Perto da minha casa tem um centro cultural em que nessa época do ano se intercalam dias com shows e projeções de filmes gratuitamente no terraço. Pobre que estou e com muita vontade de ir ao cinema, fui aproveitar a boa da La Casa Encendida.
Chegando lá, estava tudo muito bem organizado. Fiquei surpresa pois foram distribuídos fones individuais (bons e exteriores, não como os que dão em avião, haha) e as cadeiras eram confortáveis. Não tinha ideia sobre o que seria o filme. Sabia o nome mas não havia pesquisado. As vezes procuro uma nota no IMDB ou no Rotten Tomatoes mas nessa vez foi um blind date mesmo.
O filme começou e aquela sensação de angústia e gatilhos foram dando vazão no meu peito. “É um filme sobre abuso psicológico, físico, estupro, ok”. Fiquei um pouco desconcertada mas continuei a assistir. A experiência de ter um fone de ouvido, sei que posso parecer exagerada mas, aumentou a sensação de passar pela experiência de forma mais solitária, uma sensação de isolamento. Muito provavelmente não foi proposital mas calhou de ser uma das condições de quem sabe já ter passado por um abuso, sente. De estar sozinho.
A direção de arte é muito boa, o roteiro muito bom, os diálogos são apenas os necessários, o que chegou a me surpreender de como uma sensação tão angustiante foi passada de forma tão clara sem precisar explicar demasiadamente.
O filme gira em torno da personagem principal que se chama Martha. A história é intercalada entre presente e passado que vai dando respaldo para o comportamento atual da personagem. Um comportamento paranóico, um comportamento defensivo, agressivo e amedrontado.
A primeira cena é Martha fugindo de uma casa e correndo pela floresta. Ela liga para sua irmã pedindo ajuda não direta, mas indiretamente. Em seguida. sua irmã aparece para acolhê-la.
Começam então os flash backs das memórias de Martha. Ela, por meio de uma amiga, encontra esse grupo auto-sustentável, que planta, colhe, cozinha, limpa, cuida dos animais, todos juntos. Cada um tem seu afazer dentro do espaço que é dividido, as roupas são divididas, é uma comunidade liderada por Patrick. Patrick é um homem que consegue individualizar cada pessoa e consegue identificar cada vulnerabilidade de cada um dentro do grupo, sendo homem ou mulher, ou seja, o perfil perfeito de um agressor psicológico.
Um dia, Patrick diz à Martha que ela tem cara de Marcy May. Ele cria uma intimidade e diz a ela que é preciso baixar a guarda para se misturar às pessoas. Precisa achar o espaço de trabalho dela no grupo, aceitar que cada um tem uma função. Ele diz isso de forma passivo agressiva na frente de outras pessoas do grupo, que já podemos começar a considerar um culto.
Um dia, Martha acorda parcialmente drogada com Patrick a estuprando. A sensação é tenebrosa. Depois que ele acaba e vai embora, ela levanta e vai para o quarto das outras mulheres e fica em silêncio tentando processar o que aconteceu. Uma mulher que está ao lado dela diz:
Você não sabe como você é sortuda! Eu daria tudo para voltar para o dia em que ele me escolheu
O desespero está instalado. Mulheres em situação de vulnerabilidade convencem umas às outras de que abrir mão, não só de posses materiais mas como do próprio corpo para se doar num grupo, é uma realidade evoluída. Novas mulheres chegam à casa, Martha as ajuda na preparação para o ~ primeiro dia ~, tudo não passa de uma grande lavagem cerebral generalizada.
Curiosamente, fui dar uma olhada em outros reviews desse filme. A grande maioria dos reviews são/foram feitos por homens que predominantemente acharam o filme vazio e chato. Não entendem o privilégio de se serem homens e não serem abusados sexualmente e serem abusados psicologicamente diariamente como todas nós somos. Esse filme fala diretamente com mulheres. Mulheres que escolhem o silêncio ao entenderem que estiveram em uma situação de abuso psicológico, estupro, violência doméstica. A vergonha, a paranóia que segue, a defensiva.
Depois que a irmã da Martha a acolhe, acontece o silêncio, acontecem os espasmos de paranóia tanto na personagem quanto no espectador (ou, na espectadora mulher). A irmã de Martha é casada com um homem bem rico, eles a acolhem numa casa enorme, na beira de um lago. Martha problematiza o tamanho da casa para apenas um casal, problematiza o dinheiro como fator de sucesso. Nesse momento você percebe que o estilo de vida que ela levava na comunidade ainda é o que ela tem como ideal, porém, em algum momento, conseguiu fazer a quebra de onde estavam os problemas. Creio que foi em conjunto com outras mulheres que ali estavam, as observando e se enxergando nos abusos, nos silêncios cúmplices.
Depois da acolhida, outros problemas começam a se instalar. A irmã entende que Martha precisa de tempo e que alguma coisa muito pesada aconteceu com ela. Mas o marido da irmã não tem paciência, entende que aconteceu alguma coisa mas não quer ter que lidar com o problema. O que me é bastante real voltando na questão o privilégio de ser um homem branco e rico. Terceirizar problemas que não lhe concernem pessoalmente. Particularmente, a paranóia da Martha começou a passar para mim. Achei que o marido da irmã fosse abusar dela e isso é exatamente a quebra do argumento masculino “nem todo homem”.
Não interessa a pessoa maravilhosa que um cara possa ser e se portar, já passamos por tantas coisas ruins que não nos resta mais chances, mais uma carta branca de confiança. Não peça para uma mulher que já foi abusada para que não generalize. E acredite, muitas de nós fomos.
Infelizmente o filme tem um final mais real do que eu imaginei. Não há um desfecho porque não há desfechos para casos de abusos sexuais e psicológicos. Há somente uma paranóia que pode e deve ser controlada com tratamentos e o medo que segue. Grande parte de nós, mulheres, somos Marthas. Somos Marcy Mays, que é como somos individualizadas no ápice de nossa vulnerabilidade e somos Marlenes quando precisamos pedir ajuda.
Perto da minha casa tem um centro cultural em que nessa época do ano se intercalam dias com shows e projeções de filmes gratuitamente no terraço. Pobre que estou e com muita vontade de ir ao cinema, fui aproveitar a boa da La Casa Encendida.
Chegando lá, estava tudo muito bem organizado. Fiquei surpresa pois foram distribuídos fones individuais (bons e exteriores, não como os que dão em avião, haha) e as cadeiras eram confortáveis. Não tinha ideia sobre o que seria o filme. Sabia o nome mas não havia pesquisado. As vezes procuro uma nota no IMDB ou no Rotten Tomatoes mas nessa vez foi um blind date mesmo.
O filme começou e aquela sensação de angústia e gatilhos foram dando vazão no meu peito. “É um filme sobre abuso psicológico, físico, estupro, ok”. Fiquei um pouco desconcertada mas continuei a assistir. A experiência de ter um fone de ouvido, sei que posso parecer exagerada mas, aumentou a sensação de passar pela experiência de forma mais solitária, uma sensação de isolamento. Muito provavelmente não foi proposital mas calhou de ser uma das condições de quem sabe já ter passado por um abuso, sente. De estar sozinho.
A direção de arte é muito boa, o roteiro muito bom, os diálogos são apenas os necessários, o que chegou a me surpreender de como uma sensação tão angustiante foi passada de forma tão clara sem precisar explicar demasiadamente.
O filme gira em torno da personagem principal que se chama Martha. A história é intercalada entre presente e passado que vai dando respaldo para o comportamento atual da personagem. Um comportamento paranóico, um comportamento defensivo, agressivo e amedrontado.
A primeira cena é Martha fugindo de uma casa e correndo pela floresta. Ela liga para sua irmã pedindo ajuda não direta, mas indiretamente. Em seguida. sua irmã aparece para acolhê-la.
Começam então os flash backs das memórias de Martha. Ela, por meio de uma amiga, encontra esse grupo auto-sustentável, que planta, colhe, cozinha, limpa, cuida dos animais, todos juntos. Cada um tem seu afazer dentro do espaço que é dividido, as roupas são divididas, é uma comunidade liderada por Patrick. Patrick é um homem que consegue individualizar cada pessoa e consegue identificar cada vulnerabilidade de cada um dentro do grupo, sendo homem ou mulher, ou seja, o perfil perfeito de um agressor psicológico.
Um dia, Patrick diz à Martha que ela tem cara de Marcy May. Ele cria uma intimidade e diz a ela que é preciso baixar a guarda para se misturar às pessoas. Precisa achar o espaço de trabalho dela no grupo, aceitar que cada um tem uma função. Ele diz isso de forma passivo agressiva na frente de outras pessoas do grupo, que já podemos começar a considerar um culto.
Um dia, Martha acorda parcialmente drogada com Patrick a estuprando. A sensação é tenebrosa. Depois que ele acaba e vai embora, ela levanta e vai para o quarto das outras mulheres e fica em silêncio tentando processar o que aconteceu. Uma mulher que está ao lado dela diz:
Você não sabe como você é sortuda! Eu daria tudo para voltar para o dia em que ele me escolheu
O desespero está instalado. Mulheres em situação de vulnerabilidade convencem umas às outras de que abrir mão, não só de posses materiais mas como do próprio corpo para se doar num grupo, é uma realidade evoluída. Novas mulheres chegam à casa, Martha as ajuda na preparação para o ~ primeiro dia ~, tudo não passa de uma grande lavagem cerebral generalizada.
Curiosamente, fui dar uma olhada em outros reviews desse filme. A grande maioria dos reviews são/foram feitos por homens que predominantemente acharam o filme vazio e chato. Não entendem o privilégio de se serem homens e não serem abusados sexualmente e serem abusados psicologicamente diariamente como todas nós somos. Esse filme fala diretamente com mulheres. Mulheres que escolhem o silêncio ao entenderem que estiveram em uma situação de abuso psicológico, estupro, violência doméstica. A vergonha, a paranóia que segue, a defensiva.
Depois que a irmã da Martha a acolhe, acontece o silêncio, acontecem os espasmos de paranóia tanto na personagem quanto no espectador (ou, na espectadora mulher). A irmã de Martha é casada com um homem bem rico, eles a acolhem numa casa enorme, na beira de um lago. Martha problematiza o tamanho da casa para apenas um casal, problematiza o dinheiro como fator de sucesso. Nesse momento você percebe que o estilo de vida que ela levava na comunidade ainda é o que ela tem como ideal, porém, em algum momento, conseguiu fazer a quebra de onde estavam os problemas. Creio que foi em conjunto com outras mulheres que ali estavam, as observando e se enxergando nos abusos, nos silêncios cúmplices.
Depois da acolhida, outros problemas começam a se instalar. A irmã entende que Martha precisa de tempo e que alguma coisa muito pesada aconteceu com ela. Mas o marido da irmã não tem paciência, entende que aconteceu alguma coisa mas não quer ter que lidar com o problema. O que me é bastante real voltando na questão o privilégio de ser um homem branco e rico. Terceirizar problemas que não lhe concernem pessoalmente. Particularmente, a paranóia da Martha começou a passar para mim. Achei que o marido da irmã fosse abusar dela e isso é exatamente a quebra do argumento masculino “nem todo homem”.
Não interessa a pessoa maravilhosa que um cara possa ser e se portar, já passamos por tantas coisas ruins que não nos resta mais chances, mais uma carta branca de confiança. Não peça para uma mulher que já foi abusada para que não generalize. E acredite, muitas de nós fomos.
Infelizmente o filme tem um final mais real do que eu imaginei. Não há um desfecho porque não há desfechos para casos de abusos sexuais e psicológicos. Há somente uma paranóia que pode e deve ser controlada com tratamentos e o medo que segue. Grande parte de nós, mulheres, somos Marthas. Somos Marcy Mays, que é como somos individualizadas no ápice de nossa vulnerabilidade e somos Marlenes quando precisamos pedir ajuda.
Perto da minha casa tem um centro cultural em que nessa época do ano se intercalam dias com shows e projeções de filmes gratuitamente no terraço. Pobre que estou e com muita vontade de ir ao cinema, fui aproveitar a boa da La Casa Encendida.
Chegando lá, estava tudo muito bem organizado. Fiquei surpresa pois foram distribuídos fones individuais (bons e exteriores, não como os que dão em avião, haha) e as cadeiras eram confortáveis. Não tinha ideia sobre o que seria o filme. Sabia o nome mas não havia pesquisado. As vezes procuro uma nota no IMDB ou no Rotten Tomatoes mas nessa vez foi um blind date mesmo.
O filme começou e aquela sensação de angústia e gatilhos foram dando vazão no meu peito. “É um filme sobre abuso psicológico, físico, estupro, ok”. Fiquei um pouco desconcertada mas continuei a assistir. A experiência de ter um fone de ouvido, sei que posso parecer exagerada mas, aumentou a sensação de passar pela experiência de forma mais solitária, uma sensação de isolamento. Muito provavelmente não foi proposital mas calhou de ser uma das condições de quem sabe já ter passado por um abuso, sente. De estar sozinho.
A direção de arte é muito boa, o roteiro muito bom, os diálogos são apenas os necessários, o que chegou a me surpreender de como uma sensação tão angustiante foi passada de forma tão clara sem precisar explicar demasiadamente.
[infobox maintitle="Daqui em diante teremos spoiler e gatilhos sobre abusos psicológicos e físicos" subtitle="" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]
O filme gira em torno da personagem principal que se chama Martha. A história é intercalada entre presente e passado que vai dando respaldo para o comportamento atual da personagem. Um comportamento paranóico, um comportamento defensivo, agressivo e amedrontado.
A primeira cena é Martha fugindo de uma casa e correndo pela floresta. Ela liga para sua irmã pedindo ajuda não direta, mas indiretamente. Em seguida. sua irmã aparece para acolhê-la.
Começam então os flash backs das memórias de Martha. Ela, por meio de uma amiga, encontra esse grupo auto-sustentável, que planta, colhe, cozinha, limpa, cuida dos animais, todos juntos. Cada um tem seu afazer dentro do espaço que é dividido, as roupas são divididas, é uma comunidade liderada por Patrick. Patrick é um homem que consegue individualizar cada pessoa e consegue identificar cada vulnerabilidade de cada um dentro do grupo, sendo homem ou mulher, ou seja, o perfil perfeito de um agressor psicológico.
Um dia, Patrick diz à Martha que ela tem cara de Marcy May. Ele cria uma intimidade e diz a ela que é preciso baixar a guarda para se misturar às pessoas. Precisa achar o espaço de trabalho dela no grupo, aceitar que cada um tem uma função. Ele diz isso de forma passivo agressiva na frente de outras pessoas do grupo, que já podemos começar a considerar um culto.
[caption id="attachment_11697" align="aligncenter" width="798"] Patrick, aquele cara seguro, líder, inteligente, que consegue tudo por meio dos outros, o perfil do abusador psicológico.[/caption]
Um dia, Martha acorda parcialmente drogada com Patrick a estuprando. A sensação é tenebrosa. Depois que ele acaba e vai embora, ela levanta e vai para o quarto das outras mulheres e fica em silêncio tentando processar o que aconteceu. Uma mulher que está ao lado dela diz:
Você não sabe como você é sortuda! Eu daria tudo para voltar para o dia em que ele me escolheu
O desespero está instalado. Mulheres em situação de vulnerabilidade convencem umas às outras de que abrir mão, não só de posses materiais mas como do próprio corpo para se doar num grupo, é uma realidade evoluída. Novas mulheres chegam à casa, Martha as ajuda na preparação para o ~ primeiro dia ~, tudo não passa de uma grande lavagem cerebral generalizada.
Curiosamente, fui dar uma olhada em outros reviews desse filme. A grande maioria dos reviews são/foram feitos por homens que predominantemente acharam o filme vazio e chato. Não entendem o privilégio de se serem homens e não serem abusados sexualmente e serem abusados psicologicamente diariamente como todas nós somos. Esse filme fala diretamente com mulheres. Mulheres que escolhem o silêncio ao entenderem que estiveram em uma situação de abuso psicológico, estupro, violência doméstica. A vergonha, a paranóia que segue, a defensiva.
Depois que a irmã da Martha a acolhe, acontece o silêncio, acontecem os espasmos de paranóia tanto na personagem quanto no espectador (ou, na espectadora mulher). A irmã de Martha é casada com um homem bem rico, eles a acolhem numa casa enorme, na beira de um lago. Martha problematiza o tamanho da casa para apenas um casal, problematiza o dinheiro como fator de sucesso. Nesse momento você percebe que o estilo de vida que ela levava na comunidade ainda é o que ela tem como ideal, porém, em algum momento, conseguiu fazer a quebra de onde estavam os problemas. Creio que foi em conjunto com outras mulheres que ali estavam, as observando e se enxergando nos abusos, nos silêncios cúmplices.
[caption id="attachment_11703" align="aligncenter" width="516"] ~ aquele momento que você não sabe se o cara quer ajudar ou se aproveitar, quem nunca passou por isso? ~[/caption]
Depois da acolhida, outros problemas começam a se instalar. A irmã entende que Martha precisa de tempo e que alguma coisa muito pesada aconteceu com ela. Mas o marido da irmã não tem paciência, entende que aconteceu alguma coisa mas não quer ter que lidar com o problema. O que me é bastante real voltando na questão o privilégio de ser um homem branco e rico. Terceirizar problemas que não lhe concernem pessoalmente. Particularmente, a paranóia da Martha começou a passar para mim. Achei que o marido da irmã fosse abusar dela e isso é exatamente a quebra do argumento masculino “nem todo homem”.
[caption id="attachment_11700" align="aligncenter" width="522"] sabendo que precisa de ajuda, aceita ir para um centro de tratamento à pedido do marido da irmã.[/caption]
Não interessa a pessoa maravilhosa que um cara possa ser e se portar, já passamos por tantas coisas ruins que não nos resta mais chances, mais uma carta branca de confiança. Não peça para uma mulher que já foi abusada para que não generalize. E acredite, muitas de nós fomos.
Infelizmente o filme tem um final mais real do que eu imaginei. Não há um desfecho porque não há desfechos para casos de abusos sexuais e psicológicos. Há somente uma paranóia que pode e deve ser controlada com tratamentos e o medo que segue. Grande parte de nós, mulheres, somos Marthas. Somos Marcy Mays, que é como somos individualizadas no ápice de nossa vulnerabilidade e somos Marlenes quando precisamos pedir ajuda.
Tô vendo uma série no Netflix sobre Isabel de Castilla (as estudante de história pira) e tem uma parte em que uma camponesa é sequestrada por 4 homens que estavam lutando uma guerra de deposição do rei Enrique. Eles a sequestram apenas para estuprá-la, um estupro coletivo. Depois que um deles “acaba” e ela está toda suja de sangue, chorando, humilhada, o próximo vai soltando o cinto e ela consegue alcançar uma faca e aponta. Um deles diz “o que você vai fazer com uma faca contra nós 4?” e ela corta sua própria garganta. Os caras olham a cena meio “ah, que bosta, nosso brinquedinho quebrou”, daí o cara limpa a faca que ela usou pra se matar no próprio vestido da mulher e seguem viagem.
Eu consigo identificar mil questões de como um estupro é apenas uma ferramenta de poder e subordinação, de como estupro não é sexo nem pro agressor! Escolher uma mulher aleatória, ficar com pau duro com alguém desesperado e com medo na sua frente, depois de morta não a querem mais, só vale enquanto está sendo acuada e humilhada. Violam o corpo da mulher sem lhe tirar o vestido, com ela deitada de bruços, poderia ser qualquer coisa, mas escolhem uma mulher para preservar sua masculinidade na frente dos colegas e inferiorizam a mulher fragilizada.
Pessoalmente acredito que seja muito importante mostrar em séries e filmes de cunho histórico não-fictício, como eram os costumes, mostrar como mulheres exerciam seus poderes nas entrelinhas e como eram subordinadas, comportamentos machistas ao extremo, estupros. De modo que isso nos faz reviver um museu de nosso próprio caráter passado e mostrar o que evoluímos e o que ainda temos pra evoluir. Mais memória real e impactante sobre a ditadura no Brasil teria sido muito importante para essa geração de seguidores do Bolsomito (bolsonaro + vômito), por exemplo. Dito isso, sou extremamente contra qualquer cena em série ou filme de caráter fictício e/ou distópico que mostre uma subordinação de uma mulher não condenada pela narrativa e as vezes pior, romantizada. A mostre como inferior e estupro então, nem se fala. Tirar a cultura do estupro de pauta é uma urgência latente.
Sabemos que Game of Thrones é uma série que muitas pessoas gostam e apesar de terem muitas mulheres no poder, fazendo vilãs, mocinhas e mulheres comuns sem os devidos extremos estereótipos, apresenta muitas problematizações no sentido: por que tanto estupro? Estupro corretivo, estupro entre casais, estupro de casamento não consentido, estupro ordenado para punir, etc. Os maiores fãs da série dizem que “na época acontecia essas coisas”, só gostaria de lembrar que não existe essa “época”, é uma série ficcional, de um tempo ficcional, que pode se assemelhar a diversos tempos da nossa linha temporal, porém há cenas não justificáveis. Se a gente quer acabar com a cultura do estupro, seria muito mais interessante promover o empoderamento da mulher do que a subjugação histórica que nós tivemos e ainda temos (de 11 em 11 minutos no Brasil). Boicotar a série ou não é uma opção individual, porém é muito importante reconhecer onde há romantização de estupro e fazer críticas pesadas sobre o tema. Apenas.
Fazendo uma avaliação mais contemporânea, a gente pode também comparar com abusos de autoridade e poder. Micro e macro relações machistas diárias apenas para institucionalizar que há uma hierarquia de poder ainda que técnica e intelectualmente já tenhamos superado isso há séculos. Por que se precisa abusar de alguém quando está em situação vulnerável? Por situação vulnerável podemos listar várias coisas como, sob efeito de álcool, com medo, desmaiada, emocionalmente abalada, diferença gritante de idade, subordinada, crianças e idosos.
Lembrando sempre que homens e mulheres são diferentes biologicamente sim e a força é uma questão que interfere na subordinação da mulher há milênios. É bom lembrar porque feminismo pede igualdade perante a lei e equidade, ou seja, uma equivalência para nos tornarmos iguais perante a sociedade. Como já disse antes, já superamos há séculos essas questões e aqui uma galeria de pinturas da Idade Média para o deleite feminimo empoderador (clique no centro da imagem para ver todas).
Infelizmente, todas nós sabemos que homens próximos (amigos, familiares) e omis (termo de homem de internet que a gente não conhece e faz questão de ser agressivo) sempre nos dizem e repetem: Nem todos os homens. Pessoalmente consigo entender minimamente o porquê eles repetem isso frequentemente. Quando eu descobri que era opressora de mulheres negras e pobres (sou branca e classe média), fiquei muito angustiada e mal, mas nunca questionei isso, pelo contrário. Entendi que eu tenho a cara do opressor e fiz questão de manejar minha militância para as pautas mais urgentes. Muito mais urgentes que as minhas (empatia salva, galeura).
Sei que internalizar e digerir as questões é uma característica minha, mas não é característica da maioria dos homens e omis que foram criados livremente para serem exploradores, dominadores e questionadores. E por que não interpeladores? Interpeladores sim e confortáveis com isso. Já tentei os fazer entender o porquê, mas deixo aqui um trecho de um livro de uma escritora feminista de 1985 que já tinha que lidar com esse argumento.
Sabe o que acontece quando expomos uma situação absurda e o que ouvimos é “nem todo homem”? A situação explanada é altamente relevada. Os sentimentos de mágoa pessoal, por não quererem assumir a cara/frente das opressões milenares de gênero, etnia, classe, etc., tornam-se mais relevantes do que todas essas opressões. O que acontece é que se dá a perpetuação da subordinação das questões femininas e das minorias mais uma vez. Vence o micro machismo diário, vence o egoísmo e fica óbvio do porquê homens não podem ser feministas.
Então chega de feminismo liberal por hoje e eu vou voltar pra minha série porque águas ainda vão rolar e Isabel ainda vai se tornar rainha da porra toda. Desculpem o spoiler.
Ilustração feita com exclusividade por Sarah Assaf.
Chegando lá, estava tudo muito bem organizado. Fiquei surpresa pois foram distribuídos fones individuais (bons e exteriores, não como os que dão em avião, haha) e as cadeiras eram confortáveis. Não tinha ideia sobre o que seria o filme. Sabia o nome mas não havia pesquisado. As vezes procuro uma nota no IMDB ou no Rotten Tomatoes mas nessa vez foi um blind date mesmo.
O filme começou e aquela sensação de angústia e gatilhos foram dando vazão no meu peito. “É um filme sobre abuso psicológico, físico, estupro, ok”. Fiquei um pouco desconcertada mas continuei a assistir. A experiência de ter um fone de ouvido, sei que posso parecer exagerada mas, aumentou a sensação de passar pela experiência de forma mais solitária, uma sensação de isolamento. Muito provavelmente não foi proposital mas calhou de ser uma das condições de quem sabe já ter passado por um abuso, sente. De estar sozinho.
A direção de arte é muito boa, o roteiro muito bom, os diálogos são apenas os necessários, o que chegou a me surpreender de como uma sensação tão angustiante foi passada de forma tão clara sem precisar explicar demasiadamente.
O filme gira em torno da personagem principal que se chama Martha. A história é intercalada entre presente e passado que vai dando respaldo para o comportamento atual da personagem. Um comportamento paranóico, um comportamento defensivo, agressivo e amedrontado.
A primeira cena é Martha fugindo de uma casa e correndo pela floresta. Ela liga para sua irmã pedindo ajuda não direta, mas indiretamente. Em seguida. sua irmã aparece para acolhê-la.
Começam então os flash backs das memórias de Martha. Ela, por meio de uma amiga, encontra esse grupo auto-sustentável, que planta, colhe, cozinha, limpa, cuida dos animais, todos juntos. Cada um tem seu afazer dentro do espaço que é dividido, as roupas são divididas, é uma comunidade liderada por Patrick. Patrick é um homem que consegue individualizar cada pessoa e consegue identificar cada vulnerabilidade de cada um dentro do grupo, sendo homem ou mulher, ou seja, o perfil perfeito de um agressor psicológico.
Um dia, Patrick diz à Martha que ela tem cara de Marcy May. Ele cria uma intimidade e diz a ela que é preciso baixar a guarda para se misturar às pessoas. Precisa achar o espaço de trabalho dela no grupo, aceitar que cada um tem uma função. Ele diz isso de forma passivo agressiva na frente de outras pessoas do grupo, que já podemos começar a considerar um culto.
Um dia, Martha acorda parcialmente drogada com Patrick a estuprando. A sensação é tenebrosa. Depois que ele acaba e vai embora, ela levanta e vai para o quarto das outras mulheres e fica em silêncio tentando processar o que aconteceu. Uma mulher que está ao lado dela diz:
Você não sabe como você é sortuda! Eu daria tudo para voltar para o dia em que ele me escolheu
O desespero está instalado. Mulheres em situação de vulnerabilidade convencem umas às outras de que abrir mão, não só de posses materiais mas como do próprio corpo para se doar num grupo, é uma realidade evoluída. Novas mulheres chegam à casa, Martha as ajuda na preparação para o ~ primeiro dia ~, tudo não passa de uma grande lavagem cerebral generalizada.
Curiosamente, fui dar uma olhada em outros reviews desse filme. A grande maioria dos reviews são/foram feitos por homens que predominantemente acharam o filme vazio e chato. Não entendem o privilégio de se serem homens e não serem abusados sexualmente e serem abusados psicologicamente diariamente como todas nós somos. Esse filme fala diretamente com mulheres. Mulheres que escolhem o silêncio ao entenderem que estiveram em uma situação de abuso psicológico, estupro, violência doméstica. A vergonha, a paranóia que segue, a defensiva.
Depois que a irmã da Martha a acolhe, acontece o silêncio, acontecem os espasmos de paranóia tanto na personagem quanto no espectador (ou, na espectadora mulher). A irmã de Martha é casada com um homem bem rico, eles a acolhem numa casa enorme, na beira de um lago. Martha problematiza o tamanho da casa para apenas um casal, problematiza o dinheiro como fator de sucesso. Nesse momento você percebe que o estilo de vida que ela levava na comunidade ainda é o que ela tem como ideal, porém, em algum momento, conseguiu fazer a quebra de onde estavam os problemas. Creio que foi em conjunto com outras mulheres que ali estavam, as observando e se enxergando nos abusos, nos silêncios cúmplices.
Depois da acolhida, outros problemas começam a se instalar. A irmã entende que Martha precisa de tempo e que alguma coisa muito pesada aconteceu com ela. Mas o marido da irmã não tem paciência, entende que aconteceu alguma coisa mas não quer ter que lidar com o problema. O que me é bastante real voltando na questão o privilégio de ser um homem branco e rico. Terceirizar problemas que não lhe concernem pessoalmente. Particularmente, a paranóia da Martha começou a passar para mim. Achei que o marido da irmã fosse abusar dela e isso é exatamente a quebra do argumento masculino “nem todo homem”.
Não interessa a pessoa maravilhosa que um cara possa ser e se portar, já passamos por tantas coisas ruins que não nos resta mais chances, mais uma carta branca de confiança. Não peça para uma mulher que já foi abusada para que não generalize. E acredite, muitas de nós fomos.
Infelizmente o filme tem um final mais real do que eu imaginei. Não há um desfecho porque não há desfechos para casos de abusos sexuais e psicológicos. Há somente uma paranóia que pode e deve ser controlada com tratamentos e o medo que segue. Grande parte de nós, mulheres, somos Marthas. Somos Marcy Mays, que é como somos individualizadas no ápice de nossa vulnerabilidade e somos Marlenes quando precisamos pedir ajuda.