Nana Queiroz e os presos que menstruam

Atualmente, vivemos uma forte onda reacionária em nosso país. No Congresso Nacional, votam a favor da redução da maioridade penal. Nas ruas, por muito pouco lincham corpos negros. A grande mídia ratifica e incita a violência em um discurso que preza pela ignorância e o ódio. Em meio a esse cenário desesperador, surge uma brecha de esperança: “Presos que menstruam”. O livro, escrito pela jornalista e ativista Nana Queiroz, conta a vida de algumas presidiárias brasileiras e provoca um sentimento poderosos e urgente: a empatia. Nessa entrevista, Nana conta pra gente um pouco de sua história, seu processo criativo e a repercussão de seu livro.

 
Ovelha: Em “Presos que menstruam” há histórias de muitas mulheres, mas sua voz passa discretamente entre elas. Pela narrativa, não dá pra saber quem você é e como começou seu projeto. Me parece que o foco é realmente a experiência dessas mulheres e não a sua. Mas eu gostaria de saber mais sobre sua história, seu engajamento com o feminismo e o processo de escrever o livro. Como tudo isso começou? Existe uma relação entre a Revista AzMina , o movimento “Não Mereço Ser Estuprada” e o livro?

Nana: O livro é resultado daquela magia que as mulheres fortes têm em outras mulheres. Ele foi inspirado numa grande mulher chamada Rosália Naves que, num jantar, me contou sobre sua experiência trabalhando por anos no sistema carcerário feminino. Eu fiquei hipnotizada. Tentei ler mais sobre o tema depois do jantar, mas quando comecei a pesquisar na internet, não tinha nenhum livro, não tinha nenhum artigo, não tinha nada sobre as mulheres presas: elas eram completamente invisíveis. Eu tinha que quebrar esse silêncio. A pesquisa começou em 2010 e todo o processo de criação do livro durou pouco menos de cinco anos. Mas não posso dizer que minha relação com o feminismo tenha começado ali.

A verdade é que o feminismo não mudou minha vida, quem mudou foi o machismo! O feminismo é apenas o estado natural das coisas. Eu nasci feminista pois nasci com a consciência de minha dignidade e a consciência de que eu não era menor que nenhum dos meus 3 irmãos homens. Aos 8 anos, lembro que meu pai me pediu para lavar louças e eu retruquei “só se eu começar a ver você lavando louças também!”. 
Nós temos que entender que o feminismo é um movimento que nos chama para a natureza, que nos chama pro estado natural das coisas. O machismo nos vendeu a mentira de que diferenças biológicas nos fazem merecer tratamento diferente e menos respeito. Isso é uma grande mentira. 

Enfim, tudo isso para dizer que não existe uma história de como eu conheci o feminismo e ele me salvou, entende? Essa sensação de dignidade sempre esteve comigo e foi isso que gritou quando comecei, em 2014, o Não Mereço Ser Estuprada (que, vale dizer, não foi um movimento meu, mas de 200 mil mulheres brasileiras incrivelmente corajosas), e isso também que motiva a criação da Revista AzMina. Tudo isso está mergulhado numa convicção de que o feminismo não é só um movimento social e político, ele é a única verdade possível. Feminismo não é o oposto de machismo. Feminismo é a ideia de que, enquanto seres humanos, as mulheres têm dignidade à altura da masculina. Não mais, nem menos. Reconhecer isso é libertador não só para as mulheres, mas para a sociedade como um todo, que destrava 50% de seu potencial de curar, transformar, criar, gerar renda, fazer arte. Quem ganha é a humanidade.

  
Ovelha: Me parece que sua intenção não é vitimizar ou defender a inocência dessas mulheres, mas expor que, ainda que seus crimes não justificam os abusos que sofrem do sistema penitenciário. Uma ideia que é ignorada não só pelas instituições públicas, mas também pela opinião popular que cada vez mais reafirma – incitada pela grande mídia – que diretos humanos só são válidos para “humanos direitos”.  O modo como você escolheu escrever esse livro, a partir da narrativa das presidiárias, é uma tentativa de demonstrar que elas são seres humanos e não monstros que precisam ser extintos da sociedade? De certa forma, o livro pode ser lido como um pedido por um pouco mais de empatia?

Nana: Engraçado que a necessidade de empatia era essencial também para eu pudesse escrever o livro, sabe? Eu nunca cometi crimes, mas já fui vítima de vários, assim como pessoas que eu amo. Por isso, há sempre a tentação de julgar, de se colocar em uma posição moralmente superior. Mas isso mudou definitivamente pra mim quando eu conheci a Safira. 

Eu me identificava muito com ela. Safira era uma moleca crescida, como eu, muito sonhadora, guerreira, tinha muita vontade de ter um grande amor, mas ao mesmo tempo, era muito dona de si, achava que a condição de mulher não a diminuía e queria desbravar terrenos masculinos. Eu me vejo assim. E também, como ela, nasci em uma família grande na periferia e era a filha mais velha, com responsabilidades pelos 5 menores. Sonhava em crescer na vida e me tornar uma grande mulher e profissional, como ela. 

Pequenas diferenças na nossa história, porém, me fizeram aluna da USP, jornalista, escritora, casada com um homem bom e generoso, enquanto ela acabou se casando com um homem agressivo, engravidando cedo e sendo obrigada a deixar a escola. Percebi que éramos tão parecidas que, se eu tivesse vivido a vida dela, e ela a minha, era possível que a gente estivesse ali naquela mesma mesa, mas de lugares trocados. 

Quando eu escrevi essas histórias eu esperava sinceramente que houvesse uma Safira para cada pessoa que lesse. Que cada um pudesse se encontrar ali em alguma daquelas mulheres e ver que monstros só existem em histórias de criança e filmes ruins de Hollywood. Na vida real existem pessoas como nós que, diante de situações difíceis, tomaram decisões ilegais ou pouco acertadas. Mas continuam sendo gente e, em sua maioria, mais parecidas conosco do que imaginamos.

 
[caption id="attachment_5639" align="aligncenter" width="688"]A autora Nana Queiroz. Foto: Arquivo pessoal. A autora Nana Queiroz. Foto: Arquivo pessoal.[/caption]  
Ovelha: Como esta sendo a recepção do livro?  E o processo de transformá-lo em filme?

Nana: A recepção do livro tem sido uma delícia de surpresa. Inicialmente, os comentários intolerantes nas matérias sobre ele estavam me destruindo. Mas, logo surgiu em vários estados a iniciativa de coletar absorventes para as presidiárias e isso foi um afago. Nos mostra que ainda existe muita gente no Brasil que acredita que o sistema carcerário deve ressocializar e não apenas punir. 

Já o filme é uma maneira de atingir mais pessoas com essa mensagem. A gente sabe que, no Brasil, muita gente é avessa à leitura, principalmente de livros de não-ficção. Espero que essas pessoas possam também ser levadas à reflexão nas telonas ou telinhas. Junto a duas cineastas de Brasília, Lídia Oyo e Liana Faria, ganhei um edital em Brasília para produzir um média-metragem. Neste momento, estamos em fase de captação de recursos para transformar esse média no piloto de uma série, que pretendemos vender para um canal de TV ou até para o Netflix, quem sabe. Empresas interessadas em apoiar ou patrocinar o projeto podem saber mais sobre ele no site.

 
Ovelha: Li “Presos que menstruam” em dois dias. A sua escrita é muito envolvente e, de certa forma, é prazeroso acompanhar suas palavras. No entanto, é difícil dizer que amei seu livro ou mesmo admitir esse prazer da leitura. Não parece justo visto que seu conteúdo é tão pesado e real. Em muitos momentos, senti uma profunda sensação de impotência. Me perguntei – e ainda pergunto – o que posso fazer para ajudar a vida de mulheres como Camila e Gardênia. Acredito que foi em função dessa questão que surgiram movimentos em diversos lugares do país para organizar doações de absorventes para os presídios. Como tem sido acompanhar o nascimento desses eventos em solidariedade às presidiárias? 

Nana: Enquanto eu escrevi me debati com isso também. Naturalmente, enquanto escritora, eu queria fazer um bom trabalho, um livro saboroso de ler. Mas a verdade é que, no fim das contas, eu decidi que tudo isso deveria servir a um propósito claro: ser claro, atingir mais mais pessoas, ser eficiente em tocar o leitor e transmitir uma mensagem. Esta era a maneira como eu iria ajudar essas mulheres. E talvez dar uma forcinha para que outras não precisassem passar pelo mesmo. Pode ser um pouco de arrogância da minha parte achar que posso fazer alguma diferença com apenas um livro, mas a iniciativa dos absorventes me mostrou que nenhuma atitude feita com consciência e esforço, por menor que seja, passa pelo mundo sem causar algum tipo de efeito. Espero que isso não tenho soado auto-ajuda demais – risos – falei com sinceridade.

 
Ovelha: E, por fim, na sua opinião, como podemos ajudar essas mulheres?Como podemos colaborar para que nossa sociedade seja menos abusiva, machista e injusta?

Nana: Primeiro, que se enxergue as mulheres enquanto mulheres, considerando suas especifidades de gênero. Que exista a distribuição de absorventes, o pré-natal para gestantes, creches dignas para os bebês presos, tratamento ginecológico preventivo, acesso a trabalho e facilidades para as mulheres mantenham o contato com seus filhos. Entre os fatos que presenciei ou me foram relatados, me inquietou muito a situação dos bebês presos e das gestantes. Temos cerca de 350 crianças presas no Brasil hoje, vivendo em celas imundas e sem condições minimamente dignas. Grávidas são torturadas e bebês são obrigados a assistir à tortura da mãe. E essas crianças nem sequer precisam estar presas. O perfil dos crimes que levam as mulheres à cadeia é diferente dos que levam o homem a cadeia. Só 10% das mulheres cometeram crimes violentos, ou seja, crimes contra a pessoa. Logo, a maioria delas poderia estar amamentando em casa, cumprindo pena domiciliar. Já existe a caneleira eletrônica, tecnologicamente isso é possível. 

Naturalmente, as presas perigosas tem mesmo que ser afastadas do convívio social, e eu de maneira nenhuma vou defender a impunidade. Mas existem casos e casos e, para crimes mais leves, há uma série de penas alternativas que poderiam ser muito benéficas para as mulheres, no caso, por exemplo, do tráfico de drogas no pequeno escalão – que é só aquela pessoa que vende mesmo, não é o líder do tráfico, não mata, não achaca. Furto, roubo de supermercado, caixa eletrônico… sabe essas bobagens? Chamariz de assalto, porque ela é bonita e dá um chamariz confiante, um destaque para atrair vitimas… Além disso, a mídia precisa se repensar. A mídia só olha para mulheres quando há casos escandalosos como os de Suzane Richthofen. Isso dá à população uma impressão equivocada sobre quem são as mulheres presas. Como eu disse, Suzane pertence a uma minoria de 10%.

Na verdade, acho que é necessário repensar o sistema carcerário como um todo, e como a gente bota gente na cadeia no Brasil. Nosso sitema carcerário é falido, estamos gastando demais, prendendo gente demais, superlotando e cada vez reinserindo menos gente na sociedade – a taxa atual de reincidência no crime é de 70%, muito alta. É importante que a gente repense isso.

As mulheres, por exemplo. Antes de entrar no crime, muitas são vítimas da violência doméstica. Um estudo no Rio Grande do Sul (RS) mostrou recentemente que cerca de 40% das mulheres que foram presas no estado estavam imediatamente fugindo da violência doméstica. Ou seja, o marido batia (ou estuprava) nela e nos filhos e ela teve que fugir. Sozinha, não conseguiu sustentar os filhos. Ou ela resolveu traficar para conseguir dinheiro para sair de casa e fugir da violência doméstica, ou o próprio marido batia nela para que ela cometesse os crimes pra ele. Tinha maridos que obrigavam as mulheres a vender drogas pra eles. Veja bem, essas mulheres são vitimas, não são criminosas. Como a sociedade está tratando isso? Gastamos entre dois e três mil reais por detenta, por mês, no Brasil. Esse dinheiro não poderia servir para prevenir que essas mulheres fossem presas? Eu acho que trabalhar na prevenção é a coisa mais inteligente que podemos fazer enquanto sociedade.

 
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Entrevista feita pela colaboradora Taís Bravo.

Escrito por
Mais de Taís Bravo

Um cara de confiança

Texto originalmente em inglês publicado no Medium, por Priya.
Tradução e comentário: Taís Bravo

 


 
Há um mês, eu estava no tinder quando dei match com um cara de 29 anos que era exatamente meu tipo (atraente de um modo discreto, olhos e cabelos escuros, desajustado na medida certa).

Então eu li sua biografia.

Deus do céu, pensei imediatamente. Que erro terrível. Esse homem não é nem um pouco Meu Tipo. Ele gosta de fazer atividades ao ar livre e aquelas típicas Coisas de Caras, como carros e escalada. Eu sou uma garota que só gosta de sair se for para restaurantes e hotéis com luxuosos banheiros onde você pode tirar selfies. Mesmo deixando de lado essa incompatibilidade, o resto da sua biografia era tão… boba: um resumo de todas as coisas que dizem para evitar em sites de encontros. Odiei imediatamente, porque era descaradamente sincero, sorridente e animado, o oposto do meu tipo de humor. Eu odiei até seu nome. Vamos chamá-lo de Evan, que é um nome tão brando, agradável e sem graça quanto seu nome verdadeiro.

Quando ele começou a me mandar mensagens, eu rapidamente descobri que sua personalidade era exatamente como sua bio o descrevia. Ele escrevia longas mensagens perguntando sobre mim e me contando coisas sobre ele – nenhuma deles muito interessante. Evan era um engenheiro, um emprego que eu acho particularmente chato. Evan gostava de assistir esportes. Minha indiferença por esportes se transformou em um desgosto após um ex-namorado me forçar a assistir um jogo de futebol atrás do outro.

No entanto, Evan continuava falando e eu continuei respondendo. Porque não havia nada de errado com ele. Ele era um cara de confiança, um solid dude. Não era cruel, não era insistente, não era agressivo, não era arrogante: uma série de qualidades raras no tinder e, na verdade, raras na vida real. Por essa razão, resolvi encontrá-lo.

Eu não me desapontei. Na vida real, Evan foi tão sensível quanto parecia online e também tão comum quanto demonstrava ser.
*

Não vou me sentar aqui e dizer que o homem dos meus sonhos não é real. Eu conheci o homem dos meus sonhos, o homem que tem cada uma das qualidades dessa lista. Na verdade, eu me relacionei com o homem dos meus sonhos. Eu saí com ele várias vezes. Várias versões desse mesmo homem, na verdade.

O homem dos meus sonhos constantemente mudava de ideia sobre seus sentimentos por mim, várias vezes lançando afirmações ligeiramente charmosas como “Você poderia ser, talvez, você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”. O homem dos meus sonhos nunca me escrevia algo entediante. O homem dos meus sonhos não entendia moderação e passava sua vida bebendo só um pouco demais e fumando só um pouco demais. O homem dos meus sonhos era inquieto demais para acordar às sete da manhã e se comprometer com seu emprego entediante, mas estável. O homem dos meus sonhos não dormia por dias, então aparecia na minha porta porque ele apenas TINHA que me ver no meio da noite. O homem dos meus sonhos pegava um ônibus para Nova Iorque sempre que ele tinha vontade. O homem dos meus sonhos estava sempre indeciso sobre seu futuro, seu presente e passado. O homem dos meus sonhos não tinha um relacionamento com seus parentes e não se importava com isso. O homem dos meus sonhos me desprezava sempre que sentia vontade, às vezes através de mensagens. O homem dos meus sonhos não sentia necessidade de me avisar quando decidia desaparecer da minha vida. Esse é o problema. As coisas que eu quero não são como as coisas que eu pensava que queria, as coisas que nos dizem que nós queremos. Eu era essencialmente e profundamente incompatível com o homem dos meus sonhos.

Evan não é o homem dos meus sonhos. Ele é apenas um cara estável. E quanto mais eu ia a encontros com ele (sim, ele sempre chamava de encontros, ele não assumia um tom casual para o que estávamos fazendo), mais começava a perceber que, apesar dele não ter aquele charme afiado que eu buscava, ele era capaz de atender completamente as minhas demandas emocionais. Evan nunca me deixou intrigada sobre seus sentimentos; ele nunca esqueceu de me perguntar como eu estava. O que lhe faltava em mistério, ele compensava em doçura. Ele já havia se comprometido com outras mulheres, então ele poderia se comprometer comigo. Ele não era impulsivo, o que significa que ele também não era o tipo que decidia me abandonar sem me dar um aviso. Ele nunca dizia algo bonito ou vago como “Você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”, porque Evan não lidava com esse tipo de impulsividade. Ele era muito certo do que sentia. Sei que nada disso parece ser atrativo, mas se você é uma garota e está lendo isso, você entende quão raro é encontrar alguém que tem certeza do que sente. Longe de ser comum, Evan era raro.

Sim, éramos muito diferentes, mas eu aprendi a gostar dessa diferença. Evan nunca me fez assistir esportes com ele, ou reclamou quando eu demorei anos para me arrumar. Ele fazia suas coisas e eu fazia as minhas. Ele achava que eu era legal e interessante, cheia de humor e carisma, então eu me sentia assim perto dele, porque ele nunca estava distante ou indiferente. Com ele, eu me sentia uma pessoa impressionante.

Eu sempre me vi casando com outro escritor, levando uma vida no estilo de Scott e Zelda Fitzgerald, e, sendo muito sincera, isso ainda me parece maravilhoso. Porém, percebi que eu poderia ser completamente feliz casada com um cara que não entende tudo que eu amo, que chega em casa de seu trabalho entediante e diz “Como foi seu dia, querida?”.

Veja, não estou te dizendo para dar uma chance a cada cara sem graça do tinder. Também não estou dizendo que caras interessantes são babacas que nunca vão se comprometer com você. O que estou dizendo é: saiba o que é realmente importante para você.

O que Evan me ensinou durante o tempo em que estivemos juntos foi que as coisas que eu preciso são firmeza, comprometimento e entusiasmo. Eu não estou em um estágio da minha vida em que quero mover montanhas para ser a maior fã de um cara, para brilhar um pouco menos porque ele suga toda a luz de um lugar. Eu preciso estar com um homem que diz “eu não brilho se você não brilhar”.

Evan me ensinou que eu estava fazendo todas as perguntas erradas sobres parceiros românticos em potencial. Você acorda e vai trabalhar todos os dias e você se dedica pacientemente e gentilmente ainda que seja só um trabalho medíocre? Isso é real pra caralho. Você é uma artista, mas você está apaixonada pelo processo e não pelo estilo de vida? Isso é real pra caralho. Você gosta de coisas que eu não gosto, mas você me permite ter meu espaço? Isso é real pra caralho.

Mais importante, você é um cara em que eu possa confiar?

 

Texto originalmente em inglês publicado no Medium, por Priya.
Tradução e comentário: Taís Bravo

 

 

Eu e várias amigas recomendamos esse texto no Medium. Tenho pensado muito sobre as coisas com as quais nos identificamos, nos poemas, imagens e desabafos que nos acolhem. Às vezes acho que nem gostaríamos tanto assim de concordar – tenho várias críticas a esse artigo, principalmente no que diz respeito ao egocentrismo perturbador da autora -, mas o alívio de não estarmos sós é irresistível. Se identificar com esse tipo de relato significa descobrirmos que as feridas que salgamos com apatia e desconfiança não são um defeito individual. Isso nos poupa da culpa – sentimento sempre enormemente presente nos papéis do nosso gênero – e também um tanto de responsabilidade.

O que mais me chama atenção é um padrão nas falas nas quais nos enxergamos. Estamos todas exaustas, cínicas, indispostas para apostar qualquer fagulha de desconforto em um compromisso com o outro. Há também um modelo preciso para carregar essa ferida, afinal, nós somos feministas e empoderadas. A gente não cabe mais na vulnerabilidade, porque aprendemos que isso significa um risco mortal. Então, nos resta ser duras. A ferida que é um rasgo, uma abertura, em nós é casco. Calejadas em nossas resistências não ousamos mais sofrer, não damos conta economicamente, na nossa idade dinheiro e sentimento já se misturam. Ser firme e inteira, manter essa postura diariamente, às vezes tem um peso cruel.

Às vezes eu acho que o feminismo ainda não é capaz de nos liberar para sermos simplesmente humanas, em toda fragilidade e erro que significa essa condição. Às vezes não queria mais me ocupar de estar certa e só chorar, em praça pública, em braços cheios de afeto e incoerência.

*

Eu me encontro neste texto, como muitas mulheres, porque finalmente aprendo a não romantizar a dor e a questionar o que considerava atraente. Hoje, de fato, vejo que não há nada de interessante em um cara arrogante que não consegue dar conta de sua vida e usa justificativas patéticas para isso. Hoje eu não tolero mais quem acha que depressão, ansiedade ou qualquer limite psicológico é charmosinho. E isso é importante. Pedir um amor que não passe por aí é importante. Se deixar ser amada também.

Mas e quanto o que eu amo? O que me incomoda nesse texto é uma domesticação dos nossos afetos. Eu não quero acreditar que o máximo que posso pedir de um homem com quem me envolvo romanticamente é comprometimento. Ainda que isso seja raro. Parece que quando nos dão o que é simplesmente a coisa mais básica de um relacionamento, respeito, estão fazendo algo de extraordinário. Eu não quero achar um cara incrível só porque ele me trata bem. Isso soa ruim. E talvez seja. Mas não é possível pedir um pouco mais? Não é possível algo além dessas duas posições, amar alguém e sofrer ou eu ser amada e morrer de tédio?

Eu sei que a autora tenta apostar em uma solução para isso. Mas não há a palavra amor nesse texto. Há comprometimento e conciliação de interesses, não há afetos que vão além dos planos.

Eu também acho que a pessoa que amamos não precisa estar em concordância com todos os aspectos de nossa vida, não precisa gostar de tudo que gostamos e até mesmo entender totalmente quem somos. Mas se não há brilho no olho, tesão e vontade eu me pergunto para quê uma relação? Estar com alguém só porque ela faz com que eu me sinta admirável é algo meio triste e desonesto. Se for por aí eu tenho relacionamentos em que essa sensação é recíproca e mantida por trocas, afetos e compromissos gigantes. Eu tenho as minhas amigas, pessoas que estiveram e vão estar presentes nos mais diferentes eventos da minha vida. Eu não acredito em relacionamentos que tem a conveniência e a estabilidade como motor. Talvez eu seja só muito romântica ou talvez eu goste mais da minha solidão do que de qualquer companhia.

Por fim, eu acredito que esse texto é construído com uma perspectiva perigosa que o feminismo contemporâneo (de internet) nos traz: precisamos tanto reconstruir nossas autoestimas e assegurar nosso amor próprio que não conseguimos praticar a autocrítica. É, sim, urgente que as mulheres se achem maravilhosas e que digam isso para si mesmas e suas amigas. É, sim, urgente que nós aprendamos a amar de outra forma que não abusiva. É fundamental que nós estejamos finalmente repudiando as dinâmicas machistas que são a base de tantos relacionamentos românticos. Mas é preciso fazer isso sem perder de vista que somos humanas, não somos modelos de empoderamento, nós erramos, nós estamos vulneráveis o tempo todo, nós temos responsabilidade. Acho que só por aí que é possível acreditar de novo em formas de amar – principalmente se você é uma mulher heterossexual ou bissexual que se relaciona com homens. A possibilidade de existir com o outro – e não pelo o outro – só é possível através de uma noção de feminismo que não seja sobre estarmos sempre certas, mas, sim, sobre termos agência e autonomia para construir novas formas de vida e de relacionamentos.

 

Ilustração feita com exclusividade por Marcella Tamayo.
 

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Presos que menstruam”. O livro, escrito pela jornalista e ativista Nana Queiroz, conta a vida de algumas presidiárias brasileiras e provoca um sentimento poderosos e urgente: a empatia. Nessa entrevista, Nana conta pra gente um pouco de sua história, seu processo criativo e a repercussão de seu livro.

 
Ovelha: Em “Presos que menstruam” há histórias de muitas mulheres, mas sua voz passa discretamente entre elas. Pela narrativa, não dá pra saber quem você é e como começou seu projeto. Me parece que o foco é realmente a experiência dessas mulheres e não a sua. Mas eu gostaria de saber mais sobre sua história, seu engajamento com o feminismo e o processo de escrever o livro. Como tudo isso começou? Existe uma relação entre a Revista AzMina , o movimento “Não Mereço Ser Estuprada” e o livro?

Nana: O livro é resultado daquela magia que as mulheres fortes têm em outras mulheres. Ele foi inspirado numa grande mulher chamada Rosália Naves que, num jantar, me contou sobre sua experiência trabalhando por anos no sistema carcerário feminino. Eu fiquei hipnotizada. Tentei ler mais sobre o tema depois do jantar, mas quando comecei a pesquisar na internet, não tinha nenhum livro, não tinha nenhum artigo, não tinha nada sobre as mulheres presas: elas eram completamente invisíveis. Eu tinha que quebrar esse silêncio. A pesquisa começou em 2010 e todo o processo de criação do livro durou pouco menos de cinco anos. Mas não posso dizer que minha relação com o feminismo tenha começado ali.

A verdade é que o feminismo não mudou minha vida, quem mudou foi o machismo! O feminismo é apenas o estado natural das coisas. Eu nasci feminista pois nasci com a consciência de minha dignidade e a consciência de que eu não era menor que nenhum dos meus 3 irmãos homens. Aos 8 anos, lembro que meu pai me pediu para lavar louças e eu retruquei “só se eu começar a ver você lavando louças também!”. 
Nós temos que entender que o feminismo é um movimento que nos chama para a natureza, que nos chama pro estado natural das coisas. O machismo nos vendeu a mentira de que diferenças biológicas nos fazem merecer tratamento diferente e menos respeito. Isso é uma grande mentira. 

Enfim, tudo isso para dizer que não existe uma história de como eu conheci o feminismo e ele me salvou, entende? Essa sensação de dignidade sempre esteve comigo e foi isso que gritou quando comecei, em 2014, o Não Mereço Ser Estuprada (que, vale dizer, não foi um movimento meu, mas de 200 mil mulheres brasileiras incrivelmente corajosas), e isso também que motiva a criação da Revista AzMina. Tudo isso está mergulhado numa convicção de que o feminismo não é só um movimento social e político, ele é a única verdade possível. Feminismo não é o oposto de machismo. Feminismo é a ideia de que, enquanto seres humanos, as mulheres têm dignidade à altura da masculina. Não mais, nem menos. Reconhecer isso é libertador não só para as mulheres, mas para a sociedade como um todo, que destrava 50% de seu potencial de curar, transformar, criar, gerar renda, fazer arte. Quem ganha é a humanidade.

  
Ovelha: Me parece que sua intenção não é vitimizar ou defender a inocência dessas mulheres, mas expor que, ainda que seus crimes não justificam os abusos que sofrem do sistema penitenciário. Uma ideia que é ignorada não só pelas instituições públicas, mas também pela opinião popular que cada vez mais reafirma – incitada pela grande mídia – que diretos humanos só são válidos para “humanos direitos”.  O modo como você escolheu escrever esse livro, a partir da narrativa das presidiárias, é uma tentativa de demonstrar que elas são seres humanos e não monstros que precisam ser extintos da sociedade? De certa forma, o livro pode ser lido como um pedido por um pouco mais de empatia?

Nana: Engraçado que a necessidade de empatia era essencial também para eu pudesse escrever o livro, sabe? Eu nunca cometi crimes, mas já fui vítima de vários, assim como pessoas que eu amo. Por isso, há sempre a tentação de julgar, de se colocar em uma posição moralmente superior. Mas isso mudou definitivamente pra mim quando eu conheci a Safira. 

Eu me identificava muito com ela. Safira era uma moleca crescida, como eu, muito sonhadora, guerreira, tinha muita vontade de ter um grande amor, mas ao mesmo tempo, era muito dona de si, achava que a condição de mulher não a diminuía e queria desbravar terrenos masculinos. Eu me vejo assim. E também, como ela, nasci em uma família grande na periferia e era a filha mais velha, com responsabilidades pelos 5 menores. Sonhava em crescer na vida e me tornar uma grande mulher e profissional, como ela. 

Pequenas diferenças na nossa história, porém, me fizeram aluna da USP, jornalista, escritora, casada com um homem bom e generoso, enquanto ela acabou se casando com um homem agressivo, engravidando cedo e sendo obrigada a deixar a escola. Percebi que éramos tão parecidas que, se eu tivesse vivido a vida dela, e ela a minha, era possível que a gente estivesse ali naquela mesma mesa, mas de lugares trocados. 

Quando eu escrevi essas histórias eu esperava sinceramente que houvesse uma Safira para cada pessoa que lesse. Que cada um pudesse se encontrar ali em alguma daquelas mulheres e ver que monstros só existem em histórias de criança e filmes ruins de Hollywood. Na vida real existem pessoas como nós que, diante de situações difíceis, tomaram decisões ilegais ou pouco acertadas. Mas continuam sendo gente e, em sua maioria, mais parecidas conosco do que imaginamos.

 

 
Ovelha: Como esta sendo a recepção do livro?  E o processo de transformá-lo em filme?

Nana: A recepção do livro tem sido uma delícia de surpresa. Inicialmente, os comentários intolerantes nas matérias sobre ele estavam me destruindo. Mas, logo surgiu em vários estados a iniciativa de coletar absorventes para as presidiárias e isso foi um afago. Nos mostra que ainda existe muita gente no Brasil que acredita que o sistema carcerário deve ressocializar e não apenas punir. 

Já o filme é uma maneira de atingir mais pessoas com essa mensagem. A gente sabe que, no Brasil, muita gente é avessa à leitura, principalmente de livros de não-ficção. Espero que essas pessoas possam também ser levadas à reflexão nas telonas ou telinhas. Junto a duas cineastas de Brasília, Lídia Oyo e Liana Faria, ganhei um edital em Brasília para produzir um média-metragem. Neste momento, estamos em fase de captação de recursos para transformar esse média no piloto de uma série, que pretendemos vender para um canal de TV ou até para o Netflix, quem sabe. Empresas interessadas em apoiar ou patrocinar o projeto podem saber mais sobre ele no site.

 
Ovelha: Li “Presos que menstruam” em dois dias. A sua escrita é muito envolvente e, de certa forma, é prazeroso acompanhar suas palavras. No entanto, é difícil dizer que amei seu livro ou mesmo admitir esse prazer da leitura. Não parece justo visto que seu conteúdo é tão pesado e real. Em muitos momentos, senti uma profunda sensação de impotência. Me perguntei – e ainda pergunto – o que posso fazer para ajudar a vida de mulheres como Camila e Gardênia. Acredito que foi em função dessa questão que surgiram movimentos em diversos lugares do país para organizar doações de absorventes para os presídios. Como tem sido acompanhar o nascimento desses eventos em solidariedade às presidiárias? 

Nana: Enquanto eu escrevi me debati com isso também. Naturalmente, enquanto escritora, eu queria fazer um bom trabalho, um livro saboroso de ler. Mas a verdade é que, no fim das contas, eu decidi que tudo isso deveria servir a um propósito claro: ser claro, atingir mais mais pessoas, ser eficiente em tocar o leitor e transmitir uma mensagem. Esta era a maneira como eu iria ajudar essas mulheres. E talvez dar uma forcinha para que outras não precisassem passar pelo mesmo. Pode ser um pouco de arrogância da minha parte achar que posso fazer alguma diferença com apenas um livro, mas a iniciativa dos absorventes me mostrou que nenhuma atitude feita com consciência e esforço, por menor que seja, passa pelo mundo sem causar algum tipo de efeito. Espero que isso não tenho soado auto-ajuda demais – risos – falei com sinceridade.

 
Ovelha: E, por fim, na sua opinião, como podemos ajudar essas mulheres?Como podemos colaborar para que nossa sociedade seja menos abusiva, machista e injusta?

Nana: Primeiro, que se enxergue as mulheres enquanto mulheres, considerando suas especifidades de gênero. Que exista a distribuição de absorventes, o pré-natal para gestantes, creches dignas para os bebês presos, tratamento ginecológico preventivo, acesso a trabalho e facilidades para as mulheres mantenham o contato com seus filhos. Entre os fatos que presenciei ou me foram relatados, me inquietou muito a situação dos bebês presos e das gestantes. Temos cerca de 350 crianças presas no Brasil hoje, vivendo em celas imundas e sem condições minimamente dignas. Grávidas são torturadas e bebês são obrigados a assistir à tortura da mãe. E essas crianças nem sequer precisam estar presas. O perfil dos crimes que levam as mulheres à cadeia é diferente dos que levam o homem a cadeia. Só 10% das mulheres cometeram crimes violentos, ou seja, crimes contra a pessoa. Logo, a maioria delas poderia estar amamentando em casa, cumprindo pena domiciliar. Já existe a caneleira eletrônica, tecnologicamente isso é possível. 

Naturalmente, as presas perigosas tem mesmo que ser afastadas do convívio social, e eu de maneira nenhuma vou defender a impunidade. Mas existem casos e casos e, para crimes mais leves, há uma série de penas alternativas que poderiam ser muito benéficas para as mulheres, no caso, por exemplo, do tráfico de drogas no pequeno escalão – que é só aquela pessoa que vende mesmo, não é o líder do tráfico, não mata, não achaca. Furto, roubo de supermercado, caixa eletrônico… sabe essas bobagens? Chamariz de assalto, porque ela é bonita e dá um chamariz confiante, um destaque para atrair vitimas… Além disso, a mídia precisa se repensar. A mídia só olha para mulheres quando há casos escandalosos como os de Suzane Richthofen. Isso dá à população uma impressão equivocada sobre quem são as mulheres presas. Como eu disse, Suzane pertence a uma minoria de 10%.

Na verdade, acho que é necessário repensar o sistema carcerário como um todo, e como a gente bota gente na cadeia no Brasil. Nosso sitema carcerário é falido, estamos gastando demais, prendendo gente demais, superlotando e cada vez reinserindo menos gente na sociedade – a taxa atual de reincidência no crime é de 70%, muito alta. É importante que a gente repense isso.

As mulheres, por exemplo. Antes de entrar no crime, muitas são vítimas da violência doméstica. Um estudo no Rio Grande do Sul (RS) mostrou recentemente que cerca de 40% das mulheres que foram presas no estado estavam imediatamente fugindo da violência doméstica. Ou seja, o marido batia (ou estuprava) nela e nos filhos e ela teve que fugir. Sozinha, não conseguiu sustentar os filhos. Ou ela resolveu traficar para conseguir dinheiro para sair de casa e fugir da violência doméstica, ou o próprio marido batia nela para que ela cometesse os crimes pra ele. Tinha maridos que obrigavam as mulheres a vender drogas pra eles. Veja bem, essas mulheres são vitimas, não são criminosas. Como a sociedade está tratando isso? Gastamos entre dois e três mil reais por detenta, por mês, no Brasil. Esse dinheiro não poderia servir para prevenir que essas mulheres fossem presas? Eu acho que trabalhar na prevenção é a coisa mais inteligente que podemos fazer enquanto sociedade.

 

Entrevista feita pela colaboradora Taís Bravo.

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