O lugar da mulher nos games

Anita Sarkeesian com seu Nintendo 3DS
Anita Sarkeesian com seu Nintendo 3DS

Ultimamente eu ando sensível. Ando cansada e entristecida, sento no computador as vezes e fico olhando para as letras que formam o texto na tela, relendo as mesmas linhas e não entendendo o porquê. Me pego olhando o branco atrás das letras por sei lá quanto tempo e nada mais faz sentido.

O motivo por que estou assim eu sei muito bem e posso te contar em detalhes, se você quiser. Resolver, por outro lado, não vai ser nada fácil e mesmo que tentarmos com toda nossa garra ainda podemos falhar miseravelmente. Mas eu ainda acho que valha a pena. Está pronta?

Sempre me senti segura jogando e por consequência trabalhando com jogos. Já me perguntaram antes sobre machismo e já disse que sempre existiu algum, mas que não era algo que chegava a incomodar. Todos os ambientes que trabalhei tinham sim algum nível de piadinhas bobas e de atmosfera heteronormativa mas era evidente para mim que meus companheiros de trabalho ao menos se esforçavam para tentar amenizar isso (ao menos, até onde eles compreendiam). Ao menos, eles estão tentando.

Embora o ambiente dentro dos escritórios continua assim desde que comecei a trabalhar com jogos há 5 anos, mudou pra caralho fora deles. Para pior. Muito pior.

No último ano, houve uma explosão absurda de assédio direcionado a várias mulheres que trabalham com jogos. Mulheres que fazem jogos, mulheres que escrevem sobre jogos, mulheres que gostam de jogar. Muitas delas humilhadas, difamadas e despidas do direito de fazer o que mais amam.

Todas elas minhas irmãs – e suas irmãs também.

Tudo ficou mais claro com Zoe Quinn sendo acusada de dormir com jornalistas para conseguir reviews boas em seu jogo independente, Depression Quest. Uma dúvida, por si só, até que compreensível, parece. Exceto que para se levantar esse questionamento um ex-namorado da Zoe se achou no direito de expor publicamente a vida pessoal e íntima dela. Era uma mistura de diálogos entre eles dois e diz-que-me-disse, que, no final, a acusava de tê-lo traído com outros 5 caras. Enquanto questionar as implicâncias éticas da proximidade entre jornalistas e desenvolvedores de jogos faça até algum sentido, dá para entender como expor conteúdo de tablóide sobre a vida sexual de uma desenvolvedora abertamente pode ajudar na questão? Já falamos mais disso.

 

Depression Quest, game feito por Zoe Quinn baseado na sua própria experiência com a depressão.
Depression Quest, game feito por Zoe Quinn baseado na sua própria experiência com a depressão.

 

A tentativa de humilhação pública de Zoe desencadeou um maniqueísmo estranho na nossa área: de um lado muitas pessoas públicas abertamente defendo e apoiando a Zoe, de outro uma legião de anônimos a humilhando e perseguindo. Dentre as pessoas a defender Zoe, muitas eram mulheres. Mulheres as quais também foram alvo de assédio após demonstrarem seu apoio publicamente ou apenas mostrarem sua simpatia a bandeiras feministas. Mulheres como Leigh Alexander, Katherine Cross, Brianna Wu e Brenda Romero, responsáveis por nos informar sobre jogos ou por fazer jogos, foram humilhadas, ameaçadas e perseguidas. Suas famílias e amigos também foram ameaçados e denegridos. Seu direito de ir e vir, de expressar suas opiniões e de fazerem o que amam livremente lhes foi tirado.

Mas o caso Zoe só deu nome para esse grupo amorfo que já havia mostrado sua intolerância ao gênero feminino antes, muito antes. Uma das 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista Times, a minha, a sua, a nossa Anita Sarkeesian era uma jovem mestre quase anônima em 2012 quando lançou uma campanha no Kickstarter pedindo $6.000,00 para fazer uma série de videos sobre o machismo em jogos. Sua campanha foi alvo de uma cruzada de assédio, desde de “tranquilas” ameaças online de estupro de morte à divulgação de informação pessoal de Anita. O grupo ainda não tinha nome mas seu modus operandi não confunde.

 

Anita Sarkeesian agradecendo às primeiras 1000 pessoas que investiram em seu projeto no Kickstarter
Anita Sarkeesian agradecendo às primeiras 1000 pessoas que investiram em seu projeto no Kickstarter. Foram 6968 no total.

 

Se prestarmos atenção, há um padrão aqui: quando a opinião ou as ações de uma mulher são contrárias ao que esse grupo de pessoas acredita, o que segue não é só uma enxurrada de críticas e questionamentos vazios que são direcionados para essa pessoa por todas as mídias possíveis (utilizando-se comumente de bots para tornar a enxurrada aparentemente maior). Geralmente, esse grupo também busca expor informações pessoais (vida sexual, endereços, informações sigilosas) publicamente, atacar moralmente as “ofensoras”, ameaçá-las e tirar-lhes todo e qualquer resquício de dignidade. As ideias e filosofias de mulheres expressas publicamente que vão contra o que eles acreditam são respondidas com força, terror e ameaças. Um ataque covarde e terrorista.

 

“Se um texto escrito por um homem, as críticas são sobre o texto em si. Se é de uma mulher, as críticas são pessoais. É sempre em tom de ataque”

Paola Rodrigues, blogueira que sofre com assédio há um ano vindo um mesmo grupo

 

Mas na verdade estes ataques não visam apenas denegrir injustamente minhas companheiras, invadir sua privacidade e expô-la na internet, spamear a elas e todos seus conhecidos com factoides e injúrias; esse é apenas o meio utilizado. O que estes ataques realmente almejam é calar as suas vozes, silenciar o diálogo e impedir que o meio siga sua evolução natural para algo mais igualitário. Os agressores são pessoas covardes que não conseguem processar essa mudança e que têm medo de uma indústria de jogos em que eles não são mais a audiência central, o queridinho da mamãe.

Anita não se calou e continua a sua série de videos no canal Feminist Frequency, faz palestras sobre o assunto com frequência e já apareceu em alguns programas de TV aberta nos EUA. O preço disso é que até já ameaçaram explodir um dos lugares em que ela ia palestrar. Zoe também não se calou e, embora tenha passado um período menos presente online, continua ativa. Brianna e seu marido se mostraram fortes contra os ataques e continuam o desenvolvimento de seus projetos. Brenda e Leigh disseram ter tido “um ano horrível” mas continuam fortes em seus projetos. Esse ano, na GDC (maior conferencia de desenvolvedores de jogos do mundo), organizaram um painel com a presença de várias mulheres da indústria de jogos, todas falando sobre suas carreiras e muitas dando relatos do ano horrível, inclusive Katherine Cross. No meio do painel, chegou a vez de uma cadeira vazia que simbolizava as mulheres convidadas que recusaram. Os motivos apresentados passavam nos slides variando entre “minha empresa não me deixa falar” e “que mulher nessa indústria tem o luxo de falar” ou ainda “só por que o assédio não está acontecendo com você não quer dizer que não está acontecendo”. Algumas não se deixaram diminuir por essas ações terroristas mas muitas ainda estão com medo.

Não vai ser fácil resolver o silenciamento da mulher no meio dos jogos. Ele não vai passar sozinho e cada dia que passa, mais mulheres são caladas. Eu sei que sozinha sou pouco contra a multidão raivosa, mas não estou sozinha. E não vou parar. Estamos em uma guerra verbal e ideológica onde cada cabeça pensante conta.

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  • Bom texto Thais!! Parabens!!
    Uma curiosidade, tu sabe se por aqui, no Brasil – fora do ambiente de trabalho, assim como aconteceu com a Anita – teve relatos desse tipo de grupo? Ou houve a tentativa de algum grupo com esse foco?
    Pq pelo menos eu, que apoio a liberdade de criação independente de raça/genero/opção sexual, não vi ataques online em massa no mundo dos jogos por aqui.
    Sabe algo? (Acredito que as mulheres tentem conversar bastante com você sobre isso, ou ao menos tentar, não sei).

    • Oi Vinicius! Não sei se há um grupo contra alguma game dev brasileira, mas tem rolado uma hostilidade fortíssima contra mulheres jornalistas.
      Por causa desse texto: http://www.brasilpost.com.br/ana-freitas/nerds-e-machismo-porque-m_b_6598174.html rolou isso aqui: http://www.brasilpost.com.br/ana-freitas/mensagens-diziam-que-o-ob_b_6779344.html

      :(

      • Caraca Nina, que coisa louca. (Demorei p/ responder pq tava lendo os textos).
        Triste isso, mas ali é um caso que deve resumir milhares no planeta, assim como a falta de denúncia da violência doméstica que rola solta por nosso país. :(
        Não sei se vocês já viram, mas está rolando um quadro no CQC, onde eles vão atrás de pessoas que perseguem outras. É um quadro que acho muito bom. Acredito que vale acompanhar, pelo menos. E por lá, é possível perceber que…são todos sem noção do que fazem, pensam que é brincadeira.
        Chato isso.
        Vou acompanhar o blog, acho bem interessante p/ saber se isso acontece por perto de mim, ou se pratico de alguma forma, por menor que seja.

  • Cacau Birdmad

    Foi um ano bem pesado, mesmo… Eu lembro de quando conheci a Samanta Allen e a Katherine Cross no DIGRA, em 2013. Eu chorei de emoção com os trabalhos incríveis que elas estavam fazendo. Foi um evento super marcante pra mim, me lembrando o potencial dos games, o porquê de eu ter decidido pesquisar nessa área, porque eu era apaixonada por essa mídia… Ver elas sendo atacadas daquela maneira violenta na internet me deixou arrasada. A galera criou um ódio até do próprio evento, da academia… Eu vi gente comemorando o fato de que pesquisas sobre games tinham perdido dinheiro por causa do que aconteceu, comemorando que ia ficar mais difícil pesquisar nessa área… Tá rolando um grande ódio por pensar, eu sinto. Por criticar as coisas, refletir sobre elas, por construir novas coisas. Uma fúria por manter tudo como é – sem nem entender como é. Sem entender porra nenhuma, na verdade….
    Coloco aqui meu apoio. Estamos juntas nessa luta. Pelo não aprisionamento de uma mídia tão, mas tão cheia de potencial!