Belle de Jour: Kellen

A inadequação de Kellen pelo olhar da fotógrafa Julia Rodrigues

 

Tenho obsessão pelo silêncio, por chegar em casa, ficar descalça e beber um chá apenas com os abajures ligados. Sinto uma necessidade física de ficar quieta, de não ouvir outras vozes humanas, ruídos hostis da cidade, o caos exterior. Os outros, que não compartilham essa carência comigo, frequentemente me acham estranha por minha predileção ao recolhimento. Esses dias, em um teste de personalidade, descobri que tudo indica que eu tenha o tipo dos sociopatas. It sounded familiar.

 
Kellen, por Julia Rodrigues

Kellen, por Julia Rodrigues
 

Não é de hoje que minha introspecção atrai julgamentos poucos positivos sobre a minha pessoa. Acredito mesmo que seja mais difícil identificar-se com quem pouco busca se comunicar através da palavra falada. Quando criança, tias, avós, primos – eventualmente até meus pais – me olhavam com curiosidade e espanto. Por que eu não queria brincar de pegar ou de esconder com os outros? Por que passava tanto tempo entre os adultos ou lendo gibis?

 
Kellen, por Julia Rodrigues
 

Para minha avó materna, eu era doente. Entendo ela pensar isso. Muito branca, muito magra, óculos gigantes, alérgica a tudo, asmática. Eu destoava em imagem e em espírito daquela família de negros e índios voluntariosos, impositivos e tempestuosos – uma grande mentira, aliás, pois internamente sou a mesma cabocla rancorosa que todos eles.

 
Kellen, por Julia Rodrigues

Kellen, por Julia Rodrigues
 

Fato é que ao contrário do que todos esperavam (até mesmo eu, não nego), não me tornei uma grande escritora, uma intelectual importante, magistrada ou médica. Caí na vala comum do jornalismo. As histórias que me alimentaram através dos gibis e dos causos contados nas rodas de conversas que eu tanto gostava de orbitar não se tornaram objeto de trabalho ou propósito de vida. Fui uma repórter medíocre e preguiçosa, uma redatora exigente e deficiente demais para pô-las no papel. Em todas as vezes que tentei transpor minha imaginação para a linguagem verbal, perdi força. O percurso entre a cristalização de uma ideia e sua expressão em palavras é amortizante.

 
Kellen, por Julia Rodrigues

Kellen, por Julia Rodrigues
 

Todas essas histórias, porém, continuam dentro de mim, guardadas como meu tesouro. E creio que sejam elas que eu queira ouvir sempre que chego em casa, com as energias drenadas pela vida lá fora, à procura dos mesmos cantinhos que eu ocupava na sala da casa da infância para melhor sorver a narrativa que eu encontrasse pela frente.

Mas, para me escutar, eu preciso de silêncio.

 
Kellen, por Julia Rodrigues

Kellen, por Julia Rodrigues
 

“The sound of silence” – Texto: Kellen / Fotos: Julia Rodrigues
Mais de Ovelha

Cobertura Ovelha: Casa TPM

 
A editora Trip convidou a Ovelha para cobrir o evento Casa TPM deste ano. Ficamos muito honradas e felizes pela lembrança e fomos conferir o que rolou nos dias 29 e 30 de agosto no Nacional Club, zona oeste da cidade de São Paulo.

 

 
Este foi o primeiro evento que fizemos uma cobertura. E também foi o primeiro encontro entre algumas das principais colaboradoras Ovelha: Bê Gondar, Karoline Gomes, Bruna Bento, Bárbara Malagoli (Baby C) e eu, Nina.

 
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A edição deste ano da Casa TPM levantou dois temas, um para cada dia de evento. Os debates de sábado giravam em torno de como as mulheres estavam inseridas, representadas ou participando da tecnologia. No domingo, a discussão foi sobre consumo consciente.

Resolvemos apresentar nossas considerações num formato despretensioso, divertido, honesto e fluido, como um bate-papo. Como tem muitas fotos e texto, dividimos em mais duas páginas. Use as setas do teclado (← →) para navegar ou, no smartphone, passe com o dedo.

 
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Todas as fotos e GIFs por Nina Grando, Bárbara Malagoli e Bruna Bento.
 

 

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