Dia da visibilidade bissexual

 
Estar escrevendo esse post hoje é uma espécie de artimanha do destino.

Vamos começar do começo: essa semana me vi repentinamente tomada por um vendaval. Ele me possuiu tamanhamente que não consegui descansar por um minuto sequer e me vi possessa como não ficava desde o colegial, quando conhecia algum livro/filme/banda nova, ou, talvez, desde que conheci o feminismo cinco anos atrás. O que aconteceu essa semana foi que, pela primeira vez na vida, comecei a pesquisar a bissexualidade. Pesquisar mesmo, pesquisar coletivos, textos teóricos, todas aquelas coisas que a gente faz quando se reconhece em um movimento ou uma comunidade e se apaixona.

Só que. Só que, eu me identifico como bissexual desde os quatorze anos. Faz doze anos isso. Doze. Hesitei no meu vendaval. Por que ele demorou doze anos para chegar? E mais. Alguns dos meus melhores amigos são bissexuais. Porém, nunca conversamos sobre isso, sobre a comunidade, as nossas dores e vitórias e todas aquelas coisas que conversamos quando nos reconhecemos um no outro. Engraçado, pensei. Quando comecei a me entender por feminista a única coisa que fazia, cem por cento do tempo, era falar sobre feminismo com as pessoas, ainda mais com minhas amigas, e ainda mais com minhas amigas feministas, em busca de criar uma comunidade em torno de mim que refletisse minhas necessidades, em busca de entender melhor, de criar meu próprio feminismo, etc. – basicamente, em busca de me tornar um ser físico presente e visível como feminista. Então por que isso não aconteceu em relação à minha sexualidade? Quanto mais eu pensava sobre o assunto, mais aterrorizada eu ficava. E logo entendi o que aconteceu.

Lembrei de quase todas as conversas que já tive com heterossexuais a respeito de bissexualidade. Apesar de conhecer muitos HT bacanas que não falam isso, a opinião parece ser geral. “Bissexual não existe” me diziam. “A pessoa só tá criando coragem pra se assumir gay ou passando por uma fase.” Mas eu não sou gay, eu pensava, lutando contra a vontade de abanar minha mão na frente do rosto da pessoa para ver se ela estava ou não me enxergando.

Corta para quando conheci o feminismo. Sendo mulher e não me identificando como HT, acabei caindo no nicho das lésbicas/bissexuais. Apesar de conhecer muitas lésbicas bacanas que não falam isso, a opinião parece ser geral. “Não existe bifobia” me diziam. Que é um discurso que cabe muito bem com o discurso hétero, já que se não existem bissexuais, então claro que não existe bifobia. RISOS fim da piada (alô gaslight!). Pior, se me sentia desconfortável com os comentários bi-fóbicos, automaticamente me reprimia, já que me sentia uma traídora por fazer mimimi do preconceito das irmãs.

O que aconteceu é que, é obvio que nunca conversei com ninguém a respeito da bissexualidade, que nunca tentei me estabelecer como indivíduo existente bissexual. Ao meu redor, de todas as comunidades que eu integrava (mesmo as comunidades de suposta resistência contra o patriarcado e a normatividade), ouvia ou que a bissexualidade não existe, ou que ela não é válida – ao menos, não tão válida quanto outras sexualidades. Como se as pessoas no mundo só conhecessem a opção A ou B, e a partir do momento que você não se encaixa em nenhuma das duas, você passa a não ter voz ou a não existir. Ou, em outras palavras, a partir do momento que você não se encaixa em um padrão de relacionamento monossexual, você não existe. Você passa a ser uma espécie de subgrupo, que serve só para fazer volume (“lésbicas/bissexuais”), mas que na hora do vamo-ver é considerado café com leite, como alguém que não conta “de verdade”. Esse tipo de postura faz com que ocorra o que chamamos de apagamento bissexual, em que você convence toda uma parcela da sociedade de que ela não existe, que a luta dela não é tão importante quanto outras, que ela está de mimimi só porque as reivindicações dela são diferentes das suas, ou porque você não passa pelas situações que ela passa e, portanto, não reconhece a validade daquilo. (convenhamos que pessoas heterossexuais e homossexuais geralmente não sofrem preconceito dos parceiros ou da comunidade própria – ou sendo, lésbicas da comunidade lésbica e héteros da comunidade hétero – pela sexualidade deles). Gente, isso nos soa familiar? Não é exatamente o que o patriarcado racista classista faz com a luta feminista todos os dias?

Uma mulher bissexual não precisa estar em um relacionamento com outra mulher para ser bissexual e sofrer bi-fobia, do mesmo jeito que uma lésbica solteira continua lésbica sujeita a lesbofobia. Se eu namoro um homem, continuo bi (não hétero), se eu namoro uma mulher continuo bi (não lésbica). E outra coisa: o preconceito que as mulheres bissexuais enfrentam perante a sociedade não é relativizado em relação às lésbicas, e assumir isso não significa apagar lesbofobia, significa apenas reconhecer que essa merda de homofobia afeta a todas nós. Não existe uma placa na testa das bissexuais dizendo “Oi sou bissexual também fico com homens, ok?” que impede o patriarcado de atacar quando vê duas mulheres andando na rua de mãos dadas. Isso sem contar o preconceito que as mulheres bi enfrentam no meio HT, onde são vistas como objetos de fetiche ou pior, namoradas que tem o duplo potencial de trair o macho e que, por isso, precisam ser vigiadas e corrigidas. O que todas as comunidades precisam entender é que todas as vivências são diferentes, são específicas, mas isso não as torna inferiores ou menos válidas ou menos dolorosas. Chega de submeter a vivência bissexual ao gaslighteamento!

Estatisticamente, bissexuais são a sexualidade com taxa mais alta de suicídio, doenças mentais e ocorrência de estupro. Para se ter uma ideia, em uma pesquisa de 2010, foram registradas ocorrências de estupro em 35% das mulheres hétero, 44% das lésbicas e 61% das mulheres bissexuais americanas. Quando contei para uma amiga minha bissexual que eu ia escrever esse post para o dia da visibilidade bissexual, ela me respondeu: “Sinceramente, o dia da visibilidade bi é uma piada na comunidade LGBT”. Nós duas concordamos tristemente. Que bela piada essa. Talvez, vendo essas estatísticas, possamos passar a existir aos olhos da sociedade monossexual. Se nós não existimos, que pelo menos o nosso sangue derramado exista.

Eu disse lá em cima que eu estar escrevendo esse post hoje é uma espécie de artimanha do destino. Que bela coincidência que foi eu estar me vendo como pessoa bissexual na sociedade (em vez de só na minha esfera pessoal) justamente na semana da visibilidade bissexual. Eu perceber que essa minha sensação de inadequação, de apagamento, de quero me encontrar mas não sei onde estou, vem comigo procurar algum lugar mais calmo (…) tenho quase certeza que eu não sou daqui não é um reflexo da minha sexualidade insuficiente (alô gaslight!) e sim da sociedade monossexista que eu estou integrando. De uma sociedade heterossexual que me rejeita, mas também de uma sociedade homossexual que me rejeita. Gente, o B tá lá, juro que to vendo ele no LGBT. Vocês não?
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Por mais doulas

Por Malu Risi*

Nesse ano, reservei minhas férias no trabalho para fazer algo que sempre quis: um curso de doula. Sou formada em Artes Visuais, trabalho em um museu importante de São Paulo, mas eu sempre senti uma comoção com o momento do nascer. Eis que, com o passar do tempo, o chamado ficou forte e decidi que agora era a hora, independentemente da minha formação.

Procurei, me informei e acabei encontrando o Instituto Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), um lugar com uma proposta incrível, um ponto de encontro para gestantes, profissionais da área e interessados em geral.

Já faz algum tempo que a palavra sororidade cabe perfeitamente com tudo o que acredito e durante o curso de doula não teve como ser diferente. Todas aquelas mulheres juntas para se formarem como profissionais capacitadas para estarem unidas à gestante, sendo companheiras cheias de empatia por ela, e as duas lutando pelo mesmo objetivo: um parto saudável, humanizado e repleto de respeito e amor para a mulher e seu bebê.

Eu, como amante do assunto e super interessada lendo tudo o que aparece nos livros e nas internê, sempre pensei que o parto fosse do âmbito feminino, uma ação realizada por mulheres de uma determinada comunidade, e a medicina introduziu os homens num lugar que antes era de exclusividade feminina. Colocaram a mulher obrigatoriamente deitada de pernas abertas para o doutor, sem levar em conta que, para a grande maioria de parturientes, essa não é a posição mais confortável. Ouvi as motivações de todas as mulheres que estavam ali no curso e eis que, BA-TA-TA, a grande maioria tinha sofrido violência obstetra no primeiro parto e só no segundo ou terceiro que acabaram conhecendo o parto humanizado.

Chorei. Chorei ouvindo os relatos de como o direito ao parto é roubado das mulheres. Chorei pensando em como o bebê é tratado como um grande problema na nossa sociedade e em como a mulher é vista como incompetente em parir. “Porque o bebê tá virado pro outro lado”, “porque o cordão umbilical está enrolado no pescoço”, “porque você não vai dilatar mais que isso não, olha o tamanho da sua bacia”, eles dizem… E tudo vira motivo para facilitar a vida de todo mundo (menos da grávida) porque ninguém quer ouvir uma mulher em estado de dor por muito tempo, às vezes, dias… E a mulher vai retrucar nessa hora? Na hora em que um DOUTOR diz pra ela que o bebê dela está em risco? Não. E eu também não retrucaria se não soubesse o que sei agora e não me sentisse devidamente amparada.

Me sinto obrigada a frisar o que antes só esbocei: o bebê e a gestante são vistos como problemas sim. E vou bater boca em almoço de família, vou ser a diferentona e vou levantar bandeira sobre esse assunto enquanto for necessário. Quantas vezes ouvimos que depois que o bebê nasce não dá mais pra viajar, não dá mais pra gente se dedicar às nossas coisas, não dá mais pra ver os amigos etc? Mas peraí! E a escolha dessa mulher que se tornou mãe? Cuidar do começo da vida de um ser humano não é fazer nada? Sem contar o assunto da repressão da amamentação em lugares públicos. Se a gente precisa criar uma lei que permita a mulher amamentar seu filho em público, minhas amigas… certamente estamos numa sociedade doente. Mas voltando. Só depois que o bebê desmama, que fala legal e que anda, pula e dança é que o bebê para de ser visto com maus olhos. Talvez porque finalmente ele não está mais no controle dessa mulher que o pariu? Vamos dormir com essa.

A doula é quem faz massagem, quem acalma, quem está ali para olhar no olho dessa mulher e falar: “Você é forte, você consegue!”. A doula voltar para esse momento da vida de uma família (porque é uma profissão de tempos imemoriais, viu?) é um empoderamento feminino. A doula não é médica, não faz procedimentos médicos como aferição de pressão, exame de toque e auscultação fetal. O papel dessa profissional é dar apoio físico e emocional à mulher antes, durante e depois do parto, podendo oferecer informações para evitar a intervenção cirúrgica desnecessária – triste realidade do cenário brasileiro em que 53,7% dos nossos bebês nascem de cesarianas e, segundo a Organização Mundial de Saúde, a porcentagem adequada gira em torno dos 15%.

O curso de doula acabou e ainda não me sinto preparada para me dedicar a esta função de forma remunerada, mas parece que eu ganhei um novo mundo, um mundo de amparo, conscientização e empoderamento feminino imenso. Nós devemos falar sobre o que acontece com as mulheres durante a gestação, na hora do parto e no período de lactação. Precisamos saber sobre os nossos corpos, as nossas condições físicas e, o mais importante, precisamos falar mais, MUITO mais, sobre violência obstetra. Até que o mundo escute.

Malu Risi é artista visual, cantora, metida à tatuadora, aprendiz de doula e faz uma faxina que é uma beleza. Também faz ilustrações para a Ovelha.

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gaslighteamento!

Estatisticamente, bissexuais são a sexualidade com taxa mais alta de suicídio, doenças mentais e ocorrência de estupro. Para se ter uma ideia, em uma pesquisa de 2010, foram registradas ocorrências de estupro em 35% das mulheres hétero, 44% das lésbicas e 61% das mulheres bissexuais americanas. Quando contei para uma amiga minha bissexual que eu ia escrever esse post para o dia da visibilidade bissexual, ela me respondeu: “Sinceramente, o dia da visibilidade bi é uma piada na comunidade LGBT”. Nós duas concordamos tristemente. Que bela piada essa. Talvez, vendo essas estatísticas, possamos passar a existir aos olhos da sociedade monossexual. Se nós não existimos, que pelo menos o nosso sangue derramado exista.

Eu disse lá em cima que eu estar escrevendo esse post hoje é uma espécie de artimanha do destino. Que bela coincidência que foi eu estar me vendo como pessoa bissexual na sociedade (em vez de só na minha esfera pessoal) justamente na semana da visibilidade bissexual. Eu perceber que essa minha sensação de inadequação, de apagamento, de quero me encontrar mas não sei onde estou, vem comigo procurar algum lugar mais calmo (…) tenho quase certeza que eu não sou daqui não é um reflexo da minha sexualidade insuficiente (alô gaslight!) e sim da sociedade monossexista que eu estou integrando. De uma sociedade heterossexual que me rejeita, mas também de uma sociedade homossexual que me rejeita. Gente, o B tá lá, juro que to vendo ele no LGBT. Vocês não?

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