Ouça: Angel Haze

Pensa em uma mulher f*. Com uma história de vida pesada. Agora a imagine com um microfone na mão, fazendo rap sobre sua infância e adolescência violentas. Essa é Angel Haze, uma rapper americana, com origens indígena e africana, que nos presenteia com letras marcantes e questionadoras.

Batizada Raeen Angel Wilson, a rapper nasceu em Detroit em 1991, depois que seu pai, envolvido em diferentes gangues, morreu com um tiro no estômago numa briga. Sua mãe era uma índia Cherokee que começou a se relacionar com um pastor da Greater Apostolic Faith, uma vertente americana da igreja pentecostal cristã.

Em um artigo sobre Angel Haze, o jornalista Tom Lamont, do Guardian, descreve essa religião como uma que admite que os homens que estão dentro dela se comportem de forma extravagante. Como no caso do padrasto de Haze, que tinha outra esposa e filhos, mas dizia que Deus queria que a família Wilson fosse morar com eles.

[caption id="attachment_14103" align="alignnone" width="800"] Foto de Andre Harry[/caption]

Até os 14 anos, Angel Haze viveu nessa comunidade religiosa e cresceu com a ideia de que poderia morrer espontaneamente caso não se comportasse adequadamente.

Foi também ali que a rapper foi abusada sexualmente quando tinha apenas sete anos. O homem que a atacou era um amigo da família que tinha livre acesso a casa e as crianças. Ela fala explicitamente sobre isso na sua releitura de “Cleaning Up my Closet”, de Eminem.

“E aconteceu em uma casa
Onde todos sabiam (…)
Uma noite ele chegou em casa e eu estava dormindo na minha cama.
Ele subiu em cima de mim e se forçou entre minhas pernas
E ele disse, ei Ray, eu vi que você gosta de picolés
Então coloca a boca no meu pau e engole essa porra
(…) Imagine ter sete anos e ver porra na sua calcinha
Eu sei que é desagradável, mas às vezes eu até sangro pela bunda
Nojento, não é? Agora deixa esse sentimento te tocar fundo”

A letra toda é explícita, sem segredos, e nos faz encarar seus traumas como menina e como mulher. Em sua entrevista para o Guardian, a rapper diz que, antes da música, não conseguia ficar no mesmo espaço consiga mesma sem se ver sendo arrastada para o fundo por suas experiências de vida. Mas com a música, ela consegue colocar isso pra fora e “vomitar demônios pra todos os lados”.

O clipe do single Battle Cry parece ser outra forte referência ao seu passado. Nele, um pastor parece tirar os demônios de uma garotinha em um culto, enquanto sua mãe e um segundo homem observam. Depois disso, ela é colocada no carro com esse homem, enquanto chora pela mãe. Haze passa pela cena e canta: “Mas um dia você será mais forte do que tudo isso./ Você será./ E então você poderá dizer/ Não há dinheiro que possa comprar/Todo o amor que está aqui, esta noite”.

Seu passado e seu presente de superação são temas recorrentes em suas letras, como em A Tribe Called Red, Black Dahlia e Black Synagoge, todas do álbum Dirty Gold, de 2013. O seu mais recente álbum é Black To The Woods, de 2015.

Vale lembrar que Angel Haze ficou também conhecida por seu relacionamento com a modelo Ireland Baldwin, filha de Alec Baldwin e Kim Basinger. Mas a rapper não gosta de se definir como gay, bi ou hetero, apenas como ela mesma, Angel Haze, um vulcão em erupção depois de anos sendo oprimido.

O seu mais recente single é exatamente sobre isso. Sobre ressurgir como uma fênix. É lindo e ficamos felizes em ver que Haze sobreviveu ao seu passado.

Para conferir mais sobre essa monstra detonadora do rap, dá uma conferida na sua página do Facebook, Spotify, Instagram e YouTube.

Escrito por
Mais de Débora Backes

Ultrapassando os limites da cor

Passing” de Nella Larsen é uma novela sobre identidade. Sobre conhecer e desconhecer uma identidade. Sobre o jogo entre possibilidades de se ter diferentes identidades em uma pessoa só.

Na década de 1920 nos Estados Unidos, a “color line”, linha de limite entre negros e brancos, era um tema bastante delicado. Nesse contexto, negros de pele mais clara e de descendência mista praticavam algo chamado “passing”. Em uma sociedade, em que raça determinava quem podia ou não frequentar certos lugares, ter determinados empregos e morar em um bairro lá ou aqui, “passing” era quase como uma forma de sobrevivência. Como é o caso de uma das principais personagens da novela.

O livro de Nella Larsen, publicado em 1929, conta a história das amigas de infância Irene Redfield e Claire Kendry. Duas mulheres com passados iguais e um presente muito parecido, tirando alguns detalhes. As duas foram criadas no bairro de maioria afro-americana Harlem, em Nova York. Até que a morte do pai de Claire fez com que ela desaparecesse da vizinhança, o que despertou fofocas dos moradores.
PassingA novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.

Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.

Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.

Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.

Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.

A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.

Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
 

 
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.

Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
 

Imagem de capa feita a partir da edição do livro pela African/American Library

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Guardian, a rapper diz que, antes da música, não conseguia ficar no mesmo espaço consiga mesma sem se ver sendo arrastada para o fundo por suas experiências de vida. Mas com a música, ela consegue colocar isso pra fora e “vomitar demônios pra todos os lados”.

O clipe do single Battle Cry parece ser outra forte referência ao seu passado. Nele, um pastor parece tirar os demônios de uma garotinha em um culto, enquanto sua mãe e um segundo homem observam. Depois disso, ela é colocada no carro com esse homem, enquanto chora pela mãe. Haze passa pela cena e canta: “Mas um dia você será mais forte do que tudo isso./ Você será./ E então você poderá dizer/ Não há dinheiro que possa comprar/Todo o amor que está aqui, esta noite”.

Seu passado e seu presente de superação são temas recorrentes em suas letras, como em A Tribe Called Red, Black Dahlia e Black Synagoge, todas do álbum Dirty Gold, de 2013. O seu mais recente álbum é Black To The Woods, de 2015.

Vale lembrar que Angel Haze ficou também conhecida por seu relacionamento com a modelo Ireland Baldwin, filha de Alec Baldwin e Kim Basinger. Mas a rapper não gosta de se definir como gay, bi ou hetero, apenas como ela mesma, Angel Haze, um vulcão em erupção depois de anos sendo oprimido.

O seu mais recente single é exatamente sobre isso. Sobre ressurgir como uma fênix. É lindo e ficamos felizes em ver que Haze sobreviveu ao seu passado.

Para conferir mais sobre essa monstra detonadora do rap, dá uma conferida na sua página do Facebook, Spotify, Instagram e YouTube.

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