Filme tarado: Jovem Aloucada

O filme conta a história de uma adolescente que, apesar de sua família religiosa, tem um blog de confissões sexuais. Baseado em fatos reais.

Em um dia de tédio sozinha em casa, resolvi ligar o Netflix na TV da sala em busca por algum filme que pudesse trazer qualquer entretenimento. De repente me deparo com um filme com esta sinopse:

Apesar de sua família religiosa a julgar devota e dócil, a jovem Daniela tem um blog de confissões sexuais para adolescentes com desejos como o dela.

Um filme independente chileno sobre adolescência, sexo e crítica religiosa? Prato cheio. Se fosse sob a perspectiva de um garoto, confesso que rolaria os olhos e passaria para a próxima opção. Mas o fato de tratar-se sobre os selvagens desejos sexuais de uma jovem mulher me deixou extremamente curiosa e animada pelo que os 94 minutos teriam a contar. Play.

 

HISTÓRIA

Vamos agora um pouco além da sinopse do Netflix: Daniela (Alicia Rodriguez) é uma adolescente de 17 anos que teve uma rígida criação por sua família evangélica. Como resultado de tamanha repressão, sua frustração se revela num crescente desejo e curiosidade sexual (até aí, algo típico da idade) que resulta em aventuras sexuais narradas em um blog, bastante acessado e comentado por amigos e desconhecidos. Porém, quando uma dessas aventuras é descoberta pela diretoria do colégio onde estuda, Daniela é expulsa e ainda é proibida pela família de prestar o vestibular. Sua mãe (Aline Kuppenheim), uma crente fervorosa, está decidida a enviá-la numa missão missionária. Mas sua tia Isabel (Ingrid Isensee), um personagem que mostra o lado mais humano e leve da fé, a convence do contrário. Ainda assim, a mãe impõe que a menina trabalhe em uma emissora gospel. Lá ela conhece Antônia (Maria Gracia Omegna) e Tomás (Felipe Pinto), ficando claro que suas intenções vão muito além da amizade. A relação com ambos gera questionamentos existenciais sobre seus desejos, sua família e a sociedade. Até mesmo sua relação com Jesus, reminiscência da sua fé evangélica.

 

VISUAL

Eu, sendo designer por formação, óbviamente fiquei babando nos gráficos e efeitos visuais usados no filme, tanto nos momentos em que Daniela conta suas histórias como as entradas e comentários do seu blog. Que escolha de cores! E as animações? Geniais. A equipe que fez a direção de arte tá de parabéns. Conseguiram inserir os elementos digitais da história de modo louvável (ô glória). Dá pra se ter uma ideia desse visu todo nos créditos de encerramento do filme, olha só que belezinha:

Ah, se você também babou como eu e tá afim de saber mais sobre a direção de arte desse filme, o blog Art Of The Title fez um post dedicado a isso. Dá uma olhadinha.

 

TRILHA

A trilha-sonora é, como posso dizer, “xóvem”. Sabe o electropop da Yelle? Põe esses sintetizadores todos com letras em espanhol. Bueníssimo. Escutei as músicas por alguns dias depois de ver o filme e me deu saudades da Argentina, quando em 2011 fui num show em Buenos Aires e assisti aos meninos do El Hipnotizador Romantico e a linda Eugênia e sua banda Brusa y los Bombones de Murano. Tá, o estilo não tem nada a ver, mas deu saudade, gente. Mas isso porque ainda não conheço o Chile, onde o filme acontece. Bom, voltando ao electropop de Jovem e Aloucada, dá pra ouvir a trilha todinha no Soundcloud, yay!

 

BASTIDORES

O filme ainda é baseado no blog de mesmo nome, escrito pela verdadeira Daniela Ramírez. Sim, gente, a Danielita existe de verdade. A temática safada do filme não agrada os mais conservadores (mais um motivo para assistir). Além da história, dos gráficos impecáveis e da trilha, a direção é incrível. Isso porque Joven y Alocada é o primeiro longa-metragem de Marialy Rivas, uma diretora chilena que gosta de trabalhar temas como sexo, religião e juventude. O filme conquistou importantes prêmios internacionais, como o Queer Lisboa (melhor atuação feminina para Alicia Rodríguez), San Sebastián (melhor filme homossexual), Festival Latinoamericano de Toulouse (escolha do público) e Sundance (melhor roteiro de drama). O que você está esperando, garota? Vai assistir, vai.

Mais de Nina Grando

O gótico é negro

Vamos celebrar o dia de hoje! Não, não porque é feriado, tolinha. Hoje, 20 de novembro, é dia da consciência negra. Um dia para festejar a cultura, raízes e características afro-descendentes. Mas também é um dia para tomar consciência sobre os males sociais enfrentados por conta do racismo (e, por favor, se você ainda é contra cotas e acredita em racismo reverso, pode fechar este site, okay?).

A discriminação contra o negro precisa ser falada e combatida. Por isso que o nome do feriado fala de consciência. E já que estamos abordando sobre uma minoria, que é a maioria desprovida de respeito e privilégios ao redor do mundo, quero fechar o cerco mais ainda. Vou somar e falar da mulher negra. Mais ainda: vou falar das negras dentro da subcultura gótica.

O motivo é que eu acredito que esta é uma boa maneira de exemplificar como o negro pode e deve fazer parte em um contexto que muitos pensam ser um privilégio exclusivamente branco. Para isso, conversei com a Luana Carvalho, conhecida na cena como Moon. Ela criou a fanpage Góticos Afrodescendentes, com o intuito de dar visibilidade aos negros dentro da subcultura e, assim, oferecer um ponto de representatividade e diálogo na comunidade. A página, aliás, usa como referência a rainha vampira Akasha, que foi interpretada pela belíssima Aaliyah (r.i.p.) no filme “Rainha dos Condenados” (2002).

Ovelha: Moon, o que é a subcultura gótica?

Moon: A subcultura gótica é uma “tribo urbana” que teve seu início no país nos anos 80 (saudosos anos 80), inicialmente chamados de dark e hoje como góticos mesmo.

É uma filosofia de vida onde estilo musical e vestimenta são bem marcantes. Muita gente acha que abrange religião também, mas não – como foi originária do movimento pós punk, a cena nem se quer levanta qualquer ponto de discussão sobre religião (não, não adoramos ao diabo). Também temos uma boa carga de gosto pela filosofia, literatura e artes em geral. Hoje em dia temos várias vertentes dentro do movimento: gótico clássico, vitoriano, darkwave, cyber, deathrock, etc.

Ovelha: Em que momento você descobriu e se apaixonou pelo gótico?

Moon: Eu sempre sou fisgada pela música. Foi ainda criança que o Sisters of Mercy (vídeo acima) me encantou e, como uma coisa puxa a outra, me apaixonei loucamente pela subcultura gótica.

Ovelha: Por que você decidiu criar a página?

Moon: Toda a referência visual do gótico é importada da Europa, onde a grande maioria das pessoas é branca. Sendo assim, o gótico de tom de pele diferente sofre com o choque de referência (consigo mesmo e perante os demais do mesmo círculo). Quando criei a página há quase 3 anos, não havia a menor referência de como eram os visuais góticos elaborados e combinados com nossa pele negra. Maquiagem então… A primeira coisa que se via nos tutoriais era a moça passando pancake branco no rosto, o que para meu gosto fica uma máscara totalmente fora do aceitável para peles escuras. Claro que se observava claramente essa tentativa de ficar pelo menos parecido com o esteriótipo da referência. Por isso mesmo que criei a fanpage. Queria quebrar esse tabu de que gótico tem que ser branco e, de quebra, acostumar os olhos de todos à beleza do gótico afro, dando inúmeras referências a nós que temos um tom de pele diferente do branco.

Ovelha: Você já sofreu preconceito de membros da subcultura por ser negra?

Moon: E quem não? De tempos em tempos estamos denunciando manifestações de preconceito contra nós e comigo não aconteceu diferente.

Ovelha: E nas ruas, na família: você já sofreu preconceitos por ser gótica?

Moon: Existe preconceito e existe ignorância. O ser humano tem medo de tudo que não conhece. Quando você está pronta, com aquele visual super bem montado, você entra na condução e todos olham para você. Ninguém senta ao seu lado, ninguém quer ficar perto. Crianças acham que você é bruxa e por aí vai. Eu já me divirto com isso.

Ovelha: O Brasil é um país tropical, cuja maioria dos habitantes gosta de sol e praia – além viver torcendo o nariz sobre a aparência dos outros. Como a subcultura gótica é vista no país?

Moon: Volto a questão da referência Européia. Lá o clima é frio e por isso se usa vestimenta pesada. Aqui precisamos adaptar os visuais para o clima tropical, sobretudo no calor. Por isso que quando uma pessoa passa vestindo roupas pesadas num calor de 40 graus, todos vão estranhar. Até eu.

Ovelha: Obrigada pelo papo, Moon! Gostaria de dar algum conselho para outras mulheres negras que desejem abraçar subculturas (punk, decora, lolita, gótico, etc)?

Moon: Nada te impede de gostar e adotar certos elementos da vestimenta em seu guarda-roupa. O que importa é você ser autêntica e original. Não ligue para a opinião dos outros. Vai lá e seja feliz.

 
(imagens retiradas da fanpage Góticos Afrodescendentes)

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