Uma conversa sobre assédio

Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy) exclusivamente para a Ovelha
Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy) exclusivamente para a Ovelha

Existe um conceito latente em nossa sociedade que nós, mulheres, aprendemos já crianças, e que nos afeta durante o resto da vida. É a ideia de que o corpo feminino é algo público, não só para ser olhado e avaliado (muitas vezes em voz alta), como também tocado.

O que eu estou dizendo não é novidade. Todas nós sabemos muito bem o que é ter o nosso espaço pessoal invadido – não preciso nem citar exemplos. E eventualmente incorporamos essas violências na nossa rotina e aprendemos pequenas ferramentas de sobrevivência. Mas mesmo assim, pelo menos para mim, ainda sobram muitas dúvidas – se estou reagindo ao assédio do “jeito certo”, se estou fazendo tudo que posso fazer, como não deixar a raiva entrar no peito e ficar. Como acho que essas são dúvidas que todas nós temos, convidei uma amiga (a G.) para conversar um pouco sobre o assunto – não para tentar achar respostas, mas para pensar mais sobre as perguntas, e ver que não estamos tão sozinhas.

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B: Eu comecei a escrever um post para a Ovelha sobre assédio e como não deixar a raiva que você sente na hora atrapalhar a sua existência, mas enquanto escrevia percebi que não tenho a resposta para essa pergunta, de forma alguma! Por isso quis convidar você para conversar um pouco sobre o assunto e falar sobre as dúvidas que sinto. Eu tive a ideia para este post um dia que eu fui em uma festa com a perna imobilizada (eu estava com o ligamento rompido). Uma hora veio uma menina e começou a encostar na minha perna, e eu fiquei muito brava e comecei a falar: “Para de encostar em mim, não encosta em mim, você não me conhece”. Foi uma situação extremamente chata. Eu percebi que na minha vida, agora, eu sinto um pouco de dificuldade em diferenciar quando é ok a pessoa encostar em mim e quando não é ok, por conta de trauma e por isso ter tomado um peso tão grande.

Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.

B: O outro dia eu estava em um bar escrevendo e meu amigo havia deixado o violão dele na mesa comigo. Um cara que estava parado atrás de mim simplesmente pôs a mão no meu ombro e falou “O quê você está escrevendo, música?”. Eu fiquei super desconfortável, e acho que isso é uma situação onde dá para ficar desconfortável. Mas por outro lado, quando amigos que eu já não conheço tanto me abraçam eu também fico desconfortável, por que isso pilhou tanto que encostar em mim virou um negócio. Eu acho que a gente só deveria deixar as pessoas encostarem na gente quando a gente está confortável com a ideia, mas percebo que muitas vezes eu não tenho nada contra a pessoa encostar em mim, até que ela de fato encoste, e aí vejo que eu não consigo lidar. Outra coisa que não sei mais como lidar é com como responder alguém que está me assediando. Por exemplo, quando a gente está andando na rua e alguém assedia e o primeiro instinto é gritar e falar “Vai se fuder, não fala assim comigo” etc. Mas depois eu sinto uma carga de ódio muito grande dentro de mim, e isso me afeta muito. Você falou que você parou de gritar com as pessoas na rua quando elas te assediam, por que isso aconteceu?

G: Isso na verdade tem a ver com uma postura minha. Antes eu usava roupas muito mais curtas e por conta do trabalho eu tenho usado roupas mais comportadas, e por isso muito do assédio que tinha antes parou. Esse macaquinho eu comprei no final de semana, mas não era a minha primeira opção de roupa. Minha primeira opção era uma saia bem comprida, mas ai eu pensei “Por que eu estou comprando um monte de roupa comprida sendo que eu sempre comprei roupa curta?”. Tanto que eu comprei até para voltar a usar as roupas que eu usava antes. Eu acho que parei de usar roupas curtas primeiro por não me sentir mais tão confortável por conta do assédio, e segundo, por causa do trabalho (é natural que você não vá usar um shorts numa reunião com cliente). Eu comecei a ficar muito estressada de ter que ficar respondendo sempre e pensar que a minha reação era tão importante. Eu sempre achei que a minha reação ia ter um efeito muito grande na outra pessoa, e muitas vezes teve, como aquela vez em que eu falei com o cara do posto de gasolina. Só que, mesmo naquela vez, acabou gerando uma situação chata, porque era um lugar onde eu passava todo dia e eles sempre falavam bom dia e era um negócio legal porque eu sempre falava oi para pessoas que eu via no meu caminho, e depois disso ficou uma situação incrivelmente chata, onde eu passava e ele fazia cara feia, e os outros caras do posto não me cumprimentavam mais. Acabou gerando uma situação que eu pensei “Tá, será que eu preciso disso?”. Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.

Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder.

B: Eu tenho muito isso também. Uma coisa que eu sempre fazia era gritar muito alto para tentar fazer a pessoa passar vergonha. É que antes eu não falava absolutamente nada, então foi muito natural para mim quando eu comecei a falar isso virar um veículo para toda a raiva que eu sentia. Ainda mais porque quando você não fala nada, existe uma coisa muito forte de você se sentir invisível, então eu era extra raivosa para me sentir extremamente visível. No começo, eu acho que foi necessário e foi muito bom, e me ajudou a me firmar. Só que depois de um tempo acontecia de eu simplesmente estar carregando aquela raiva dentro de mim. Tipo, a pessoa falava uma besteira, eu xingava ela, o cara quase sempre me xingava de volta, e daí eu virava a esquina tremendo e me sentindo feliz de ter falado alguma coisa, mas era muito ruim ter que carregar aquilo pelo resto do dia. Eu percebi que depois que eu comecei a responder eu comecei a sofrer menos assédio. Eu não sei se mudou alguma coisa na minha postura. Pode ser também. Eu realmente espero que o assédio tenha de fato diminuído por isso ter se tornado uma coisa mais amplamente discutido, e eu realmente sinto que ultimamente tem sido. Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder. Se a pessoa fala alguma coisa, sinto que eu tenho a obrigação de constranger ela, já que ela me constrangeu, para ela não passar impune. E é um dilema muito grande isso. O que fazer? Eu realmente não sei o que fazer.

G: Tem vezes que você está mais cansada, até sobre o assunto, e você não está afim de responder. Um exemplo disso é o tema ‘bicicleta’. Eu nem fui no primeiro protesto a favor das ciclovias, só dei uma passada. Eu estava muito cansada de ficar insistindo em uma coisa que eu acredito e sempre acontecer várias merdas. Mas aí eu fui no segundo e a liminar foi derrubada. Então isso foi um lembrete para mim, porque eu estava tão descrente. Ultimamente quando um cara fala alguma coisa na rua, quando sinto um olhar esquisito, eu penso “Ah, foda-se, tô cansada, não aguento mais, não quero responder”. Isso foi um lembrete de que a reação também é importante. Você não deixar isso acontecer também é importante. Eu tenho certeza que aquele cara do posto pensou duas vezes antes de ir ‘brincar’ com uma menina, ou tomar uma liberdade que ele não tem. Ou às vezes ele ficou puto na hora, mas depois ele até pensou sobre isso. Ele foi educado para fazer isso a vida inteira, então ele não acha que é um problema, e nem pensa sobre o impacto disso na vida das outras pessoas.

[caption id="attachment_3269" align="aligncenter" width="500"]Ilustração animada por Fernanda Garcia (Kissy) GIF por Fernanda Garcia (Kissy)[/caption]

 

B: Eu lembro que a primeira vez que eu respondi para um cara na rua eu tentei explicar para ele que o que ele estava fazendo era errado. Eu até cheguei e falei “Oi, desculpa, eu sei que você acha que o que você tá fazendo é certo”. Só que a pessoa não quer ouvir, é uma bosta isso. Então você é forçada a reagir de forma raivosa. Ultimamente eu tenho me perguntado qual é a maneira eficiente de fazer alguma coisa. Mas talvez não tenha uma resposta, talvez seja de situação em situação.

G: É, depende muito do caso. Tem vezes que você tem a liberdade de voltar e falar com a pessoa, tem vezes que você vê a pessoa e pensa ‘Eu só vou conseguir explicar o meu desconforto com uma piada, ou ridicularizando ele’. Tem vezes que você vê que você só vai conseguir explicar retrucando com ódio. Tem cara que está fazendo aquilo para te constranger. Ele sabe que aquilo é errado, que aquilo vai te deixar chateada, mas ele faz e esse é o objetivo dele, essa é a graça do assédio para ele. Aí se você virar para ele e falar alguma coisa mais raivosa às vezes é mais eficaz que ir lá conversar com o cara. Mas tem cara que está fazendo porque nunca parou para pensar sobre isso, e se você virar para ele e explicar porque isso te constrange ele vai pensar. Tem gente que está aberta, mas tem gente que quer exercer poder sobre você, e você só vai conseguir lutar contra isso se você mostrar que também consegue exercer poder sobre ele, que ele não é nada superior a você só porque ele quer te constranger.

Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.

B: Eu sempre lembro de dois casos muito bizarros que aconteceram comigo de ser assediada por grupos de meninos de 12 anos. Isso aconteceu duas vezes e foi muito estranho. E na primeira vez foram muitos meninos, uns seis meninos. Eles vieram e começaram o assédio, e eu xinguei eles, e eles ficaram muito bravos e começaram a me xingar de volta. Depois eu fiquei pensando, eu não deveria ter xingado eles. Deveria ter virado e falado “Escuta, o que você está fazendo? Não é certo o que você está fazendo”. Eu não sei se eles teriam me ouvido, porque eles estavam em muitos, e geralmente jovens quando estão em muitos não estão dispostos a ouvir. A segunda vez eu estava perto do trabalho e passaram esses três meninos e começaram com a mesma conversa. Eu virei e fiquei olhando feio para eles. Eles pararam, e quando eu olhei para frente para continuar andando um meio que continuou, e o outro mandou ele calar a boca. Depois eu fiquei pensando que eu deveria ter falado alguma coisa para eles. Eu acho que teria um espaço de escuta. Eu deveria ter sido mais observadora do que seria uma boa reação. Tudo bem, eles ficaram constrangidos. Espero que eles não façam isso de novo, mas pode ser que eles façam. Pelo que eu senti, era uma espécie de ‘ato de desafio à autoridade’. Mas assediar pessoas não deveria ser um desafio à autoridade.

G: Mas acho que só de você ter olhado feio já serviu para alguma coisa.

B: Eu espero que sim. Eu acho que às vezes a gente sente muita pressão para ser supermulheres. Toda vez que eu sou assediada na rua eu penso ‘Eu preciso constranger esse homem porque senão ele vai fazer isso com outras mulheres, possivelmente uma menina de quatorze anos que nem eu era quando era assediada na rua e achava que não podia fazer nada’. Ou eu penso em como eu só aprendi que eu poderia responder o dia que eu vi você respondendo. Antes eu nunca achei que isso fosse uma possibilidade. Então eu sinto como se tivesse uma responsabilidade social de fazer essas coisas. Eu fico muito triste porque eu sinto muita raiva e é muita pressão quando o assédio acontece, mas eu sinto que eu preciso responder. Por isso achei legal conversar com você sobre isso, acho que a gente acaba se sentindo muito sozinha. Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.

Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal.

G: Eu sempre penso que eu sou uma pessoa que foi criada em uma sociedade machista e o feminismo não veio do berço. Ele veio na adolescência, e mesmo na adolescência ele veio de forma muito preliminar, muito primitiva. Eu só fui realmente pensar nisso mais profundamente na faculdade. Então eu entendo que eu vou ter atitudes machistas, e o importante é consegui identificar elas e ter a vontade de mudar. Eventualmente vamos ter algum resquício disso, principalmente por nós sermos as pessoas afetadas. Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal. E é compreensível se a primeira reação não for a ideal, porque a gente foi criada em uma sociedade machista. Mas o fato de você estar aqui e conversar sobre isso, e pensar sobre isso diariamente, já é uma mudança.

B: É, eu acho que a gente precisa entender que o feminismo é uma coisa em processo, e que se a sua primeira reação não for a ideal, você vai pensar sobre isso e dai na próxima vez ela vai ser mais perto da ideal.

G: Isso. Pensa na primeira vez que você foi responder para um cara. Hoje você tem os traquejos de responder para caras. Hoje, se chegasse um grupo de meninos daquela idade para falar aquelas coisas para você a sua reação nunca seria igual a primeira.

B: Exatamente. Tanto que ela mudou da primeira para a segunda.

G: O meu meio profissional é um meio muito dominado por homens. Só tem homem. Existe um senso comum de que homens irão aguentar a pressão e mulheres não. Mas cara, eu aguento bem a pressão. Sempre vai ter um ponto de contato com o machismo, e a nossa reação vai ser sempre diferente. Mas sempre que eu sou enquadrada em uma situação onde eu sou a oprimida, ou a pessoa menor na situação, eu ajo do jeito que eu agiria normalmente, como se isso não importasse. No final, isso acaba dando certo. É muito difícil você se levantar contra uma situação onde você está sendo oprimido, mas o fato da gente responder muda muito. Você se comportar de um jeito que mostre que é a outra pessoa que está maluca, e não você por estar andando na rua. Eu não sei se eu estou respondendo do jeito certo. Eu nunca sei se uma cara feia vai ser o suficiente, ou se eu preciso ir lá e falar com a pessoa, ou se devo xingar. Eu sei que xingar com certeza não é o ideal, mas tem vezes que eu preciso fazer isso, porque a pessoa está querendo me agredir. Eu não tenho uma resposta do que eu acho que é o ideal na situação. Às vezes até penso que talvez responder nem seja o ideal. Mas, na verdade, acho que é sim.

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Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)

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Fragmentos sobre violência

Hoje eu fui atacada. Estava no carro, em uma bifurcação – escolhi ir para a direita. No carro da frente, um homem envolto em um cobertor claramente transtornado pedia dinheiro na janela. Não lembro se ele de fato estava envolto em um cobertor, mas na minha lembrança ficou assim. Quando o carro da frente negou, o homem cruzou na frente do meu carro e bateu no vidro da minha janela de passageiro. O motorzinho da janela de passageiro do meu carro está quebrado e faz anos que ela não abre. O homem sinalizou que queria dinheiro. Eu sinalizei que não tinha nada (eu tinha vinte reais na carteira). O homem estava com aquele olhar translúcido de quem já está há muito tempo na rua e sofrendo de abstinência, abstinência de comida, droga, carinho, humanidade. O semáforo abriu. O carro da frente andou, eu andei, o carro da frente parou bruscamente, eu parei, apenas alguns centímetros de onde eu estava antes. O homem do lado de fora da minha janela de passageiro deu uma paulada no vidro. Ela rachou. O homem deu uma segunda paulada no vidro. O vidro se soltou da porta do carro e foi lançado para cima do banco de passageiro, enquanto o homem tentava entrar no carro pela janela. Eu joguei meu carro para pista da esquerda, atravessei todas as pistas e entrei na rua esquerda da bifurcação. O homem ficou dependurado da minha janela por um segundo, e então caiu para fora com o impulso do carro. Não olhei para trás, apenas arranquei, meu pensamento ressoando “Graças a deus ele não tinha uma arma, graças a deus ele não tinha uma arma”.

Umas duas semanas antes, eu estava na fila do teatro da Maria Antônia com meu namorado esperando uma peça começar. Precisei ir ao banheiro. O banheiro feminino do Maria Antônia é um tanto antigo. Os cubículos tem portas que chegam até o chão, com maçanetas que parecem de porta de casa. A menina que usava o cubículo que eu escolhi usar havia esquecido de trancar a porta: eu tentei entrar, vislumbrei duas pernas brancas e o topo de uma cabeça de cabelos pretos e BUM, fechou a porta na minha cara. Eu me apressei para escolher outro cubículo antes que a menina saísse e visse o meu rosto.

Quando eu voltei para a fila comentei o ocorrido com meu namorado. “É a segunda vez que isso me acontece esse mês, acredita?” falei. “Eu realmente queria que as pessoas prestassem mais atenção se elas trancam ou não a porta do banheiro, porque eu realmente não queria ficar invadindo a privacidade delas desse jeito. Sem contar que é super violento isso de ter uma pessoa bater a porta na sua cara.” Fiz uma pausa. “E é engraçado, pra essa menina do banheiro quem cometeu a violência fui eu, não ela. Ela deve ter saído do banheiro, e agora está em algum lugar dessa fila, contando para a pessoa que está com ela que alguém tentou entrar no banheiro enquanto ela estava lá. Aposto que ela está pensando ‘Em algum lugar dessa fila está uma menina que cometeu uma violência contra mim’.” Parei por um momento e tentei adivinhar qual daquelas meninas seria a menina que eu por um breve instante vi urinando.

Cruzei o centro da cidade rezando para que ninguém me abordasse com a janela estourada. Tirei meus vinte reais da carteira e deixei em baixo da minha coxa para o dinheiro estar em fácil alcance caso alguém chegasse perto de mim.

Em 2012 eu estava no meu carro com um antigo namorado. Estávamos indo votar quando um motoqueiro bateu um revólver no vidro pedindo nosso dinheiro e celular. Lembro que no primeiro instante não entendi o que estava acontecendo. Eram dois homens em uma moto, e o homem da garupa usava uma camiseta amarela, seu ventre inchado, parecendo que ele tinha peitos. “Estou sendo assaltada por uma mulher de meia idade?” pensei, antes de entender: eram objetos roubados que ele havia enfiado dentro da camiseta. Existe uma lei que diz que em época de eleição pessoas só podem ser presas se pegas em flagrante. Estatisticamente, os dias em torno das eleições são os dias nos quais ocorre o maior número de assassinatos do ano (em ano de eleição). Eu fiquei nervosa (nunca havia sido assaltada) e entreguei minha carteira. “Não, só o dinheiro” falou o homem da moto. Eu abri minha carteira para mostrar que não tinha nada e passei meu celular, um troço dobrável que tinha rádio fm e mandava SMS, mas não fazia muito além disso. O cara da moto devia ter um melhor. Eles abriram a porta do banco de trás do meu carro, onde eu havia jogado alguns livros que trouxera do trabalho. “O que é isso?” ele perguntou. “Cadernos” respondi, completamente transtornada. Os livros eram edições especiais que valiam R$200, quase o triplo do preço do meu celular. Os homens foram embora. Nós seguimos, chegamos no colégio eleitoral e votamos. No colégio eleitoral os policiais nos informaram que já haviam recebido queixas sobre esses homens e que a arma devia ser verdadeira já que era pesada. Cheguei em casa me perguntando em quem aquelas pessoas teriam votado para fazer de São Paulo um lugar melhor.

Cheguei na casa da minha vó para deixar o carro, agora sem janela, na garagem dela. Liguei para o meu namorado e contei o que aconteceu. “Se eu tivesse sido mais educada” solucei “isso não teria acontecido. Talvez se eu tivesse falado claramente que não ia dar nada e tivesse esperado ele ir para o próximo carro antes de sair isso não teria acontecido”. Meu namorado me assegurou de que eu era uma vítima do acontecimento e que não havia nada que eu pudesse ter feito. Pensei no meu carro, cuja janela eu teria que substituir pela segunda vez (a primeira vez foi perdida em um furto onde roubaram uma mochila e potes de doce de leite que estavam guardados no banco de trás). Pensei na casa da minha vó, onde agora iria poder me abrigar, nos meus pais, que estavam vindo me encontrar. No meu vidro quebrado e na mão do homem que me atacou. Onde será que ele está agora, enquanto eu choro na garagem da minha avó dando graças a deus que ele não tinha um revólver? Me senti nojenta e não me senti uma vítima.

Depois de encontrar os meus pais, fomos almoçar. Eu ainda estava muito inquieta, me sentindo enjoada. Um pensamento acendeu por um segundo na minha cabeça. “Isso tinha que mudar minha vida?” Largar meu emprego, pensar no que eu realmente queria fazer, ir morar na praia. Na minha visão periférica do olho direito sentia algo sólido, na mesma altura onde o homem socava o vidro. Estava conversando com meus pais sobre mestrado, pedindo a opinião deles sobre as áreas nas quais penso em prestar. Meu pai me contava de um livro de um matemático russo que ele leu, no qual o matemático falava sobre probabilidade. “Ele fala que no fim, o que todas as pessoas de sucesso, independente de qual área, têm em comum, é a perseverança. Não existe sorte, existe acaso. Quanto mais tempo você se expõe a uma situação, mais existe a chance de o acaso te apresentar com uma oportunidade. O importante é o tempo de exposição.” Lembrei de uma piada que eu fazia no colegial, quando estávamos estudando probabilidade. “Qual a probabilidade de um dado de seis lados cair no número doze?” “Cinquenta por cento. Ou cai, ou não cai.” Qual a probabilidade de se nascer rico e ter todas as oportunidades do mundo? Nascer pobre e não ter nenhuma? Cair nas drogas, pegar a bifurcação errada, dar a carteira inteira ao invés de só o dinheiro, não desviar quando um carro invade a sua pista na contramão durante a chuva?

Cinquenta por centro. Ou nasce, ou não nasce.

Quando meus pais chegaram para me buscar na casa da minha avó, meu pai me perguntou. “Será que você não se expõe demais?” Me explicou que, na minha condição de ter nascido moça, eu era sempre alvo de violência. Que eu fazia escolhas: sair de casa, sair sozinha, estar na zona leste (onde ocorreu o ataque). Que se eu optasse por não ir na zona leste sozinha talvez essas coisas não acontecessem, que eu deveria me expor menos. Quis responder que existir em São Paulo era a única exposição da qual eu precisava para me expor a violência, mas estava muito cansada e triste e em vez disso não falei nada.

Depois do almoço meus pais me deixaram em casa. Ainda inquieta, sentei no sofá. Me perguntei quanto tempo eu poderia me permitir ficar inquieta com essa situação antes de entrar no campo da vitimização. Em seguida me perguntei se, caso eu parasse rápido demais de me sentir inquieta, isso iria significar que eu estou tão alienada pela televisão e vida moderna que não consigo dar importância nem para situações onde eu poderia ter me machucado de forma extrema. Me perguntei, por último, onde estaria o homem que quebrou minha janela, nesse exato momento. Será que ele se machucou quando eu arranquei com o carro? Os carros atrás de mim fizeram como, deram a volta em torno dele para ultrapassar o semáforo antes que ele conseguisse agredir eles também? Será que ele ficou sozinho parado no meio da avenida? Será que ele lembra do que aconteceu, será que ele está pensando em mim, me odiando?

Onde será que estão dos dois homens que apontaram um revolver na minha cara em 2012 e pediram o meu celular? Será que o homem da camiseta amarela ainda pensa em mim, a menina do carro vermelho que não tinha dinheiro na carteira e só tinha um celular de merda?

Onde está a pessoa, que eu nunca cheguei a ver, mas sempre imagino como dois meninos adolescentes, que roubou a minha mochila e o doce de leite do meu carro? Será que comeram o doce de leite em casa? Quem será que veste agora aquelas roupas que estavam na mochila? Tinha uma câmera fotográfica analógica com fotos da viagem da qual eu acabara de voltar. Será que chegaram a revelar o filme, não os assaltantes, mas talvez alguém que encontrou a máquina em um terreno baldio e agora olha para aquelas fotos de uma represa no interior de São Paulo e se pergunta quem teria tirado aquela foto?

Passei o dia com caquinhos de vidro pinicando a minha pele. Tentei tirar eles da minha calça com os dedos mas não consegui pegar tudo.

Esse não é um texto com uma conclusão. Não sei o que falar agora, e não sei o que pensar. O homem era vítima de um sistema que me beneficia, eu era vítima de um sistema que me beneficia, somos todos vítimas, vítimas, vítimas. Não existia nada que eu pudesse ter feito de diferente, existia tudo que eu pudesse ter feito de diferente, honestamente não faço ideia.

Quais as chances de que a gente cruze os nossos caminhos novamente? Um dia eu estarei andando na rua não vendo a pessoa que está dormindo embaixo do viaduto. Um dia escolho de novo a bifurcação errada. Um dia sento na minha casa não me expondo e alguém pula o muro.

Se eu me expor a tudo tempo o suficiente, cinquenta por cento de chance. Não existe acaso. Só existe perseverança.
 

Ilustração feita com exclusividade por Ana Matsusaki (Nã)

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G.) para conversar um pouco sobre o assunto – não para tentar achar respostas, mas para pensar mais sobre as perguntas, e ver que não estamos tão sozinhas.

B: Eu comecei a escrever um post para a Ovelha sobre assédio e como não deixar a raiva que você sente na hora atrapalhar a sua existência, mas enquanto escrevia percebi que não tenho a resposta para essa pergunta, de forma alguma! Por isso quis convidar você para conversar um pouco sobre o assunto e falar sobre as dúvidas que sinto. Eu tive a ideia para este post um dia que eu fui em uma festa com a perna imobilizada (eu estava com o ligamento rompido). Uma hora veio uma menina e começou a encostar na minha perna, e eu fiquei muito brava e comecei a falar: “Para de encostar em mim, não encosta em mim, você não me conhece”. Foi uma situação extremamente chata. Eu percebi que na minha vida, agora, eu sinto um pouco de dificuldade em diferenciar quando é ok a pessoa encostar em mim e quando não é ok, por conta de trauma e por isso ter tomado um peso tão grande.

Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.

B: O outro dia eu estava em um bar escrevendo e meu amigo havia deixado o violão dele na mesa comigo. Um cara que estava parado atrás de mim simplesmente pôs a mão no meu ombro e falou “O quê você está escrevendo, música?”. Eu fiquei super desconfortável, e acho que isso é uma situação onde dá para ficar desconfortável. Mas por outro lado, quando amigos que eu já não conheço tanto me abraçam eu também fico desconfortável, por que isso pilhou tanto que encostar em mim virou um negócio. Eu acho que a gente só deveria deixar as pessoas encostarem na gente quando a gente está confortável com a ideia, mas percebo que muitas vezes eu não tenho nada contra a pessoa encostar em mim, até que ela de fato encoste, e aí vejo que eu não consigo lidar. Outra coisa que não sei mais como lidar é com como responder alguém que está me assediando. Por exemplo, quando a gente está andando na rua e alguém assedia e o primeiro instinto é gritar e falar “Vai se fuder, não fala assim comigo” etc. Mas depois eu sinto uma carga de ódio muito grande dentro de mim, e isso me afeta muito. Você falou que você parou de gritar com as pessoas na rua quando elas te assediam, por que isso aconteceu?

G: Isso na verdade tem a ver com uma postura minha. Antes eu usava roupas muito mais curtas e por conta do trabalho eu tenho usado roupas mais comportadas, e por isso muito do assédio que tinha antes parou. Esse macaquinho eu comprei no final de semana, mas não era a minha primeira opção de roupa. Minha primeira opção era uma saia bem comprida, mas ai eu pensei “Por que eu estou comprando um monte de roupa comprida sendo que eu sempre comprei roupa curta?”. Tanto que eu comprei até para voltar a usar as roupas que eu usava antes. Eu acho que parei de usar roupas curtas primeiro por não me sentir mais tão confortável por conta do assédio, e segundo, por causa do trabalho (é natural que você não vá usar um shorts numa reunião com cliente). Eu comecei a ficar muito estressada de ter que ficar respondendo sempre e pensar que a minha reação era tão importante. Eu sempre achei que a minha reação ia ter um efeito muito grande na outra pessoa, e muitas vezes teve, como aquela vez em que eu falei com o cara do posto de gasolina. Só que, mesmo naquela vez, acabou gerando uma situação chata, porque era um lugar onde eu passava todo dia e eles sempre falavam bom dia e era um negócio legal porque eu sempre falava oi para pessoas que eu via no meu caminho, e depois disso ficou uma situação incrivelmente chata, onde eu passava e ele fazia cara feia, e os outros caras do posto não me cumprimentavam mais. Acabou gerando uma situação que eu pensei “Tá, será que eu preciso disso?”. Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.

Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder.

B: Eu tenho muito isso também. Uma coisa que eu sempre fazia era gritar muito alto para tentar fazer a pessoa passar vergonha. É que antes eu não falava absolutamente nada, então foi muito natural para mim quando eu comecei a falar isso virar um veículo para toda a raiva que eu sentia. Ainda mais porque quando você não fala nada, existe uma coisa muito forte de você se sentir invisível, então eu era extra raivosa para me sentir extremamente visível. No começo, eu acho que foi necessário e foi muito bom, e me ajudou a me firmar. Só que depois de um tempo acontecia de eu simplesmente estar carregando aquela raiva dentro de mim. Tipo, a pessoa falava uma besteira, eu xingava ela, o cara quase sempre me xingava de volta, e daí eu virava a esquina tremendo e me sentindo feliz de ter falado alguma coisa, mas era muito ruim ter que carregar aquilo pelo resto do dia. Eu percebi que depois que eu comecei a responder eu comecei a sofrer menos assédio. Eu não sei se mudou alguma coisa na minha postura. Pode ser também. Eu realmente espero que o assédio tenha de fato diminuído por isso ter se tornado uma coisa mais amplamente discutido, e eu realmente sinto que ultimamente tem sido. Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder. Se a pessoa fala alguma coisa, sinto que eu tenho a obrigação de constranger ela, já que ela me constrangeu, para ela não passar impune. E é um dilema muito grande isso. O que fazer? Eu realmente não sei o que fazer.

G: Tem vezes que você está mais cansada, até sobre o assunto, e você não está afim de responder. Um exemplo disso é o tema ‘bicicleta’. Eu nem fui no primeiro protesto a favor das ciclovias, só dei uma passada. Eu estava muito cansada de ficar insistindo em uma coisa que eu acredito e sempre acontecer várias merdas. Mas aí eu fui no segundo e a liminar foi derrubada. Então isso foi um lembrete para mim, porque eu estava tão descrente. Ultimamente quando um cara fala alguma coisa na rua, quando sinto um olhar esquisito, eu penso “Ah, foda-se, tô cansada, não aguento mais, não quero responder”. Isso foi um lembrete de que a reação também é importante. Você não deixar isso acontecer também é importante. Eu tenho certeza que aquele cara do posto pensou duas vezes antes de ir ‘brincar’ com uma menina, ou tomar uma liberdade que ele não tem. Ou às vezes ele ficou puto na hora, mas depois ele até pensou sobre isso. Ele foi educado para fazer isso a vida inteira, então ele não acha que é um problema, e nem pensa sobre o impacto disso na vida das outras pessoas.

 

B: Eu lembro que a primeira vez que eu respondi para um cara na rua eu tentei explicar para ele que o que ele estava fazendo era errado. Eu até cheguei e falei “Oi, desculpa, eu sei que você acha que o que você tá fazendo é certo”. Só que a pessoa não quer ouvir, é uma bosta isso. Então você é forçada a reagir de forma raivosa. Ultimamente eu tenho me perguntado qual é a maneira eficiente de fazer alguma coisa. Mas talvez não tenha uma resposta, talvez seja de situação em situação.

G: É, depende muito do caso. Tem vezes que você tem a liberdade de voltar e falar com a pessoa, tem vezes que você vê a pessoa e pensa ‘Eu só vou conseguir explicar o meu desconforto com uma piada, ou ridicularizando ele’. Tem vezes que você vê que você só vai conseguir explicar retrucando com ódio. Tem cara que está fazendo aquilo para te constranger. Ele sabe que aquilo é errado, que aquilo vai te deixar chateada, mas ele faz e esse é o objetivo dele, essa é a graça do assédio para ele. Aí se você virar para ele e falar alguma coisa mais raivosa às vezes é mais eficaz que ir lá conversar com o cara. Mas tem cara que está fazendo porque nunca parou para pensar sobre isso, e se você virar para ele e explicar porque isso te constrange ele vai pensar. Tem gente que está aberta, mas tem gente que quer exercer poder sobre você, e você só vai conseguir lutar contra isso se você mostrar que também consegue exercer poder sobre ele, que ele não é nada superior a você só porque ele quer te constranger.

Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.

B: Eu sempre lembro de dois casos muito bizarros que aconteceram comigo de ser assediada por grupos de meninos de 12 anos. Isso aconteceu duas vezes e foi muito estranho. E na primeira vez foram muitos meninos, uns seis meninos. Eles vieram e começaram o assédio, e eu xinguei eles, e eles ficaram muito bravos e começaram a me xingar de volta. Depois eu fiquei pensando, eu não deveria ter xingado eles. Deveria ter virado e falado “Escuta, o que você está fazendo? Não é certo o que você está fazendo”. Eu não sei se eles teriam me ouvido, porque eles estavam em muitos, e geralmente jovens quando estão em muitos não estão dispostos a ouvir. A segunda vez eu estava perto do trabalho e passaram esses três meninos e começaram com a mesma conversa. Eu virei e fiquei olhando feio para eles. Eles pararam, e quando eu olhei para frente para continuar andando um meio que continuou, e o outro mandou ele calar a boca. Depois eu fiquei pensando que eu deveria ter falado alguma coisa para eles. Eu acho que teria um espaço de escuta. Eu deveria ter sido mais observadora do que seria uma boa reação. Tudo bem, eles ficaram constrangidos. Espero que eles não façam isso de novo, mas pode ser que eles façam. Pelo que eu senti, era uma espécie de ‘ato de desafio à autoridade’. Mas assediar pessoas não deveria ser um desafio à autoridade.

G: Mas acho que só de você ter olhado feio já serviu para alguma coisa.

B: Eu espero que sim. Eu acho que às vezes a gente sente muita pressão para ser supermulheres. Toda vez que eu sou assediada na rua eu penso ‘Eu preciso constranger esse homem porque senão ele vai fazer isso com outras mulheres, possivelmente uma menina de quatorze anos que nem eu era quando era assediada na rua e achava que não podia fazer nada’. Ou eu penso em como eu só aprendi que eu poderia responder o dia que eu vi você respondendo. Antes eu nunca achei que isso fosse uma possibilidade. Então eu sinto como se tivesse uma responsabilidade social de fazer essas coisas. Eu fico muito triste porque eu sinto muita raiva e é muita pressão quando o assédio acontece, mas eu sinto que eu preciso responder. Por isso achei legal conversar com você sobre isso, acho que a gente acaba se sentindo muito sozinha. Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.

Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal.

G: Eu sempre penso que eu sou uma pessoa que foi criada em uma sociedade machista e o feminismo não veio do berço. Ele veio na adolescência, e mesmo na adolescência ele veio de forma muito preliminar, muito primitiva. Eu só fui realmente pensar nisso mais profundamente na faculdade. Então eu entendo que eu vou ter atitudes machistas, e o importante é consegui identificar elas e ter a vontade de mudar. Eventualmente vamos ter algum resquício disso, principalmente por nós sermos as pessoas afetadas. Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal. E é compreensível se a primeira reação não for a ideal, porque a gente foi criada em uma sociedade machista. Mas o fato de você estar aqui e conversar sobre isso, e pensar sobre isso diariamente, já é uma mudança.

B: É, eu acho que a gente precisa entender que o feminismo é uma coisa em processo, e que se a sua primeira reação não for a ideal, você vai pensar sobre isso e dai na próxima vez ela vai ser mais perto da ideal.

G: Isso. Pensa na primeira vez que você foi responder para um cara. Hoje você tem os traquejos de responder para caras. Hoje, se chegasse um grupo de meninos daquela idade para falar aquelas coisas para você a sua reação nunca seria igual a primeira.

B: Exatamente. Tanto que ela mudou da primeira para a segunda.

G: O meu meio profissional é um meio muito dominado por homens. Só tem homem. Existe um senso comum de que homens irão aguentar a pressão e mulheres não. Mas cara, eu aguento bem a pressão. Sempre vai ter um ponto de contato com o machismo, e a nossa reação vai ser sempre diferente. Mas sempre que eu sou enquadrada em uma situação onde eu sou a oprimida, ou a pessoa menor na situação, eu ajo do jeito que eu agiria normalmente, como se isso não importasse. No final, isso acaba dando certo. É muito difícil você se levantar contra uma situação onde você está sendo oprimido, mas o fato da gente responder muda muito. Você se comportar de um jeito que mostre que é a outra pessoa que está maluca, e não você por estar andando na rua. Eu não sei se eu estou respondendo do jeito certo. Eu nunca sei se uma cara feia vai ser o suficiente, ou se eu preciso ir lá e falar com a pessoa, ou se devo xingar. Eu sei que xingar com certeza não é o ideal, mas tem vezes que eu preciso fazer isso, porque a pessoa está querendo me agredir. Eu não tenho uma resposta do que eu acho que é o ideal na situação. Às vezes até penso que talvez responder nem seja o ideal. Mas, na verdade, acho que é sim.

Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)

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