Idade Média, estupro e “nem todo o homem”

Ilustração feita com exclusividade por Sarah Assaf.

Tô vendo uma série no Netflix sobre Isabel de Castilla (as estudante de história pira) e tem uma parte em que uma camponesa é sequestrada por 4 homens que estavam lutando uma guerra de deposição do rei Enrique. Eles a sequestram apenas para estuprá-la, um estupro coletivo. Depois que um deles “acaba” e ela está toda suja de sangue, chorando, humilhada, o próximo vai soltando o cinto e ela consegue alcançar uma faca e aponta. Um deles diz “o que você vai fazer com uma faca contra nós 4?” e ela corta sua própria garganta. Os caras olham a cena meio “ah, que bosta, nosso brinquedinho quebrou”, daí o cara limpa a faca que ela usou pra se matar no próprio vestido da mulher e seguem viagem.

Eu consigo identificar mil questões de como um estupro é apenas uma ferramenta de poder e subordinação, de como estupro não é sexo nem pro agressor! Escolher uma mulher aleatória, ficar com pau duro com alguém desesperado e com medo na sua frente, depois de morta não a querem mais, só vale enquanto está sendo acuada e humilhada. Violam o corpo da mulher sem lhe tirar o vestido, com ela deitada de bruços, poderia ser qualquer coisa,  mas escolhem uma mulher para preservar sua masculinidade na frente dos colegas e inferiorizam a mulher fragilizada.
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Pessoalmente acredito que seja muito importante mostrar em séries e filmes de cunho histórico não-fictício, como eram os costumes, mostrar como mulheres exerciam seus poderes nas entrelinhas e como eram subordinadas, comportamentos machistas ao extremo, estupros. De modo que isso nos faz reviver um museu de nosso próprio caráter passado e mostrar o que evoluímos e o que ainda temos pra evoluir. Mais memória real e impactante sobre a ditadura no Brasil teria sido muito importante para essa geração de seguidores do Bolsomito (bolsonaro + vômito), por exemplo. Dito isso, sou extremamente contra qualquer cena em série ou filme de caráter fictício e/ou distópico que mostre uma subordinação de uma mulher não condenada pela narrativa e as vezes pior, romantizada. A mostre como inferior e estupro então, nem se fala. Tirar a cultura do estupro de pauta é uma urgência latente.

Sabemos que Game of Thrones é uma série que muitas pessoas gostam e apesar de terem muitas mulheres no poder, fazendo vilãs, mocinhas e mulheres comuns sem os devidos extremos estereótipos, apresenta muitas problematizações no sentido: por que tanto estupro? Estupro corretivo, estupro entre casais, estupro de casamento não consentido, estupro ordenado para punir, etc. Os maiores fãs da série dizem que “na época acontecia essas coisas”, só gostaria de lembrar que não existe essa “época”, é uma série ficcional, de um tempo ficcional, que pode se assemelhar a diversos tempos da nossa linha temporal, porém há cenas não justificáveis. Se a gente quer acabar com a cultura do estupro, seria muito mais interessante promover o empoderamento da mulher do que a subjugação histórica que nós tivemos e ainda temos (de 11 em 11 minutos no Brasil). Boicotar a série ou não é uma opção individual, porém é muito importante reconhecer onde há romantização de estupro e fazer críticas pesadas sobre o tema. Apenas.

Fazendo uma avaliação mais contemporânea, a gente pode também comparar com abusos de autoridade e poder. Micro e macro relações machistas diárias apenas para institucionalizar que há uma hierarquia de poder ainda que técnica e intelectualmente já tenhamos superado isso há séculos. Por que se precisa abusar de alguém quando está em situação vulnerável? Por situação vulnerável podemos listar várias coisas como, sob efeito de álcool, com medo, desmaiada, emocionalmente abalada, diferença gritante de idade, subordinada, crianças e idosos.
[infobox maintitle="Sobre Vulnerabilidade" subtitle="Vulnerável é algo ou alguém que está suscetível a ser ferido, ofendido ou tocado. Vulnerável significa uma pessoa frágil e incapaz de algum ato.

O termo é geralmente atribuído a mulheres, crianças e idosos, que possuem maior fragilidade perante outros grupos da sociedade. Na sociedade, um indivíduo vulnerável é aquele que possui condições sociais, culturais, políticas, étnicas, econômicas, educacionais e de saúde diferente de outras pessoas, o que resulta em uma situação desigual.

O fato de existirem indivíduos em uma situação vulnerável faz com que exista uma desigualdade na sociedade. Vulnerável é um termo que também está presente no direito penal brasileiro relacionado ao estupro. Estupro de vulnerável é um crime que consta no Código Penal e designa um tipo de violência ao indivíduo vulnerável, por exemplo, crianças e idosos. " bg="pink" color="black" opacity="on" space="30" link="no link" align="left"]

Lembrando sempre que homens e mulheres são diferentes biologicamente sim e a força é uma questão que interfere na subordinação da mulher há milênios. É bom lembrar porque feminismo pede igualdade perante a lei e equidade, ou seja, uma equivalência para nos tornarmos iguais perante a sociedade. Como já disse antes, já superamos há séculos essas questões e aqui uma galeria de pinturas da Idade Média para o deleite feminimo empoderador (clique no centro da imagem para ver todas).
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Infelizmente, todas nós sabemos que homens próximos (amigos, familiares) e omis (termo de homem de internet que a gente não conhece e faz questão de ser agressivo) sempre nos dizem e repetem: Nem todos os homens. Pessoalmente consigo entender minimamente o porquê eles repetem isso frequentemente. Quando eu descobri que era opressora de mulheres negras e pobres (sou branca e classe média), fiquei muito angustiada e mal, mas nunca questionei isso, pelo contrário. Entendi que eu tenho a cara do opressor e fiz questão de manejar minha militância para as pautas mais urgentes. Muito mais urgentes que as minhas (empatia salva, galeura).

Sei que internalizar e digerir as questões é uma característica minha, mas não é característica da maioria dos homens e omis que foram criados livremente para serem exploradores, dominadores e questionadores. E por que não interpeladores? Interpeladores sim e confortáveis com isso. Já tentei os fazer entender o porquê, mas deixo aqui um trecho de um livro de uma escritora feminista de 1985 que já tinha que lidar com esse argumento.
[infobox maintitle="Joana Russ *drops the mic*" subtitle="“... nem todos os homens ganham mais dinheiro do que todas as mulheres, apenas a maioria; nem todos os homens são estupradores, somente alguns; nem todos os homens são assassinos promíscuos, somente alguns; nem todos os homens controlam o Congresso, a Presidência, a polícia, o exército, a indústria, a agricultura, o direito, a ciência, a medicina, a arquitetura, e o governo local, apenas alguns”" bg="pink" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"] Sabe o que acontece quando expomos uma situação absurda e o que ouvimos é “nem todo homem”? A situação explanada é altamente relevada. Os sentimentos de mágoa pessoal, por não quererem assumir a cara/frente das opressões milenares de gênero, etnia, classe, etc., tornam-se mais relevantes do que todas essas opressões. O que acontece é que se dá a perpetuação da subordinação das questões femininas e das minorias mais uma vez. Vence o micro machismo diário, vence o egoísmo e fica óbvio do porquê homens não podem ser feministas.
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Então chega de feminismo liberal por hoje e eu vou voltar pra minha série porque águas ainda vão rolar e Isabel ainda vai se tornar rainha da porra toda. Desculpem o spoiler.

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Ilustração feita com exclusividade por Sarah Assaf.

Mais de Bárbara Gondar

A Síndrome do Pânico e Eu

Achei necessário escrever um texto sobre minha experiência com essa crise de ansiedade que tem assolado muitas pessoas. Muitos amigos vêm me perguntar sobre ela, apelidei ‘carinhosamente’ de orgasmo do terror. Porque chega devagar, tem um ápice horroso e quando acaba te deixa esgotadx. Mas vamos lá, é terror sem susto, prometo. Haha!

Há três anos e meio, tomei uma grande decisão, me mudaria de volta para a cidade em que nasci depois de viver 16 anos em São Paulo. Havia tomado uma outra grande decisão, sair do mercado da publicidade de vez, mercado esse que me deixava extremamente estressada, frustrada, desmotivada com a vida, seres humanos, futuro, passado, fauna e flora (tema pra outro texto).

 

 
Cheguei então no Rio de Janeiro (uhúuuu), eu e meu namorado decidimos morar juntos e eu fui trabalhar num albergue pra dar uma desintoxicada da publicidade. Seis meses depois, arranjei alguns clientes e fiquei trabalhando como designer freelancer, mas como eu havia pegado coisas que pagavam pouco de muita gente, eu trabalhava muito, muito mesmo, e não tinha tempo pra mais nada, comia mal, dormia mal, o aluguel era muito alto e eu ia dormir fazendo contas.

 

 
Um belo dia, eu estava me sentindo super estranha na frente do computador, mas continuei trabalhando normal, o Ivan (meu companheiro) me chamou pra comer alguma coisa na lanchonete que tinha embaixo do nosso prédio e lá fomos nós. Assim que eu dei a última mordida no meu sanduíche, bateu uma sensação muito forte de que eu fosse desmaiar, começou um formigamento nas mãos, nos pés, taquicardia, eu coloquei sal na boca achando que fosse pressão baixa, uma tremedeira que não passava, levantei, joguei água no rosto e não passava, era uma sensação de que eu ir ter um treco, um desmaio, um derrame, uma sensação horrorosa da qual eu fui tomada por medo, muito medo.

 

 
Ivan perguntou se eu queria ir pro hospital e eu disse que sim, achei que eu pudesse estar tendo um pré-ataque-de-alguma-coisa que eu não sabia explicar. Minha sogra demorou um pouco, mas acabou nos levando num hospital que eu era segurada na época. Fui atendida por uma médica super simpática que mediu minha pressão e disse que todos os sinais vitais estavam perfeitos, não havia com o que eu me preocupar. Eu pensei estar ficando maluca, saí do hospital e cheguei em casa num estado completamente esgotado, de como se o corpo tivesse ficado tão tenso por um tempo que agora eu não tinha forças pra mais nada. Resolvi não contar nada pro meu pai porque ele ainda morava e mora em São Paulo, eu não queria deixar ele alarmado com alguma coisa que não tinha nem nome ainda!

 

 
Os dias seguintes foram de um pouco de medo, medo de não saber o que tinha acontecido, medo de acontecer de novo, de não saber o porquê tinha acontecido, mas os dias foram passando e eu voltei normalmente à minha rotina ~ da pesada. Na semana seguinte a esse episódio, eu comecei a me sentir estranha da mesma forma que eu tinha estado no dia do primeiro piripaque, essa sensação é difícil de expor, é uma sensação da qual parece que você está desconfortável dentro de você mesma, tem alguma coisa de errado e você sabe. Eu estava trabalhando na frente do computador quando e comecei a sentir a sensação chegando, achei melhor então interromper e ir dormir (já era tarde, na madruga boladona). Desliguei o computador, escovei os dentes e deitei.

 

 

Perguntei pro Ivan: “Amor, você sabe o número do SAMU? É 192, tá? Caso aconteça alguma coisa comigo.”

 
Eu não queria assustar ele, mas como eu senti a parada chegando e já era tarde, achei melhor avisar. Acho que não deu nem 5 segundos depois que eu fiz a pergunta e um novo piripaque começou. Foi bem intenso, eu pedia socorro, achava que ia morrer, as mãos e os pés estavam novamente formigando e suando a taquicardia muito forte, a cabeça parecia que ia explodir, e eu não desmaiava, meu corpo não desligava, eu não sabia o que estava acontecendo, Ivan ficou desesperado sem saber muito o que fazer. E lá fomos nós para o hospital mais uma vez. Dessa vez fui atendida por um homem que estava um pouco impaciente (pregs), era de madrugada, viu meus sinais vitais e me disse que estavam perfeitos e queria me dar um calmante, mas eu não estava nervosa, fiquei ofendida e quis voltar pra casa. Mais uma vez, a sensação de desgate completo, exaustão.
 

Eu estava com medo. Eu queria um diagnóstico e não um remédio pra dormir.

 

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Resolvi então ligar para o meu pai para dizer que alguma coisa estava acontecendo e eu não sabia o que era. Já tinham acontecido dois piripaques comigo e pelo visto eu tinha alguma coisa que não sabia o que era. Achei que eu pudesse chegar com um diagnóstico, mas infelizmente não tinha nenhum. Liguei e abri o jogo, contei o que tinha acontecido, contei que já tinha acontecido antes quando meu pai, após uma pausa dramática me falou:
 

“Filha, o que você tem é Síndrome do Pânico, convivo com isso desde os meus 28 anos. Estou indo para o Rio agora para te ajudar, mas fique tranquila que é possível viver numa boa com isso, eu vou te ajudar a passar por isso.”

 

 
Me senti uma completa ignorante. Como meu pai tem isso desde antes de eu nascer e eu não tinha ideia do que era ou melhor, de como era? Eu tinha uma imagem na minha cabeça dessa Síndrome de que era uma pessoa que tinha medo de sair de casa, que ficasse num canto com medo, eu não sabia que era assim! Quanta falta de informação, imagina quanta coisa a gente pinta na nossa cabeça por pura ignorância. Mas porra, bota no google imagens ‘síndrome do pânico’ pra vocês verem o que aparece! Hahaha.

 

 
Meu pai chegou no Rio e me confortou muito, me ensinou algumas técnicas de respiração para interromper a evolução do piripaque, que agora eu chamava de crise, me falou da importância de começar a fazer terapia, de ir a um médico pra saber de eu precisaria tomar remédios ou não. Me deixou tranquila, disse que no começo seria difícil mas que as coisas iriam se normalizar. E se normalizaram mesmo.

 
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☻ Não há um perfil exato de pessoas com pânico, não tem um porquê exato dele se manifestar, podem ser muitos fatores, traumas, estresse, mudanças bruscas, situações, é muito importante procurar tratamento, fazer terapia, pra que possamos entender a causa das crises e aprender a lidar melhor com isso.

 
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☻ O nosso corpo tem muitas válvulas de escape, nós somatizamos, nós temos gastrites nervosas e temos crises de ansiedade. A Síndrome do Pânico nada mais é quando o nosso corpo vai acumulando adrenalina e de repente tem uma descarga muito forte dela, seja onde você estiver. É como se naturalmente fossemos acumulando um copinho de adrenalina no cérebro e a crise é quando esse copinho entorna e vaza. Quando isso acontece, os sintomas são de morte iminente, sudorese, palpitações, taquicardia, pressão na cabeça, falta de ar, tontura, náusea, formigamento, tremedeira, etc. :( Basicamente você acha que vai ter um treco. Acha não, você tem certeza de que vai ter um treco.

 

 
☻ O esgotamento que sentimos depois das crises é por causa da tensão em que o corpo se mantém durante, é um exercício físico e mental muito pesado.

☻  Meu pai me passou uma série de respirações que relaxam os músculos do corpo e eu consegui interromper todas as futuras crises, só experienciando o princípio da crise, isso até hoje. Resumidamente, no começo, ele pedia pra que eu deitasse no chão e respirasse em tempos, aspira em 3 tempos e expira em 6, fazendo com que mais ar saia do seu corpo. Por que no chão? Porque você consegue sentir o seu corpo tensionado e consegue concentrar onde tem que relaxar, se você está num colchão macio é mais difícil de perceber os músculos tensionados.

☻ Eu escolhi não tomar remédio porque eu pude escolher, mas por favor, não se enganem, eu consegui interromper o ciclo do medo, mas mudei completamente a minha rotina, passei a ter hora pra acordar, pra trabalhar, pra comer, comia mais saudável, parei de beber por um tempo, praticava esportes, comecei a fazer yoga e terapia. Mas ainda assim tem gente que precisa sim tomar remédio pra que isso aconteça, então por favor, vá num médico de confiança, e se não tiver um, como é o meu caso, vá em mais de um até se sentir confortável com alguém que acredite em você, te entenda e queira te ajudar.

 
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☻ Não seja duro com você mesmo, demorei mais de seis meses pra poder me sentir um pouco segura de fazer as coisas normais de novo, demora um pouco mas é de pessoa pra pessoa. Acredite que você pode ser uma pessoa completamente normal e conviver com a Síndrome. Eu ainda tenho alguns princípios de crise, mas nunca mais tive nenhuma crise. Conheço muitas pessoas que nunca mais tiveram nem princípio de crise, então acredite, podemos sair dessa! :)

 
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É isso, galeura. Coloquei muitos gifs pra tentar passar a informação de forma mais bem humorada possível mesmo sabendo que é um assunto delicado. Gosto de lidar com meus problemas dessa forma, me ajuda a tornar as experiências mais leves. Espero que essa minha experiência possa servir de ajuda pra alguém. Se ainda precisarem saber alguma coisa, podem deixar comentários que eu vou ter o maior prazer de ajudar, se for possível. Beixota. ♡

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Pessoalmente acredito que seja muito importante mostrar em séries e filmes de cunho histórico não-fictício, como eram os costumes, mostrar como mulheres exerciam seus poderes nas entrelinhas e como eram subordinadas, comportamentos machistas ao extremo, estupros. De modo que isso nos faz reviver um museu de nosso próprio caráter passado e mostrar o que evoluímos e o que ainda temos pra evoluir. Mais memória real e impactante sobre a ditadura no Brasil teria sido muito importante para essa geração de seguidores do Bolsomito (bolsonaro + vômito), por exemplo. Dito isso, sou extremamente contra qualquer cena em série ou filme de caráter fictício e/ou distópico que mostre uma subordinação de uma mulher não condenada pela narrativa e as vezes pior, romantizada. A mostre como inferior e estupro então, nem se fala. Tirar a cultura do estupro de pauta é uma urgência latente.

Sabemos que Game of Thrones é uma série que muitas pessoas gostam e apesar de terem muitas mulheres no poder, fazendo vilãs, mocinhas e mulheres comuns sem os devidos extremos estereótipos, apresenta muitas problematizações no sentido: por que tanto estupro? Estupro corretivo, estupro entre casais, estupro de casamento não consentido, estupro ordenado para punir, etc. Os maiores fãs da série dizem que “na época acontecia essas coisas”, só gostaria de lembrar que não existe essa “época”, é uma série ficcional, de um tempo ficcional, que pode se assemelhar a diversos tempos da nossa linha temporal, porém há cenas não justificáveis. Se a gente quer acabar com a cultura do estupro, seria muito mais interessante promover o empoderamento da mulher do que a subjugação histórica que nós tivemos e ainda temos (de 11 em 11 minutos no Brasil). Boicotar a série ou não é uma opção individual, porém é muito importante reconhecer onde há romantização de estupro e fazer críticas pesadas sobre o tema. Apenas.

Fazendo uma avaliação mais contemporânea, a gente pode também comparar com abusos de autoridade e poder. Micro e macro relações machistas diárias apenas para institucionalizar que há uma hierarquia de poder ainda que técnica e intelectualmente já tenhamos superado isso há séculos. Por que se precisa abusar de alguém quando está em situação vulnerável? Por situação vulnerável podemos listar várias coisas como, sob efeito de álcool, com medo, desmaiada, emocionalmente abalada, diferença gritante de idade, subordinada, crianças e idosos.

Lembrando sempre que homens e mulheres são diferentes biologicamente sim e a força é uma questão que interfere na subordinação da mulher há milênios. É bom lembrar porque feminismo pede igualdade perante a lei e equidade, ou seja, uma equivalência para nos tornarmos iguais perante a sociedade. Como já disse antes, já superamos há séculos essas questões e aqui uma galeria de pinturas da Idade Média para o deleite feminimo empoderador (clique no centro da imagem para ver todas).

Infelizmente, todas nós sabemos que homens próximos (amigos, familiares) e omis (termo de homem de internet que a gente não conhece e faz questão de ser agressivo) sempre nos dizem e repetem: Nem todos os homens. Pessoalmente consigo entender minimamente o porquê eles repetem isso frequentemente. Quando eu descobri que era opressora de mulheres negras e pobres (sou branca e classe média), fiquei muito angustiada e mal, mas nunca questionei isso, pelo contrário. Entendi que eu tenho a cara do opressor e fiz questão de manejar minha militância para as pautas mais urgentes. Muito mais urgentes que as minhas (empatia salva, galeura).

Sei que internalizar e digerir as questões é uma característica minha, mas não é característica da maioria dos homens e omis que foram criados livremente para serem exploradores, dominadores e questionadores. E por que não interpeladores? Interpeladores sim e confortáveis com isso. Já tentei os fazer entender o porquê, mas deixo aqui um trecho de um livro de uma escritora feminista de 1985 que já tinha que lidar com esse argumento.

Sabe o que acontece quando expomos uma situação absurda e o que ouvimos é “nem todo homem”? A situação explanada é altamente relevada. Os sentimentos de mágoa pessoal, por não quererem assumir a cara/frente das opressões milenares de gênero, etnia, classe, etc., tornam-se mais relevantes do que todas essas opressões. O que acontece é que se dá a perpetuação da subordinação das questões femininas e das minorias mais uma vez. Vence o micro machismo diário, vence o egoísmo e fica óbvio do porquê homens não podem ser feministas.
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Então chega de feminismo liberal por hoje e eu vou voltar pra minha série porque águas ainda vão rolar e Isabel ainda vai se tornar rainha da porra toda. Desculpem o spoiler.

Ilustração feita com exclusividade por Sarah Assaf.

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