Parceiras eternas: sobre a amizade adulta

Dizem que em um certo momento entre os 25 e 26 anos, passamos dos vinte e poucos para os vinte e muitos. Em geral, essa mudança que não tem ritos ou hábitos definidos se faz notar pela comparação com os outros: Os outros que fomos no início dos vinte e anos ou os outros que nos acompanham em nossos círculos sociais e profissionais. É comum – ainda que não seja necessário – que nossas vontades e hábitos mudem quando passamos pelas etapas destinadas a cada faixa etária. Segundo a ordem geral, primeiro nos formamos no colégio, depois faculdade, vida loca, estágio, TCC, primeiro emprego, casamento, maturidade, filhos, estabilidade ou, no mínimo, sucesso. São as linhas gerais que, felizmente, nossa geração começa a desafiar – até porque pra caber nelas é preciso um histórico de inúmeros privilégios. O que eu quero dizer – e esse texto parte de uma pessoa que cumpriu mais ou menos um terço dessa linha de produção – é que uma hora as cobranças sociais ou as vontades pessoais batem um relógio que sussurra diariamente em nossas cabecinhas: você não tem mais idade pra isso.

 
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De repente, seus amigos trocam as festas por uma confortável madrugada com vinho (de um preço que você nem sabia que eles tinham grana pra bancar). De repente, fica chato se perceber repetindo os mesmos programas que você faz desde a época da faculdade. De repente, já tem conhecidos casando, tendo filhos, indo morar fora do país. E de repente bate aquele pavorzinho de ser a última entre os perdidos. Talvez o que diferencie os vinte e poucos dos vinte e muito é justamente a sensação de que agora estamos por conta própria, cada amigo segue um caminho e nos encontramos nas raras horas em que temos ânimo para socializar. Nossos probleminhas de vida jovem adulta não são mesmo tão graves, é o risco da solidão que amarga essas desaventuras. A rotina ser ruim não é tão pesado, difícil mesmo é não ter com quem compartilhar desgraça até transformá-la em piada.

 
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Parceiras Eternas (no original, Life Partners) é um filme dirigido por Susanna Fogel sobre amizade nesse período estranho em que não somos mais jovens, mas também não temos a estabilidade que esperamos dos adultos (porque, na verdade, estamos à beira de descobrir que essa é a maior mentira desde o Papai Noel). Sasha e Paige – interpretadas respectivamente pelas atrizes Leighton Meester e Gillians Jacobs – são melhores amigas que, apesar de serem muito diferentes, compartilham cada momento de seus dias em mensagens e intimidade quase excessivas. Sasha trabalha como recepcionista e, aparentemente, seu sonho é ser música. No entanto, passa os dias entre o tédio do escritório e a frustração com a própria criatividade. Paige é a amiga bem sucedida que trabalha como advogada defendendo causas ambientais. As diferenças profissionais não parecem atrapalhar a amizade, porque as duas são igualmente ruins quando o assunto é maturidade e relacionamentos. Sasha saí com muitas garotas, mas, frequentemente, elas são ex-namoradas de suas amigas ou muito mais jovens e ainda moram com os pais, portanto, o alarme de “não tenho mais idade pra isso” toca alto. Paige, como qualquer garota hétero, tem dificuldade em achar um cara decente, legal e de boa. Além dos fracassos em comum, as amigas compartilham o gosto por programas de TV de qualidade duvidosa, admiração e respeito. É aquele tipo de relacionamento em que a parceria e o carinho são certos, independente do quão diferente sejam os desejos e destinos das pessoas envolvidas.

 
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A trama realmente começa quando a harmonia entre as duas é desequilibrada por um novo componente: Tim (interpretado por um Adam Brody que só fica mais gato com a idade), o cara decente que faltava na vida amorosa de Paige. Conforme ela abre espaço para uma nova pessoa em sua vida, inevitavelmente precisa reduzir o tempo que dedica a sua amizade com Sasha. Mas as duas relutam diante da necessidade de mudar a dinâmica da relação e se embolam no próprio medo. Sasha que já não estava satisfeita com sua vida, se sente muito solitária e perdida. Paige, apesar de ter mais estabilidade profissional e amorosa, é imatura na hora de lidar com tem seus erros e limites, então, surta com as cobranças da amiga. São necessários alguns desencontros, gritos e lágrimas até que elas aprendam a ajustar o relacionamento às novas circunstâncias da vida adulta, mas o final é feliz.

 
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Parceiras Eternas é uma boa escolha pra quem tá com preguiça de ver um filme cabeçudo, mas também não quer ter sua inteligência subestimada. É uma história gostosinha, divertida e fofa. Sem contar que é realmente revitalizante ver um filme sobre mulheres adultas que não seja sobre casamento, maternidade ou sucesso profissional, mas, sim, sobre manter suas amigas como uma de suas prioridades. Tem o selo Ovelha e Teste de Bechdel de aprovação!

Escrito por
Mais de Taís Bravo

Ser mulher e viajar

No fim de fevereiro, duas jovens argentinas Marina Menegazzo e María José Coni desapareceram enquanto faziam uma viagem pelo Equador. Marina e Maíra eram duas amigas que viajavam juntas. Elas foram assassinadas por dois homens (já falamos sobre esse triste caso de feminicídio aqui). A mídia cobriu o caso como a terrível história de duas mulheres que se exporam ao risco de viajar sozinhas. Sim, eram duas amigas, mas, no mundo misógino, uma mulher desacompanhada de um homem ainda é um ser vulnerável e sozinha .

Na minha vida tive a sorte de poder viajar. Desde a adolescência sonhava em viajar sozinha e fiz isso assim que consegui economizar meu dinheiro. As pessoas não entendiam porque eu escolhi viajar sozinha. Meus pais ficaram desesperados. Minhas amigas perguntavam se eu não ia ficar entediada. Diante dessas reações, sempre pensava como seria se eu fosse um homem. Quando voltei, meus pais falavam para seus amigos como tinham uma filha corajosa que saía pelo mundo sozinha, sem medo. De novo me perguntei se um homem ganharia esse elogio. Aventureiro talvez, mas corajoso? Um homem precisa de coragem para fazer o que deseja? Eu não me acho corajosa e eu tenho, sim, medo. É assim que me chamam quando volto, com fotos e lembrancinhas. Mas se eu não voltasse, seria esse o termo? Não seria essa coragem uma ousadia descabida? Não seria uma imprudência?

Todas as minhas viagens foram sozinha ou acompanhadas de amigas. Em alguns lugares andar com quatro amigas parecia mesmo andar só. Éramos quatro dentro de um táxi com um homem e, no entanto, a cada curva desconhecida, nos sentíamos minoria.

Ser mulher é ainda estar em uma posição vulnerável. Na minha última viagem, senti que minha pele, meu corpo inteiro, eram sexualizados de uma nova forma. Mulher da América Latina em terra de colonizador deve estar querendo: um passaporte, um emprego, um velho escroto pra te perturbar quando você está de boa lendo um livro. Fui abordada algumas vezes de modos muito invasivos. Mas continuei viajando sozinha, de ônibus, no meio da madrugada. Usava o que chamo de “a cara de bolada” e mantinha minha cabeça muito erguida. Uma posição que me não me protegia, mas me salvava de desistir. É preciso forjar algum controle para driblar a vulnerabilidade imposta.

Mas escolher viajar sozinha – até se você é um homem – é escolher uma posição vulnerável. Porque estar sozinha em um lugar desconhecido é, sim, algum tipo de radicalidade. Isso te abre de um modo novo. Você é obrigada a reparar mais nas pessoas, nas ruas e em que você é nesse espaço – mas, olha a diferença, reparar aí é por querer prestar atenção e não por medo. O tempo então corre em um ritmo inédito. Os dez dias em que viajei sozinha foram maiores do que meses.

Eu gosto da vulnerabilidade quando ela é uma escolha. Quando eu escolho me colocar nessa posição, escolho um risco que não é mortal. Estar vulnerável, nesse contexto, é livrar-se das certezas para descobrir novas possibilidades. Eu gosto disso, na verdade, eu preciso disso.

É muito diferente da vulnerabilidade que é imposto ao nosso gênero. Estar atenta ao mundo porque se está em busca é muito diferente de estar atenta por medo, até porque essa atenação não garante segurança alguma.

Viajar sozinha não é o problema. O problema é viver em um mundo misógino em que o feminicídio é uma realidade ignorada. O risco não está em ser mulher em um lugar desconhecido. O risco está em ser mulher. Porque, na verdade, em nossas vidas, a violência mais provável não vem de desconhecidos, mas daqueles que confiamos como íntimos. Os casos de feminicídio mais recorrentes envolvem pais, padrastos, maridos, namorados e supostos companheiros – para ter acesso a esses dados, vale consultar essa reportagem.

Dizer as mulheres que o risco está em sair para o mundo faz parte de um discurso político que nos quer encurraladas, longe das ruas, longe da vida. Um discurso que isenta os homens de responsabilidade e joga toda culpa sobre os ombros das mulheres. Um discurso que impõe a vulnerabilidade como uma fragilidade essencial ao nosso gênero. E nós não escolhemos esse risco.

Eu não estou aqui para negar os perigos, mas para pedir que o medo não nos sufoque.

Na minha última viagem, vi muitas mulheres viajando, os grupos de amigas nas rodoviárias eram muito maiores do que os grupos de homens; entrei em um banheiro feminino que ficava na fronteira entre dois países e encontrei nas portas cor de rosa várias mensagens de felicidade, imaginei cada uma dessas garotas alegremente explorando o mundo; fui acolhida por mulheres em cada lugar que passei; bebi com garotas que provavelmente nunca mais vou ver na vida e que nunca esquecerei; fiz amigas, troquei confissões, dividi garrafas de vinho e um tanto de força.

Se você deseja viajar, viaje. Nem sempre é fácil, nem sempre é bom, mas essa vulnerabilidade escolhida sempre te dá algo novo. E às vezes é justamente o que você precisa para sobreviver em mundo que nos coloca em papéis claustrofóbicos.

 

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily).
 

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De repente, seus amigos trocam as festas por uma confortável madrugada com vinho (de um preço que você nem sabia que eles tinham grana pra bancar). De repente, fica chato se perceber repetindo os mesmos programas que você faz desde a época da faculdade. De repente, já tem conhecidos casando, tendo filhos, indo morar fora do país. E de repente bate aquele pavorzinho de ser a última entre os perdidos. Talvez o que diferencie os vinte e poucos dos vinte e muito é justamente a sensação de que agora estamos por conta própria, cada amigo segue um caminho e nos encontramos nas raras horas em que temos ânimo para socializar. Nossos probleminhas de vida jovem adulta não são mesmo tão graves, é o risco da solidão que amarga essas desaventuras. A rotina ser ruim não é tão pesado, difícil mesmo é não ter com quem compartilhar desgraça até transformá-la em piada.

 
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Parceiras Eternas (no original, Life Partners) é um filme dirigido por Susanna Fogel sobre amizade nesse período estranho em que não somos mais jovens, mas também não temos a estabilidade que esperamos dos adultos (porque, na verdade, estamos à beira de descobrir que essa é a maior mentira desde o Papai Noel). Sasha e Paige – interpretadas respectivamente pelas atrizes Leighton Meester e Gillians Jacobs – são melhores amigas que, apesar de serem muito diferentes, compartilham cada momento de seus dias em mensagens e intimidade quase excessivas. Sasha trabalha como recepcionista e, aparentemente, seu sonho é ser música. No entanto, passa os dias entre o tédio do escritório e a frustração com a própria criatividade. Paige é a amiga bem sucedida que trabalha como advogada defendendo causas ambientais. As diferenças profissionais não parecem atrapalhar a amizade, porque as duas são igualmente ruins quando o assunto é maturidade e relacionamentos. Sasha saí com muitas garotas, mas, frequentemente, elas são ex-namoradas de suas amigas ou muito mais jovens e ainda moram com os pais, portanto, o alarme de “não tenho mais idade pra isso” toca alto. Paige, como qualquer garota hétero, tem dificuldade em achar um cara decente, legal e de boa. Além dos fracassos em comum, as amigas compartilham o gosto por programas de TV de qualidade duvidosa, admiração e respeito. É aquele tipo de relacionamento em que a parceria e o carinho são certos, independente do quão diferente sejam os desejos e destinos das pessoas envolvidas.

 
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A trama realmente começa quando a harmonia entre as duas é desequilibrada por um novo componente: Tim (interpretado por um Adam Brody que só fica mais gato com a idade), o cara decente que faltava na vida amorosa de Paige. Conforme ela abre espaço para uma nova pessoa em sua vida, inevitavelmente precisa reduzir o tempo que dedica a sua amizade com Sasha. Mas as duas relutam diante da necessidade de mudar a dinâmica da relação e se embolam no próprio medo. Sasha que já não estava satisfeita com sua vida, se sente muito solitária e perdida. Paige, apesar de ter mais estabilidade profissional e amorosa, é imatura na hora de lidar com tem seus erros e limites, então, surta com as cobranças da amiga. São necessários alguns desencontros, gritos e lágrimas até que elas aprendam a ajustar o relacionamento às novas circunstâncias da vida adulta, mas o final é feliz.

 
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Parceiras Eternas é uma boa escolha pra quem tá com preguiça de ver um filme cabeçudo, mas também não quer ter sua inteligência subestimada. É uma história gostosinha, divertida e fofa. Sem contar que é realmente revitalizante ver um filme sobre mulheres adultas que não seja sobre casamento, maternidade ou sucesso profissional, mas, sim, sobre manter suas amigas como uma de suas prioridades. Tem o selo Ovelha e Teste de Bechdel de aprovação!

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De repente, seus amigos trocam as festas por uma confortável madrugada com vinho (de um preço que você nem sabia que eles tinham grana pra bancar). De repente, fica chato se perceber repetindo os mesmos programas que você faz desde a época da faculdade. De repente, já tem conhecidos casando, tendo filhos, indo morar fora do país. E de repente bate aquele pavorzinho de ser a última entre os perdidos. Talvez o que diferencie os vinte e poucos dos vinte e muito é justamente a sensação de que agora estamos por conta própria, cada amigo segue um caminho e nos encontramos nas raras horas em que temos ânimo para socializar. Nossos probleminhas de vida jovem adulta não são mesmo tão graves, é o risco da solidão que amarga essas desaventuras. A rotina ser ruim não é tão pesado, difícil mesmo é não ter com quem compartilhar desgraça até transformá-la em piada.

 
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Parceiras Eternas (no original, Life Partners) é um filme dirigido por Susanna Fogel sobre amizade nesse período estranho em que não somos mais jovens, mas também não temos a estabilidade que esperamos dos adultos (porque, na verdade, estamos à beira de descobrir que essa é a maior mentira desde o Papai Noel). Sasha e Paige – interpretadas respectivamente pelas atrizes Leighton Meester e Gillians Jacobs – são melhores amigas que, apesar de serem muito diferentes, compartilham cada momento de seus dias em mensagens e intimidade quase excessivas. Sasha trabalha como recepcionista e, aparentemente, seu sonho é ser música. No entanto, passa os dias entre o tédio do escritório e a frustração com a própria criatividade. Paige é a amiga bem sucedida que trabalha como advogada defendendo causas ambientais. As diferenças profissionais não parecem atrapalhar a amizade, porque as duas são igualmente ruins quando o assunto é maturidade e relacionamentos. Sasha saí com muitas garotas, mas, frequentemente, elas são ex-namoradas de suas amigas ou muito mais jovens e ainda moram com os pais, portanto, o alarme de “não tenho mais idade pra isso” toca alto. Paige, como qualquer garota hétero, tem dificuldade em achar um cara decente, legal e de boa. Além dos fracassos em comum, as amigas compartilham o gosto por programas de TV de qualidade duvidosa, admiração e respeito. É aquele tipo de relacionamento em que a parceria e o carinho são certos, independente do quão diferente sejam os desejos e destinos das pessoas envolvidas.

 
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A trama realmente começa quando a harmonia entre as duas é desequilibrada por um novo componente: Tim (interpretado por um Adam Brody que só fica mais gato com a idade), o cara decente que faltava na vida amorosa de Paige. Conforme ela abre espaço para uma nova pessoa em sua vida, inevitavelmente precisa reduzir o tempo que dedica a sua amizade com Sasha. Mas as duas relutam diante da necessidade de mudar a dinâmica da relação e se embolam no próprio medo. Sasha que já não estava satisfeita com sua vida, se sente muito solitária e perdida. Paige, apesar de ter mais estabilidade profissional e amorosa, é imatura na hora de lidar com tem seus erros e limites, então, surta com as cobranças da amiga. São necessários alguns desencontros, gritos e lágrimas até que elas aprendam a ajustar o relacionamento às novas circunstâncias da vida adulta, mas o final é feliz.

 
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Parceiras Eternas é uma boa escolha pra quem tá com preguiça de ver um filme cabeçudo, mas também não quer ter sua inteligência subestimada. É uma história gostosinha, divertida e fofa. Sem contar que é realmente revitalizante ver um filme sobre mulheres adultas que não seja sobre casamento, maternidade ou sucesso profissional, mas, sim, sobre manter suas amigas como uma de suas prioridades. Tem o selo Ovelha e Teste de Bechdel de aprovação!

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