♡ Unbreakable Kimmy Schimdt ♡

Unbreakable Kimmy Schmidt | Ovelha

Há certos tipos de humor que são específicos. Eu por exemplo não gosto de séries de humor, nem mesmo das renomadas como The Office, e sou muito julgada por isso, hahaha. Recentemente conheci uma miga que é completamente viciada em todos os tipos de série e depois de eu ver The Fall, recomendada por ela, que é uma excelente série feminista, estava à procura de outra para sanar a orfandade que se segue pós série/livro bons. Então a Kari me recomendou Unbreakable Kimmy Schimdt e mesmo relutante por ser de comédia, assisti. Obrigada Kari.

Nos primeiros cinco minutos eu já sabia que seria minha série favorita. Females are strong as hell! É a frase musicada com auto tunes na abertura do seriado, que pra quem cresceu nos anos 90 e na primeira década dos anos dois mil, é um prato cheio de referências maravilhosas. Desde indumentária, musicas, expressões, etc.
 


E aí voltamos para a questão do humor específico. Unbreakable Kimmy Schimdt tem um humor extremamente cartunesco, não é para todes. A direção de arte é toda cartunesca também, o ambiente em torno da personagem principal é colorido como uma grande loja de doces infantil. As piadas são rápidas e algumas surreais de forma que você entende como se estivesse vendo chapada. E enquanto chapada, também tem a mesma impressão, hahaha.
 
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O mote não deixa a parte surreal para trás ainda que muitos casos semelhantes tenham acontecido no mundo, principalmente nos Estados Unidos. Kimmy foi sequestrada por um pastor de uma igreja pós apocalíptica e passou 15 anos em um bunker embaixo da terra com mais 3 mulheres. Após serem resgatadas, Kimmy vai para Manhattan tentar uma vida sem rótulo vitimista onde ninguém a conheça, vai morar com Titus, um ator frustrado, negro e gay em um prédio numa área meio barra pesada em que a senhoria é a maravilhosa Lillian, uma mulher que viveu bem a década de 70, digamos.
 
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O cenário é todo bem cliché, a construção da história gira em torno da Kimmy e das possíveis resoluções que ela encontra para lidar com o que ela já viveu e os novos obstáculos que está vivendo de forma positiva ao extremo. Há tentativas com acertos e erros e cada uma tem a sua moral da história. Todas com muito bom humor. Quase como quem usa de bom humor para maquiar o que lhe aconteceu e estamos falando de um cenário de misoginia, possível estupro e abusos sexuais enquanto Kimmy e as Mulheres Topeira (como são chamadas pela mídia dentro da série) estavam no bunker.
 
Unbreakable Kimmy Schmidt
A série lida com problemas reais fazendo críticas extremamente pungentes em um humor político e necessário. Há recorte de classe e raça o tempo inteiro e críticas acerca do machismo, xenofobia, mídia sensacionalista, classe alta estadunidense e o poder do homem branco que não é questionado em absolutamente nada e em momento algum, são de uma sensibilidade única. O espectador é bombardeado com piadas irônicas acerca da temática minorias e isso é sem dúvida o que as feministas estavam esperando há algum tempo.
 
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Kimmy não se fecha em seu empoderamento, ela transborda empatia sem fazer a white savior e estende sua mão para todes que precisam se empoderar, é sororidade e humor ao extremo. É possível fazer militância com humor, só tenho a agradecer à Tina Fey por isso.
 
fim

Mais de Bárbara Gondar

‘Chimas’ e o Meio Sol Amarelo ♡

Chimas foi o apelido carinhoso que eu e minhas amigas demos à Chimamanda Ngozi Adichie quando resolvemos fazer um clube do livro e começarmos pelo segundo livro escrito por ela, o Meio Sol Amarelo. Em verdade eu gostaria de ter começado com um dos outros títulos que eu já havia comprado e estavam aqui aguardando leitura, mas por votação, adentramos ao maravilhoso mundo de Chimas, ainda bem.

Meio Sol Amarelo é um romance que costura ficção e história de uma forma muito peculiar e excelente por causa dos lapsos de tempo que nos fazem sentir com menos impacto o terror de uma guerra. A guerra de Biafra, a guerra civil da Nigéria. Uma das muitas histórias silenciadas pelo ocidente.

 
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O contexto histórico é o seguinte, nos anos 60 a Nigéria tinha acabado de se emancipar da Inglaterra e enfrentava muitas dificuldades com sua diversidade étnica e herança colonial. Bem resumidamente, a guerra envolveu dois grandes povos nigerianos, os Hauças do norte (noroeste) da Nigéria, em sua grande maioria muçulmanos e os Igbos, do sul (sudeste), cristãos em sua maioria.

 

 
Os afrontamentos se davam por disparidades étnicas e religiosas. Em 1965 ocorreram diversos motins em que 30 mil Ibos já haviam morrido e mais de um milhão de Ibos estavam refugiados. Em 1966 começou então uma revolta militar separatista para que a região sudeste se separasse da Nigéria. Iniciando então a Guerra de Biafra.

 

 
No livro, toda essa história é introduzida em meio ao romance que é narrativo e se passa em partes diferentes dentro de – o que vem a ser – uma mesma família. O livro se inicia com a história de Ugwu, um rapaz que vai servir um professor universitário como um empregado doméstico. E quando eu digo servir é, abandonar a família dele numa vila rural para ser serviçal de um professor da Universidade de Nssuka, o Odenigbo. O professor é a favor do separatismo de Biafra e namora Olanna, uma mulher de uma família muito rica da Nigéria em que todos os membros, incluindo sua irmã gêmea Kainene, estudaram na Inglaterra. Há também o ponto de vista de Richard, um inglês que mora em Biafra e é namorado de Kainene. A trama se passa com esses personagens e suas percepções e realidades durante a guerra.

Confesso que até a página 200, eu, que não sou muito de romances, não estava achando nada muito demais. A comparação entre as muitas realidades, entre as classes sociais da Nigéria e as partes históricas, foram as partes que eu mais estava gostando. Claro que a forma de transitar entre personagens diferentes e os lapsos de tempo já tinham me captado bastante, mas foi a partir da página 200 que eu comi o livro. Comi porque até esse ponto você não entende que está completamente imerso no dia a dia da família e quando começa a guerra é um ponto de virada muito forte. A partir daqui, li mais de 100 páginas por dia, acabando o livro nos próximos 3 dias, acreditem se quiser. Hahaha.

A história é muito forte. É uma história que a gente não aprende na escola, é uma história que a gente aprende a ver mais de um ponto de vista por trás dos estereótipos que nos são ensinados. E sobre isso, nada melhor que a própria Chimas falando sobre o perigo do discurso único, que é também o perigo do silenciamento.

 

Tem legenda em português!

 
Fica muito clara, no livro, a posição dos intelectuais nigerianos em relação aos brancos que estão no país querendo ajudar numa posição de privilégio soberano. Há um entendimento total sobre os resquícios da colonização, condenação de reprodução de racismo, auto degradação cultural e uma proposta de resgate muito forte. A repressão é além da força física, é uma repressão ideológica, e isso é muito bem relatado e retratado.

Lendo sobre isso, são incansáveis as pontes que se podem fazer para as questões de apropriação cultural, silenciamento do feminismo negro, white savior(ismo?) ou ‘complexo de Princesa Isabel’, etc.

Procurei todas as palavras em Ibo que estão no livro, as cidades e locais específicos onde ocorreram alguns acontecimentos e os pratos típicos que são sempre comentados, procurei as receitas, hahaha! Fiquei em fase de negação total quando acabei o livro. Posso dizer que fiquei completamente apaixonada e não vejo a hora de ler todos os outros livros da nkem, Chimas♡. É uma história que consegue transitar entre uma doçura e uma dureza muito bem colocadas, críticas intensas e valor histórico inestimável.

Ainda não vi o filme, tenho um baita medão de desconstruir os personagens que a minha imaginação elencou, mas possivelmente devo assistir daqui a um tempo, se alguém aqui já viu, me fala se é bão?

Caso você não conheça nadica sobre a Chimas, ela ficou bem mais conhecida depois que a Beyoncé colocou uma parte de um de seus discursos na música Flawless. Vou deixar aqui abaixo tanto o discurso quanto o clipe, por que, né? De nada. Hahaha.
 

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The Office, e sou muito julgada por isso, hahaha. Recentemente conheci uma miga que é completamente viciada em todos os tipos de série e depois de eu ver The Fall, recomendada por ela, que é uma excelente série feminista, estava à procura de outra para sanar a orfandade que se segue pós série/livro bons. Então a Kari me recomendou Unbreakable Kimmy Schimdt e mesmo relutante por ser de comédia, assisti. Obrigada Kari.

Nos primeiros cinco minutos eu já sabia que seria minha série favorita. Females are strong as hell! É a frase musicada com auto tunes na abertura do seriado, que pra quem cresceu nos anos 90 e na primeira década dos anos dois mil, é um prato cheio de referências maravilhosas. Desde indumentária, musicas, expressões, etc.
 

E aí voltamos para a questão do humor específico. Unbreakable Kimmy Schimdt tem um humor extremamente cartunesco, não é para todes. A direção de arte é toda cartunesca também, o ambiente em torno da personagem principal é colorido como uma grande loja de doces infantil. As piadas são rápidas e algumas surreais de forma que você entende como se estivesse vendo chapada. E enquanto chapada, também tem a mesma impressão, hahaha.
 
Unbreakable-Kimmy-Schmidt-candy-for-dinner
O mote não deixa a parte surreal para trás ainda que muitos casos semelhantes tenham acontecido no mundo, principalmente nos Estados Unidos. Kimmy foi sequestrada por um pastor de uma igreja pós apocalíptica e passou 15 anos em um bunker embaixo da terra com mais 3 mulheres. Após serem resgatadas, Kimmy vai para Manhattan tentar uma vida sem rótulo vitimista onde ninguém a conheça, vai morar com Titus, um ator frustrado, negro e gay em um prédio numa área meio barra pesada em que a senhoria é a maravilhosa Lillian, uma mulher que viveu bem a década de 70, digamos.
 
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O cenário é todo bem cliché, a construção da história gira em torno da Kimmy e das possíveis resoluções que ela encontra para lidar com o que ela já viveu e os novos obstáculos que está vivendo de forma positiva ao extremo. Há tentativas com acertos e erros e cada uma tem a sua moral da história. Todas com muito bom humor. Quase como quem usa de bom humor para maquiar o que lhe aconteceu e estamos falando de um cenário de misoginia, possível estupro e abusos sexuais enquanto Kimmy e as Mulheres Topeira (como são chamadas pela mídia dentro da série) estavam no bunker.
 
Unbreakable Kimmy Schmidt
A série lida com problemas reais fazendo críticas extremamente pungentes em um humor político e necessário. Há recorte de classe e raça o tempo inteiro e críticas acerca do machismo, xenofobia, mídia sensacionalista, classe alta estadunidense e o poder do homem branco que não é questionado em absolutamente nada e em momento algum, são de uma sensibilidade única. O espectador é bombardeado com piadas irônicas acerca da temática minorias e isso é sem dúvida o que as feministas estavam esperando há algum tempo.
 
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Kimmy não se fecha em seu empoderamento, ela transborda empatia sem fazer a white savior e estende sua mão para todes que precisam se empoderar, é sororidade e humor ao extremo. É possível fazer militância com humor, só tenho a agradecer à Tina Fey por isso.
 
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