Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.
Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero. Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?
JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.
Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.
Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham. Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.
O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?
J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.
Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.
Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.
O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?
J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.
O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?
J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.
Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.
O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?
J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.
O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?
J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.
Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.
Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero. Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?
JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.
Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.
Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham. Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.
O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?
J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.
Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.
Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.
O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?
J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.
O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?
J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.
Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.
O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?
J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.
O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?
J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.
Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.
Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero. Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?
JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.
Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.
Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham. Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.
O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?
J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.
Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.
Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.
O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?
J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.
O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?
J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.
Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.
O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?
J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.
O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?
J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.
O filme “A Girl Like Her” (sem título traduzido no Brasil) foi mais uma das boas surpresas no Netflix de sexta-feira à noite. Gravado como se fosse um documentário em uma escola de Ensino Médio americana, o longa de ficção nos faz encarar os diferentes lados do bullying: o da vítima, o da pessoa que o comete e os das pessoas do lado de fora (parentes, amigos, colegas que não sabem o que fazer pra ajudar).
Por tratar os pontos de vista – principalmente o da vítima e do agressor – como um documentário, o filme ganha uma força dramática, daquelas que te deixa tensa e até meio que ansiosa pela protagonista. Pelo menos eu fiquei.
As personagens principais são Jessica Burns, interpretada pela atriz Lexi Ainsworth, e Avery Keller, papel da atriz Hunter King. Elas têm 16 anos e são alunas da South Brookdale High. Pode-se dizer que, mesmo assim, as duas não frequentam exatamente a mesma escola.
Avery é a garota popular que, com seu grupo de amigas – seu “squad” – estabelece sua dominância pelo colégio. Quando o grupo está no banheiro se maquiando, por exemplo, ninguém mais pode entrar. Aquele é seu território, assim como a cafeteria e os corredores da escola. Jessica é o contrário: doce, tímida, de poucos amigos. Ela não domina nenhum território como as popular girls e aos poucos nem mesmo mais a si mesma – muito porque Avery não a deixa em paz.
No início do filme, Jessica caminha do quarto até o banheiro de sua casa. Tudo é filmado de sua perspectiva por uma câmera escondida, que foi dada pelo seu melhor amigo Brian (Jimmy Bennett) para gravar os assédios de Avery (isso fica claro mais tarde no filme). Jessica se olha no espelho, abre a porta do armário e pega os comprimidos da mãe. Engole todos que pode e cai inconsciente no chão.
A tentativa de suicídio de Jessica Burns vira assunto pelas salas de aula da South Brookdale High. O acontecimento coincide com a chegada de um grupo de jornalistas que iria fazer uma reportagem sobre o cotidiano em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. A jornalista Amy (interpretada pela própria diretora do longa, Amy S. Weber) muda a direção da matéria e se foca em entender as motivações de Jessica. Os rumores entre os adolescentes sobre os bullyings contra Jessica a levam até Avery.
Uma pequena observação que fiz e que considero ser um problema em muitos desses casos: todo mundo sabia que Jessica estava sofrendo nas mãos da garota popular, mas ninguém quis se meter. Alguns não levaram a sério, outros talvez tivessem medo, mas ninguém hesitou em passar a fofoca adiante. Isso é o mesmo que acontece em casos de violência doméstica testemunhada por vizinhos ou abusos sexuais gravados e passados adiante. É toda uma sociedade mais baseada no comentar a vida alheia do que em ajudar…
No que me pareceu uma tentativa de ganhar a confiança de Avery, a jornalista lhe oferece uma câmera. Com ela, a adolescente poderia mostrar seu ponto de vista de como era ser a garota mais popular da escola. Avery usa a câmera para falar não só da sua vida no colégio, mas dentro de casa – com sua mãe super intrometida e o pai desempregado.
Enquanto isso, Brian conta aos jornalistas que seis meses antes da tentativa de suicídio de Jessica ele lhe havia dado uma mini câmera. Com isso, talvez Jessica pudesse se proteger e provar que Avery era a causa de seu inferno em vida. O que segue depois desse momento é um turbilhão dos mais diferentes tipos de assédios verbais e psicológicos feitos por Avery a Jessica. Algo que realmente te faz pensar: essa garota tem mais problemas que a própria vítima. Não é possível que alguém seja capaz disso!
Pois bem, se não fosse, talvez “A Girl Like Her” não existisse. A diretora Amy S. Weber se inspirou em suas próprias experiências para fazer o filme. Experiência como vítima e como praticante do bullying. Em uma entrevista, ela conta que aos seis anos sofria bullying de um menino da escola. Quando mudou de colégio, ela criou um escudo de proteção como sendo a “valentona”, aquela que encarava e brigava com todo mundo, aquela de quem se tinha medo.
Com essa história e com seu filme, Amy quer mostrar que bullies não são maus sem motivos. Ao humanizar o monstro, por assim dizer, ela joga lenha na discussão para dizer que quem comete bullying talvez seja uma pessoa tão ou mais traumatizada que a vítima. Portanto, ambas devem ser tratadas, acompanhadas e auxiliadas.
Além de uma inspiração pessoal da diretora, outro fato interessante do longa é que os diálogos entre os atores teens foram todos improvisados. Também as entrevistas que aparecem no filme – como se fossem parte do documentário dos jornalistas – foram feitas com estudantes reais, e não atores. Amy queria atingir essa proximidade com o real, que um simples filme ficcional, muitas vezes, não consegue. Em um tema como bullying entre adolescentes, é a realidade o que mais importa.
Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.
Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero. Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?
JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.
Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.
Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham. Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.
O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?
J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.
Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.
Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.
O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?
J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.
O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?
J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.
Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.
O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?
J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.
O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?
J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.