Refugiadas e violentadas sexualmente

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)

De janeiro a novembro de 2015, mais de 950 mil refugiados e imigrantes chegaram na Europa pelo Mediterrâneo. Aproximadamente 16% desses recém-chegados no continente europeu eram mulheres e 24% crianças. Para esses dois grupos, a jornada para um lugar seguro é mais pesada e perigosa. Além de ter que lidar com a fome, frio, falta de abrigo e condições minimamente humanas de sobrevivência, esses grupos são postos sobre risco de abusos e violências sexuais.

Muitas dessas mulheres e meninas fogem exatamente disso. Em seus países de origem, elas seriam obrigadas a se casarem, ou seriam transformadas em escravas sexuais por algum grupo radical. Fugiram, como qualquer pessoa nessa situação faria. Mas tristemente encontram no seu caminho e em seu destino o mesmo machismo que sempre as transformaram em meros objetos.

Entre 2 e 7 de novembro de 2015, a Agência da ONU para Refugiados (UNHCR, na sigla em inglês), juntamente com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a Comissão para Mulheres Refugiadas (WRC), realizou uma pesquisa de campo para entender os riscos que mulheres e crianças estavam enfrentando nessa jornada. Os resultados foram divulgados em um longo e chocante relatório com dados, relatos pessoais e recomendações às autoridades responsáveis pela recepção dos refugiados.

Durante o pouco tempo de trabalho, o time da ONU observou que os casos de violência sexual direcionados ao gênero (Sexual and Gender-Based Violence, na expressão em inglês) não se limitam somente a casamentos precoces e forçados, mas também a violência doméstica, estupros, abusos sexuais e psicológicos, e ao uso do sexo como moeda de troca. A SGBV –  sigla em inglês usada no relatório – é reconhecida, ao mesmo tempo, como motivo pelo qual as mulheres deixaram seus países de origem e uma realidade durante sua viagem em busca de asilo.

Farah, por exemplo, uma mulher afegã entrevistada para a pesquisa, deixou seu país para ir com seus oito filhos para a Europa – sendo deles, sete meninas com menos de 17 anos. Eles haviam se refugiado no Irã, onde seu marido e um dos filhos foram mortos. Depois que um tio das crianças ameaçou vender uma das meninas para casamento, Farah decidiu fugir para salvar sua filha. Ao longo da viagem, suas meninas demonstraram ter muito medo dos outros homens que viajavam junto.

[caption id="attachment_9062" align="aligncenter" width="700"]Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy) Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)[/caption]

O medo não é infundado. Assim que tentam embarcar para a Europa, as mulheres continuam a sofrer investidas agressivas masculinas. Como é o caso de Oumo, que fugiu de um país da África subsaariana devido à perseguição política de sua família: seu cunhado foi assassinado e sua irmã despareceu. Enquanto tentava chegar à Grécia, foi duas vezes obrigada a se relacionar sexualmente com homens para conseguir alcançar seu destino. Na primeira vez, para ganhar um passaporte falso. Na segunda, com outro homem, para entrar em um barco saindo da Turquia.

Eu não tive escolha”, disse ela à entrevistadora, “sinto que vou enlouquecer.

O relatório constatou ainda uma falta de preparo das autoridades em prevenir e lidar com esse tipo de violência. Algumas acomodações que recepcionam os refugiados, como a de Samos na Grécia, não têm separação entre homens e mulheres nos dormitórios e banheiros. Essas condições aumentam os riscos de violências e abusos sexuais. Além disso, são oferecidos poucos (ou nenhum) serviço médico e psicológico adequados para lidar com casos de SGBV (Sexual and Gender Based Violence).

Poucas condições para ajudar mulheres grávidas

Há um número grande de mulheres grávidas que tentam fazer essa viagem por terra e mar para chegar ao continente europeu. Sem escolha e com a esperança de uma terra sem guerra para seus filhos, muitas começam a viagem com a gravidez já bastante avançada. Em um posto da Cruz Vermelha, em Tabanovce na Macedônia, foram registradas 16 grávidas entre 128 pessoas que passaram por ali em um turno de 12 horas. Boa parte delas havia sofrido um estresse psicológico muito grande e, por isso, tinha altos riscos de complicações.

Tehmina atravessava a Grécia já com 9 meses e meio de gravidez quando entrou em trabalho de parto. Ela queria chegar à Alemanha para ter o bebê, mas não podia mais esperar. Tehmina teve o bebê na Grécia. Em apenas algumas horas após o parto, ela e o recém-nascido deixaram o hospital para continuar caminhando.

Fatah, Oumo e Tehmina são apenas três tristes histórias entre milhares que continuam se repetindo, enquanto estamos aqui discutindo se a Europa deve aceitar ou não a entrada de ainda mais refugiados. Elas mostram que a questão é muito maior que isso. Enquanto discutíamos isso, foram esquecidas as mínimas condições para que essas mulheres pudessem chegar em um lugar seguro. Um lugar onde não tivessem que passar por humilhações como estupro, abusos sexuais e nem usar seus corpos como moeda de troca. Elas provam que a discussão sobre os refugiados vai muito além do “abrir ou não as fronteiras”.

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Mais de Débora Backes

História de uma passista além do samba

Tuane Rocha é uma passista de escola de samba no Rio de Janeiro. Foi a profissão que escolheu para sustentar sua filha, que teve ainda muito jovem. Para executar seu trabalho, ela se prepara minuciosamente. Coloca sua fantasia de penas e cria asas que a levam de um extremo a outro das passarelas de samba. Sua pele se transforma na pele de um elegante pássaro.

Com seu curta documental “Pele de Pássaro” (ou “Bird Skin”), Clara Peltier lança um olhar sobre o que há além dos passos de samba, do corpão e da quase completa nudez do corpo de uma dançarina de samba. Ela tenta explorar o lado mais pessoal e subjetivo dessa personagem do carnaval carioca, uma mulher que é vista frequentemente com preconceitos – racistas e machistas – e é percebida muitas vezes apenas como um elemento carnavalesco.

A diretora carioca viu Tuane pela primeira vez na competição da Musa do Carnaval do Caldeirão do Huck, em que a,  na época, representante da Unidos da Vila Isabel foi entrevistada por Luciano Huck. Como todas as competidoras, Tuane também é invasivamente questionada pelo ~engraçadinho~ apresentador sobre sua vida pessoal. É incrível como ele acha que tem o direito de fazer trocadilhos e perguntas de duplo sentido para tentar constranger as candidatas.  Mas Tuane não leva para o lado da brincadeira – afinal, não deveria ser né! – e responde a tudo de forma direta e sem medo.  Clara diz que a sambista chamou sua atenção pela firmeza e coragem que demonstrou em suas respostas: “Tuane foi mãe aos 13 anos, e entrou cedo no carnaval para sustentar a filha. Tenho muita admiração pela trajetória dela, é uma história de luta mas também de amor, ao samba, à cultura brasileira, às nossas origens”.

Ao contrário do (ridículo) apresentador do Caldeirão, Clara é cuidadosa ao abordar a vida pessoal de Tuane em frente às câmeras. Ela monta um curta documental bastante subjetivo: sem perguntas, sem muitas falas, só a passista e a câmera que a segue em casa, no camarim e no palco. “Desde o princípio imaginei o filme como um mergulho sensorial no universo da Tuane, captando a emoção, o êxtase, o vazio, a solidão, os contrastes que coexistem na rotina dela. Acho que a força do filme vem daí. Se escolhesse explicar quem ela é, o filme perderia a subjetividade e o espectador ficaria preso a ideias, não embarcaria na dor e na beleza de se viver do samba”, me explicou Clara em entrevista, algumas semanas depois de seu filme ter sido exibido na Semana de Cinema Feminista de Berlim. “Pele de Pássaro” foi uma das três produções cinematográficas brasileiras escolhidas para entrar no festival. Junto com  “ISTO”, de Mariana Collares e Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein.

No filme, Tuane aparece concentrada em frente ao espelho colocando sua maquiagem, roupa, enfim, montando sua fantasia. A câmera chega tão perto que é possível ouvir sua respiração. Depois da preparação, ela aparece em diferentes eventos: festas de casamento, festas de escola de samba e, por fim, no carro alegórico no desfile de carnaval. Tive a impressão de que ela se tornava outra personagem quando começava a sambar. No camarim e em casa, ela é séria, concentrada e tem até um ar de solitária. Já quando começa a dançar, aparece sorridente, cantante e cheia de pessoas a sua volta a admirando.

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Talvez o que mais tenha me impressionado foram os comentários pós-filme. Assisti em um cinema em Berlim, portanto a maior parte do público eram europeus, muitos dos quais haviam vistos passistas em apenas uma situação: no desfile de carnaval do Rio pela televisão. Lembro que quando o filme terminou perguntei a uma amiga francesa o que ela tinha achada do curta. Ela me disse que achou a fotografia muito bonita, mas o filme em si muito triste. “Ué, mas o filme não tem uma história triste…”, argumentei; “Bom, mas é triste a forma como essa mulher é vista como um animal, ou um objeto, que as pessoas acham que podem tocar, agarrar, apertar onde quiserem…”

De fato, em diferentes momentos a câmera supreende pessoas (até muitas mulheres) olhando para as curvas de Tuane e pedindo para tirar fotos, pegando na sua bunda ou nos seus peitos. O que minha amiga da França viu como algo muito triste e desrespeitoso, Clara explica como curiosidade: “Confesso que fiquei surpresa quando começamos a filmar e registramos esses momentos. Existem mulheres que não veem problema em apalpar o corpo de uma passista. Decidi incluir isso no filme para levantar a questão, uma passista pode ser vista como um objeto ou como a grande estrela do show. Passistas com uma longa carreira no carnaval, como a Tuane, encaram isso apenas como uma curiosidade das mulheres pelo corpo delas”.

Essas críticas que o filme faz são interessantes, mas acabam sendo pouco trabalhadas. Acho que faltou algo no curta, como incluir mais a voz de Tuane, no sentido de dar voz a ela mesma para contar sua história e mostrar sua personalidade. No final, o espectador conclui coisas sobre ela, mas ainda superficialmente. Em nenhum momento ficou clara a paixão de Tuane pelo samba ou sua trajetória de vida difícil, dos quais a diretora fala. Há cenas em que realmente a gente fica se questionando o que se passa na cabeça dela, mas essas questões não são levadas adiante.

Concordo com a minha amiga que disse que há momentos em que o filme revela uma certa tristeza. Em uma das cenas, ela está em frente a um espelho e retira os apliques do cabelo. Aos poucos ela revela a Tuane natural, verdadeira, sem maquiagem, fantasias e de cabelo crespo. Sem a pele de pássaro. Sem essa pele, ela anda pelas ruas como qualquer outra pessoa, sem chamar a atenção, receber olhares curiosos ou elogios.

Nesse momento o filme acaba – talvez sem querer – por levantar outra questão bem profunda: a da imagem da mulher negra e o estereótipo em torno dela. Com seus lindos cachos, seu corpão de “mulata do carnaval” e seu samba no pé, Tuane recebe olhares de todos os lados, de admiração, curiosidade, de desejo. Quando retira sua fantasia, revela seu cabelo natural e seu rosto sem maquiagem, Tuane continua sendo uma mulher maravilhosa, mas não recebe os mesmos tipos de olhares como quando era “a grande estrela do show”. Pensando sobre a cena, me pareceu que a mulher negra chama atenção positiva facilmente se associada a estereótipos relacionados a seu corpo e sensualidade. Quando não corresponde a esses estereótipos, parece ser vista como menos interessante por não remeter tão claramente à ideia do exótico. Mas em todos os casos, a mulher negra sofre assédios – muitas vezes influenciados pela hiperssexualição de sua imagem.

Tirando a minha crítica sobre a falta de voz de Tuane no filme, achei o curta interessante por oferecer um olhar feminino e de outro ângulo sobre uma passista de escola de samba e por te fazer pensar sobre a imagem da mulher sambista, da mulher negra e da mulher brasileira.

//FILMES SOBRE MULHERES 

A diretora Clara Peltier também é sócia-fundadora da produtora Eterna Filmes que surgiu em 2013. De forma independente, as componentes da Eterna têm como objetivo desenvolver filmes com temáticas femininas. “Buscamos histórias sobre mulheres brasileiras nos dias de hoje, que inspiram e revelam a força do feminino, sem perder de vista o prazer de ser mulher”, explica Clara.

Outro filme de Clara é o curta “Graça” que conta a história de uma jovem atleta de nado sincronizado. O próximo projeto da diretora carioca é um longa-metragem de ficção baseado em “Pele de Pássaro”.

Assista ao trailer.

Créditos das imagens: ETERNA FILMES
 

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Agência da ONU para Refugiados (UNHCR, na sigla em inglês), juntamente com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a Comissão para Mulheres Refugiadas (WRC), realizou uma pesquisa de campo para entender os riscos que mulheres e crianças estavam enfrentando nessa jornada. Os resultados foram divulgados em um longo e chocante relatório com dados, relatos pessoais e recomendações às autoridades responsáveis pela recepção dos refugiados.

Durante o pouco tempo de trabalho, o time da ONU observou que os casos de violência sexual direcionados ao gênero (Sexual and Gender-Based Violence, na expressão em inglês) não se limitam somente a casamentos precoces e forçados, mas também a violência doméstica, estupros, abusos sexuais e psicológicos, e ao uso do sexo como moeda de troca. A SGBV –  sigla em inglês usada no relatório – é reconhecida, ao mesmo tempo, como motivo pelo qual as mulheres deixaram seus países de origem e uma realidade durante sua viagem em busca de asilo.

Farah, por exemplo, uma mulher afegã entrevistada para a pesquisa, deixou seu país para ir com seus oito filhos para a Europa – sendo deles, sete meninas com menos de 17 anos. Eles haviam se refugiado no Irã, onde seu marido e um dos filhos foram mortos. Depois que um tio das crianças ameaçou vender uma das meninas para casamento, Farah decidiu fugir para salvar sua filha. Ao longo da viagem, suas meninas demonstraram ter muito medo dos outros homens que viajavam junto.

O medo não é infundado. Assim que tentam embarcar para a Europa, as mulheres continuam a sofrer investidas agressivas masculinas. Como é o caso de Oumo, que fugiu de um país da África subsaariana devido à perseguição política de sua família: seu cunhado foi assassinado e sua irmã despareceu. Enquanto tentava chegar à Grécia, foi duas vezes obrigada a se relacionar sexualmente com homens para conseguir alcançar seu destino. Na primeira vez, para ganhar um passaporte falso. Na segunda, com outro homem, para entrar em um barco saindo da Turquia.

Eu não tive escolha”, disse ela à entrevistadora, “sinto que vou enlouquecer.

O relatório constatou ainda uma falta de preparo das autoridades em prevenir e lidar com esse tipo de violência. Algumas acomodações que recepcionam os refugiados, como a de Samos na Grécia, não têm separação entre homens e mulheres nos dormitórios e banheiros. Essas condições aumentam os riscos de violências e abusos sexuais. Além disso, são oferecidos poucos (ou nenhum) serviço médico e psicológico adequados para lidar com casos de SGBV (Sexual and Gender Based Violence).

Poucas condições para ajudar mulheres grávidas

Há um número grande de mulheres grávidas que tentam fazer essa viagem por terra e mar para chegar ao continente europeu. Sem escolha e com a esperança de uma terra sem guerra para seus filhos, muitas começam a viagem com a gravidez já bastante avançada. Em um posto da Cruz Vermelha, em Tabanovce na Macedônia, foram registradas 16 grávidas entre 128 pessoas que passaram por ali em um turno de 12 horas. Boa parte delas havia sofrido um estresse psicológico muito grande e, por isso, tinha altos riscos de complicações.

Tehmina atravessava a Grécia já com 9 meses e meio de gravidez quando entrou em trabalho de parto. Ela queria chegar à Alemanha para ter o bebê, mas não podia mais esperar. Tehmina teve o bebê na Grécia. Em apenas algumas horas após o parto, ela e o recém-nascido deixaram o hospital para continuar caminhando.

Fatah, Oumo e Tehmina são apenas três tristes histórias entre milhares que continuam se repetindo, enquanto estamos aqui discutindo se a Europa deve aceitar ou não a entrada de ainda mais refugiados. Elas mostram que a questão é muito maior que isso. Enquanto discutíamos isso, foram esquecidas as mínimas condições para que essas mulheres pudessem chegar em um lugar seguro. Um lugar onde não tivessem que passar por humilhações como estupro, abusos sexuais e nem usar seus corpos como moeda de troca. Elas provam que a discussão sobre os refugiados vai muito além do “abrir ou não as fronteiras”.

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