Pantera Negra e as mulheres de Wakanda

Tudo o que a internet está falando sobre elas

Atual aposta do universo cinematográfico da Marvel, o filme “Pantera Negra” ultrapassa todas as expectativas de uma narrativa que apresenta um herói ao cinema. Sem deixar de entregar cenas de ação eletrizantes, o roteiro revoluciona a centralizar uma história em personagens negros de uma maneira nunca antes vista: sem estereótipos, sem embranquecimento, sem medo de mostrar negritude. E isso, é claro, também vale para as mulheres, que são a maioria na trama.

Separei tópicos importantes do filme para que, ao longo dessa review, eu possa distribuir links (em inglês e em português) com discussões importantes trazidas pelo filme, de raça à gênero. Então prepare a sua aba de favoritos e reserve algumas horas de sua semana para ler muito sobre esse filme que já é um marco na representação de pessoas negras em Hollywood.  
 

Um filme sobre homens, mas não muito

[caption id="attachment_16726" align="aligncenter" width="2048"] Nakia (Lupita Nyong’o), T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman) e Shuri (Letitia Wright) em cena de “Pantera Negra”, da Marvel Studios[/caption]

“Pantera Negra” narra o retorno de T’Challa (Chadwick Boseman) a Wakanda, país africano isolado das opressões do mundo,  incluindo a colonização branca. Após a morte de seu pai, narrada em “Capitão América: Guerra Civil”, ele precisa assumir de vez os poderes de Pantera Negra, passados de geração em geração, além do trono do país.

Mas o seu novo governo é interrompido pelo ambicioso Killmonger (Michael B.Jordan), um vilão compreendido e abraçado pelo público. Criado em meio a violência policial decorrente do racismo de Oakland, ele chega a Wakanda para reivindicar seu direito ao trono. Ao mesmo tempo em que se enfrentam em uma batalha épica, T’Challa e Killmonger também mergulham em sua ancestralidade, colocadas de maneiras muito sensíveis pelo roteiro.  

Só por esse resumo, nota-se que “Pantera Negra” é, na verdade, um filme sobre a jornada de dois homens, não é mesmo? Como negra, isso não foi um impedimento para que eu pudesse me identificar com as trajetórias de ambos os personagens. Isso sem uma brecha para racismo, já que o longa entrega um protagonista que foge da masculinidade tóxica.  Sem falar de como me senti bem recebida em Wakanda, mesmo sabendo que aquele lugar é apenas utópico.

Mas como mulher negra, o filme me serviu como completo pois não só honra a presença das mulheres, como tem um herói que depende delas para que sua narrativa seja concluída, e não o contrário. Na verdade, o filme trás uma mensagem importante que combate a solidão da mulher negra, tão fundamentada no pretenimento por parte dos homens negros: confiem nelas.
 

As mulheres de Wakanda somos nós

[caption id="attachment_16728" align="aligncenter" width="1420"] Nakia (Lupita Nyong’o) e Shuri (Letitia Wright) em cena de “Pantera Negra”, da Marvel Studios[/caption]

Sem nenhuma delonga para unificar costumes e tradições africanas, o filme também não exitou em criar um elenco majoritariamente negro retinto, escapando da técnica de priorizar atrizes negras de pele clara para que possa haver uma proximidade com padrões de beleza o que, muitas vezes, fere o contexto histórico da narrativa, além de excluir mulheres reais que têm tons de pele parecidos.

Assim como prometido por Lupita Nyong’o, o filme não repete estereótipos femininos já cansativos, especialmente em filmes de herói, especialmente aquela ideia de colocar mulheres contra si.

“Pantera Negra” não erra ao falar de raça e gênero, mas poderia ser mais completo sobre as narrativas de suas heroínas. A boa notícia é que o universo de Wakanda voltará em Guerra Infinita e, espero, sequências do próprio “Pantera Negra” e assim podemos esperar mais desenvolvimento e background das mulheres. Entenda:

Orgulhosas de suas aparências, seguras de suas habilidades, as mulheres são verdadeiras ladras de cenas em “Pantera Negra”:

Nakia – A espiã de Lupita Nyong’o, é uma verdadeira ativista, engajada e se infiltrar em tribos africanas que mantém mulheres como escravas sexuais para liberta-las. Ela é também o interesse amoroso do protagonista T’Challa, o que não a impede de lutar de igual para igual ao lado dele – muitas vezes, a frente dele – em nome de Wakanda. Nakia não tem medo de assumir seus sentimentos por T’Challa, mas esta não é a motivação principal de seu personagem, mas sim a de proteger o país.

O que mais podemos esperar: Oriunda da realeza de uma das tribos de Wakanda, a guerreira poderia empoderar-se dos poderes do Pantera Negra caso derrote T’Challa em uma luta ou em casos mais urgentes, como no filme, com o surgimento de Kilmonger e a queda do Rei. Romanda brevemente sugere que Nakia tomasse o alicerce dos poderes da Pantera, o que a levaria a uma viagem de ancestralidade e, consequentemente, o conhecimento de sua passado pelo público, mas isso acaba não acontecendo. Até mesmo uma busca na internet não me deu muitas pistas sobre a decisão de Nakia em sair de Wakanda e deixar seu amor em nome de sua vocação. O jeito é torcer para que este arco seja explorado em mais filmes.

General Okoye Todos os méritos a atuação de Danai Gurira, que soube colocar, exatamente nos momentos certos, seriedade, paixão, dúvida e humor na narrativa de Okoye. Como líder do exército Dora Milaje, ela também tem papel fundamental na luta de T’Challa, inclusive, representa boa parte das lideranças de movimentos negros que, embora tenha homens como Martin Luther King e Malcom X em destaque histórico, é comumente iniciado por mulheres negras, mesmo nos dias de hoje. Colocando até mesmo seus interesses românticos e pessoais de lado, é Okoye quem derruba os exércitos de Wakanda que apoiavam Killmonger, em uma cena simbólica.

O que mais podemos esperar: No filme, a guerreira diz ter um relacionamento amoroso pelo líder de uma das tribos de Wakanda, W’Kabi, embora não fique especificado se são casados, noivos, etc. Contudo, se a Okoye do cinema fosse completamente fiel a dos quadrinhos, ela poderia ter tido um relacionamento lésbico com Ayo, uma das guerreiras Dora Milaje, na telona. Esta possibilidade gerou até mesmo um movimento LGBT na internet, chamado  #LetAyoHaveAGirlfriend (ou #DeixeAyoTerUmaNamorada), parecido com o que foi #GiveCaptainAmericaABoyfriend (ou #DêUmNamoradoAoCapitãoAmerica). Mas não foi suficiente para mudar a ideia dos roteiristas, que disseram “a natureza do relacionamento entre Okoye e Ayo em ‘Pantera Negra’ não é romântica”. Caso os protestos continuem, a imagem tão positiva que o filme está passando pode ganhar problematizações. Será que os roteiristas buscariam reparar este problema em outros filmes?

Dora Milaje –  Vale destacar que o exército de Okoye é totalmente composto por mulheres negras que juraram proteger o trono de Wakanda. Apesar da função importante, elas já foram colocadas como um harém para T’Challa no quadrinhos, o que definitivamente – e graças a deus Beyoncé! – não acontece no filme. Ao invés disso, elas são tidas como, segundo o Hollywood Reporter, as mulheres que revitalizam a narrativa de “Pantera Negra”.

O que mais podemos esperar: Com certeza T’Challa levará seu exército na super batalha contra Thanos, que acontecerá em Guerra Infinita, o que garante mais um pouco de Dora Milaje no cinema. Mas bem que poderia haver um filmão contando a história das guerreiras, não é?

Ramonda – A rainha-mãe de Wakanda caiu como luva a Angela Bassett que, em sua postura e plenitude deu vida a uma verdadeira matriarca do país: doce, preocupada, mas ao mesmo tempo forte e imponente.

O que mais podemos esperar: Quando algumas atitudes questionáveis de seu marido T’Chacka na época em que era Rei de Wakanda foram expostas no filme, Romanda pareceu claramente decepcionada e em negativa. Mas seria interessante que a Marvel criasse outras oportunidades para ouví-la falar do antigo reinado e da história do país.  

Shuri – Letitia Wright dá vida a princesa da Disney (a Marvel é propriedade da Disney, vale lembrar) que nós sempre quisemos ver na telona. Ela é uma personagem recente nos quadrinhos, tendo aparecido pela primeira vez em 2005 como a pessoa mais inteligente do mundo – sim, mais do que Tony Stark e Bruce Benner. No filme, a presença de Shuri é totalmente incorporada a vida de T’Challa, já que ela desenvolve seu uniforme de herói, além de muitas tecnologias para ajudá-lo em combate. Além de ter humor e inteligência no ponte, Shuri também diverte por estar totalmente nas cenas de ação e não somente no laboratório.

O que mais podemos esperar: Assim como Nakia, Shuri também poderia incorporar os poderes da Pantera Negra. Houve até uma brincadeira sobre isso no filme, fazendo referência ao fato de que, nos quadrinhos, a personagem de fato já vestiu o traje. E esta quase foi a aposta dos roteiristas, que chegaram até a desenvolver um modelo de como seria o traje de Shuri no cinema. Mas porque será que este arco foi excluído do filme? Teorias na internet apostam que Shuri poderia assumir uma das armaduras do Homem de Ferro durante um dos crossovers do universo cinematográfico, fazendo as vezes de Riri Williams, a Coração de Ferro dos quadrinhos.

E então, você também assistiu ao filme e notou mais coisas incríveis sobre estas mulheres, que eu não citei aqui? Que tal trocarmos uma ideia pelos comentários? Wakanda forever!

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Minha anti-heroína favorita

Sabe aquele tipo de personagem cheio de mistérios e questionamentos sobre caráter, que além de nos fazer pensar e repensar sobre nossas vidas, ainda nos obrigam a torcer por eles e a amá-los? A fórmula do anti-herói tem sido reproduzida pela televisão americana, e vendido muito; alguns exemplos são Dexter, Walter White, Frank Underwood, Tony Soprano

Além do perfil de anti-herói, muito charme e caráter questionáveis, todos esses personagens citados têm algo a mais em comum: todos homens e brancos, que é outra fórmula repetida na televisão, mas desse detalhe a gente já cansou.

Desafio mesmo é tentar alavancar um anti-herói AND mulher, esse perfil normalmente não é bem recebido, pois o público costuma caprichar nos julgamentos para o gênero feminino e tende a perdoar e idolatrar muito mais os homens.

Logo, a primeira fórmula para uma anti-heroína de sucesso, é fazer com que ela não se importe nenhum pouquinho com a opinião alheia na trama, para que isso se reflita em seus espectadores.

A série How to Get Away With Murder, não só apostou neste tipo de personagem, como escalou uma atriz que a coloca a prova, e testa todos os limites do espectador ao assistir. Experiente, Viola Davis só vive agora, aos 49 anos de idade, a sua primeira protagonista, e o faz com maestria: Annalise Keating é uma mulher negra americana, advogada e professora de Direito Penal, ou como ela prefere chamar disciplina:

 

Piloto

A trama gira em torno de Annalise e de cinco de seus alunos que foram escolhidos para o disputado time que trabalha com ela em seu escritório instalado em casa e nos tribunais, ajudando a ganhar casos.

A cada episódio os estudantes se surpreendem e aprendem novas técnicas com a constante transição da advogada entre um estado completamente emocional e outro completamente racional que ela usa de forma intensa e convincente nos tribunais para ganhar diferentes processos com inteligência, e muitas vezes passando dos limites da ética.

Ela se engaja em causas por diversos motivos, sendo algum deles: fidelidade a seus clientes e amigos, outras vezes por pura sensibilidade e desejo de justiça e defesa de inocentes, e outras por ego, por não aceitar perder.

Apesar de soluções brilhantes de diversas batalhas nos tribunais, o maior desafio para Annalise e seus alunos se concentra em dois assassinatos nos quais a trama gira em torno, e podem estar ligados. O primeiro tendo acontecido no passado, em relação ao período em que se passa o episódio piloto, e o segundo apresentado num tempo futuro da trama, com a identidade do morto revelada somente no fim deste episódio, e que envolve o grupo de alunos destaque da professora.

 

Anti-heroína e humana

Com um roteiro bem amarrado, a série consegue explorar essa instabilidade emocional de Annalise também em sua vida pessoal, nos fazendo repensar qualquer definição pré construída da personagem que tenhamos feito até a primeira fase da primeira temporada, com mais detalhes sobre seu passado difícil sendo revelados na segunda parte.

Annalise fala abertamente de inseguranças com relação a maternidade, e ao relacionamento com seu marido Sam Keating, principalmente quando se sente ameaçada pela preferência dos homens por mulheres brancas e dentro dos padrões de beleza. Mas ela não se permite ficar na posição de vítima, menos ainda ficar sozinha, de modo que sempre coloca sua satisfação sexual em primeiro lugar, mantendo uma relação conturbada com um amante.

Algumas passagens que emocionam e quebram a ideia de calculista e fria de Annalise, são os momentos íntimos dela diante do espelho, quando saem perucas, maquiagem e roupas chiques e entram sua pele e cabelo naturais, uma mulher real que se constrói todos os dias para fortalecer sua imagem de poder e respeito diante dos colegas de trabalho.

 

É impressionante como a forma como ela se veste e se porta ajuda a construir a personagem. Eu não acreditava em um choro de Annalise até assistir as cenas de “vulnerabilidade”. O escritor da série, Peter Nowalk, contou que a própria Viola deu a ideia de mostrar a advogada sem peruca.

E o fato de mesmo uma persona tão forte quanto ela, que muitas vezes usa da sensualidade para conseguir o que quer, precisar também desses escudos, a torna muito mais humana, e abre espaço para reflexão da necessidade disso tudo ainda estar tão latente.

O fato de que Annalise tem momentos com sua beleza natural e isso ser mostrado na televisão mesmo com a necessidade da construção de uma personagem forte, também ajuda na sua humanização. É muito fácil colocar uma mulher, principalmente a mulher negra, indo dormir e acordando penteada e maquiada em todas as cenas, quero ver mostrar sua realidade para que outras possam se identificar.

 

Outras relações

Além da construção brilhante da Annalise Keating por Viola Davis, a série tem outros personagens interessantes, como a estudante perfeccionista Michaela Pratt, e a quieta Laurel Castillo, além da misteriosa dupla de ajudantes da advogada, Frank DelfinoBonnie Winterbottom e o aluno que sofreu preconceito na renomada faculdade da Filadélfia por ter entrado pela lista de espera, Wes Gibbins, vivido por Alfie Enoch (rostinho conhecido da saga Harry Potter), e que se vê enfrentando muitas mudanças em seu relacionamento com a professora, que as vezes é profissional, as vezes é forçado por circunstâncias da trama, e as vezes parece até um pouco materno da parte dela.

How To Get Away With Murder também atraiu audiência da comunidade LGBT por causa do relacionamento entre Connor e Oliver, e seus altos e baixos.

 

O poder de Shonda

Não é pra menos que How To Get Away With Murder tem uma representatividade tão forte com o destaque de Annalise, Shonda Rimes responsável por criar Scandal e Grey’s Anatomy é a produtora dessa série. Apesar de não escrever o roteiro, ela assume a missão de levar personagens empoderadoras para a televisão americana, o que segundo ela não é diversificar, mas sim normalizar este mercado.

No Brasil o canal Sony passou a transmitir a série todas as quintas-feiras às 21h30.

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