Guia Ovelha para não reproduzir machismo

Arte feita por Bárbara Malagoli (Baby C)
Nada de "oops, I did it again"!

Se você é do planeta Terra, grandes chances de que você nasceu no seio de uma sociedade machista, por mais desconstruída que a sua família seja, que perpetuam valores tradicionais (ou quase) de gênero. Nascemos e crescemos no patriarcado, então nada mais natural do que nos pegarmos pensando de vez em quando dentro da clássica caixinha em que nós mesmas tentamos tanto desconstruir.

Fora e dentro da nossa bolha, muitas vezes vemos pessoas instrumentalizando o feminismo de má fé, seja pra se dar bem, ou porque a pessoa nem sabem que está prejudicando a causa ao reproduzir a cultura machista que está ao nosso redor.

Pra ajudar as amigas a terem certeza de não estarem prejudicando a nossa luta, nem a ninguém, fizemos esse guia pra ajudar a estar sempre atenta pra não reproduzir o machismo que mora ao lado. Vem ler os sinais com a gente!


 

Você está reproduzindo machismo quando diz:

 

“Prefiro andar/trabalhar com homens”

Opa, sintoma número um. Depois dessa a gente até espera ouvir “nada contra mulher, tenho até amigas que são”. Muitas meninas se orgulham de serem desbravadoras porque carregam o importante bastão da minoria feminina em alguma atividade que praticam (e deveriam!), mas se fazem de desentendida na hora de incluir mais mulheres. A pior parte é quando elas dizem que preferem mesmo que sejam a única mulher do lugar, já que preferem lidar com homens. Estamos de olho.

“Mulher é muito complicada”

O sinal número dois normalmente é uma continuação do primeiro, mas não necessariamente. Muitas meninas se dizem infelizes com as mulheres ao seu redor porque elas são muito “muito complicadas”, mas não se atentam ao fato que elas mesmas estão pecando na falta de empatia. Primeiro, porque não existe um certo ou errado na forma de lidar com estímulos do dia-a-dia ou de como expressar suas emoções. Parece que existe um espectro do que é considerado uma reação “normal”, mas se chorar quando alguém é um babaca ou mandar se foder quando alguém é grosso não for algo normal, não sei o que é. Dizer que mulher é complicada é propagar estereótipos, o primeiro passo para preconceito e discriminação. E assim que começa a estatística de mulheres com menos cargos de liderança mesmo quando a CEO da empresa é mulher. Muitas mulheres conseguem cargos de liderança reproduzindo comportamentos masculinos porque entendem que, para se darem bem, tem que jogar pelas regras do jogo, sem se ligar que assim estão só fortalecendo a estrutura patriarcal. Toda atenção é pouco!

“O problema nesse mercado não são os homens, mas as mulheres”

Taí uma constatação que pode ter lá sua razão. Afinal, o problema de várias carreiras são mulheres como a que diz essa frase. Eu já ouvi de tudo: ouvi que mulheres não se valorizam, então por isso ganham menos e desequilibram o salário das colegas; ouvi que mulheres se envolvem amorosamente com os caras e por isso gera tensão no ambiente de trabalho (só precisa de uma pessoa pra formar um casal, né?); e que mulheres não são companheiras (!). A ironia é tão grande que acho que nem tenho um contra argumento. Apenas lamentável.

“Estão me criticando porque sou mulher”

Verdade, muito da atenção aos nossos erros se dão porque somos mulheres. Mas isso não anula o fato de serem erros, e serem nossos. Especialmente em relacionamentos amorosos, não é difícil ver minas fazendo coisas realmente questionáveis, como abuso emocional ou traição pública, por exemplo (e sem slut shaming aqui — o ponto é que traição é a quebra de confiança de alguém que você gosta), e na hora de se justificar ou se explicar, em vez de assumir responsabilidade, solta: “fulano fez a mesma coisa, mas ele é homem e ninguém liga” ou “em relações hetero isso rola o tempo todo, mas ninguém liga porque é entre homem e mulher”. Gata, não é porque você não é o padrão que é ok você reproduzir ações escrotas. E é assim que o patriarcado ganha mais força, com as minorias reproduzindo as cagadas todas.

“Você se depila? Manter os pêlos é desafiar o sistema”

Quatro ondas feministas depois, tá mais que na hora de entender que o feminismo amplia nossas possibilidades escolhas, não o contrário. Mulheres deveriam ter a liberdade de fazer o que quiserem com seus corpos, e isso inclui pêlos! Tirá-los, mantê-los, o que for melhor! Diferentes culturas, criações e indivíduos veem rituais de beleza de formas diferentes, e ninguém pode apontar o dedo e dizer que depilar a perna é necessariamente se render aos padrões estéticos do patriarcado. Já sofremos opressões diversas o suficiente. Então nada de confiscar a carteirinha feminista da amiguinha. Com meia perna depilada, com ou sem sobrancelha, com esmalte mal tirado ou perfeito, brilhe na sua melhor versão!

P.S: isso vale para roupa também ;)

 

“Como assim você nunca leu (insira aqui um livro feminista cabeçudo) ?”

Cada pessoa tem seu jeito de incorporar o feminismo em sua vida e isso é lindo. Diversidade é poder! Constranger as coleguinhas pelos livros e autoras que elas leram ou deixaram de ler é contraprodutivo e… inútil! Cada um lê o que entende melhor, e no seu próprio tempo. Tempo para ler e estudar deveria ser um direito para todas, mas muitas vezes é um luxo que nem todo mundo pode ter. Jogar citações fodas do nada só pra impressionar ou machucar quem está ao seu redor é sem noção, reproduz um comportamento masculino detestável, e ainda implica que teoria se sobrepõe à vivência – o que não é necessariamente verdade. Seja legal e sensível com as pessoas ao seu redor. Se orgulhar dos seus estudos é da hora, mas arrogância é brega demais.


 

Calma, amiga. Viver é aprender.

Sim, deve ser uma bosta entender que a gente reproduz ações sexistas sem saber, e mudar de postura pode ser dolorido. Mas vai por mim, é libertador. Não existe nada melhor do que se conhecer e ter domínio de todas as nossas ações. To-das. True Girl Power.

Se alguém se diz feminista pra promover desigualdade e exclusão, isso é apropriação de discurso e deve ser combatido. Estamos de olho.

P.S.: Créditos pra musa inspiradora desse post: Leia os livros de Glorinha!


Arte feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby C)

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Precisamos falar sobre autonomia feminina

Por que a escolha do tema da violência contra as mulheres na redação do ENEM incomoda tanta gente? O que há de errado em discutir o tema que atinge milhares de pessoas no Brasil? Só neste ano, o disque 180, uma espécie de linha direta para denúncias do governo federal, recebeu 16 mil ligações relatando caso de violência contra mulheres. Uma média de 53 ligações diárias. Imagina, então, se contabilizarmos as chamadas ao tradicional 190? E as mulheres que escondem, dizem que caíram, escorregaram lavando o banheiro, bateram o olho na maçaneta da porta…

A violência contra mulher é um dos fatores que atrapalham a autonomia feminina. As agressões domésticas, junto com a gravidez na adolescência e a falta de direitos reprodutivos (leia-se aborto legal) são um obstáculo para a emancipação feminina não só no Brasil, mas na América Latina. E sem autonomia feminina, a sociedade se desfaz e a economia chora.

E quem diz isso não sou (só) eu.

Um relatório do Banco Mundial de 2012 celebra o papel das mulheres no crescimento econômico da América Latina nos anos 2000. Com um crescimento de 15% na participação no Mercado de trabalho, elas contribuíram com 30% da redução da pobreza na região da década (os homens, com 38%). Apesar de mais presentes no mercado de trabalho, a participação das mulheres continua presa nos mesmos guetos de sempre: trabalho doméstico, auxílio em escritórios e postos no setor de serviço. Ainda segundo o relatório, as mulheres brasileiras têm mais horas de estudo para exercer os mesmos cargos de liderança que os seus colegas homens e, claro, ainda sim ganhando menos.

O relatório aponta a falta de autonomia feminina como um dos maiores entraves para o crescimento econômico latino-americano.

E como se mede a falta de autonomia feminina? Os índices gritantes de gravidez na adolescência e violência doméstica são bons indicativos que as mulheres latinas não conseguem fazer o que querem da vida, mesmo que isso seja trabalhar mais pra trazer mais dinheiro pra casa. Para se ter uma ideia, no mundo, “1 em cada 3 mulheres sofrem com violência doméstica. Na América Latina, a estatística é 1 em cada 2 mulheres”.

E como mudar esse quadro? Ainda segundo o Banco, combatendo tudo aquilo que atrapalhe “a habilidade (das mulheres) fazerem suas próprias escolhas e colher seus resultados”. Ou seja, pra crescer é preciso combater a violência doméstica e gravidez indesejada, as principais chagas enfrentadas pelas mulheres latinas.

A ferida cutucada pelo ENEM é mais profunda do que parece. E falar que o tema é “feminazi” ou “doutrinação esquerdista” é de uma preguiça intelectual lamentável. Lutar contra a violência contra a mulher extrapola brigas ideológicas e se calar sobre isso só beneficia o agressor, o bandido que está em casa.

Emancipar a mulher significa conceder a ela o poder de escolha sobre o seu corpo, sobre suas ideais, a sua vida, o seu tempo. Significa dar a mulher o direito de ir e vir na hora que ela quiser, com a roupa que ela quiser, com sua integridade física intacta.

É, amigas. O querido slogan “meu corpo, minhas regras” nunca fez tanto sentido.

A briga pela emancipação feminina é complexa e envolve mexer no privilégio alheio, neste caso, no privilégio masculino. Liberar a mulher da obrigação do trabalho doméstico, por exemplo, significa que agora o “homem da casa” também precisa passar roupa, lavar o banheiro.  Isso significa menos tempo pro futebol, menos tempo pra beber com os amigos, pra ver TV, pra jogar Call of Duty. E isso também significa que gradativamente mais mulheres terão tempo pro futebol, pra beber com os amigos, pra ver TV, e pra jogar Call of Duty (não é à toa que as meninas são odiadas no mundo dos games). Mexer nesses pequenos privilégios incomoda muita gente.

Emancipar uma mulher é uma tarefa complicada numa sociedade como a nossa e começa cedo, lá na base. Começa ao tentar criar uma menina livre, com os mesmos valores e oportunidades dos meninos a sua volta. Ela também pode gostar de matemática e de bichos e de crianças, e de brincar de casinha também, se ela quiser, ou de bombeiro. Ela pode casar tarde ou cedo, ter filhos tarde ou cedo (a vida é cheia de surpresas, vai saber). Ela pode escolher priorizar a vida pessoal ou a profissional.

Mas aí, mais uma vez, pra alguém conquistar um privilégio, alguém precisa ceder. Pra mulher ganhar espaço, o homem precisa ceder espaço. Nessa nova cultura, tem mais (mulheres) concorrentes no vestibular de engenharia, mais (mulheres) concorrentes à promoção no escritório. E é fácil transformar frustração em misoginia, como já vimos milhares de vezes no nosso dia-a-dia.

Se o assunto escandaliza, dá medo, é porque ainda precisamos aprender muito sobre ele. Por isso, é preciso sim falar de autonomia feminina no Brasil.

Gosto de pensar que, quando tomamos um remédio quando doente, a primeira reação do nosso corpo é de expurgo, de revolta, de rejeição ao elixir amargo que depois nos cura. Vamos falar de feminismo sim e vamos ver muito expurgo, muita misoginia, muita piada com assédio, muita violência física e psicológica, muita coisa podre. E depois, muitos anos, décadas, e talvez milênios depois, veremos calmaria, paz.


Arte feita com exclusividade por Sarah Assaf.

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