Gamer como você

Faz quase três anos que isso aconteceu. Por nostalgia pura, publiquei no meu Facebook uma imagem de Crash Bandicoot. Um conhecido meu – daqueles que você adiciona por educação, mas nunca conversa de verdade, sabe? – me enviou a seguinte mensagem:

“Vim te incomodar para dizer isso. Você sendo menina nunca poderá me vencer nesse jogo.”

Quando fui convidada a escrever este texto, tentei me lembrar da primeira experiência que tive com um videogame. A maioria delas remonta à casa dos meus vizinhos, Rafa e Jéssica, onde eu e o João, meu irmão mais novo, passávamos tardes brincando de Power Rangers e jogando. Dois meninos e duas meninas. Nunca pensei que houvesse alguma diferença entre nós.

Meus pais nunca impuseram padrões de gênero muito fortes. Eu tinha uma ou outra Barbie, mas elas moravam com um boneco sensacional do Garurumon, meu Digimon favorito. Na hora da brincadeira, todos se misturavam aos Legos e trenzinhos do João. Aprendemos juntos que o Sued, um game bobinho que prometia ler sua mente, podia ser programado para responder o que quiséssemos. Decoramos a capital de dezenas de países procurando a Carmen Sandiego e morremos centenas de vezes fazendo Simba pular entre girafas e hipopótamos no jogo do Rei Leão.

Ser mulher faz com que algumas das lembranças mais valiosas da minha infância sejam inválidas? Se eu jogava os mesmos games pela mesma quantidade de tempo que meu irmão e meu vizinho, sou automaticamente pior que eles por causa do meu gênero?

Não tínhamos dinheiro para comprar um videogame. Era o fim dos anos 90 e o PlayStation estava prestes a dar lugar a seu sucessor, o PlayStation 2. Mesmo assim, o dia em que nos emprestaram um Master System usado foi um dos mais felizes daquela época. Passei horas jogando a versão 8-bit de Sonic the Hedgehog. Não fazia ideia de que ela era inferior à de Mega Drive, só sabia que aquilo era a coisa mais divertida que alguém já tinha feito. Aprendemos mais tarde a usar um emulador de Super Nintendo e nos viciamos em Donkey Kong Country.

Em 2001, a situação financeira ficou mais confortável e meus pais decidiram dar o presente de aniversário que eu pedia há tempos: um Game Boy Advance. Eu passei um mês olhando para o catálogo da Blockbuster, com respiração ofegante, escolhendo a cor que meus pais comprariam. Não tínhamos dinheiro para adquirir os jogos, apenas alugá-los, mas nada disso importava. Seria meu primeiro console novo em folha, um portátil de última geração. Tenho meu GBA (na cor Indigo Blue, se quiser saber) até hoje.

Foi na casa do Rafa que descobri uma minhas franquias favoritas: Crash Bandicoot, do PS1. Dia após dia, nos reuníamos para jogar PS1 na casa do Rafa. Conhecíamos cada estágio, cada bônus, cada cristal escondido. Ninguém batia meu recorde de tempo nas fases em que Coco Bandicoot, única mulher do game, montava um tigre pela Muralha da China, saltando sobre dragões e buracos imensos. Jogávamos à exaustão todos os games da franquia e até hoje nos reunimos de vez em quando para uma partida de Crash Team Racing. É uma cópia de Mario Kart, mas não deixa de ser um dos meus títulos do coração.

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Por isso não consigo esquecer a mensagem que recebi pelo Facebook. Ser mulher faz com que algumas das lembranças mais valiosas da minha infância sejam inválidas? Se eu jogava os mesmos games pela mesma quantidade de tempo que meu irmão e meu vizinho, sou automaticamente pior que eles por causa do meu gênero? Dizer que eu não tenho o mesmo valor que um gamer do sexo masculino é negar que todas as histórias acima existiram.

 
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Eu não me importava com a representatividade das mulheres no mercado de games até alguns anos atrás, quando passei a trabalhar com o assunto. Percebi que poucos dos jogos que tanto amava eram protagonizados por garotas como eu. Em um estudo que analisou 669 jogos lançados nos últimos sete anos, menos de 300 deles permitiam jogar como mulher. Se o critério fosse ter uma protagonista do sexo feminino, o número caía para 24.

As personagens femininas, em sua maioria, não têm personalidade ou originalidade. Eu tenho minha própria personalidade. Sou um ser humano com qualidades, defeitos e fraquezas, assim como toda mulher.

Quando os jogos falam de mulheres, geralmente as colocam como donzelas em perigo ou, em casos menos piores, gostosas que agem de maneira idêntica a um herói masculino de ação – nada muda além dos atributos físicos. As personagens femininas, em sua maioria, não têm personalidade ou originalidade. Eu tenho minha própria personalidade. Sou um ser humano com qualidades, defeitos e fraquezas, assim como toda mulher. Mas a indústria de games ainda pensa que seu público-alvo é masculino (embora isso não seja mais tão verdadeiro assim) e insiste em nos deixar de lado.

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Felizmente, parece haver um movimento positivo na indústria de games. Alguns dos maiores lançamentos do ano passado eram protagonizados por mulheres ou, pelo menos, apresentavam personagens femininas com profundidade. Tomb Raider, The Last of Us, BioShock Infinite. Entre os indies, tivemos Gone Home, que conta de forma delicada uma história de amor.

Nada me empolgou tanto no começo de 2014 como jogar o DLC Left Behind, de The Last of Us. Nele, eu pude fazer Ellie, a protagonista, se esconder de bandidos e infectados, atacando-os por trás. Podia atirar flechas ou atacar com facas, procurar mantimentos e bilhetes esquecidos pelo cenário. Mas também podia explorar seu passado e a relação com a valentona Riley. Enquanto as duas conversavam pelas ruínas de um shopping abandonado, eu assistia a tudo com um sorriso no rosto. Se até em filmes é difícil encontrar bons exemplos de superação do teste Bechdel, achar um game com diálogos tão profundos entre mulheres é como encontrar ouro no armário da cozinha.

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Ellie e Riley me trouxeram a esperança de um futuro melhor. Elas mostraram que eu posso, sim, ser retratada como um ser humano. Que a história de uma mulher como eu pode ser tão interessante quanto a de um homem. Que é possível ser uma boa guerreira sem deixar de lado seus sentimentos. Eu sei que muitos games misóginos ainda virão, mas pelo menos 2013 deixou alguns exemplos positivos.

Essa esperança é o que me faz continuar como uma fã de videogames. Eu sei que, cedo ou tarde, personagens femininas não serão exceção nos lançamentos. A ideia de que garotas não jogam também cairá por terra. Quando isso acontecer, não acharão esquisito que eu entenda de games, menos ainda que eu trabalhe resenhando jogos. Ninguém vai pensar que eu estou tentando chamar atenção ou me sentir especial por jogar, que eu sou uma poser, que eu apenas finjo gostar do tema.

Antes disso, eu ainda quero jogar uma partida de Crash Team Racing com o cara que me mandou a mensagem pelo Facebook. E sinceramente não sei se vou ganhar ou perder. Porque não sou melhor ou pior por ser mulher. Sou um ser humano como você. Sou uma gamer como você.

 
(ilustração por: Thais Erre Felix)
 

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  • Cacau Birdmad

    Preciso dizer, me emocionei lendo o texto. Me identifico muito. A vida toda passei jogando videogame com as vizinhas, primas. A grande maioria tinha seus próprios consoles, ou ia com a gente no fliperama algumas ruas de distância. Era uma atividade completamente desprovida de gênero pra mim, especialmente porque eu tinha poucos amigos meninos, então tudo que se fazia era de menina – e ser menina era apenas ser. Fui crescendo e percebendo que muita gente via essa atividade – que todas as minhas amigas praticavam, sem exceção – como uma coisa rara.
    Minha história de vida inteira, aparentemente, era exceções. Eu e a Nina montávamos computador com nosso pai, eu e ele começamos a montar um robô (mas faltavam peças e morar no interior complicou as coisas), eu queria ser programadora… – mas isso não era coisa de “mulher”. Fui percebendo o quanto meus comentários sobre videogame eram vistos como uma forma de “chamar atenção”, como algo falso, como sempre assumiam que eu não sabia jogar ou que estava fazendo…. ao ponto de que muitas vezes, quando um cara desconhecido comentava curtir videogame, eu fingi que não gostava, que não sabia do que ele está falando… só pra não viver as mesmas coisas de novo sabe?
    Por isso me identifiquei muito com o texto. – E, claro, eu e a Nina amávamos Crash também! Nossa, só de ver a imagem da Coco no tigre já me vieram todos os sons da fase na cabeça… saudade!

  • Anna Crô

    Last of Us: Melhor. Jogo. Chorei. Ponto. Na época do DLC eu tava sem video game e assisti um gameplay no You Tube. Sou dessas. Foi como ver um filme. Lindo!

  • Matheus Goularte

    Olha, devo dizer que quando eu descobri que a Samus era na verdade mulher no final do primeiro Metroid, minha cabeça de menino infurnado no quarto por horas explodiu. E tenho que admitir que nunca vi muita utilidade nos personagens masculinos de Donkey Kong 2 e 3, visto que a Dixie era praticamente mil vezes melhor do que o Didi e o Kid Kong com a sua habilidade de “planar” haha. Recentemente fiquei até meio emocionado com o fim de Transistor, jogo da qual a personagem principal é mulher, (não, ela não é masculinizada, inclusive tem até um romance na história) justamente por mostrar que uma protagonista pode sim ter sentimentos. Infelizmente nunca tive muitas amigas gamers na minha infância, e por causa disso eu também tinha essa mentalidade de que “meninas não são pra videogame”. Ainda bem que o tempo passa e as pessoas mudam, hoje, tudo o que eu quero é uma namorada que jogue Dark Souls comigo.

  • Daniel Corrêa

    A história do seu texto é muito bonita e refletiva, pois mostra uma fase que praticamente todos nós que somos jogadores tivemos, e, ainda, mostra suas dúvidas perante a afirmação preconceituosa do seu conhecido. Felizmente, as pessoas crescem e evoluem e, as personagens mulheres estão crescendo violentamente, se comparada à 10 anos atrás. Como você citou, a Ellie e a Riley são incríveis. Assim como o Joel tem suas qualidades e demônios, o jogo retrata a Ellie com equivalentes problemas, sem a colocar no pedestal ou estigmatiza-la. Há também Lara Croft que sofreu uma evolução ao longo do tempo e finalmente perdeu seu título de “sex simbol”, que creio eu ser uma coisa boa (rs). Temos Clementine (minha favorita de todos os tempos) de The Walking Dead da Telltale, que, mesmo sendo criança, derruba todos os esteriótipos possíveis em um protagonista e por aí vai. Entre quem joga também vemos os crescimentos das players casuais e das competidoras em torneios de MMO, MOBA e FPS, coisa que há 10 anos atrás tínhamos muito pouco. Ainda há muito coisa à se fazer, mas o importante é que o valor de alguém não seja suposto por seu gênero. Bela matéria, Miriam.

  • Eu sei que é extremamente comum, mas queria saber onde essas pessoas vivem ou foram criadas. Passei minha infância e adolescência rodeada de meninos, sempre brincamos e brigamos tanto na rua quanto nos videogames, e pra gente todo mundo era igual. Eu era igual a eles, apanhava igual, ganhava igual, perdia igual era melhor ou pior em um jogo assim como qualquer um dali. Que tipo de trauma ou problema acontece com essas pessoas para elas acharem que gênero define qualidades ou defeitos?

    • Hey Tayná! Realmente. Quando eu era criança, muitos amiguinhos não faziam distinção de gênero na hora de me chamar pra jogar videogame. Às vezes até rolava um comentário sexista ou outro, mas que muitas vezes eu deixava quieto, por achar que era uma provocação “inofensiva” – e tinha vezes que eu nem percebia, de tão comum que era. Mas eu lembro bem quando comecei a jogar online (Ragnarok e Gunbound), da hostilidade dos jogadores do sexo masculino comigo. Se eu ganhava uma batalha, chegavam a me ameaçar de estupro, xingar minha mãe e o fato de eu ser mulher. Você já jogou online? Quando os caras não te conhecem e estão por trás de um avatar, do anonimato, surgem monstros.

      • QUE DOIDEIRA!! Eu cheguei a jogar Ragnarok, bem pouco, minha irmã jogou bem mais, e nunca tive nenhum problema, fiz alguns amigos e tals, mas parei porque eu realmente não curtia muito interagir com as pessoas. Até fins alguns amigos, mas nada demais e nenhum ataque (e só jogo de personagem feminino, não importa onde). Minha irmã que jogou por mais tempo, tem os amigos do ragnarok até hoje, e acho que ela que hostilizava e sodomizava as pessoas ao redor. O mais grave que cheguei a ver por lá foi o meu irmão tinha uma personagem feminina que ele usava para ganhar itens, e depois os vendia ou já ganhava direto para o personagem masculino dele. Mas eu sempre vi isso como prostituição, o que nunca foi problema. Eu posso simplesmente não ter reparado, mas fora quando tinha algum moleque novo na galera da rua, e que não sabia com quem estava lidando, não passei por nada disso. Só tive problemas quando descobriam que eu era lésbica e aí começavam as perguntas imbecis.