Minha brasilidade reduzida a uma bunda

Arte por Bárbara Malagoli (Baby C) para Ovelha
Arte por Bárbara Malagoli (Baby C)

Era uma quarta-feira à noite e eu resolvi me aventurar numa festa de salsa na Tanzhaus NRW, uma escola de dança em Düsseldorf, na Alemanha. Por mais engraçado que isso possa parecer, eu nunca havia dançado salsa até vir para cá, há mais ou menos um ano, e ainda não danço bem, mas me arrisco. Acanhada pela desenvoltura dos dançarinos, resolvi apenas observar à beira da pista. Alguns rapazes se candidataram como meus parceiros de dança, mas neguei a proposta. Minha vergonha ainda impedia a tentativa. Um deles ficou para conversar, mesmo depois de ter o convite negado. Conversamos um pouco em alemão e, como é de costume – até pelo meu sotaque ao falar alemão -, ele logo notou que eu era estrangeira. “É, sou brasileira”, respondi. “Como eu pensava. Dá para perceber pela sua bunda que você vem da América Latina. Você tem uma bunda muito bonita. Uma bunda típica de brasileira”.

Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos.

O que, ao seu ver, deveria ser um elogio foi o motivo de um grande desconforto em toda aquela situação. Sem saber direito o que falar e sem acreditar no que acabava de ouvir, conversei mais um pouco e segui meu rumo para o outro lado do salão. Não sei se somente pela falta de tempo, ou por coincidência, nunca mais voltei àquele lugar para bailar salsa.

Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos. Parece que se eu não tivesse um corpo assim ou assado, não poderia levar o carimbo de “latina” ou de “brasileira”. Afinal, você não é uma brasileira completa sem aqueles típicos atributos físicos que a terra abençoada Brasil te deu, certo? Ah, não é bem assim…

Incomodada, comentei sobre minha experiência com algumas amigas brasileiras que também vivem do lado de cá do oceano. Não fiquei surpresa ao saber que muitas já haviam ouvido coisas do tipo. Os comentários não estão sempre só relacionados ao corpo, mas a outras coisas classificadas como “típico” da feminilidade brasileira. “Ué, você nasceu no Brasil e não sabe sambar?”, “Cadê o rebolado brasileiro?”, “Você não quer me ensinar alguns passos de samba… Na minha casa… Só a dois?”. Esses comentários revelam as expectativas dos gringos sobre a mulher brasileira. Sobre como ela se comporta, como ela dança, como ela flerta – ou espera receber uma cantada – e como ela se parece ou deve parecer.

O machismo nacional nos transformou em atração turística, assim como cachoeiras ou a fauna do Brasil.

Isso tudo ficou mais claro pra mim durante a Copa do Mundo no Brasil, que acompanhei da Alemanha mesmo. As propagandas referentes ao evento do ano me causavam grande incômodo e certa vergonha alheia. Eram comuns as imagens de mulheres morenas em trajes de carnaval, exibindo seus corpos sarados e sua “beleza exótica” que os europeus tanto admiram. Em um caso específico que me chamou atenção, vi a figura de uma mulher morena com a camisa do Brasil, e um alemão ao seu lado, usando a camisa da Alemanha – nunca vi a imagem de um homem brasileiro com uma mulher alemã em propagandas. Para alguns, poderiam ser simples imagens e vídeos, mas a mensagem que eu recebi foi a seguinte: “ei, gringo! Quando você chegar no Brasil é isso que você vai encontrar. E você pode conquistar uma dessas pra você”.

Escrito por
Mais de Débora Backes

Um celular perdido com um segredo

A Normal Lost Phone é um jogo em que você pode colocar pra fora todo aquele seu talento reprimido de stalker.

Alguém perdeu um celular, aparentemente novo, e você teve a sorte (ou o azar…) de encontrá-lo. O telefone está desbloqueado e você pode fuçar livremente para descobrir o paradeiro do dono – ou simplesmente pelo prazer de stalkear a vida alheia.

O jogo foi criado pelo grupo europeu de animadores e desenvolvedores de games Accidental Queens e exibido durante o 5º Festival Internacional de VideoGames Independentes em Berlim, o A MAZE 2016.

Além do design bonitinho e até que bastante realista, o game tem a temática LGBT e queer como pano de fundo (Elizabeth Maler, uma das designers do jogo, me explicou o porquê da problemática de gênero em uma curta conversa que você lê no fim desse texto). Achei muito válida a ideia de trazer o tema à tona através do game, para que se possa refletir sobre o assunto de forma mais descontraída e natural. Foi uma bela sacada!

Joguei A Normal Lost Phone por alguns minutos no A MAZE, mas confesso que não consegui terminar tão rápido quanto imaginava. O objetivo do jogo é descobrir duas senhas necessárias para acessar o perfil do usuário no Love Birds, um dating app (tipo Tinder, Happn, Grindr). No celular, você pode acessar a lista de contatos, últimas mensagens (inclusive receber e enviar mensagens), galeria de fotos e calendário… Com eles, aos poucos, o jogador descobre que o telefone pertence a um garoto chamado Sam e, mais além, consegue saber o que foi acontecendo na vida de Sam desde que ele ganhou seu novo smartphone. Mas isso eu não vou contar!! Hihihi

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O jogo é bem divertido e mexe com a curiosidade (ainda mais se você é uma curiosa de carteirinha como eu). Eu cheguei a um ponto em que não queria mais largar o tal game porque queria muito saber o que tinha acontecido com o Sam. E foi realmente interessante perceber como um simples celular pode dizer tanto sobre a vida de alguém… Portanto, cuidem bem de seus telefones!

O Accidental Queens está planejando uma nova versão do jogo com algumas novidades: mais aplicativos, códigos para desvendar, músicas e mais sobre a história de Sam. E possivelmente uma versão em português! Elizabeth me contou que a versão teste teve boa receptividade no Brasil e, por isso, eles pretendem fazer uma tradução – até agora, A Normal Lost Phone está disponível em inglês, espanhol e francês.

No dia 17 de maio, dia internacional contra a homofobia, o grupo lançará uma campanha de financiamento coletivo. Para isso, eles estão fazendo uma pesquisa sobre o que as pessoas gostariam de ganhar como recompensa em troca da contribuição.  O questionário online também é uma forma de saber qual a receptividade do jogo no Brasil, para saber se vale a pena traduzi-lo para o português. Então, vamos ajudar e mostrar que queremos uma versão A Normal Lost Phone em nosso lindo idioma!

Para quem se interessou e quiser testar o jogo em casa, ele está disponível online.

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Segue a conversa que tive com Elizabeth Maler sobre a criação do jogo e do Accidental Queens:

Ovelha: Por que vocês decidiram trabalhar a temática LBGTQ no game A Normal Lost Phone?

Elizabeth: O projeto foi criado durante o Global Game Jam, um evento em que desenvolvedores se encontram e tentam montar o protótipo de um jogo em 48 horas. Depois que o tema “ritual” foi anunciado, nós (Elizabeth e outras duas meninas) começamos a pensar em um jogo com um celular perdido, em que você poderia explorar a identidade da pessoa. Nós queríamos fazer algo feminista. Queríamos também poder trabalhar por nossa conta, sem ter que lidar com algum troll, o que pode ser muito exaustivo para mulheres na área de games. Não é que haja muitas pessoas assim na indústria, mas há algumas… Então quando apresentamos a ideia para todo mundo no Game Jam para formar os times, decidimos dizer que iríamos fazer um game sobre a problemática de gênero. Nós achamos que seria uma boa maneira de ter certeza que não teríamos nenhum homofóbico ou misógino no grupo.

Ovelha: De onde vocês tiveram as ideias para montar a personalidade de Sam e sua história?

Elizabeth: Um amigo meu tinha acabado de me contar que era gay e que estava com medo de contar isso pros pais, que eram abertamente homofóbicos, e eu queria escrever algo sobre esse medo. Mas esse medo é a única ligação entre esse meu amigo e Sam. Outras partes da história de Sam e de sua personalidade foram inspiradas em outros amigos ou em pessoas da equipe de criação.

Ovelha: E por que vocês escolheram o nome Accidental Queens para o grupo desenvolvedor do jogo?

Elizabeth: O grupo é composto majoritariamente por mulheres, mas em francês, temos essa regra gramatical estúpida que diz que mesmo se o grupo for composto por 10 mil mulheres e apenas um homem, o adjetivo que se refere a esse grupo deve concordar com o gênero masculino… Acredito que seja o mesmo em português, como “são muito bonitos”, mesmo que seja um grupo 99% feminino. Bom, nós somos um grupo de maioria feminina e isso é raro na indústria de videogames. Por isso decidimos usar a palavra “queens” (rainhas, em inglês).  Os meninos do grupo também gostaram da ideia de não ter um nome masculino e agora são eles que têm que se adaptar com isso (o nome feminino). Accidental é principalmente pelo fato do protótipo que fizemos ter se tornado um grande sucesso. Isso não foi planejado. Nós não tínhamos a pretensão de ficar famosas com o jogo, foi apenas um feliz acidente!

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