Assista: A Girl Like Her

O filme “A Girl Like Her” (sem título traduzido no Brasil) foi mais uma das boas surpresas no Netflix de sexta-feira à noite. Gravado como se fosse um documentário em uma escola de Ensino Médio americana, o longa de ficção nos faz encarar os diferentes lados do bullying: o da vítima, o da pessoa que o comete e os das pessoas do lado de fora (parentes, amigos, colegas que não sabem o que fazer pra ajudar).

Por tratar os pontos de vista – principalmente o da vítima e do agressor – como um documentário, o filme ganha uma força dramática, daquelas que te deixa tensa e até meio que ansiosa pela protagonista. Pelo menos eu fiquei.

As personagens principais são Jessica Burns, interpretada pela atriz Lexi Ainsworth, e Avery Keller, papel da atriz Hunter King. Elas têm 16 anos e são alunas da South Brookdale High. Pode-se dizer que, mesmo assim, as duas não frequentam exatamente a mesma escola.

Avery é a garota popular que, com seu grupo de amigas – seu “squad” – estabelece sua dominância pelo colégio. Quando o grupo está no banheiro se maquiando, por exemplo, ninguém mais pode entrar. Aquele é seu território, assim como a cafeteria e os corredores da escola. Jessica é o contrário: doce, tímida, de poucos amigos. Ela não domina nenhum território como as popular girls e aos poucos nem mesmo mais a si mesma – muito porque Avery não a deixa em paz.

A Girl Like Her 1

No início do filme, Jessica caminha do quarto até o banheiro de sua casa. Tudo é filmado de sua perspectiva por uma câmera escondida, que foi dada pelo seu melhor amigo Brian (Jimmy Bennett) para gravar os assédios de Avery (isso fica claro mais tarde no filme). Jessica se olha no espelho, abre a porta do armário e pega os comprimidos da mãe. Engole todos que pode e cai inconsciente no chão.

A tentativa de suicídio de Jessica Burns vira assunto pelas salas de aula da South Brookdale High. O acontecimento coincide com a chegada de um grupo de jornalistas que iria fazer uma reportagem sobre o cotidiano em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. A jornalista Amy (interpretada pela própria diretora do longa, Amy S. Weber) muda a direção da matéria e se foca em entender as motivações de Jessica. Os rumores entre os adolescentes sobre os bullyings contra Jessica a levam até Avery.

Uma pequena observação que fiz e que considero ser um problema em muitos desses casos: todo mundo sabia que Jessica estava sofrendo nas mãos da garota popular, mas ninguém quis se meter. Alguns não levaram a sério, outros talvez tivessem medo, mas ninguém hesitou em passar a fofoca adiante. Isso é o mesmo que acontece em casos de violência doméstica testemunhada por vizinhos ou abusos sexuais gravados e passados adiante. É toda uma sociedade mais baseada no comentar a vida alheia do que em ajudar…

A Girl Like Her 2

No que me pareceu uma tentativa de ganhar a confiança de Avery, a jornalista lhe oferece uma câmera. Com ela, a adolescente poderia mostrar seu ponto de vista de como era ser a garota mais popular da escola. Avery usa a câmera para falar não só da sua vida no colégio, mas dentro de casa – com sua mãe super intrometida e o pai desempregado.

Enquanto isso, Brian conta aos jornalistas que seis meses antes da tentativa de suicídio de Jessica ele lhe havia dado uma mini câmera. Com isso, talvez Jessica pudesse se proteger e provar que Avery era a causa de seu inferno em vida. O que segue depois desse momento é um turbilhão dos mais diferentes tipos de assédios verbais e psicológicos feitos por Avery a Jessica. Algo que realmente te faz pensar: essa garota tem mais problemas que a própria vítima. Não é possível que alguém seja capaz disso!

Pois bem, se não fosse, talvez “A Girl Like Her” não existisse. A diretora Amy S. Weber se inspirou em suas próprias experiências para fazer o filme. Experiência como vítima e como praticante do bullying. Em uma entrevista, ela conta que aos seis anos sofria bullying de um menino da escola. Quando mudou de colégio, ela criou um escudo de proteção como sendo a “valentona”, aquela que encarava e brigava com todo mundo, aquela de quem se tinha medo.

[caption id="attachment_11911" align="aligncenter" width="590"]Diretora Amy S. Weber durante as filmagens de A Girl Like Her Diretora Amy S. Weber durante as filmagens de ‘A Girl Like Her’[/caption]

Com essa história e com seu filme, Amy quer mostrar que bullies não são maus sem motivos. Ao humanizar o monstro, por assim dizer, ela joga lenha na discussão para dizer que quem comete bullying talvez seja uma pessoa tão ou mais traumatizada que a vítima. Portanto, ambas devem ser tratadas, acompanhadas e auxiliadas.

Além de uma inspiração pessoal da diretora, outro fato interessante do longa é que os diálogos entre os atores teens foram todos improvisados. Também as entrevistas que aparecem no filme – como se fossem parte do documentário dos jornalistas – foram feitas com estudantes reais, e não atores. Amy queria atingir essa proximidade com o real, que um simples filme ficcional, muitas vezes, não consegue. Em um tema como bullying entre adolescentes, é a realidade o que mais importa.

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Mais de Débora Backes

Refugiadas e violentadas sexualmente

De janeiro a novembro de 2015, mais de 950 mil refugiados e imigrantes chegaram na Europa pelo Mediterrâneo. Aproximadamente 16% desses recém-chegados no continente europeu eram mulheres e 24% crianças. Para esses dois grupos, a jornada para um lugar seguro é mais pesada e perigosa. Além de ter que lidar com a fome, frio, falta de abrigo e condições minimamente humanas de sobrevivência, esses grupos são postos sobre risco de abusos e violências sexuais.

Muitas dessas mulheres e meninas fogem exatamente disso. Em seus países de origem, elas seriam obrigadas a se casarem, ou seriam transformadas em escravas sexuais por algum grupo radical. Fugiram, como qualquer pessoa nessa situação faria. Mas tristemente encontram no seu caminho e em seu destino o mesmo machismo que sempre as transformaram em meros objetos.

Entre 2 e 7 de novembro de 2015, a Agência da ONU para Refugiados (UNHCR, na sigla em inglês), juntamente com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a Comissão para Mulheres Refugiadas (WRC), realizou uma pesquisa de campo para entender os riscos que mulheres e crianças estavam enfrentando nessa jornada. Os resultados foram divulgados em um longo e chocante relatório com dados, relatos pessoais e recomendações às autoridades responsáveis pela recepção dos refugiados.

Durante o pouco tempo de trabalho, o time da ONU observou que os casos de violência sexual direcionados ao gênero (Sexual and Gender-Based Violence, na expressão em inglês) não se limitam somente a casamentos precoces e forçados, mas também a violência doméstica, estupros, abusos sexuais e psicológicos, e ao uso do sexo como moeda de troca. A SGBV –  sigla em inglês usada no relatório – é reconhecida, ao mesmo tempo, como motivo pelo qual as mulheres deixaram seus países de origem e uma realidade durante sua viagem em busca de asilo.

Farah, por exemplo, uma mulher afegã entrevistada para a pesquisa, deixou seu país para ir com seus oito filhos para a Europa – sendo deles, sete meninas com menos de 17 anos. Eles haviam se refugiado no Irã, onde seu marido e um dos filhos foram mortos. Depois que um tio das crianças ameaçou vender uma das meninas para casamento, Farah decidiu fugir para salvar sua filha. Ao longo da viagem, suas meninas demonstraram ter muito medo dos outros homens que viajavam junto.

O medo não é infundado. Assim que tentam embarcar para a Europa, as mulheres continuam a sofrer investidas agressivas masculinas. Como é o caso de Oumo, que fugiu de um país da África subsaariana devido à perseguição política de sua família: seu cunhado foi assassinado e sua irmã despareceu. Enquanto tentava chegar à Grécia, foi duas vezes obrigada a se relacionar sexualmente com homens para conseguir alcançar seu destino. Na primeira vez, para ganhar um passaporte falso. Na segunda, com outro homem, para entrar em um barco saindo da Turquia.

Eu não tive escolha”, disse ela à entrevistadora, “sinto que vou enlouquecer.

O relatório constatou ainda uma falta de preparo das autoridades em prevenir e lidar com esse tipo de violência. Algumas acomodações que recepcionam os refugiados, como a de Samos na Grécia, não têm separação entre homens e mulheres nos dormitórios e banheiros. Essas condições aumentam os riscos de violências e abusos sexuais. Além disso, são oferecidos poucos (ou nenhum) serviço médico e psicológico adequados para lidar com casos de SGBV (Sexual and Gender Based Violence).

Poucas condições para ajudar mulheres grávidas

Há um número grande de mulheres grávidas que tentam fazer essa viagem por terra e mar para chegar ao continente europeu. Sem escolha e com a esperança de uma terra sem guerra para seus filhos, muitas começam a viagem com a gravidez já bastante avançada. Em um posto da Cruz Vermelha, em Tabanovce na Macedônia, foram registradas 16 grávidas entre 128 pessoas que passaram por ali em um turno de 12 horas. Boa parte delas havia sofrido um estresse psicológico muito grande e, por isso, tinha altos riscos de complicações.

Tehmina atravessava a Grécia já com 9 meses e meio de gravidez quando entrou em trabalho de parto. Ela queria chegar à Alemanha para ter o bebê, mas não podia mais esperar. Tehmina teve o bebê na Grécia. Em apenas algumas horas após o parto, ela e o recém-nascido deixaram o hospital para continuar caminhando.

Fatah, Oumo e Tehmina são apenas três tristes histórias entre milhares que continuam se repetindo, enquanto estamos aqui discutindo se a Europa deve aceitar ou não a entrada de ainda mais refugiados. Elas mostram que a questão é muito maior que isso. Enquanto discutíamos isso, foram esquecidas as mínimas condições para que essas mulheres pudessem chegar em um lugar seguro. Um lugar onde não tivessem que passar por humilhações como estupro, abusos sexuais e nem usar seus corpos como moeda de troca. Elas provam que a discussão sobre os refugiados vai muito além do “abrir ou não as fronteiras”.

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No início do filme, Jessica caminha do quarto até o banheiro de sua casa. Tudo é filmado de sua perspectiva por uma câmera escondida, que foi dada pelo seu melhor amigo Brian (Jimmy Bennett) para gravar os assédios de Avery (isso fica claro mais tarde no filme). Jessica se olha no espelho, abre a porta do armário e pega os comprimidos da mãe. Engole todos que pode e cai inconsciente no chão.

A tentativa de suicídio de Jessica Burns vira assunto pelas salas de aula da South Brookdale High. O acontecimento coincide com a chegada de um grupo de jornalistas que iria fazer uma reportagem sobre o cotidiano em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. A jornalista Amy (interpretada pela própria diretora do longa, Amy S. Weber) muda a direção da matéria e se foca em entender as motivações de Jessica. Os rumores entre os adolescentes sobre os bullyings contra Jessica a levam até Avery.

Uma pequena observação que fiz e que considero ser um problema em muitos desses casos: todo mundo sabia que Jessica estava sofrendo nas mãos da garota popular, mas ninguém quis se meter. Alguns não levaram a sério, outros talvez tivessem medo, mas ninguém hesitou em passar a fofoca adiante. Isso é o mesmo que acontece em casos de violência doméstica testemunhada por vizinhos ou abusos sexuais gravados e passados adiante. É toda uma sociedade mais baseada no comentar a vida alheia do que em ajudar…

A Girl Like Her 2

No que me pareceu uma tentativa de ganhar a confiança de Avery, a jornalista lhe oferece uma câmera. Com ela, a adolescente poderia mostrar seu ponto de vista de como era ser a garota mais popular da escola. Avery usa a câmera para falar não só da sua vida no colégio, mas dentro de casa – com sua mãe super intrometida e o pai desempregado.

Enquanto isso, Brian conta aos jornalistas que seis meses antes da tentativa de suicídio de Jessica ele lhe havia dado uma mini câmera. Com isso, talvez Jessica pudesse se proteger e provar que Avery era a causa de seu inferno em vida. O que segue depois desse momento é um turbilhão dos mais diferentes tipos de assédios verbais e psicológicos feitos por Avery a Jessica. Algo que realmente te faz pensar: essa garota tem mais problemas que a própria vítima. Não é possível que alguém seja capaz disso!

Pois bem, se não fosse, talvez “A Girl Like Her” não existisse. A diretora Amy S. Weber se inspirou em suas próprias experiências para fazer o filme. Experiência como vítima e como praticante do bullying. Em uma entrevista, ela conta que aos seis anos sofria bullying de um menino da escola. Quando mudou de colégio, ela criou um escudo de proteção como sendo a “valentona”, aquela que encarava e brigava com todo mundo, aquela de quem se tinha medo.

Com essa história e com seu filme, Amy quer mostrar que bullies não são maus sem motivos. Ao humanizar o monstro, por assim dizer, ela joga lenha na discussão para dizer que quem comete bullying talvez seja uma pessoa tão ou mais traumatizada que a vítima. Portanto, ambas devem ser tratadas, acompanhadas e auxiliadas.

Além de uma inspiração pessoal da diretora, outro fato interessante do longa é que os diálogos entre os atores teens foram todos improvisados. Também as entrevistas que aparecem no filme – como se fossem parte do documentário dos jornalistas – foram feitas com estudantes reais, e não atores. Amy queria atingir essa proximidade com o real, que um simples filme ficcional, muitas vezes, não consegue. Em um tema como bullying entre adolescentes, é a realidade o que mais importa.

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No início do filme, Jessica caminha do quarto até o banheiro de sua casa. Tudo é filmado de sua perspectiva por uma câmera escondida, que foi dada pelo seu melhor amigo Brian (Jimmy Bennett) para gravar os assédios de Avery (isso fica claro mais tarde no filme). Jessica se olha no espelho, abre a porta do armário e pega os comprimidos da mãe. Engole todos que pode e cai inconsciente no chão.

A tentativa de suicídio de Jessica Burns vira assunto pelas salas de aula da South Brookdale High. O acontecimento coincide com a chegada de um grupo de jornalistas que iria fazer uma reportagem sobre o cotidiano em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. A jornalista Amy (interpretada pela própria diretora do longa, Amy S. Weber) muda a direção da matéria e se foca em entender as motivações de Jessica. Os rumores entre os adolescentes sobre os bullyings contra Jessica a levam até Avery.

Uma pequena observação que fiz e que considero ser um problema em muitos desses casos: todo mundo sabia que Jessica estava sofrendo nas mãos da garota popular, mas ninguém quis se meter. Alguns não levaram a sério, outros talvez tivessem medo, mas ninguém hesitou em passar a fofoca adiante. Isso é o mesmo que acontece em casos de violência doméstica testemunhada por vizinhos ou abusos sexuais gravados e passados adiante. É toda uma sociedade mais baseada no comentar a vida alheia do que em ajudar…

A Girl Like Her 2

No que me pareceu uma tentativa de ganhar a confiança de Avery, a jornalista lhe oferece uma câmera. Com ela, a adolescente poderia mostrar seu ponto de vista de como era ser a garota mais popular da escola. Avery usa a câmera para falar não só da sua vida no colégio, mas dentro de casa – com sua mãe super intrometida e o pai desempregado.

Enquanto isso, Brian conta aos jornalistas que seis meses antes da tentativa de suicídio de Jessica ele lhe havia dado uma mini câmera. Com isso, talvez Jessica pudesse se proteger e provar que Avery era a causa de seu inferno em vida. O que segue depois desse momento é um turbilhão dos mais diferentes tipos de assédios verbais e psicológicos feitos por Avery a Jessica. Algo que realmente te faz pensar: essa garota tem mais problemas que a própria vítima. Não é possível que alguém seja capaz disso!

Pois bem, se não fosse, talvez “A Girl Like Her” não existisse. A diretora Amy S. Weber se inspirou em suas próprias experiências para fazer o filme. Experiência como vítima e como praticante do bullying. Em uma entrevista, ela conta que aos seis anos sofria bullying de um menino da escola. Quando mudou de colégio, ela criou um escudo de proteção como sendo a “valentona”, aquela que encarava e brigava com todo mundo, aquela de quem se tinha medo.

Com essa história e com seu filme, Amy quer mostrar que bullies não são maus sem motivos. Ao humanizar o monstro, por assim dizer, ela joga lenha na discussão para dizer que quem comete bullying talvez seja uma pessoa tão ou mais traumatizada que a vítima. Portanto, ambas devem ser tratadas, acompanhadas e auxiliadas.

Além de uma inspiração pessoal da diretora, outro fato interessante do longa é que os diálogos entre os atores teens foram todos improvisados. Também as entrevistas que aparecem no filme – como se fossem parte do documentário dos jornalistas – foram feitas com estudantes reais, e não atores. Amy queria atingir essa proximidade com o real, que um simples filme ficcional, muitas vezes, não consegue. Em um tema como bullying entre adolescentes, é a realidade o que mais importa.

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