É véspera de Natal e duas melhores amigas se encontram depois de algum tempo sem se ver. Uma delas acabara de sair de uma temporada de 28 dias na cadeia. Na esquina da Santa Monica Boulevard e Highland Avenue, em Los Angeles, elas sentem de frente uma pra outra em uma loja de Donuts. É nessa esquina vista da janela da Donut Time que a história das duas prostitutas transexuais Sin-Dee e Alexandra tem início. Elas se olham como cúmplices e fofocam. Sin-Dee confessa que tem algo para contar sobre seu namorado, o cafetão Chester, ao que Alexandra interrompe: “Ah, eu já sei! Você vai terminar com ele, né? Graças a Deus! Se é pra ele ficar te traindo assim…”. “Wait, wait, wait, WHAT?!”.
O filme do diretor Sean Baker, Tangerine foi o primeiro longa a ser filmado inteiramente com apenas com um iPhone. Graças a um aplicativo, o FiLMiC Pro, a imagem não perdeu quase nada em qualidade. Além disso, a câmara mais versátil do celular dá uma noção de realidade participante, que talvez um grande aparato cinematográfico não tivesse proporcionado.
A temática LGBTQueer do filme é o que faz dele um “must see” pra quem curte cinema alternativo: Alexandra e Sin-Dee (by the way, o nome é uma abreviação de Sin-Dee-Rella) são duas mulheres transexuais negras que se prostituem nas ruas de Los Angeles, por onde toda a trama acontece. Baker conheceu Kitana Kiki Rodriguez (Sin-Dee) e Mya Taylor (Alexandra) em um centro LGBT, enquanto fazia pesquisas para sua nova produção. O primeiro contato foi com Mya, que recebeu o convite para atuar pouco depois de conhecer Baker. O diretor sabia desde o início que queria contar uma história de dentro da comunidade LGBT de Los Angeles e que o seu elenco seria transgender. Mya o apresentou a seu círculo das ruas e assim Baker conheceu Kiki. Um drama real da vida de Kiki, de quando ela foi traída pelo namorado, foi o que inspirou a trama de Tangerine.
Depois da revelação de Alexandra a Sin-Dee, a história se desenrola de forma desenfreada, como a personalidade da protagonista. Pelas ruas de Los Angeles, a personagem vai atrás da tal amante – uma “white fish, com vagina e tudo”, como descreve Alexandra (pelo que pesquisei, “fish” ou “peixe” parece ser um gíria para se referir pejorativamente a mulheres não transexuais. A linguagem cheia de gírias das duas também é algo marcante no filme). Os passos decididos de Sin-Dee e sua melhor amiga são acompanhados por uma trilha eletrônica, por vezes intercalada com música clássica, que dá um ritmo frenético a narrativa.
Uma das cenas mais maravilindas do longo é quando Sin-Dee senta em um ponto de tram (tipo um bonde), nervosa, sem saber o que fazer. Ela morde os lábios e olha para as pessoas saindo e entrando do tram, embalada por uma música clássica. A trilha vai mudando conforme os pensamentos da personagem parecem ficar mais inquietos. Quando atinge o ápice da agitação, Sin-Dee larga um “fuck it!”. Se levanta e vai em direção à estação de metrô, com beats de música eletrônica ao fundo de seus passos largos.
Outros personagens desse submundo de Los Angeles surgem ao longo da trama para lhe dar sustento. Como a própria amante, que também era uma das prostitutas de Chester, e o taxista armênio Razmik, que esconde da família suas relações com prostitutas transexuais.
A comédia dramática que começa despretensiosa vai ganhando ares de análise social, mesmo que não muito aprofundada. Ao longo do super drama de Sin-Dee-Rella, o espectador enxerga sutilmente atos de preconceito e transfobia. Em uma das cenas, Alexandra está brigando com um cliente que se recusava a pagar depois do serviço feito. Uma policial, que já a conhecia, tenta apartar a briga a chamando pelo nome masculino de Alexander. É sutil, mas percebe-se uma negação da imagem dessas mulheres como de fato mulheres. Em entrevista ao The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.
Crédito das imagens: Magnolia Pictures
É véspera de Natal e duas melhores amigas se encontram depois de algum tempo sem se ver. Uma delas acabara de sair de uma temporada de 28 dias na cadeia. Na esquina da Santa Monica Boulevard e Highland Avenue, em Los Angeles, elas sentem de frente uma pra outra em uma loja de Donuts. É nessa esquina vista da janela da Donut Time que a história das duas prostitutas transexuais Sin-Dee e Alexandra tem início. Elas se olham como cúmplices e fofocam. Sin-Dee confessa que tem algo para contar sobre seu namorado, o cafetão Chester, ao que Alexandra interrompe: “Ah, eu já sei! Você vai terminar com ele, né? Graças a Deus! Se é pra ele ficar te traindo assim…”. “Wait, wait, wait, WHAT?!”.
O filme do diretor Sean Baker, Tangerine foi o primeiro longa a ser filmado inteiramente com apenas com um iPhone. Graças a um aplicativo, o FiLMiC Pro, a imagem não perdeu quase nada em qualidade. Além disso, a câmara mais versátil do celular dá uma noção de realidade participante, que talvez um grande aparato cinematográfico não tivesse proporcionado.
A temática LGBTQueer do filme é o que faz dele um “must see” pra quem curte cinema alternativo: Alexandra e Sin-Dee (by the way, o nome é uma abreviação de Sin-Dee-Rella) são duas mulheres transexuais negras que se prostituem nas ruas de Los Angeles, por onde toda a trama acontece. Baker conheceu Kitana Kiki Rodriguez (Sin-Dee) e Mya Taylor (Alexandra) em um centro LGBT, enquanto fazia pesquisas para sua nova produção. O primeiro contato foi com Mya, que recebeu o convite para atuar pouco depois de conhecer Baker. O diretor sabia desde o início que queria contar uma história de dentro da comunidade LGBT de Los Angeles e que o seu elenco seria transgender. Mya o apresentou a seu círculo das ruas e assim Baker conheceu Kiki. Um drama real da vida de Kiki, de quando ela foi traída pelo namorado, foi o que inspirou a trama de Tangerine.
Depois da revelação de Alexandra a Sin-Dee, a história se desenrola de forma desenfreada, como a personalidade da protagonista. Pelas ruas de Los Angeles, a personagem vai atrás da tal amante – uma “white fish, com vagina e tudo”, como descreve Alexandra (pelo que pesquisei, “fish” ou “peixe” parece ser um gíria para se referir pejorativamente a mulheres não transexuais. A linguagem cheia de gírias das duas também é algo marcante no filme). Os passos decididos de Sin-Dee e sua melhor amiga são acompanhados por uma trilha eletrônica, por vezes intercalada com música clássica, que dá um ritmo frenético a narrativa.
Uma das cenas mais maravilindas do longo é quando Sin-Dee senta em um ponto de tram (tipo um bonde), nervosa, sem saber o que fazer. Ela morde os lábios e olha para as pessoas saindo e entrando do tram, embalada por uma música clássica. A trilha vai mudando conforme os pensamentos da personagem parecem ficar mais inquietos. Quando atinge o ápice da agitação, Sin-Dee larga um “fuck it!”. Se levanta e vai em direção à estação de metrô, com beats de música eletrônica ao fundo de seus passos largos.
Outros personagens desse submundo de Los Angeles surgem ao longo da trama para lhe dar sustento. Como a própria amante, que também era uma das prostitutas de Chester, e o taxista armênio Razmik, que esconde da família suas relações com prostitutas transexuais.
A comédia dramática que começa despretensiosa vai ganhando ares de análise social, mesmo que não muito aprofundada. Ao longo do super drama de Sin-Dee-Rella, o espectador enxerga sutilmente atos de preconceito e transfobia. Em uma das cenas, Alexandra está brigando com um cliente que se recusava a pagar depois do serviço feito. Uma policial, que já a conhecia, tenta apartar a briga a chamando pelo nome masculino de Alexander. É sutil, mas percebe-se uma negação da imagem dessas mulheres como de fato mulheres. Em entrevista ao The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.
É véspera de Natal e duas melhores amigas se encontram depois de algum tempo sem se ver. Uma delas acabara de sair de uma temporada de 28 dias na cadeia. Na esquina da Santa Monica Boulevard e Highland Avenue, em Los Angeles, elas sentem de frente uma pra outra em uma loja de Donuts. É nessa esquina vista da janela da Donut Time que a história das duas prostitutas transexuais Sin-Dee e Alexandra tem início. Elas se olham como cúmplices e fofocam. Sin-Dee confessa que tem algo para contar sobre seu namorado, o cafetão Chester, ao que Alexandra interrompe: “Ah, eu já sei! Você vai terminar com ele, né? Graças a Deus! Se é pra ele ficar te traindo assim…”. “Wait, wait, wait, WHAT?!”.
O filme do diretor Sean Baker, Tangerine foi o primeiro longa a ser filmado inteiramente com apenas com um iPhone. Graças a um aplicativo, o FiLMiC Pro, a imagem não perdeu quase nada em qualidade. Além disso, a câmara mais versátil do celular dá uma noção de realidade participante, que talvez um grande aparato cinematográfico não tivesse proporcionado.
A temática LGBTQueer do filme é o que faz dele um “must see” pra quem curte cinema alternativo: Alexandra e Sin-Dee (by the way, o nome é uma abreviação de Sin-Dee-Rella) são duas mulheres transexuais negras que se prostituem nas ruas de Los Angeles, por onde toda a trama acontece. Baker conheceu Kitana Kiki Rodriguez (Sin-Dee) e Mya Taylor (Alexandra) em um centro LGBT, enquanto fazia pesquisas para sua nova produção. O primeiro contato foi com Mya, que recebeu o convite para atuar pouco depois de conhecer Baker. O diretor sabia desde o início que queria contar uma história de dentro da comunidade LGBT de Los Angeles e que o seu elenco seria transgender. Mya o apresentou a seu círculo das ruas e assim Baker conheceu Kiki. Um drama real da vida de Kiki, de quando ela foi traída pelo namorado, foi o que inspirou a trama de Tangerine.
Depois da revelação de Alexandra a Sin-Dee, a história se desenrola de forma desenfreada, como a personalidade da protagonista. Pelas ruas de Los Angeles, a personagem vai atrás da tal amante – uma “white fish, com vagina e tudo”, como descreve Alexandra (pelo que pesquisei, “fish” ou “peixe” parece ser um gíria para se referir pejorativamente a mulheres não transexuais. A linguagem cheia de gírias das duas também é algo marcante no filme). Os passos decididos de Sin-Dee e sua melhor amiga são acompanhados por uma trilha eletrônica, por vezes intercalada com música clássica, que dá um ritmo frenético a narrativa.
Uma das cenas mais maravilindas do longo é quando Sin-Dee senta em um ponto de tram (tipo um bonde), nervosa, sem saber o que fazer. Ela morde os lábios e olha para as pessoas saindo e entrando do tram, embalada por uma música clássica. A trilha vai mudando conforme os pensamentos da personagem parecem ficar mais inquietos. Quando atinge o ápice da agitação, Sin-Dee larga um “fuck it!”. Se levanta e vai em direção à estação de metrô, com beats de música eletrônica ao fundo de seus passos largos.
Outros personagens desse submundo de Los Angeles surgem ao longo da trama para lhe dar sustento. Como a própria amante, que também era uma das prostitutas de Chester, e o taxista armênio Razmik, que esconde da família suas relações com prostitutas transexuais.
A comédia dramática que começa despretensiosa vai ganhando ares de análise social, mesmo que não muito aprofundada. Ao longo do super drama de Sin-Dee-Rella, o espectador enxerga sutilmente atos de preconceito e transfobia. Em uma das cenas, Alexandra está brigando com um cliente que se recusava a pagar depois do serviço feito. Uma policial, que já a conhecia, tenta apartar a briga a chamando pelo nome masculino de Alexander. É sutil, mas percebe-se uma negação da imagem dessas mulheres como de fato mulheres. Em entrevista ao The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.
Wait’Til Night é o segundo álbum em que Merrisa Campbel, conhecida como Cooly G., mostra seu talento no estilo bedroom music. Com uma voz suave e sexy, uma batida lenta lembra um pouco de clubmusic e R’n’B, a produtora inglesa de Brixton constrói uma atmosfera sensual perfeita para uma experiência entre quatro paredes.
A música foi o jeito que a produtora e mãe solteira de duas crianças – um menino e uma menina – encontrou para dizer: “olha só, eu ainda sou sexy, ainda tenho fantasias e quero expressá-las!” É essa força que faz o álbum gostoso de ouvir. Dá para sentir, em cada faixa, sua confiança e o lado sexy da cantora renascerem.
Filha de mãe nascida na Guiana e pai na Jamaica, Merrisa Campbel herdou deles sua paixão por slow jams e House. A mãe gostava de Acid House e era frequentadora de Raves, enquanto o pai era admirador de Reggae, Dub e Rare Groove. Não é à toa que Cooly G. gosta de experimentar com esses ritmos. Isso tudo resultou em suas letras e melodia cheias de uma Sexy Vibe bem gostosinha.
Em entrevista para a revista alemã, Missy Magazine, ela conta que a faixa que deu nome ao álbum é uma criação antiga, de um tempo em que ela se sentia feliz e muito atraente. “Nos últimos anos, perdi esse sentimento. Agora estou tentando ganhar isso de volta e ser a mulher sexy que eu sou”.
E está conseguindo. Em faixas bem diretas como “Your Sex”, “Fuck with You”, “Freak You”, Cooly G. revela suas fantasias e sua vontade de go out there and date. “Eu pude explorar minhas fantasias porque eu sou uma mãe solteira e não tenho um parceiro, então, sim, eu me sinto sexual às vezes. Eu sinto que eu posso me tornar eu mesma de novo, e isso é muito bom”, disse Cooly G. à revista britânica online The Quietus.
O primeiro vídeo de Cooly G. é o da Wait’Til Night, em que ela está num encontro com lindo rapaz e eles caminham pelas ruas de Londres, trocando carícias, risadas e olhares. Enquanto isso ela canta “The way you got me last night. You’re so sweet” com sua voz cheia de presença em um slow-jam que faz a própria ouvinte fantasiar altas coisas. É, com certeza, a soundtrack perfeita para o bedroom.
The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.
Crédito das imagens: Magnolia Pictures
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The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.