Assista: A Girl Like Her

O filme “A Girl Like Her” (sem título traduzido no Brasil) foi mais uma das boas surpresas no Netflix de sexta-feira à noite. Gravado como se fosse um documentário em uma escola de Ensino Médio americana, o longa de ficção nos faz encarar os diferentes lados do bullying: o da vítima, o da pessoa que o comete e os das pessoas do lado de fora (parentes, amigos, colegas que não sabem o que fazer pra ajudar).

Por tratar os pontos de vista – principalmente o da vítima e do agressor – como um documentário, o filme ganha uma força dramática, daquelas que te deixa tensa e até meio que ansiosa pela protagonista. Pelo menos eu fiquei.

As personagens principais são Jessica Burns, interpretada pela atriz Lexi Ainsworth, e Avery Keller, papel da atriz Hunter King. Elas têm 16 anos e são alunas da South Brookdale High. Pode-se dizer que, mesmo assim, as duas não frequentam exatamente a mesma escola.

Avery é a garota popular que, com seu grupo de amigas – seu “squad” – estabelece sua dominância pelo colégio. Quando o grupo está no banheiro se maquiando, por exemplo, ninguém mais pode entrar. Aquele é seu território, assim como a cafeteria e os corredores da escola. Jessica é o contrário: doce, tímida, de poucos amigos. Ela não domina nenhum território como as popular girls e aos poucos nem mesmo mais a si mesma – muito porque Avery não a deixa em paz.

A Girl Like Her 1

No início do filme, Jessica caminha do quarto até o banheiro de sua casa. Tudo é filmado de sua perspectiva por uma câmera escondida, que foi dada pelo seu melhor amigo Brian (Jimmy Bennett) para gravar os assédios de Avery (isso fica claro mais tarde no filme). Jessica se olha no espelho, abre a porta do armário e pega os comprimidos da mãe. Engole todos que pode e cai inconsciente no chão.

A tentativa de suicídio de Jessica Burns vira assunto pelas salas de aula da South Brookdale High. O acontecimento coincide com a chegada de um grupo de jornalistas que iria fazer uma reportagem sobre o cotidiano em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. A jornalista Amy (interpretada pela própria diretora do longa, Amy S. Weber) muda a direção da matéria e se foca em entender as motivações de Jessica. Os rumores entre os adolescentes sobre os bullyings contra Jessica a levam até Avery.

Uma pequena observação que fiz e que considero ser um problema em muitos desses casos: todo mundo sabia que Jessica estava sofrendo nas mãos da garota popular, mas ninguém quis se meter. Alguns não levaram a sério, outros talvez tivessem medo, mas ninguém hesitou em passar a fofoca adiante. Isso é o mesmo que acontece em casos de violência doméstica testemunhada por vizinhos ou abusos sexuais gravados e passados adiante. É toda uma sociedade mais baseada no comentar a vida alheia do que em ajudar…

A Girl Like Her 2

No que me pareceu uma tentativa de ganhar a confiança de Avery, a jornalista lhe oferece uma câmera. Com ela, a adolescente poderia mostrar seu ponto de vista de como era ser a garota mais popular da escola. Avery usa a câmera para falar não só da sua vida no colégio, mas dentro de casa – com sua mãe super intrometida e o pai desempregado.

Enquanto isso, Brian conta aos jornalistas que seis meses antes da tentativa de suicídio de Jessica ele lhe havia dado uma mini câmera. Com isso, talvez Jessica pudesse se proteger e provar que Avery era a causa de seu inferno em vida. O que segue depois desse momento é um turbilhão dos mais diferentes tipos de assédios verbais e psicológicos feitos por Avery a Jessica. Algo que realmente te faz pensar: essa garota tem mais problemas que a própria vítima. Não é possível que alguém seja capaz disso!

Pois bem, se não fosse, talvez “A Girl Like Her” não existisse. A diretora Amy S. Weber se inspirou em suas próprias experiências para fazer o filme. Experiência como vítima e como praticante do bullying. Em uma entrevista, ela conta que aos seis anos sofria bullying de um menino da escola. Quando mudou de colégio, ela criou um escudo de proteção como sendo a “valentona”, aquela que encarava e brigava com todo mundo, aquela de quem se tinha medo.

[caption id="attachment_11911" align="aligncenter" width="590"]Diretora Amy S. Weber durante as filmagens de A Girl Like Her Diretora Amy S. Weber durante as filmagens de ‘A Girl Like Her’[/caption]

Com essa história e com seu filme, Amy quer mostrar que bullies não são maus sem motivos. Ao humanizar o monstro, por assim dizer, ela joga lenha na discussão para dizer que quem comete bullying talvez seja uma pessoa tão ou mais traumatizada que a vítima. Portanto, ambas devem ser tratadas, acompanhadas e auxiliadas.

Além de uma inspiração pessoal da diretora, outro fato interessante do longa é que os diálogos entre os atores teens foram todos improvisados. Também as entrevistas que aparecem no filme – como se fossem parte do documentário dos jornalistas – foram feitas com estudantes reais, e não atores. Amy queria atingir essa proximidade com o real, que um simples filme ficcional, muitas vezes, não consegue. Em um tema como bullying entre adolescentes, é a realidade o que mais importa.

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Mais de Débora Backes

Quero ser: Natasha Leite

Em mais uma entrevista da série “Quero ser” (já publicamos entrevistas com a Luciana Brito e Jarid Arraes) , trazemos mais um exemplo de mulher empoderada e de sucesso em uma carreira profissional que ajuda a mudar vida de outras mulheres. Apresento a vocês a pesquisadora em Segurança e Desenvolvimento e ativista de Direitos Humanos Natasha Leite. Ela já passou por diferentes agências das Nações Unidas e trabalha hoje na organização internacional para resolução de conflitos Danish Demining Group, com sede central na Dinamarca. A carioca formada em Relações Internacionais com mestrado em Conflito, Segurança e Desenvolvimento no Reino Unido começou a trabalhar na ONU em 2010 e desde então passou pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), pela UNICEF e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Durante tantos anos engajada com direitos humanos, Natasha fez pesquisas e deu consultoria para projetos com foco em violência contra a mulher, tráfico de pessoas e violência armada em países da África, América do Sul, América Central e Caribe. Na nossa conversa para a Ovelha, ela falou sobre a sua percepção sobre esses temas e contou um pouco sobre sua carreira.

Espero que a história de Natasha e sua motivação em falar sobre assuntos tão difíceis sirva de inspiração para as leitoras interessadas em seguir carreira em direitos humanos e desenvolvimento.

Ovelha: Você poderia falar um pouco sobre o projeto que vem desenvolvendo dentro das Nações Unidas, relacionado à segurança pública?

Natasha Leite: Hoje estou no centro regional das Nações Unidas da América Latina e Caribe pela Paz, Desarmamento e Desenvolvimento*.  Parte do projeto é criar um sistema judiciário mais justo, mais robusto, com profissionais mais qualificados e tentar, com isso, ter uma percepção de segurança um pouco maior e criar uma confiança no sistema de justiça por parte da população. 

Antes disso, eu estava coordenando um projeto específico de prevenção de violência contra mulheres e tráfico de pessoas. Anos anteriores, eu estive trabalhando com a América Central na estratégia de prevenção de violência armada e promoção de segurança. Então, apesar de ter feito mestrado em Conflito, Segurança e Desenvolvimento e ter uma perspectiva acadêmica, meu trabalho sempre teve muito mais uma parte prática, desde assessoria política e planejamento de estratégia a implementação e apoio ao fortalecimento institucional em países e comunidades.

Ovelha: Quais as maiores dificuldades na abordagem de segurança pública e violência?

Natasha Leite: Você não pode tratar o estado como suficiente e homogêneo, que trabalha de uma forma única. Tem várias instituições que trabalham e ajudam muito no controle do problema, e outras que estão trabalhando contra. É uma questão muito mais complexa do que falar que os estados têm que ajudar no controle da violência contra a mulher.

Quando você trabalha com isso diretamente, tem uma parte terrível e que é muito dura que é ver como os direitos das pessoas podem ser violados tão sistematicamente sem ter ajuda ou apoio. Isso te faz perder muita fé na humanidade. Mas ao mesmo tempo, você vê como nas comunidades, as pessoas são tão resilientes em lidar com situações que muitas vezes superam a imaginação. Elas te fazem voltar a ter fé na humanidade.

Ovelha: Sua dissertação de mestrado foi relacionada à violência armada em El Salvador e você segue trabalhando com a temática em países latino americanos. Você poderia traçar a relação entre violência armada e gênero?

Natasha Leite: Existem muitos elementos que favorecem muito a violência armada. A disponibilidade de armas de fogo é um dos principais. Mas o que muitas vezes é ignorado é como as armas de fogo são importantes para grupos que se sentem marginalizados. Eles ganham uma relevância instantaneamente com elas.

A gente vem de discursos em que os homens são muito valorizados pela capacidade produtiva e econômica, numa região (América Latina) onde a maioria das casas são financeiramente lideradas por mulheres.

Academicamente não se pode fazer generalizações quanto a masculinidade na América Latina, até porque ela se desenvolve não só localmente, é uma dinâmica muito mais complexa. Mas vou acabar usando generalizações pra explicar. Na região (América Latina), é muito complicado, porque a gente vem de discursos em que os homens são muito valorizados pela capacidade produtiva e econômica, numa região onde a maioria das casas são financeiramente lideradas por mulheres. Então, parte do fortalecimento dessa masculinidade é perdido pelos homens que se sentem culturalmente marginalizados quando as mulheres tomam o poder econômico. Ao mesmo tempo, pra favorecer essa situação, a gente também minimiza a capacidade desses homens, na maioria das vezes, desses meninos, de expressar sentimentos de forma construtivo. Muitas vezes o que é mais valorizado é a violência. E a violência se torna uma forma válida de ele se comunicar. Além disso, se tem uma representação midiática absurda das mulheres, que as apresenta como virgens ou como putas. Não se tem um meio termo, o de uma pessoa empoderada de sua sexualidade. Então, é complicado quando todos esses elementos se juntam, em uma região que banalizou a violência com a impunidade e o crescimento do crime organizado na década de 80.

A violência armada não afeta só o homicídio, mas também afeta temas de violência sexual e de gênero. No Reino Unido, se viu uma redução absurda de violência doméstica com a mudança para leis mais restritas para a compra de armas. 

Ovelha: Em que sentido você quer dizer que a violência é uma maneira de se comunicar?

Natasha Leite: Se você tem uma arma de fogo na mão e você é de um grupo marginalizado da sociedade, você se torna automaticamente relevante pra outra pessoa que não tem uma arma de fogo. Então, a sua voz que poderia não ser ouvida é imediatamente ouvida.

Ovelha: E isso também teria, então, uma influencia na violência contra a mulher, no homem querer se reafirmar diante dessa mulher que está tomando o espaço dele?

Natasha Leite: Claro, porque existem várias maneiras de se tornar mais importante e mais poderoso. Uma dessas formas é tirar o poder de outras pessoas. Eu vou ser melhor, tornando todos piores, e isso vale também pra violência doméstica, violência contra a mulher. Se você está avançando, então eu vou encontrar uma forma de te manter atrás, de te mostrar que eu ainda sou relevante, que eu tenho uma participação.

Ovelha: Essa violência doméstica é mais frequente em classes mais baixas?

Natasha Leite: Na verdade, os estudos dizem que a violência contra a mulher tende a ser democrática em todos os setores, infelizmente. A diferença é no acesso a serviços e direitos das sobreviventes de violência doméstica e como elas são recebidas pelos diferentes tipos de serviço. Você tem, por exemplo, todo o discurso da polícia que as mulheres sofrem violência mas acabam voltando (pros parceiros). Claro, se você não tem pra onde ir, se você não tem recursos pra sair desse relacionamento, você está economicamente atrelada a pessoa, não existe outras possibilidades. O acesso de serviços relacionados à violência contra a mulher em grupos desprivilegiados é muito mais difícil.

Ovelha: Tráfico de pessoas também foi um dos seus pontos fortes de pesquisa e talvez esse ainda seja um tema ainda pouco problematizado no Brasil. Isso seria por uma falta de interesse ou pela ausência de informações mais precisas?

Natasha Leite: Acho que não é só no Brasil, acho que é uma questão global. Porque, infelizmente, tráfico de pessoas atinge grupos muito marginalizados, grupos tão marginalizados que não tem voz até mesmo em movimentos sociais. Infelizmente, até no movimento feminista existe um grau elitista.

O que não é discutido é que o tráfico de pessoas é influenciado pelo neoliberalismo. É uma situação de exploração para um fim econômico. É muitas vezes isso não entra na discussão.

Para falar de tráfico de pessoas, tem que entrar em temas, como direitos de imigrantes, direitos de trabalhadoras sexuais. Direitos de uma população que não necessariamente está na frente do poder. O tema do tráfico de pessoas entra em todas as linhas tabus, porque força cooperação entre estados e dentro dos estados em diferentes agências; força a entrada no tema de proteção de cidadãos que não são necessariamente do seu país; e entra na questão de saúde reprodutiva e acesso a direitos e serviços. Então é bastante complicado, até dentro dos nossos movimentos.

Mas outra questão por que o tráfico de pessoas não entra na agenda de discussão, talvez seja porque é o crime internacional mais rentável.

Ovelha: No documentário da diretora espanhola Mabel Lozano, “Chicas nuevas: 24 horas” que fala sobre o tráfico de mulheres da América Latina pra Espanha, mais especificamente pra Madri, ela mostra como essa atividade é organizada como qualquer outro negócio com demanda e procura. É chocante perceber essa relação…

Natasha Leite: É, o que não é discutido é que o tráfico de pessoas é influenciado pelo neoliberalismo. É uma situação de exploração para um fim econômico. É muitas vezes isso não entra na discussão. Não é só em Madri, mas na Europa em geral, o tema do trafico de pessoas é muito focado na exploração sexual comercial. E se você fala no contexto espanhol, com certeza é a exploração de latinos e latinas-americanas. Há falta de ação governamental dos dois lados. O governo da Espanha tem relações diplomáticas com todos países da América Latina! É uma falta de interesse clara.

Ovelha: Quais seriam as possíveis soluções para combater o tráfico de pessoas?

Natasha Leite: Existem várias maneiras de melhorar a situação, mas o primeiro ponto é combater corrupção. A falta de transparência das instituições e de acesso a serviços de denúncias para evitar que esse tipo de crime aconteça é absurda. Acho que os países do Mercosul estão avançando em uma linha que a Europa está se afastando: na legalização de imigrantes. O acordo do Mercosul de 2014 foi importante pra isso. Um dos grandes motivadores desse processo de legalização não foi só porque os argentinos adoram o Brasil e vice-e-versa ou porque era importante integrar Equador e Peru. Existia um problema forte que era do tráfico de bolivianos nesses países. Pra cortar o financiamento desses intermediários criminais que exploravam essas pessoas, você facilita a legalização de pessoas e você criminaliza o que deve ser criminalizado que é a exploração de pessoas. No final, essa política contra legalização dos imigrantes acaba não só violando direitos humanos, mas permitindo que o crime transnacional organizado se fortaleça. Ele se fortalece na ilegalidade.

Muitas vezes os discursos de autoridade são tão fortes que é muito mais vantajoso politicamente culpar o imigrante e o criminalizar do que, de fato, fortalecer as próprias instituições estaduais, garantir transparência, combater a corrupção. É muito mais difícil olhar pra dentro do próprio governo, do que usar um discurso de descriminalização dos imigrantes.

Ovelha: Interessante você tocar nesse ponto, porque acho que isso se aplica bastante com o caso da chegada dos refugiados na Europa…

Natasha Leite: Realmente. É absurdo porque são as pessoas em situações ainda mais vulneráveis. São famílias que não tem nenhum tipo de recurso e não falam a língua. Essa crise dos imigrantes é na verdade uma crise de solidariedade dos países europeus que não entendem que a maioria dos refugiados está sendo, de fato, acolhida por países em desenvolvimentos. Coloquei como crise de solidariedade, porque é uma questão muito mais discursiva do que uma vontade real de se organizar e apoiar a imigração. Se a questão de recursos fosse o grande problema, não se estaria dando tanto financiamento nesse momento para impedir que os refugiados cheguem até a Europa. É uma questão interna de pensar no tipo de integração. A comunidade internacional tem que tomar uma ação mais contundente e mais forte do que já vem tomando.

Ovelha: Você lançou o guia “Doing What You Love” (Fazendo o que você ama) sobre como trabalhar na área de Desenvolvimento Internacional. De onde veio a ideia de lançar esse guia para profissionais jovens?

Natasha Leite: Isso veio de uma frustração pessoal e generalizada com a falta de apoio ou de indicação que nossas universidades têm com o mercado de trabalho pra áreas não tradicionais. As pessoas de Relações Internacionais, por exemplo, não sabem como se colocar no mercado de trabalho, porque esse é um curso em que você tem que definir que tipo de profissional você quer ser. Acho que é importante pras pessoas trabalharem no que elas têm vocação de fazer, não no que parece apropriado. Depois do meu mestrado, eu decidi conversar com as pessoas, falar com a universidade pra criar uma rede de ex-alunos que possam apoiar estudantes com coisas básicas sobre a área.

Ovelha: Que primeiros conselhos você daria para alguém que está pensando em trabalhar na área de direitos humanos?

Natasha Leite: Eu acho que o importante é buscar trabalhar localmente, se você começa por uma organização menor com uma ONG, um trabalho comunitário, é bem provável que você tenha a possibilidade de desenvolver outras habilidades que vão ser muito necessárias no seu futuro. Não necessariamente você desenvolveria essas habilidades, se estivesse trabalhando pra a sede da ONU em Nova York, porque lá existe outros 500 estagiários voluntários e é menos provável que você vá se destacar. Também é muito mais difícil que alguém vá tirar tempo pra te ajudar a desenvolver e descobrir o que você precisa desenvolver e ver quais são as áreas que você gosta. Outra coisa importante é desenvolver o seu perfil a partir do trabalho que você gosta e não necessariamente imediatamente na organização que você quer trabalhar. 

 

 
* Na época da entrevista, Natasha estava trabalhando no centro regional das Nações Unidas da América Latina e Caribe. Hoje trabalha com a mesma linha de pesquisa na organização Danish Demining Group, e recentemente se mudou para Nairobi, capital do Quênia.
 

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No início do filme, Jessica caminha do quarto até o banheiro de sua casa. Tudo é filmado de sua perspectiva por uma câmera escondida, que foi dada pelo seu melhor amigo Brian (Jimmy Bennett) para gravar os assédios de Avery (isso fica claro mais tarde no filme). Jessica se olha no espelho, abre a porta do armário e pega os comprimidos da mãe. Engole todos que pode e cai inconsciente no chão.

A tentativa de suicídio de Jessica Burns vira assunto pelas salas de aula da South Brookdale High. O acontecimento coincide com a chegada de um grupo de jornalistas que iria fazer uma reportagem sobre o cotidiano em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. A jornalista Amy (interpretada pela própria diretora do longa, Amy S. Weber) muda a direção da matéria e se foca em entender as motivações de Jessica. Os rumores entre os adolescentes sobre os bullyings contra Jessica a levam até Avery.

Uma pequena observação que fiz e que considero ser um problema em muitos desses casos: todo mundo sabia que Jessica estava sofrendo nas mãos da garota popular, mas ninguém quis se meter. Alguns não levaram a sério, outros talvez tivessem medo, mas ninguém hesitou em passar a fofoca adiante. Isso é o mesmo que acontece em casos de violência doméstica testemunhada por vizinhos ou abusos sexuais gravados e passados adiante. É toda uma sociedade mais baseada no comentar a vida alheia do que em ajudar…

A Girl Like Her 2

No que me pareceu uma tentativa de ganhar a confiança de Avery, a jornalista lhe oferece uma câmera. Com ela, a adolescente poderia mostrar seu ponto de vista de como era ser a garota mais popular da escola. Avery usa a câmera para falar não só da sua vida no colégio, mas dentro de casa – com sua mãe super intrometida e o pai desempregado.

Enquanto isso, Brian conta aos jornalistas que seis meses antes da tentativa de suicídio de Jessica ele lhe havia dado uma mini câmera. Com isso, talvez Jessica pudesse se proteger e provar que Avery era a causa de seu inferno em vida. O que segue depois desse momento é um turbilhão dos mais diferentes tipos de assédios verbais e psicológicos feitos por Avery a Jessica. Algo que realmente te faz pensar: essa garota tem mais problemas que a própria vítima. Não é possível que alguém seja capaz disso!

Pois bem, se não fosse, talvez “A Girl Like Her” não existisse. A diretora Amy S. Weber se inspirou em suas próprias experiências para fazer o filme. Experiência como vítima e como praticante do bullying. Em uma entrevista, ela conta que aos seis anos sofria bullying de um menino da escola. Quando mudou de colégio, ela criou um escudo de proteção como sendo a “valentona”, aquela que encarava e brigava com todo mundo, aquela de quem se tinha medo.

Com essa história e com seu filme, Amy quer mostrar que bullies não são maus sem motivos. Ao humanizar o monstro, por assim dizer, ela joga lenha na discussão para dizer que quem comete bullying talvez seja uma pessoa tão ou mais traumatizada que a vítima. Portanto, ambas devem ser tratadas, acompanhadas e auxiliadas.

Além de uma inspiração pessoal da diretora, outro fato interessante do longa é que os diálogos entre os atores teens foram todos improvisados. Também as entrevistas que aparecem no filme – como se fossem parte do documentário dos jornalistas – foram feitas com estudantes reais, e não atores. Amy queria atingir essa proximidade com o real, que um simples filme ficcional, muitas vezes, não consegue. Em um tema como bullying entre adolescentes, é a realidade o que mais importa.

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No início do filme, Jessica caminha do quarto até o banheiro de sua casa. Tudo é filmado de sua perspectiva por uma câmera escondida, que foi dada pelo seu melhor amigo Brian (Jimmy Bennett) para gravar os assédios de Avery (isso fica claro mais tarde no filme). Jessica se olha no espelho, abre a porta do armário e pega os comprimidos da mãe. Engole todos que pode e cai inconsciente no chão.

A tentativa de suicídio de Jessica Burns vira assunto pelas salas de aula da South Brookdale High. O acontecimento coincide com a chegada de um grupo de jornalistas que iria fazer uma reportagem sobre o cotidiano em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. A jornalista Amy (interpretada pela própria diretora do longa, Amy S. Weber) muda a direção da matéria e se foca em entender as motivações de Jessica. Os rumores entre os adolescentes sobre os bullyings contra Jessica a levam até Avery.

Uma pequena observação que fiz e que considero ser um problema em muitos desses casos: todo mundo sabia que Jessica estava sofrendo nas mãos da garota popular, mas ninguém quis se meter. Alguns não levaram a sério, outros talvez tivessem medo, mas ninguém hesitou em passar a fofoca adiante. Isso é o mesmo que acontece em casos de violência doméstica testemunhada por vizinhos ou abusos sexuais gravados e passados adiante. É toda uma sociedade mais baseada no comentar a vida alheia do que em ajudar…

A Girl Like Her 2

No que me pareceu uma tentativa de ganhar a confiança de Avery, a jornalista lhe oferece uma câmera. Com ela, a adolescente poderia mostrar seu ponto de vista de como era ser a garota mais popular da escola. Avery usa a câmera para falar não só da sua vida no colégio, mas dentro de casa – com sua mãe super intrometida e o pai desempregado.

Enquanto isso, Brian conta aos jornalistas que seis meses antes da tentativa de suicídio de Jessica ele lhe havia dado uma mini câmera. Com isso, talvez Jessica pudesse se proteger e provar que Avery era a causa de seu inferno em vida. O que segue depois desse momento é um turbilhão dos mais diferentes tipos de assédios verbais e psicológicos feitos por Avery a Jessica. Algo que realmente te faz pensar: essa garota tem mais problemas que a própria vítima. Não é possível que alguém seja capaz disso!

Pois bem, se não fosse, talvez “A Girl Like Her” não existisse. A diretora Amy S. Weber se inspirou em suas próprias experiências para fazer o filme. Experiência como vítima e como praticante do bullying. Em uma entrevista, ela conta que aos seis anos sofria bullying de um menino da escola. Quando mudou de colégio, ela criou um escudo de proteção como sendo a “valentona”, aquela que encarava e brigava com todo mundo, aquela de quem se tinha medo.

Com essa história e com seu filme, Amy quer mostrar que bullies não são maus sem motivos. Ao humanizar o monstro, por assim dizer, ela joga lenha na discussão para dizer que quem comete bullying talvez seja uma pessoa tão ou mais traumatizada que a vítima. Portanto, ambas devem ser tratadas, acompanhadas e auxiliadas.

Além de uma inspiração pessoal da diretora, outro fato interessante do longa é que os diálogos entre os atores teens foram todos improvisados. Também as entrevistas que aparecem no filme – como se fossem parte do documentário dos jornalistas – foram feitas com estudantes reais, e não atores. Amy queria atingir essa proximidade com o real, que um simples filme ficcional, muitas vezes, não consegue. Em um tema como bullying entre adolescentes, é a realidade o que mais importa.

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