O fim do Vine e os problemas do Twitter

O Twitter anunciou que vai fechar o Vine. Essa é uma das principais medidas que a empresa tomou para diminuir gastos e atrair compradores. No entanto, boa parte dos usuários da ~ melhor rede social ~ acredita que uma das razões para a crise do Twitter é o fato da rede não tomar medidas para controlar os discursos de ódio e o assédio que rola solto no site.

A história que o passarinho azul tem com trolls, machistas, racistas, estupradores, e xenofóbicos já é bem longa. Milhares de mulheres sofrem ou já sofreram assédio no site. Um dos casos mais famosos foi o Gamergate, um estardalhaço virtual onde dezenas de desenvolvedoras de games, jornalistas e pesquisadoras feministas foram
atacadas durante MESES, chegando a receber ameaças de estupro e morte. Só em 2016 a atriz Leslie Jones, de Ghostbusters, e a roteirista da HQ Mockingbird, Chelsea Cain, saíram do site por causa dos ataques e ofensas misóginas e racistas que receberam durante dias.

[caption id="attachment_12036" align="alignright" width="183"]Capa de Mockingbird Capa de Mockingbird[/caption]

Essa semana o Twitter perdeu três grandes possíveis compradores. Dois deles inclusive disseram que o problema dos trolls e do assédio influenciaram na desistência da compra.

Lógico que o Vine tinha problemas também, não dava lucro e não atraía publicidade, então o fim do aplicativo não é algo inesperado. Mas, justo nesse momento que o Twitter está tentando construir uma identidade mais atraente para o mercado, soa um pouco estranho que a empresa decida acabar com um serviço que não era ligado a imagem tóxica da rede social. Sem falar que o Vine produz muito conteúdo viral e de ótima qualidade, filmes de 6 segundos com uma criatividade assustadora. Conteúdo que é criado, em grande parte, por pessoas não brancas.

Sei que querem agradar aos investidores, mas essa decisão reflete algo bizarro sobre as prioridades deles. A resposta do Twitter para a reclamação de que o ninho de ódio que circula no site custa milhões de dólares em prejuízo para a empresa foi fechar um serviço e demitir pessoal. E a questão do assédio? E o ataques racistas e misóginos? Esse elefante branco no meio da sala que parecem ignorar.

O ex-CEO do Twitter, Dick Costolo, disse que a empresa não sabe lidar com todos os “indesejados” que usam a rede social. Porém, o passarinho azul não viu problema ao retirar material que infringisse os direitos de transmissão durante as Olímpiadas do Rio, como GIFs, graças ao pedido do COI.

Resumindo, o Twitter está mandando a mensagem de que prefere acabar com uma plataforma usada por uma comunidade vibrante de artistas do que lidar com o grupo de racistas, homofóbicos, estupradores e terroristas que andam livres pela sua rede social. Os esforços da empresa estão voltados para as relações comerciais, e esquecem o principal: as pessoas que usam o site.

Vai mesmo sacrificar o futuro da empresa defendendo lixo misógino e racista, Twitter?

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Mais de Patrícia Machado

As diretoras que vão salvar os animes

Tem gente que gosta de dizer que os desenhos japoneses não são mais como antigamente, que não se faz mais nada de bom e etc. Na verdade, nunca existiu época melhor para ser fã de animação japonesa. Mais animes estão sendo lançados do que nunca antes, criando oportunidades para experimentar e inovar.

Nesse contexto, como ficam as mulheres? Já sabemos que elas são um público consumidor muito forte no território japonês, e são capazes de salvar franquias inteiras. Mas e as que trabalham com animes?

A indústria da animação japonesa, assim como maior parte do mercado de trabalho japonês, é dominado por homens. Mesmo que tenham existido mulheres trabalhando com animes desde os anos 50/60 como Reiko Okuyama — em obras como O Túmulo dos Vagalumes e Mazinger Z — Nakamura KazukoPrincesa e o Cavaleiro (Ribon no Kishi) e Hakujaden, o primeiro desenho animado colorido do Japão–, são poucas as que estiveram em cargos de chefia criativa, como direção e roteiro.

Chegamos ao absurdo de, durante uma entrevista ao The Guardian, o ex-produtor do estúdio Ghibli — conhecido por filmes como “Meu Amigo Totoro” (1988) e “A Viagem de Chihiro”(2001) –, Yoshiaki Nishimura, afirmar que mulheres não poderiam dirigir filmes dependendo do tipo de história. “Mulheres tendem a ser mais realistas e lidam melhor com o cotidiano. Homens, por outro lado, tendem a ser mais idealistas – e filmes de fantasia precisam de uma abordagem idealista. Eu não acho que é apenas coincidência que homens sejam escolhidos”. Após críticas, ele desculpou-se publicamente.

Sabe, eu também não acho que seja apenas coincidência que os escolhidos para cargos de chefia sejam quase sempre homens.

No entanto, com o surgimento uma nova geração de artistas, várias mulheres entraram na indústria e criaram alguns dos animes mais interessantes dos últimos tempos. Inclusive temos várias delas dirigindo séries que estão saindo agora no Japão. São diretoras que devem ficar no radar de qualquer fã de animação. Vamos falar de algumas delas ;)

 

Sayo Yamamoto

Apesar de ter dirigido poucos animes, ela já conseguiu deixar sua marca, produzindo séries para o público feminino adulto. A sua estreia como diretora foi Michiko to Hatchin (2008), uma história sobre uma dupla de mulheres – a fugitiva Michiko e a órfã Hatchin – em uma viagem por um Brasil fictício para encontrar um homem misterioso. Detalhe que quase todo o núcleo de personagens principais são negras, algo muito raro quando se trata de animes.

O seu segundo trabalho foi Lupin III – The Woman Called Fujiko Mine (2012), uma releitura feminista sobre a Femme Fatale de uma das franquias de animação mais consagradas do Japão. O papel da mulher na sociedade e seus dilemas são tema comum nas suas obras, combinado a um estilo de direção que transborda elementos pop, com um erotismo que não costuma se ver na televisão.

Yamamoto já trabalhou com storyboard, design, roteiro e dirigiu aberturas e episódios de animes de peso como Samurai Champloo, Psycho Pass e Space☆Dandy. Com um currículo de causar inveja, suas participações vão de Death Note, a Attack on Titan até o filme Evangelion: 2.0 You Can (Not) Advance.

Segundo a própria diretora, suas especialidades são erótica e comédia. Dois elementos que são a alma do seu trabalho atual: o belíssimo Yuri!!! On Ice. Um anime sobre patinação no gelo que já é considerado um dos melhores de 2016. Recomendadíssimo.

 

Rie Matsumoto

Uma mulher ser diretora de três animes antes dos trinta anos de idade já é um feito impressionante por si só. O primeiro trabalho de direção foi o filme de Heartcatch Precure!, de uma das maiores franquias de garotas mágicas do Japão, quando tinha apenas 25 anos. Em 2011, dirigiu e escreveu Kyousougiga, hoje um cult, onde ela apresentou pela primeira vez seu estilo de direção vibrante e altamente estilizado. Em 2015, Matsumoto foi responsável pela adaptação de Kekkai Sensen, que foi um sucesso de público.

Eu sou fã da maneira como ela conduz histórias que são, acima de tudo, incrivelmente divertidas. Se você não tem medo de ver algo diferente, os trabalhos dela são a indicação perfeita. Kekkai Sensen, inclusive, é um dos meus animes favoritos de todos os tempos.

 

Naoko Yamada

Uma das mais novas do estúdio Kyoto Animation, mas que já tem no currículo a direção de um dos animes mais influentes do século: K-ON!. Junto com Tamako Love Story, Yamada consagrou-se como uma diretora que consegue captar a beleza do cotidiano como poucos, além de uma atenção ao detalhe que impressiona.

 

Mitsue Yamazaki

Diretora recém chegada, seu primeiro trabalho foi Hakkenden, em 2013. Porém, começou a chamar atenção com a adaptação da comédia romântica Gekkan Shoujo Nozaki-kun, um dos animes mais engraçados de 2014. Além disso, trabalhou no aclamado Mawaru Penguindrum.

Atualmente é diretora do clichê, mas belíssimo, Magic-kyun! Renaissance.

 

Soubi Yamamoto

Destaque no campo da produção independente, Soubi Yamamoto produziu quase que sozinha todos os seus animes. Suas histórias têm grande influência do gênero Boys Love, os romances homossexuais masculinos, e usam uma mistura curiosa entre texto e imagem. Meu favorito dela é Kono Danshi, Ningyo Hiroimashita que é sobre um garoto que se apaixona por um ‘sereio’. Seu mais recente trabalho foi a minissérie de quatro episódios Kono Danshi, Mahou ga Oshigoto Desu, que conta um romance com um mágico workholic.

 

Atsuko Ishizuka

A história dela é um caso incomum, porque Atsuko não via animes quando era criança e hoje é uma das diretoras mais respeitadas da indústria. Ela planejava entrar no ramo da música, mas um curta metragem chamou a atenção do estúdio Madhouse. Desde então ela já trabalhou como diretora assistente em Nana, dirigiu Hanayamata, Chihayafuru, e No Game No Life. O seu trabalho mais recente como diretora foi a adaptação de Prince of Stride: Alternative (2016).

 

Noriko Takao

Mais uma que também começou a carreira na Kyoto Animation, fazendo cenas para Inuyasha, Clannad, Suzumiya Haruhi no Yuutsu, entre outros. Sua estreia como diretora foi o divertidíssimo Saint☆Oniisan, que conta o dia a dia de Jesus e Budda morando em um apartamento em Tóquio. O anime mais recente que dirigiu foi a segunda temporada de The iDOLM@STER Cinderella Girls.

 

Kotomi Deai

Gosto de falar que essa diretora ainda vai criar um anime que eu vou amar. Ela estreou como diretora com a segunda temporada de Gin no Saji, e antes disso animou episódios de Michiko to Hatchin, Kimi ni Todoke e Tonari no Kaibutsu-kun. O primeiro anime original do qual foi responsável foi Rolling☆Girls, que é lindamente animado com sequências de luta de tirar o fôlego, mas uma confusão em termos de roteiro. Mal posso esperar pelo dia que ela terá total liberdade criativa de novo.

Atualmente está dirigindo a quinta temporada de Natsume Yuujinchou Go.

 

Hiroko Utsumi

Uma das jovens talentosas formadas pelo estúdio Kyoto Animation (ou KyoAni, como é chamado). Seus únicos trabalhos como diretora foram Free!, e a continuação Free!: Eternal Summer, um anime de esporte sobre um grupo de nadadores no ensino médio. Essa diretora sem querer atraiu a raiva de muitos homens fãs de anime.

Um pouco de contexto: a KyoAni é conhecida por produzir animes com personagens femininas jovens e adoráveis que os otakus adoram. Free! foi a primeira tentativa do estúdio de fazer algo diretamente voltado para o público feminino. E, para o desgosto de muito marmanjo, a animação foi um sucesso de vendas e mal posso esperar por mais trabalhos dela.

 

Yoshimura Ai

Qualquer pessoa que tenha trabalhado em Gintama – um dos melhores animes de comédia de todos os tempos – ganha meu selo de confiança. Como diretora, já conseguiu adaptar hits como o romance escolar Ao Haru Ride e o interessante Yahari Ore no Seishun Love Comedy wa Machigatteiru (eita nome grande…). Seu primeiro trabalho original foi o (duvidoso) Dance with Devils.  Seu mais recente trabalho foi Cheer Danshi!, baseado na história real de um grupo masculino de líderes de torcida.

 

E aí, gostaram? Vários dos animes mencionados estão disponíveis no Crunchyroll ou Netflix. Confira a lista: Yuri!!! On Ice, Kyousougiga, Hakkenden – Touhou Hakken Ibun, Gekkan Shoujo Nozaki-kun, Magic-kyun! Renaissance, Kono Danshi, Mahou ga Oshigoto Desu, Hanayamata, Chihayafuru, No Game No Life, Gin no Saji, Tonari no Kaibutsu-kun, Natsume Yuujinchou, Free!, Gintama

Dá uma olhada e diga lá o que achou aqui nos comentários.

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O Twitter anunciou que vai fechar o Vine. Essa é uma das principais medidas que a empresa tomou para diminuir gastos e atrair compradores. No entanto, boa parte dos usuários da ~ melhor rede social ~ acredita que uma das razões para a crise do Twitter é o fato da rede não tomar medidas para controlar os discursos de ódio e o assédio que rola solto no site.

A história que o passarinho azul tem com trolls, machistas, racistas, estupradores, e xenofóbicos já é bem longa. Milhares de mulheres sofrem ou já sofreram assédio no site. Um dos casos mais famosos foi o Gamergate, um estardalhaço virtual onde dezenas de desenvolvedoras de games, jornalistas e pesquisadoras feministas foram
atacadas durante MESES, chegando a receber ameaças de estupro e morte. Só em 2016 a atriz Leslie Jones, de Ghostbusters, e a roteirista da HQ Mockingbird, Chelsea Cain, saíram do site por causa dos ataques e ofensas misóginas e racistas que receberam durante dias.

Essa semana o Twitter perdeu três grandes possíveis compradores. Dois deles inclusive disseram que o problema dos trolls e do assédio influenciaram na desistência da compra.

Lógico que o Vine tinha problemas também, não dava lucro e não atraía publicidade, então o fim do aplicativo não é algo inesperado. Mas, justo nesse momento que o Twitter está tentando construir uma identidade mais atraente para o mercado, soa um pouco estranho que a empresa decida acabar com um serviço que não era ligado a imagem tóxica da rede social. Sem falar que o Vine produz muito conteúdo viral e de ótima qualidade, filmes de 6 segundos com uma criatividade assustadora. Conteúdo que é criado, em grande parte, por pessoas não brancas.

Sei que querem agradar aos investidores, mas essa decisão reflete algo bizarro sobre as prioridades deles. A resposta do Twitter para a reclamação de que o ninho de ódio que circula no site custa milhões de dólares em prejuízo para a empresa foi fechar um serviço e demitir pessoal. E a questão do assédio? E o ataques racistas e misóginos? Esse elefante branco no meio da sala que parecem ignorar.

O ex-CEO do Twitter, Dick Costolo, disse que a empresa não sabe lidar com todos os “indesejados” que usam a rede social. Porém, o passarinho azul não viu problema ao retirar material que infringisse os direitos de transmissão durante as Olímpiadas do Rio, como GIFs, graças ao pedido do COI.

Resumindo, o Twitter está mandando a mensagem de que prefere acabar com uma plataforma usada por uma comunidade vibrante de artistas do que lidar com o grupo de racistas, homofóbicos, estupradores e terroristas que andam livres pela sua rede social. Os esforços da empresa estão voltados para as relações comerciais, e esquecem o principal: as pessoas que usam o site.

Vai mesmo sacrificar o futuro da empresa defendendo lixo misógino e racista, Twitter?

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