La vie en rose

La vie en rose | ilustração por Thais Erre

Descobri que estava grávida em dezembro de 2010. Não foi no susto, não me choquei. Já tinha quase 30 anos e morava com meu futuro marido. Minha maior ansiedade era saber o sexo do bebê. Claro que eu queria um filho saudável, era minha prioridade – parei de fumar, de beber, de comer junk food (ok, de comer com frequência).

Mas meu maior medinho era ter uma menina. É, pois é.

Fui e sou aquele ‘tipinho’ de mulher que teve sempre mais amigos homens do que mulheres. Que preferia estar entre homens do que entre mulheres. Desde a juventude eu sentia que minha turma de amigas revolvia muito no que elas sentiam umas pelas outras, tudo era dramático e trabalhoso demais. A própria relação era estranha, amigas tinham ciúmes das outras e isso me irritava, eu me afastava. Talvez eu tenha tido o azar de conhecer poucas meninas legais na vida? Cidade do interior era – e ainda deve ser – difícil.

Eu tinha medo de ter uma filha mulher. Eu tinha medo de não saber lidar com ela, de não conseguir ensiná-la a ser forte.

E eu tenho um irmão que é o irmão mais legal do mundo, juro, ele é o sujeito mais legal que eu conheço no universo desde que eu nasci. E andava o dia todo com ele. Fazíamos as mesmas coisas, nos divertíamos lutando de espada, lendo gibis, ouvindo música, assistindo filmes de terror e ficção científica. Eu era amiga de seus amigos da escola e da vizinhança. Nunca rolava “ah, menina não pode”. Eu podia.

Continuei tendo mais amigos homens na vida adulta, o que causava certa estranheza para namorados/ficantes/bofinhos. Ouvia sempre as perguntas:

“mas você só anda com homem?”
“só tem nome de homem no seu celular?”
“pra que tanto amigo homem, você já deu pra todos eles… ao mesmo tempo?

Aprendi a responder “talvez eu tenha tenha trepado com todos, talvez não. Mas isso não é problema seu”.

Mesmo andando com homens pra cima e pra baixo eu já era extremamente feminista na juventude, estudava o assunto, lia Simone Beauvoir e derivados – aos 15 anos queria entender sobre sexualidade, liberdade sexual feminina – era um tema que me agradava e ainda agrada porque eu gosto muito de ser mulher. Mas eu tinha medo de ter uma filha mulher. Eu tinha medo de não saber lidar com ela, de não conseguir ensiná-la a ser forte.

O dia que descobri o sexo do meu bebê foi esquisito. A maioria dos casais prefere menina – meu obstetra achava engraçado meu medo de ter menina: “Mas 99% das mães que vêm aqui querem menina! Não tenha medo, você vai ter uma menina”.

– “É MENINA?” arregalei os olhos pra telinha do ultra-som
– “MENINÍSSIMA!” ele respondeu.

Ok, minha filha arreganhou bastante as pernas pra mostrar pra mamãe aqui que o destino é assim mesmo.

Como é, pra mim, ser mãe de menina? Me pego medindo palavras o tempo inteiro. Me olho no espelho e digo ao vento: “Aff, tô gorda”. E ela olha pra mim: “Gorda mamãe? Por quê?”. Respondo envergonhada “Nada não filha, a mamãe fala umas bobagens”.

Outro dia eu ia sair e tive que raspar as pernas correndo durante o banho, ela olhou e queria saber porque eu tinha que tirar os pêlos. Eu disse que não gosto de ser peluda mas isso é gosto pessoal, papai é peludo, ele gosta. Nunca digo “mulher não pode ser peluda” apenas digo que ‘eu’ não gosto. Não deixo de ser exemplo pra ela. Nunca. Que responsabilidade enorme é vencer minhas fraquezas pra ensiná-la a ter coragem.

Eu vou errar e vou errar com ela por perto. O importante é saber lidar com isso. Estou aprendendo também. Eu e minha menina estamos juntas nessa bagunça que é aprender a existir.

Entendi que o meu medo em criar uma menina era esse mesmo, de não me ver forte para torná-la forte. Mas isso é bobagem. Basta ensinar que a força é adquirida ao longo da vida, e que como eu, ela vai aprender todos os dias um pouco mais sobre sua independência, liberdade e respeito próprio. E que medo a gente tem, é normal. Não adianta eu de repente virar uma mulher super bem resolvida destemida, sensacional, mãe e profissional – militante ferrenha do poder feminino só pra ela ver. Eu vou errar e vou errar com ela por perto. O importante é saber lidar com isso. Estou aprendendo também. Eu e minha menina estamos juntas nessa bagunça que é aprender a existir.

PS: quando minha filha completou um ano descobri que estava grávida de novo. Dessa vez nasceu menino. E olha, estou criando igualzinho a ela. Amo o fato de ter um homem e uma mulher em casa, crescendo juntos. A ideia é mostrar que mesmo havendo a individualidade de cada um, embaixo do meu teto, somos todos iguais. (Ou quase né: ela já entendeu que o irmão tem um biluzinho e ela tem uma pequeca – ela que nomeou mesmo. Ela adora inventar nomes para as coisas #orgulho)
 
Ilustração exclusiva por Thais Erre Felix

Tags relacionadas
, , ,
Escrito por
Mais de Sarah Bergamasco

Quem manda aqui dentro de mim sou eu

Eu sei que existe padrão de beleza. Ai, eu sei muito bem....
Leia mais
  • Bruno G. Kran

    Acompanho teu twitter tem um tempo e gosto muito e esse teu texto de estréia aqui no ovelhamag foi muito bom, chega de criar filhos meninos e meninas como se fossem duas entidades totalmente opostas, essa molecadinha que cresce junta se tratando como iguais é que vai fazer uma diferença grande nessa nossa sociedade zoada. Parabéns.