Eu sei o que aconteceu com Miss Simone

Lançado recentemente pelo Netflix, o documentário “What Happened, Miss Simone?” se propõe a contar todos os fatos da vida da cantora de blues Nina Simone, começando com suas aulas de piano na infância, até como teve que se reerguer para terminar sua carreira de forma digna nos seus últimos anos de vida. Você também deve saber o que aconteceu com ela depois de assistir ao filme… Mas de algum modo, senti que eu realmente sei o que Nina Simone passou, porque eu também passo ou poderei passar.

Não, não quero – e nunca vou me atrever a – comparar o sofrimento de Nina em sua época. Mas também não posso – e não me atrevo a – ignorar o meu sofrimento e de outras mulheres negras da minha geração. O que me entristece é justamente essa possibilidade de poder comparar nossas histórias. Aposto que Nina gostaria que fosse diferente.

Comecei a assistir o documentário me sentindo envergonhada por saber tão pouco sobre a vida dessa lenda da música e terminei com uma identificação que me machucou, que me fez entender e lamentar minha falta de conhecimento sobre Nina.

A identificação foi tanta que comecei a pensar em Nina como uma parente, uma amiga que havia partido e deixado sua memória comigo. Imaginei como seria recebê-la hoje, depois de descansada (eu espero) de todos os seus sofrimentos e querendo saber como andam as coisas nesse mundão “moderno”.

Talvez eu começaria com um relato pessoal, agradecendo Nina pelo desabafo sobre como é difícil ser aceita num mundo de divisão de classes, onde você deixa de pertencer a sua própria comunidade se não servir aos seus estereótipos e destinações sociais, mas também não se encaixa no convívio dos brancos só por ser negra. Eu lutava comigo mesma passando por exatamente este problema mas não consegui identifica-lo, então eis que sua voz no documentário me acertou com a realidade.

Depois contaria que levaram seu ex-marido abusador a falar no filme sobre sua história: “Nina, o que você acharia disso?!”. Ele a agrediu, a fez de escrava, sugou seu talento e se aproveitou dele. Isso ainda acontece com a mulher negra, do patrão a família que nos cobra em casa, já que o mundo acha que a meritocracia se aplica.

E como eu diria para ela que as coisas andam na mesma? Que jovens negros continuam morrendo por serem negros, aqui no Brasil, em seu país de origem, os Estados Unidos e no mundo todo. Eu não queria ter a responsabilidade de mostrar como os brancos continuam menosprezando nossa cultura ou como as mulheres, principalmente as negras, continuam sendo abusadas, agredidas e violentadas, como ela foi.

Com tudo o que o filme mostra que ela passou, não consigo imaginar qual seria sua reação ao saber sobre tudo isso. Mas sei que eu a confortaria.

A confortaria de um jeito que sei que é necessário, mas talvez nunca será suficiente para sanar as angústias de uma vida militante completamente frustrada. E não por falta de esforços, mas por descrença, por menosprezo, diminuição. Seria uma das poucas vezes em que a frase “eu sei como você se sente” estaria sendo dita com a mais pura sinceridade.

Sei que Nina precisaria ouvir isso, pois sinto que em sua época, ninguém sabia como ela se sentia. Ou ninguém se importava.

Ela deixou de vender sua música pois o público branco que a comprava não queria ouvir sobre as reclamações de ser negro e correr riscos de vida todos os dias. Sei que muitas vezes não querem ler meus textos sobre o mesmo assunto. Mas eu sei, e Nina também sabia, que devemos lutar com aquilo que temos mais poder… No caso dela, a música.

E questionavam pra que tanta preocupação! Porque as pautas do movimento negro a influenciavam tanto? Eu diria para Nina que continuam nos questionando isso, mas hoje tem um nome culto: “a patrulha do politicamente correto”.

“O que há de errado em ser politicamente correta, não é Nina?”. É como se, desde aquela época, as pessoas estivessem dando de ombros e pedissem: Me deixe ser racista em paz! Esse desprezo em nossas preocupações nos tira do sério e nos preocupada. Será que seremos ouvidas? Nos faz querer aumentar a voz a todo custo, para então nos chamarem de exageradas… Até de loucas!

Por fim eu pediria desculpas para Nina por saber tão pouco sobre ela até pouco tempo. Ainda que tivesse o prazer de falar com ela, finalizaria a conversa com a amargura de não levar boas notícias.

Porém antes de me entregar a tristeza como ela fez numa fase de sua vida e como muitas de nós gostaríamos de fazer, eu me lembraria que tenho algo que Nina não teve em sua época e talvez seja uma das coisas que nos diferencia: uma heroína. Alguém com uma história a se honrar e que me faz querer honrar a minha própria também. E esse alguém é a própria Nina.

Depois de tanta frustração e tanto que perdeu na vida por causa de seu engajamento social, depois de se deixar levar pelo cansaço que nos fazem sentir ainda hoje, ela se reergueu para trabalhar e sobreviver feliz até onde conseguia.

Tem algo mais empoderador e simbólico do que uma mulher negra que não perdeu para a pressão da sociedade? Que um dia conquistou tal força que não precisou mais levantar sua voz? Que virou um exemplo para que esta luta não acabe até que possamos viver livres?

Nina, eu sei o que aconteceu com você. Você viveu sua negritude o máximo que podia. Não se escondeu, chocou, tocou e se mostrou para o mundo. Você foi livre, mas eles te aprisionaram. Mas ainda bem que nunca a calaram!

 

Escrito por
Mais de Magú Souza

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