Anna Karina aos 75

“A musa de Godard”. Esse é o modo mais superficial e antiquado de se descrever a atriz Anna Karina, como se ela só existisse para facilitar o trabalho do cineasta francês. Mas sim, ela foi sua maior inspiração.

Anna Karina e Jean-Luc Godard se casaram em 1961, se separaram em 1965 e fizeram sete filmes juntos: “Uma mulher é uma mulher” (1961), “Viver a vida” (1962), “O pequeno soldado” (1963), “Bande à part” (1964), “Alphaville” (1965), “O demônio das onze horas” (1965), e “Made in U.S.A.” (1966).

O próprio Godard a descreve como uma “mulher de ação”, uma colaboradora ativa de seus primeiros filmes. Ela representava o espírito livre efervescente da Nouvelle Vague. Agora, aos 75 anos, Anna Karina está afastada do cinema há quase dez.

[caption id="attachment_9500" align="aligncenter" width="700"]Vivre sa vie ‘Viver a vida’[/caption] [caption id="attachment_9501" align="aligncenter" width="700"]345662 ‘Uma mulher é uma mulher’[/caption]

Nascida na Dinamarca com o nome de Hanne Blarke Bayer, Anna Karina passou quatro anos em um orfanato e depois fugiu de carona até Paris com apenas 17 (sua mãe era cheia de dívidas, e seu padastro abusivo). Ela implorou aos padres parisienses que encontrassem algum lugar para ela dormir e aprendeu a falar francês sozinha por ir ao cinema.

Um dia, um caçador de talentos a viu em um restaurante por lá e foi aí que ela começou a carreira de modelo, fazendo campanhas de marcas como Coca-Cola e Palmolive. Foi a estilista Coco Chanel que sugeriu que ela mudasse seu nome para “algo mais dramático”.

No início dos anos 1960, Karina ganhou um prêmio no Festival de Berlim por “Uma mulher é uma mulher” e formava com Godard um dos casais mais descolados da época. Porém, sua vida não era só maravilha.

“Às vezes era um pesadelo. Eu nunca pude entender seu comportamento. Ele dizia que ia sair para comprar cigarros e voltava três semanas depois. E naquele tempo, como uma mulher, você não tem nenhum talão de cheques, você não tem nenhum dinheiro. Então, ele saía para ver Ingmar Bergman na Suécia ou William Faulkner na América. E eu ficava no apartamento, sem qualquer comida”, diz ela, em entrevista ao “Guardian” em janeiro deste ano.

[caption id="attachment_9502" align="aligncenter" width="700"]'O pequeno soldado' ‘O pequeno soldado’[/caption] [caption id="attachment_9504" align="aligncenter" width="700"]'Bande à part' ‘Bande à part’[/caption]

Infidelidade, um aborto e uma overdose de barbitúricos também marcaram sua vida.

“Eu tive alguns maus momentos. Nós nos casamos porque, você sabe, eu estava grávida. Mas então eu perdi o bebê. Altos e baixos. Eu não queria mais viver. Eu tentei cometer suicídio e eles me mandaram para um hospício”, conta a atriz.

“E eu não estava nem um pouco louca. Mas era uma má situação naquela época para as mulheres – você poderia ficar lá para sempre. Mas um analista ajudou a me tirar. Em seguida, Jean-Luc veio e disse: ‘Oh, você vai filmar amanhã’. Bande à Part. Um filme de crime. Um filme de roubo. Esse filme provavelmente salvou minha vida.”

[caption id="attachment_9505" align="aligncenter" width="700"]'O demônio das onze horas' ‘O demônio das onze horas’[/caption]

Se Karina fosse só “a musa de Godard”, sua carreira teria acabado, o que obviamente não aconteceu. Ela colaborou com Serge Gainsbourg, escreveu três romances, produziu e atuou em “A religiosa”, do diretor Jacques Rivette, uma de suas melhores performances.

Em 1972, quando começou a escrever e dirigir filmes, foi muito criticada. “Diziam: ‘O que ela está fazendo aqui? Este não é seu trabalho, ela deve permanecer sendo uma atriz’. Mas eu só queria ver se eu poderia fazer aquilo, isso é tudo. E eu escrevi romances. E cantei – dois álbuns. Eu não canto mais. Acho que estou ficando velha.”

Segundo o “Guardian”, ela não vê Godard há anos. Ela diz que ele vive como um recluso e não vê ninguém.

[caption id="attachment_9506" align="aligncenter" width="671"]'O estrangeiro' ‘O estrangeiro’[/caption]
Tags relacionadas
,
Mais de Letícia Mendes

Nós somos as melhores

Nunca senti tanta nostalgia da adolescência nos últimos tempos quanto ao ver “Nós somos as melhores”, filme sueco de 2013 que estreou no fim de novembro em pouquíssimas salas de cinema. Não que eu tenha sido punk aos 13 anos. Mas, muito além da postura rebelde e ao mesmo tempo fofa das três protagonistas, o filme traz o saudosismo de uma fase da vida em que não há muito com o que se preocupar.

Do diretor Lukas Moodysson, o mesmo de “Corações em conflito” (2009) – drama com Gael García Bernal, que eu idolatro -, “Nós somos as melhores” se passa em Estocolmo nos anos 1980. Bobo e Klara são o que podemos chamar de amigas inseparáveis. Elas estudam juntas, falam ao telefone a tarde toda, dormem uma na casa da outra. Exatamente o que nós, mulheres aos 30 anos, fazíamos com a nossa melhor amiga de escola que hoje trabalha, é casada, tem filhos.

Vi är bäst!Foto: Sofia Sabel
Bobo e Klara se vestem com roupas bem largas e cortam o cabelo curtinho, ou seja, diferente de todas as outras garotas do colégio. As duas também ouvem punk rock, enfrentando o argumento de que o punk está morto, e decidem montar uma banda mesmo sem saber tocar qualquer instrumento.

Elas usam a bateria e o baixo emprestados de um centro cultural, mas simplesmente espancam os instrumentos. “Odeio esporte, odeio esporte. Vamos abortar o esporte”, diz a primeira letra composta pela dupla. Nisso, entra Hedvig, uma garota que é cristã fervorosa e manja muito de acordes musicais. Logo ela entra pra banda e seus longos cabelos loiros ganham outro corte.

Todos os dilemas da adolescência estão ali: desentendimento com os pais; interesse pelos garotos, ou até pelo mesmo garoto; e a importância da amizade. Mas não é a visão do adulto, no caso a do diretor, que fica em primeiro plano. As atrizes Mira Barkhammar, Mira Grosin e Liv LeMoyne são o que dão naturalidade à história. De fato, elas são as melhores e reafirmam como é possível fazer um filme massa sobre adolescentes, sem cair num lugar-comum.

Leia mais
Nouvelle Vague. Agora, aos 75 anos, Anna Karina está afastada do cinema há quase dez.

Nascida na Dinamarca com o nome de Hanne Blarke Bayer, Anna Karina passou quatro anos em um orfanato e depois fugiu de carona até Paris com apenas 17 (sua mãe era cheia de dívidas, e seu padastro abusivo). Ela implorou aos padres parisienses que encontrassem algum lugar para ela dormir e aprendeu a falar francês sozinha por ir ao cinema.

Um dia, um caçador de talentos a viu em um restaurante por lá e foi aí que ela começou a carreira de modelo, fazendo campanhas de marcas como Coca-Cola e Palmolive. Foi a estilista Coco Chanel que sugeriu que ela mudasse seu nome para “algo mais dramático”.

No início dos anos 1960, Karina ganhou um prêmio no Festival de Berlim por “Uma mulher é uma mulher” e formava com Godard um dos casais mais descolados da época. Porém, sua vida não era só maravilha.

“Às vezes era um pesadelo. Eu nunca pude entender seu comportamento. Ele dizia que ia sair para comprar cigarros e voltava três semanas depois. E naquele tempo, como uma mulher, você não tem nenhum talão de cheques, você não tem nenhum dinheiro. Então, ele saía para ver Ingmar Bergman na Suécia ou William Faulkner na América. E eu ficava no apartamento, sem qualquer comida”, diz ela, em entrevista ao “Guardian” em janeiro deste ano.

Infidelidade, um aborto e uma overdose de barbitúricos também marcaram sua vida.

“Eu tive alguns maus momentos. Nós nos casamos porque, você sabe, eu estava grávida. Mas então eu perdi o bebê. Altos e baixos. Eu não queria mais viver. Eu tentei cometer suicídio e eles me mandaram para um hospício”, conta a atriz.

“E eu não estava nem um pouco louca. Mas era uma má situação naquela época para as mulheres – você poderia ficar lá para sempre. Mas um analista ajudou a me tirar. Em seguida, Jean-Luc veio e disse: ‘Oh, você vai filmar amanhã’. Bande à Part. Um filme de crime. Um filme de roubo. Esse filme provavelmente salvou minha vida.”

Se Karina fosse só “a musa de Godard”, sua carreira teria acabado, o que obviamente não aconteceu. Ela colaborou com Serge Gainsbourg, escreveu três romances, produziu e atuou em “A religiosa”, do diretor Jacques Rivette, uma de suas melhores performances.

Em 1972, quando começou a escrever e dirigir filmes, foi muito criticada. “Diziam: ‘O que ela está fazendo aqui? Este não é seu trabalho, ela deve permanecer sendo uma atriz’. Mas eu só queria ver se eu poderia fazer aquilo, isso é tudo. E eu escrevi romances. E cantei – dois álbuns. Eu não canto mais. Acho que estou ficando velha.”

Segundo o “Guardian”, ela não vê Godard há anos. Ela diz que ele vive como um recluso e não vê ninguém.

" />