A intolerância nos espaços de luta

Ilustração feita com exclusividade por Sarah Assaf

“O que está acontecendo com as pessoas?” e “Qual a necessidade disso, gente?” têm sido as frases que mais tenho proferido, junto com “Affe”, seguidas, invariavelmente, de um facepalm. A internet e as redes sociais, principalmente, estão adquirindo uma característica muito prejudicial a qualquer tipo de debate: a intolerância traduzida no que conhecemos por “racha”. O que, por sua vez, está se estendendo aos ambientes não-virtuais.

Antes de começar qualquer argumentação sobre isso, quero destacar que NÃO estou falando de reações de grupos oprimidos que podem ser lidas como violentas. Com estas, eu estou COMPLETAMENTE de acordo. Não acho que devemos questionar como os grupos oprimidos reagem em situações de defesa, pois me baseio naquela máxima: não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor. (Repetir mentalmente umas 18 vezes ao dia, ou mais, todos os dias.)

Eu, como mulher, sei o quanto é cansativo ser silenciada, questionada, invalidada e um monte de outras coisas mais, que me colocam como cidadã de segunda classe, somente pela minha condição de mulher. Na maioria das vezes eu quero chegar metendo os dois pés no peito de mais aquele cara que pergunta “Tá, mas iuzomi?” e geralmente o faço. Não questiono uma pessoa negra ser hostil a quem não quer entender que o racismo ainda existe. Não questiono nenhuma mulher trans por ser rude com quem duvida da identidade de gênero dela. Não acho que devemos obrigatoriamente ser didáticas com nossa classe de opressores. Aliás, admiro quem tem paciência e estômago pra isso, mas sou partidária de dar prioridade às questões que nos dizem respeito dentro da minoria de qual fazemos parte.

A hostilidade já esperada de um debate virtual faz com que as pessoas percam a vontade de se engajar em discussões que poderiam ser frutíferas, mas que em geral não são.

Meu local de fala é sobre os casos em que mulheres brancas feministas são incapazes de se entender. Também não estou militando pela extinção das divergências, pois elas são sim parte fundamental do enriquecimento do debate e do movimento feminista como um todo. O problema é COMO estão sendo colocadas essas divergências na cultura do textão.

Acho que estamos bastante habituadas ao que já virou até meme (“Miga, me segura que quero fazer textão). Todo mundo tem muito o que falar sobre basicamente tudo e eu me incluio nisso. Surgiu um caso de machismo na faculdade? Textão. Viu uma notícia de mais uma decisão conservadora do Congresso? Textão. Panelaço na vizinhança? Textão. Até aqui, tudo bem. Falar sobre essas coisas na internet tem garantido uma maior repercussão das pautas das minorias em todos os outros meios e uma progressiva (mas ainda incipiente) desconstrução de preconceitos, que eu acho bem positivas.

O problema tem sido o que se desenrola nos comentários. Vai lá alguém apontar algo que não concorda na sua fala e são dois palitos pra ver todo mundo perdendo a paciência. Eu mesma nem respondo mais. Parece que ninguém percebe o que há de errado nisso. A hostilidade já esperada de um debate virtual faz com que as pessoas percam a vontade de se engajar em discussões que poderiam ser frutíferas, mas que em geral não são.

Falo com mais propriedade do movimento feminista, que é onde estou mais engajada e o que eu acredito que tem mais a ganhar se for deixando de lado a transformação das discordâncias em questões puramente pessoais. Experiência própria: várias das minhas opiniões divergentes me causaram a alcunha de “radical”, “tosca”, “sem noção”, etc. Isso foi traduzido em uma deslegitimação de tudo o que eu falasse, além de ter virado um fator de afinidade pessoal com outras pessoas. Quem não concordava com minhas opiniões, simplesmente não colava comigo no rolê. Até exposta e ridicularizada nesse mundão da internet eu já fui, por ter uma opinião com “somente” 20 anos.

O problema é o clima de rivalidade que prevalece entre pessoas que discordam, justamente porque perdemos a capacidade de repensar posições e respeitar divergências.

E é esse fenômeno de hostilidade generalizada que está acabando com tudo o que há de bom no crescimento dos movimentos feministas pelas redes sociais. Parece que há uma tendência de toda pessoa se achar A referência de luta, e quem não concorda com ela é automaticamente excluída. A cultura do “não sou obrigada” está minando nossa capacidade de argumentar, ouvir o outro lado com paciência e tentar tirar acúmulos mais sólidos e amplos de uma discussão. Ao invés disso, temos optado por ficar fechadas nos círculos onde sabemos que há consenso. Perdemos absolutamente qualquer capacidade de olhar sem preconceito para uma teoria que não concordamos, apesar de ela poder oferecer alguma perspectiva interessante sobre determinado tema.

Só que o pior é que tudo isso está se corporificando e saindo da internet. A hostilidade está presente também nos espaços de discussão presencial. Tem mina rachando mina, gente sem paciência pra quem está começando e um monte de atitudes super problemáticas que andam afastando muita gente interessada em participar. Preciso reforçar que não milito pela supressão das discordâncias, muito menos pela discussão 100% pacífica, porque debate é conflito e isso não tem jeito.

O problema é o clima de rivalidade que prevalece entre pessoas que discordam, justamente porque perdemos a capacidade de repensar posições e respeitar divergências. Aquela coisa do status com mais likes e compartilhamentos tem um paralelo fora da internet e é nisso em que estamos transformado nossas visões políticas. Mas só temos a perder com isso.

Então eu faço um apelo às minhas companheiras de luta: que tal a gente parar de basear a construção do movimento feminista nessa batalha de egos que tem se tornado o feminismo? Que tal a gente baseá-lo no acolhimento, na diversidade de visões e no aprendizado conjunto a partir das nossas vivências? Sem deixar, é claro, de repensar SEMPRE nossos privilégios e brigar quando é necessário – o que é totalmente diferente de rachar mina só pelo racha.

Escrito por
Mais de Gabriella Beira

A intolerância nos espaços de luta

“O que está acontecendo com as pessoas?” e “Qual a necessidade disso,...
Leia mais
  • barbarrá

    poxa gabi, esse texto é tão importante, obrigada pelo seu textão! <3

  • eu tenho vontade de imprimir isso e colar por todo o canto da terra