Assista: A Garota Dinamarquesa

 
[infobox maintitle="SPOILER ALERT!" subtitle="Se você gosta de assistir um filme sem saber muito sobre ele, melhor não ler ainda! Leia depois que assistir (;" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]  
Em um atelier de pintura, em uma casa da década de 1920, em Copenhague, marido e esposa trabalham. A modelo para seu retrato se atrasa e ela pede ao marido que vista meias até o joelho, calce sapatos de salto e coloque um vestido pomposo na frente, para ajudá-la a terminar o trabalho. Enquanto ela pincela na tela, ele amacia o tecido do vestido com as pontas dos dedos e se perde em pensamentos. Concentrado no toque, respira rapidamente, quase que nervoso. Quando a modelo e amiga do casal entra no quarto de repente e vê a cena, vira-se para o homem vestido de mulher e em gargalhadas diz: “Vamos te chamar de Lili.”

 
Focus Fea
 
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.

Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.

 
the danish girl divulgação
 
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).

 
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Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.

A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.

Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.

O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.

Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.

 
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Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.

Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.

Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.

 

 


Créditos das imagens: Focus Features/Divulgação

Escrito por
Mais de Débora Backes

Quero ser: Natasha Leite

Em mais uma entrevista da série “Quero ser” (já publicamos entrevistas com a Luciana Brito e Jarid Arraes) , trazemos mais um exemplo de mulher empoderada e de sucesso em uma carreira profissional que ajuda a mudar vida de outras mulheres. Apresento a vocês a pesquisadora em Segurança e Desenvolvimento e ativista de Direitos Humanos Natasha Leite. Ela já passou por diferentes agências das Nações Unidas e trabalha hoje na organização internacional para resolução de conflitos Danish Demining Group, com sede central na Dinamarca. A carioca formada em Relações Internacionais com mestrado em Conflito, Segurança e Desenvolvimento no Reino Unido começou a trabalhar na ONU em 2010 e desde então passou pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), pela UNICEF e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Durante tantos anos engajada com direitos humanos, Natasha fez pesquisas e deu consultoria para projetos com foco em violência contra a mulher, tráfico de pessoas e violência armada em países da África, América do Sul, América Central e Caribe. Na nossa conversa para a Ovelha, ela falou sobre a sua percepção sobre esses temas e contou um pouco sobre sua carreira.

Espero que a história de Natasha e sua motivação em falar sobre assuntos tão difíceis sirva de inspiração para as leitoras interessadas em seguir carreira em direitos humanos e desenvolvimento.

Ovelha: Você poderia falar um pouco sobre o projeto que vem desenvolvendo dentro das Nações Unidas, relacionado à segurança pública?

Natasha Leite: Hoje estou no centro regional das Nações Unidas da América Latina e Caribe pela Paz, Desarmamento e Desenvolvimento*.  Parte do projeto é criar um sistema judiciário mais justo, mais robusto, com profissionais mais qualificados e tentar, com isso, ter uma percepção de segurança um pouco maior e criar uma confiança no sistema de justiça por parte da população. 

Antes disso, eu estava coordenando um projeto específico de prevenção de violência contra mulheres e tráfico de pessoas. Anos anteriores, eu estive trabalhando com a América Central na estratégia de prevenção de violência armada e promoção de segurança. Então, apesar de ter feito mestrado em Conflito, Segurança e Desenvolvimento e ter uma perspectiva acadêmica, meu trabalho sempre teve muito mais uma parte prática, desde assessoria política e planejamento de estratégia a implementação e apoio ao fortalecimento institucional em países e comunidades.

Ovelha: Quais as maiores dificuldades na abordagem de segurança pública e violência?

Natasha Leite: Você não pode tratar o estado como suficiente e homogêneo, que trabalha de uma forma única. Tem várias instituições que trabalham e ajudam muito no controle do problema, e outras que estão trabalhando contra. É uma questão muito mais complexa do que falar que os estados têm que ajudar no controle da violência contra a mulher.

Quando você trabalha com isso diretamente, tem uma parte terrível e que é muito dura que é ver como os direitos das pessoas podem ser violados tão sistematicamente sem ter ajuda ou apoio. Isso te faz perder muita fé na humanidade. Mas ao mesmo tempo, você vê como nas comunidades, as pessoas são tão resilientes em lidar com situações que muitas vezes superam a imaginação. Elas te fazem voltar a ter fé na humanidade.

Ovelha: Sua dissertação de mestrado foi relacionada à violência armada em El Salvador e você segue trabalhando com a temática em países latino americanos. Você poderia traçar a relação entre violência armada e gênero?

Natasha Leite: Existem muitos elementos que favorecem muito a violência armada. A disponibilidade de armas de fogo é um dos principais. Mas o que muitas vezes é ignorado é como as armas de fogo são importantes para grupos que se sentem marginalizados. Eles ganham uma relevância instantaneamente com elas.

A gente vem de discursos em que os homens são muito valorizados pela capacidade produtiva e econômica, numa região (América Latina) onde a maioria das casas são financeiramente lideradas por mulheres.

Academicamente não se pode fazer generalizações quanto a masculinidade na América Latina, até porque ela se desenvolve não só localmente, é uma dinâmica muito mais complexa. Mas vou acabar usando generalizações pra explicar. Na região (América Latina), é muito complicado, porque a gente vem de discursos em que os homens são muito valorizados pela capacidade produtiva e econômica, numa região onde a maioria das casas são financeiramente lideradas por mulheres. Então, parte do fortalecimento dessa masculinidade é perdido pelos homens que se sentem culturalmente marginalizados quando as mulheres tomam o poder econômico. Ao mesmo tempo, pra favorecer essa situação, a gente também minimiza a capacidade desses homens, na maioria das vezes, desses meninos, de expressar sentimentos de forma construtivo. Muitas vezes o que é mais valorizado é a violência. E a violência se torna uma forma válida de ele se comunicar. Além disso, se tem uma representação midiática absurda das mulheres, que as apresenta como virgens ou como putas. Não se tem um meio termo, o de uma pessoa empoderada de sua sexualidade. Então, é complicado quando todos esses elementos se juntam, em uma região que banalizou a violência com a impunidade e o crescimento do crime organizado na década de 80.

A violência armada não afeta só o homicídio, mas também afeta temas de violência sexual e de gênero. No Reino Unido, se viu uma redução absurda de violência doméstica com a mudança para leis mais restritas para a compra de armas. 

Ovelha: Em que sentido você quer dizer que a violência é uma maneira de se comunicar?

Natasha Leite: Se você tem uma arma de fogo na mão e você é de um grupo marginalizado da sociedade, você se torna automaticamente relevante pra outra pessoa que não tem uma arma de fogo. Então, a sua voz que poderia não ser ouvida é imediatamente ouvida.

Ovelha: E isso também teria, então, uma influencia na violência contra a mulher, no homem querer se reafirmar diante dessa mulher que está tomando o espaço dele?

Natasha Leite: Claro, porque existem várias maneiras de se tornar mais importante e mais poderoso. Uma dessas formas é tirar o poder de outras pessoas. Eu vou ser melhor, tornando todos piores, e isso vale também pra violência doméstica, violência contra a mulher. Se você está avançando, então eu vou encontrar uma forma de te manter atrás, de te mostrar que eu ainda sou relevante, que eu tenho uma participação.

Ovelha: Essa violência doméstica é mais frequente em classes mais baixas?

Natasha Leite: Na verdade, os estudos dizem que a violência contra a mulher tende a ser democrática em todos os setores, infelizmente. A diferença é no acesso a serviços e direitos das sobreviventes de violência doméstica e como elas são recebidas pelos diferentes tipos de serviço. Você tem, por exemplo, todo o discurso da polícia que as mulheres sofrem violência mas acabam voltando (pros parceiros). Claro, se você não tem pra onde ir, se você não tem recursos pra sair desse relacionamento, você está economicamente atrelada a pessoa, não existe outras possibilidades. O acesso de serviços relacionados à violência contra a mulher em grupos desprivilegiados é muito mais difícil.

Ovelha: Tráfico de pessoas também foi um dos seus pontos fortes de pesquisa e talvez esse ainda seja um tema ainda pouco problematizado no Brasil. Isso seria por uma falta de interesse ou pela ausência de informações mais precisas?

Natasha Leite: Acho que não é só no Brasil, acho que é uma questão global. Porque, infelizmente, tráfico de pessoas atinge grupos muito marginalizados, grupos tão marginalizados que não tem voz até mesmo em movimentos sociais. Infelizmente, até no movimento feminista existe um grau elitista.

O que não é discutido é que o tráfico de pessoas é influenciado pelo neoliberalismo. É uma situação de exploração para um fim econômico. É muitas vezes isso não entra na discussão.

Para falar de tráfico de pessoas, tem que entrar em temas, como direitos de imigrantes, direitos de trabalhadoras sexuais. Direitos de uma população que não necessariamente está na frente do poder. O tema do tráfico de pessoas entra em todas as linhas tabus, porque força cooperação entre estados e dentro dos estados em diferentes agências; força a entrada no tema de proteção de cidadãos que não são necessariamente do seu país; e entra na questão de saúde reprodutiva e acesso a direitos e serviços. Então é bastante complicado, até dentro dos nossos movimentos.

Mas outra questão por que o tráfico de pessoas não entra na agenda de discussão, talvez seja porque é o crime internacional mais rentável.

Ovelha: No documentário da diretora espanhola Mabel Lozano, “Chicas nuevas: 24 horas” que fala sobre o tráfico de mulheres da América Latina pra Espanha, mais especificamente pra Madri, ela mostra como essa atividade é organizada como qualquer outro negócio com demanda e procura. É chocante perceber essa relação…

Natasha Leite: É, o que não é discutido é que o tráfico de pessoas é influenciado pelo neoliberalismo. É uma situação de exploração para um fim econômico. É muitas vezes isso não entra na discussão. Não é só em Madri, mas na Europa em geral, o tema do trafico de pessoas é muito focado na exploração sexual comercial. E se você fala no contexto espanhol, com certeza é a exploração de latinos e latinas-americanas. Há falta de ação governamental dos dois lados. O governo da Espanha tem relações diplomáticas com todos países da América Latina! É uma falta de interesse clara.

Ovelha: Quais seriam as possíveis soluções para combater o tráfico de pessoas?

Natasha Leite: Existem várias maneiras de melhorar a situação, mas o primeiro ponto é combater corrupção. A falta de transparência das instituições e de acesso a serviços de denúncias para evitar que esse tipo de crime aconteça é absurda. Acho que os países do Mercosul estão avançando em uma linha que a Europa está se afastando: na legalização de imigrantes. O acordo do Mercosul de 2014 foi importante pra isso. Um dos grandes motivadores desse processo de legalização não foi só porque os argentinos adoram o Brasil e vice-e-versa ou porque era importante integrar Equador e Peru. Existia um problema forte que era do tráfico de bolivianos nesses países. Pra cortar o financiamento desses intermediários criminais que exploravam essas pessoas, você facilita a legalização de pessoas e você criminaliza o que deve ser criminalizado que é a exploração de pessoas. No final, essa política contra legalização dos imigrantes acaba não só violando direitos humanos, mas permitindo que o crime transnacional organizado se fortaleça. Ele se fortalece na ilegalidade.

Muitas vezes os discursos de autoridade são tão fortes que é muito mais vantajoso politicamente culpar o imigrante e o criminalizar do que, de fato, fortalecer as próprias instituições estaduais, garantir transparência, combater a corrupção. É muito mais difícil olhar pra dentro do próprio governo, do que usar um discurso de descriminalização dos imigrantes.

Ovelha: Interessante você tocar nesse ponto, porque acho que isso se aplica bastante com o caso da chegada dos refugiados na Europa…

Natasha Leite: Realmente. É absurdo porque são as pessoas em situações ainda mais vulneráveis. São famílias que não tem nenhum tipo de recurso e não falam a língua. Essa crise dos imigrantes é na verdade uma crise de solidariedade dos países europeus que não entendem que a maioria dos refugiados está sendo, de fato, acolhida por países em desenvolvimentos. Coloquei como crise de solidariedade, porque é uma questão muito mais discursiva do que uma vontade real de se organizar e apoiar a imigração. Se a questão de recursos fosse o grande problema, não se estaria dando tanto financiamento nesse momento para impedir que os refugiados cheguem até a Europa. É uma questão interna de pensar no tipo de integração. A comunidade internacional tem que tomar uma ação mais contundente e mais forte do que já vem tomando.

Ovelha: Você lançou o guia “Doing What You Love” (Fazendo o que você ama) sobre como trabalhar na área de Desenvolvimento Internacional. De onde veio a ideia de lançar esse guia para profissionais jovens?

Natasha Leite: Isso veio de uma frustração pessoal e generalizada com a falta de apoio ou de indicação que nossas universidades têm com o mercado de trabalho pra áreas não tradicionais. As pessoas de Relações Internacionais, por exemplo, não sabem como se colocar no mercado de trabalho, porque esse é um curso em que você tem que definir que tipo de profissional você quer ser. Acho que é importante pras pessoas trabalharem no que elas têm vocação de fazer, não no que parece apropriado. Depois do meu mestrado, eu decidi conversar com as pessoas, falar com a universidade pra criar uma rede de ex-alunos que possam apoiar estudantes com coisas básicas sobre a área.

Ovelha: Que primeiros conselhos você daria para alguém que está pensando em trabalhar na área de direitos humanos?

Natasha Leite: Eu acho que o importante é buscar trabalhar localmente, se você começa por uma organização menor com uma ONG, um trabalho comunitário, é bem provável que você tenha a possibilidade de desenvolver outras habilidades que vão ser muito necessárias no seu futuro. Não necessariamente você desenvolveria essas habilidades, se estivesse trabalhando pra a sede da ONU em Nova York, porque lá existe outros 500 estagiários voluntários e é menos provável que você vá se destacar. Também é muito mais difícil que alguém vá tirar tempo pra te ajudar a desenvolver e descobrir o que você precisa desenvolver e ver quais são as áreas que você gosta. Outra coisa importante é desenvolver o seu perfil a partir do trabalho que você gosta e não necessariamente imediatamente na organização que você quer trabalhar. 

 

 
* Na época da entrevista, Natasha estava trabalhando no centro regional das Nações Unidas da América Latina e Caribe. Hoje trabalha com a mesma linha de pesquisa na organização Danish Demining Group, e recentemente se mudou para Nairobi, capital do Quênia.
 

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Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.

Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.

 
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A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).

 
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Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.

A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.

Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.

O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.

Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.

 
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Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.

Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.

Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.

 

 


Créditos das imagens: Focus Features/Divulgação

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