos minhas dores eram “naturais”) já rendiam dores suficientes.

Dali então, senti meu corpo menos inchado, um pouco mais de disposição e (pasme!) um ciclo menstruação muito mais regulado. Mas a verdade é que os contraceptivos só serviam para (pasme de novo!) desregular minha menstruação, pois eu passei a ter as mesmas dores infernais, só que com datas marcadas.

Claro que isso não foi de todo ruim. Com um ciclo regular, eu conseguia fazer planos para os dias em que não estava menstruada. Mas isso não mudava o fato de que eu seguia ficando doente todos os meses.

E o mesmo contato com o feminismo que me libertou do anticoncepcional e outros males, também me oprimiu e me calou sobre meu sofrimento. Se inicialmente eu ouvia dos médicos que o que eu passava era normal e tinha que lidar com isso, das feministas, muitas vezes, eu ouvia que eu tinha que abraçar o meu período menstrual, recebê-lo com alegria pois aquilo era a transformação do meu corpo – ou muitas coisas parecidas com esse conceito.

Não me leve a mal. Odiando tanto minha menstruação, eu fico feliz que outras mulheres não tiveram que passar pelo mesmo que eu passo. Mas a frustração também era inevitável. Eu queria falar do quanto eu odiava passar por aquilo. Que eu não achava nada normal e não via possibilidade de ficar confortável com meus ciclos menstruais. Ao invés disso, no desespero para de fato eliminar meus problemas, comecei a apostar nas dicas que eu encontrava. O resultado? Mais frustração. Porque aquelas receitas naturebas não davam certo pra mim? Nem descanso nem exercício físicos ajudavam com as dores. Cheguei a mudar meus hábitos alimentares, experimentar óleos e florais, chás, sucos… Nada.

Gastei mais do que tinha em consultas particulares em clínicas de “ginecologia feministas” para ter ali uma junção das conversas feministas e dos médicos. Não acreditaram na possibilidade da endometriose, tampouco compreenderam que eu precisava de remédios e não soluções naturebas – e tudo bem, as vezes é o que a gente precisa.

Com o entendimento que, de fato, a menstruação é algo natural para pessoas com útero, eu me sentia mal por odiar a minha. Me sentia mal por não conseguir me adaptar aos rituais que as mulheres compartilhavam na internet e que eu demorei para perceber que, muitas vezes, eram feitos de ponto de vistas privilegiados. Quero dizer, nem todo mundo pode simplesmente ficar de cama para receber seu poder feminino no primeiro dia do ciclo, sabe?

A verdade é que eu até me peguei pensando: como posso ser feminista e odiar minha menstruação? O que há de errado comigo?

[caption id="attachment_16714" align="alignnone" width="1280"] Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)[/caption]

 

O diagnóstico

Foi só o privilégio de sair de uma cidade pequena para ir morar em São Paulo, conseguir um convênio vinculado ao trabalho do meu marido e muita, mas muita pesquisa entre feministas por atendimento ginecológico humanizado, que me levou ao diagnóstico da endometriose.

Endometriose de contato. Endometriose gravíssima, segundo a doutora que me diagnosticou. Caso cirúrgico, pois a doença estava se desenvolvendo no meu corpo há mais de cinco anos – mais ou menos o tempo em fiquei de médico em médico perguntando sobre a doença e sendo negligenciada.

Segundo a médica, todo mundo que tem útero tem um nível de endométrio no corpo, pois é isso que cobre o órgão por dentro no momento da fecundação de uma possível gravidez. Quando essa fecundação não acontece, o endométrio vira uma espécie de casquinha e sai do útero, formando a menstruação. Para quem tem endometriose, o endométrio não sai completamente na menstruação, mas fica em volta do útero e inflama, pois não deveria estar ali. Esse nível de endométrio, em uma pessoa saudável, é de 33. O meu é de 150.

Já havia tanto dessa “casquinha inflamada” em volta do meu útero que comprometeu o meu ovário esquerdo e passou a se espalhar para outros órgãos, afetando minha bexiga, meu intestino (onde se formaram seis cistos), o reto e a coluna.

Não preciso dizer que essa não é uma notícia boa, né? Que a doutora pediu para eu me preparar para o que poderia ser mais de uma cirurgia, que não deveria ter deixado chegar nesse nível.

Bom, a única coisa que eu consegui sentir quando recebi o diagnóstico foi felicidade. Alegria. Levantei e abracei a médica. Agradeci pela atenção, por ter me ouvido, e finalmente constatei: eu não estava louca.

Por mais que os médicos dissessem que eu estava exagerando ou que as feministas achassem que, no momento que eu “aceitasse minha dor” eu ia sofrer menos, eles estavam errados! Por mais que tivessem me silenciado, eu estava certa. Eu tinha muitos motivos para odiar menstruar e aquilo literalmente me deixou doente.

A cirurgia

E me arrisco a dizer mais: se eu não tivesse insistido e acreditado no meu ódio a menstruação, eu não teria tido esse diagnóstico. Claro que esse tratamento não será fácil, principalmente a julgar que ele começará com uma cirurgia: uma video laparoscopia ginecológica que tem como objetivos limpar a tal casquinha em volta dos meus órgãos e depois detectar se a doença está dentro deles. Caso esteja, terei que fazer outro tipo de cirurgia com os especialistas nos respectivos órgãos. Então não, não vai ser muito moleza.

Mas só a perspectiva de que eu poderei me tratar já é algo mágico para mim. No meu caso, eu sempre tive um problema a ser tratado, uma doença se desenvolvendo que poderia ter sido resolvida com medicamentos. No caso de outra mulher, pode ser a solução natural. O que eu sempre vou tirar dessa experiência é que, não importa como você vai lidar, não deixe jamais a sua dor ser negligenciada, tampouco colocada numa caixa genérica. Diante de tantas negativas e pessoas descrentes em sua palavra, vai dar desânimo, vontade de desistir. Mas acredite sempre que tem gente por aí disposta a ouvir, a ajudar. E, para encontrá-las, você vai ter que insistir no que está sentindo e, se este sentimento for ódio, tudo bem.

Mais de Karoline Gomes

Kanye is a creep: Arte não justifica assédio

Nessa manhã, apanhei meu celular ao lado da cama assim que acordei, para ver os últimos tweets e snaps publicados nessa madrugada de sexta para sábado, afinal de contas, é assim que vejo notícias. Eis que uma coisa me soou muito estranha e me fez até sentar na cama e sacudir a cabeça. “Eu tô lendo isso direito?”.

A manchete que o Daily Mail escolheu para noticiar o novo clipe do rapper Kanye West no Snapchat foi: “Taylor Swift aparece nua na cama com Kim e Kanye”.

kanye is a creep

O título dá a entender que houve consentimento. Dá a entender que Taylor topou e participou da cena. O que seria pouco provável, considerando a treta que ela tem com Kanye por causa de uma citação imprópria e não autorizada na música “Famous”, que é justamente a trilha sonora desse tal clipe novo do rapper. Na letra, ele diz: “Sinto que eu e Taylor ainda podemos fazer sexo.  Por quê? Eu fiz aquela vadia famosa”.

Com um pouco mais de pesquisa, entendi que, no videoclipe, Kanye ficou pelado com bonecos feitos de cera idênticos à celebridades. Aparecem na ordem: o ex-presidente americano George W Bush; a editora da Vogue americana Anna Wintour; o atual candidato à presidência dos Estados Unidos (e xenefóbico, e racista, e machista, e LGBTfóbico, e muslimfóbico) Donald Trump; a cantora Rihanna; o cantor Chris Brown; Taylor Swift; o próprio Kanye, a socialite, empresária e esposa do rapper, Kim Kardashian; depois o rapper Ray J; a modelo (e ex de Kanye) Amber Rose; a ex-atleta e padastro de Kim Kardashian, Caitlyn Jenner e o comediante Bill Cosby.

Diante dessa lista, nem sei por onde começar a problematizar… Mas vamos lá.

Além do uso obviamente sem aprovação (e consequentemente abusivo) da imagem de Taylor Swift, também é no mínimo incômodo ver deitados na mesma cama, o transfóbico Donald Trump e Caitlyn Jenner, uma mulher transexual, mesmo que com uma certa distância entre os dois.

Já a representação de Kim Kardashian está cercada do marido e do ex-namorado, Ray J, com quem ela protagonizou a sex tape que a fez famosa. Outra presença perturbadora, é a de Bill Cosby, acusado diversas vezes de estupro e agressão à mulheres. Vale lembrar que Kanye já defendeu o estuprador no Twitter, gritando aos quatro cantos infinitos da internet que o cara é inocente.

Mas provavelmente o maior gatilho nessa cena, é o fato de que Rihanna, que já foi parceira de Kanye, estar representada ao lado de seu agressor, Chris Brown. Para Brown, o clipe não passou de mais uma talentosa maluquice do colega de profissão. Ele comentou no Instagram: “Por que minha bunda tem que aparecer e parecer uma figura de cera? Esse Kanye é maluco! Talentoso, mas louco (risos)!”.

Nunca dói em quem agride, não é mesmo? Mas como será para Rihanna, quem foi agredida, ver essa imagem?

kanye is a creep

E, mais uma vez, atos abusivos são protegidos pela arte

A mídia classificou o clipe como polêmico e desafiador… “A cara do Kanye”, que já provou ser egocêntrico o suficiente para se colocar como objeto central de uma suposta suruba entre celebridades.

Já os entendedores de artes, logo perceberam que a cena do videoclipe é inspirada na famosa pintura “Sleep”, de Vicent Desiderio, que retrata uma família dormindo junta. E, por causa disso, estão chamando Kanye de “gênio”.

Em sua defesa, Kanye utiliza os dois créditos (de polêmico e gênio). “Não é uma manifestação de apoio ou contra nenhum deles. É um comentário sobre fama”, disse o rapper para a Vanity Fair.

Até parece que Rihanna e Chris Brown ou Kim Kardashian e Ray J estão lado a lado à toa, né? Até parece que um cara ~supostamente~ tão criativo como Kanye não poderia ter pensado em outra maneira de falar sobre fama em seu clipe. Até parece que foi inevitável ser machista e despir a mulher de quem ele cobra sexo na letra da música. Mas, aparentemente, é tudo pelo bem da arte, pelo bem da crítica.

Talvez Kanye seja tudo isso que ele é creditado por. Talvez ele apenas seja overrated. Mas a verdade é que, se proteger de atitudes abusivas ou mesmo crimes de estupro e violência contra mulheres, é uma prática cada vez mais comum para os homens famosos.

Enquanto para as vítimas, sofrer agressão significa a perder credibilidade, respeito, carreira e até a vontade de continuar vivendo e dar a volta por cima, caras como Chris Brown e Bill Cosby, os que cometem os crimes, são protegidos e continuam vivendo livres para trabalhar.

Em 2014, a cantora Marina and the Diamonds se manifestou sobre o assunto no Twitter, explicando o problema de defender homens abusadores e agressores somente por serem famosos e, infelizmente, as palavras dela ainda são muito atuais.

Em uma sequência de tweets, ela disse: “Woodly Allen é um escroto. Terry Richardson é um escroto. R. Kelly é um escroto. Mas ainda assim as indústrias da moda, música e do filme celebram e apoiam estas pessoas, justificando suas ações com ‘mas eles são talentosos…’. Em outras indústrias, esses comportamentos seriam vistos de outra forma. Mas, no fim do dia, quem resiste à uma boa música pop, vídeo ou filme? E quem se importa se a pessoa que criou essa arte, estuprou jovens garotas ou bateu em suas namoradas, quando se está disponível no iTunes AGORA?”.

Seres humanos são mais importantes que arte

Sim, você pode achar o trabalho do Woody Allen maravilhoso. Eu também acho. Mas o que preocupa é que ainda há novos filmes dele para serem consumidos todo ano. Ele ainda está livre para ganhar dinheiro e se beneficiar de seu talento de outras formas, uma delas, é saindo ileso de acusações de estupro e abuso de menores, quando ele deveria estar preso e impedido de trabalhar na sua arte. Mais preocupante ainda é o quanto se esquece de tudo o que o diretor fez na hora de comprar um ingresso para um filme dele.

O talento de Woody não justifica o abuso que ele comete. Assim como o fato do som do Kanye ser bom ou não, não justifica que ele use da forma de uma mulher ou se refira a ela como ele fez com Taylor Swift em “Famous” e também não justifica as outras problematizações feitas. Mais uma vez citando Marina: seres humanos são mais importantes que arte.

A verdade é que Kanye e outros famosos sabem que seus trabalhos sempre serão mais valorizados do que o das mulheres, ou mesmo do que a integridade dessas mulheres. Por isso não é de se surpreender que ele tenha passado de todos os limites para “se expressar” em “Famous”. Acontece que ele se expressa de forma machista e a arte nunca vai justificar estes atos. 

Leia mais