As diretoras que vão salvar os animes

Lupin III – The Woman Called Fujiko Mine, de Sayo Yamamoto

Tem gente que gosta de dizer que os desenhos japoneses não são mais como antigamente, que não se faz mais nada de bom e etc. Na verdade, nunca existiu época melhor para ser fã de animação japonesa. Mais animes estão sendo lançados do que nunca antes, criando oportunidades para experimentar e inovar.

Nesse contexto, como ficam as mulheres? Já sabemos que elas são um público consumidor muito forte no território japonês, e são capazes de salvar franquias inteiras. Mas e as que trabalham com animes?

A indústria da animação japonesa, assim como maior parte do mercado de trabalho japonês, é dominado por homens. Mesmo que tenham existido mulheres trabalhando com animes desde os anos 50/60 como Reiko Okuyama — em obras como O Túmulo dos Vagalumes e Mazinger Z — Nakamura KazukoPrincesa e o Cavaleiro (Ribon no Kishi) e Hakujaden, o primeiro desenho animado colorido do Japão–, são poucas as que estiveram em cargos de chefia criativa, como direção e roteiro.

Chegamos ao absurdo de, durante uma entrevista ao The Guardian, o ex-produtor do estúdio Ghibli — conhecido por filmes como “Meu Amigo Totoro” (1988) e “A Viagem de Chihiro”(2001) –, Yoshiaki Nishimura, afirmar que mulheres não poderiam dirigir filmes dependendo do tipo de história. “Mulheres tendem a ser mais realistas e lidam melhor com o cotidiano. Homens, por outro lado, tendem a ser mais idealistas – e filmes de fantasia precisam de uma abordagem idealista. Eu não acho que é apenas coincidência que homens sejam escolhidos”. Após críticas, ele desculpou-se publicamente.

Sabe, eu também não acho que seja apenas coincidência que os escolhidos para cargos de chefia sejam quase sempre homens.

tumblr_nmv145of5u1rti868o9_r1_500
Meu sentimento quando falam essas desgraças.

No entanto, com o surgimento uma nova geração de artistas, várias mulheres entraram na indústria e criaram alguns dos animes mais interessantes dos últimos tempos. Inclusive temos várias delas dirigindo séries que estão saindo agora no Japão. São diretoras que devem ficar no radar de qualquer fã de animação. Vamos falar de algumas delas ;)

 

Sayo Yamamoto

Michiko to Hatchin
Michiko to Hatchin

Apesar de ter dirigido poucos animes, ela já conseguiu deixar sua marca, produzindo séries para o público feminino adulto. A sua estreia como diretora foi Michiko to Hatchin (2008), uma história sobre uma dupla de mulheres – a fugitiva Michiko e a órfã Hatchin – em uma viagem por um Brasil fictício para encontrar um homem misterioso. Detalhe que quase todo o núcleo de personagens principais são negras, algo muito raro quando se trata de animes.

O seu segundo trabalho foi Lupin III – The Woman Called Fujiko Mine (2012), uma releitura feminista sobre a Femme Fatale de uma das franquias de animação mais consagradas do Japão. O papel da mulher na sociedade e seus dilemas são tema comum nas suas obras, combinado a um estilo de direção que transborda elementos pop, com um erotismo que não costuma se ver na televisão.

tumblr_mshwoo6TYN1qeumowo1_r1_500
Lupin III – The Woman Called Fujiko Mine

Yamamoto já trabalhou com storyboard, design, roteiro e dirigiu aberturas e episódios de animes de peso como Samurai Champloo, Psycho Pass e Space☆Dandy. Com um currículo de causar inveja, suas participações vão de Death Note, a Attack on Titan até o filme Evangelion: 2.0 You Can (Not) Advance.

Segundo a própria diretora, suas especialidades são erótica e comédia. Dois elementos que são a alma do seu trabalho atual: o belíssimo Yuri!!! On Ice. Um anime sobre patinação no gelo que já é considerado um dos melhores de 2016. Recomendadíssimo.

 

Rie Matsumoto

Kyousougiga
Kyousougiga

Uma mulher ser diretora de três animes antes dos trinta anos de idade já é um feito impressionante por si só. O primeiro trabalho de direção foi o filme de Heartcatch Precure!, de uma das maiores franquias de garotas mágicas do Japão, quando tinha apenas 25 anos. Em 2011, dirigiu e escreveu Kyousougiga, hoje um cult, onde ela apresentou pela primeira vez seu estilo de direção vibrante e altamente estilizado. Em 2015, Matsumoto foi responsável pela adaptação de Kekkai Sensen, que foi um sucesso de público.

Eu sou fã da maneira como ela conduz histórias que são, acima de tudo, incrivelmente divertidas. Se você não tem medo de ver algo diferente, os trabalhos dela são a indicação perfeita. Kekkai Sensen, inclusive, é um dos meus animes favoritos de todos os tempos.

 

Naoko Yamada

K-ON!
K-ON!

Uma das mais novas do estúdio Kyoto Animation, mas que já tem no currículo a direção de um dos animes mais influentes do século: K-ON!. Junto com Tamako Love Story, Yamada consagrou-se como uma diretora que consegue captar a beleza do cotidiano como poucos, além de uma atenção ao detalhe que impressiona.

Tamako Love Story
Tamako Love Story

 

Mitsue Yamazaki

Gekkan Shoujo Nozaki-kun
Gekkan Shoujo Nozaki-kun

Diretora recém chegada, seu primeiro trabalho foi Hakkenden, em 2013. Porém, começou a chamar atenção com a adaptação da comédia romântica Gekkan Shoujo Nozaki-kun, um dos animes mais engraçados de 2014. Além disso, trabalhou no aclamado Mawaru Penguindrum.

Atualmente é diretora do clichê, mas belíssimo, Magic-kyun! Renaissance.

 

Soubi Yamamoto

 Kono Danshi, Mahou ga Oshigoto Desu
Kono Danshi, Mahou ga Oshigoto Desu

Destaque no campo da produção independente, Soubi Yamamoto produziu quase que sozinha todos os seus animes. Suas histórias têm grande influência do gênero Boys Love, os romances homossexuais masculinos, e usam uma mistura curiosa entre texto e imagem. Meu favorito dela é Kono Danshi, Ningyo Hiroimashita que é sobre um garoto que se apaixona por um ‘sereio’. Seu mais recente trabalho foi a minissérie de quatro episódios Kono Danshi, Mahou ga Oshigoto Desu, que conta um romance com um mágico workholic.

 

Atsuko Ishizuka

Chihayafuru
Chihayafuru

A história dela é um caso incomum, porque Atsuko não via animes quando era criança e hoje é uma das diretoras mais respeitadas da indústria. Ela planejava entrar no ramo da música, mas um curta metragem chamou a atenção do estúdio Madhouse. Desde então ela já trabalhou como diretora assistente em Nana, dirigiu Hanayamata, Chihayafuru, e No Game No Life. O seu trabalho mais recente como diretora foi a adaptação de Prince of Stride: Alternative (2016).

 

Noriko Takao

Saint☆Oniisan
Saint☆Oniisan

Mais uma que também começou a carreira na Kyoto Animation, fazendo cenas para Inuyasha, Clannad, Suzumiya Haruhi no Yuutsu, entre outros. Sua estreia como diretora foi o divertidíssimo Saint☆Oniisan, que conta o dia a dia de Jesus e Budda morando em um apartamento em Tóquio. O anime mais recente que dirigiu foi a segunda temporada de The iDOLM@STER Cinderella Girls.

 

Kotomi Deai

tumblr_nitnuxl0iP1rw3w54o1_500
Rolling☆Girls

Gosto de falar que essa diretora ainda vai criar um anime que eu vou amar. Ela estreou como diretora com a segunda temporada de Gin no Saji, e antes disso animou episódios de Michiko to Hatchin, Kimi ni Todoke e Tonari no Kaibutsu-kun. O primeiro anime original do qual foi responsável foi Rolling☆Girls, que é lindamente animado com sequências de luta de tirar o fôlego, mas uma confusão em termos de roteiro. Mal posso esperar pelo dia que ela terá total liberdade criativa de novo.

Atualmente está dirigindo a quinta temporada de Natsume Yuujinchou Go.

 

Hiroko Utsumi

tumblr_o8ef0m4Pe81qkz08qo2_r1_540
Free!

Uma das jovens talentosas formadas pelo estúdio Kyoto Animation (ou KyoAni, como é chamado). Seus únicos trabalhos como diretora foram Free!, e a continuação Free!: Eternal Summer, um anime de esporte sobre um grupo de nadadores no ensino médio. Essa diretora sem querer atraiu a raiva de muitos homens fãs de anime.

Um pouco de contexto: a KyoAni é conhecida por produzir animes com personagens femininas jovens e adoráveis que os otakus adoram. Free! foi a primeira tentativa do estúdio de fazer algo diretamente voltado para o público feminino. E, para o desgosto de muito marmanjo, a animação foi um sucesso de vendas e mal posso esperar por mais trabalhos dela.

 

Yoshimura Ai

Ao Haru Ride
Ao Haru Ride

Qualquer pessoa que tenha trabalhado em Gintama – um dos melhores animes de comédia de todos os tempos – ganha meu selo de confiança. Como diretora, já conseguiu adaptar hits como o romance escolar Ao Haru Ride e o interessante Yahari Ore no Seishun Love Comedy wa Machigatteiru (eita nome grande…). Seu primeiro trabalho original foi o (duvidoso) Dance with Devils.  Seu mais recente trabalho foi Cheer Danshi!, baseado na história real de um grupo masculino de líderes de torcida.

 

E aí, gostaram? Vários dos animes mencionados estão disponíveis no Crunchyroll ou Netflix. Confira a lista: Yuri!!! On Ice, Kyousougiga, Hakkenden – Touhou Hakken Ibun, Gekkan Shoujo Nozaki-kun, Magic-kyun! Renaissance, Kono Danshi, Mahou ga Oshigoto Desu, Hanayamata, Chihayafuru, No Game No Life, Gin no Saji, Tonari no Kaibutsu-kun, Natsume Yuujinchou, Free!, Gintama

Dá uma olhada e diga lá o que achou aqui nos comentários.

Kyousougiga
Kyousougiga
Tags relacionadas
, , ,
Mais de Patrícia Machado

As diretoras que vão salvar os animes

Tem gente que gosta de dizer que os desenhos japoneses não são...
Leia mais
  • entelexia

    Até concordo que elas vão dar um folego novo nas produções. Mas, revitalizar a industria (em termos de criatividade), dependeria de resolver outros problemas da própria indústria. Apesar de ser uma boa época em termos de quantidade de produções, e talvez de lucro, nao é a melhor época para ser um fã de animes. A sensação que se tem, desde meados dos anos 2000, é de ver os mesmos temas e personagens, sempre sendo reapresentados nas produções novas. Para alguém que já assistiu muitos animes, isso é meio desanimador.