O dia em que raspei o meu cabelo

Em 2012, eu raspei todo o meu cabelo. O processo foi gradual, não raspei de um dia para o outro. Tudo começou com uma obsessão pelo corte joãozinho da Emma Watson em 2010. Um ano depois juntei coragem para cortar as madeixas (que chegavam na altura do meu peito) a lá Jean Seberg. Mais um ano e consegui raspar tudo usando a máquina de barbear de um amigo.

Ok, passei do primeiro parágrafo. Do jeito que isso está escrito parece que cortar o cabelo é tipo, ALGO MUITO IMPORTANTE. Mas na verdade… será que não é? Eu demorei muito tempo para conseguir cortar meu cabelo, e não foi por medo de não ficar bom. O fato que todas conhecemos é que cabelo comprido é intimamente relacionado, no subconsciente coletivo da nossa sociedade, com feminilidade, com ser mulher.

De certa forma, acho que foi isso que me impulsionou a raspar o cabelo. Um cansaço geral de ser mulher, de ter pessoas me agarrando e puxando na rua, assediando no metrô, e tudo o mais que sabemos ser tão real.

Lembro que quando contei para as pessoas que iria cortar meu cabelo tive de ouvir comentários do tipo “Mas como vão saber que você é menina?” (uh, porque eu sou?) ou “Mas o que o seu namorado vai achar?”. Ninguém me perguntava se eu estava preparada para ir todo mês ao salão para manter o corte, ou como eu ia fazer para deixar crescer quando tivesse cansado (perguntas de fato relevantes sobre coisas que de fato são problemas de verdade quando se corta o cabelo curtinho). Todos estavam muito mais preocupados com o quão “mulher” eu ainda seria.

Sem cabelo, não conseguia mais me esconder, seja fisicamente atrás de uma cortina quando não tivesse com coragem de enfrentar o mundo a minha volta, seja emocionalmente atrás de penteados.

De certa forma, acho que foi isso que me impulsionou a raspar o cabelo. Um cansaço geral de ser mulher, de ter pessoas me agarrando e puxando na rua, assediando no metrô, e tudo o mais que sabemos ser tão real. A sensação que me deu é que raspar o cabelo tirou de mim tudo aquilo que fazia as pessoas me identificarem a primeira vista como mulher e me colocarem no espaço designado da mulher – como mulheres “não femininas” (usando mil aspas) dificilmente são consideradas sensuais pela sociedade, raspar o cabelo acaba te tirando da zona de conforto de todo mundo. Para mim, foi como se eu tivesse explodido do molde e colocado a minha cara no mundo. Sem cabelo, não conseguia mais me esconder, seja fisicamente atrás de uma cortina quando não tivesse com coragem de enfrentar o mundo a minha volta, seja emocionalmente atrás de penteados. Pela primeira vez, senti que era eu quem estava ocupando aquele espaço, e não um holograma de estereótipos femininos. E, com a falta de cabelo, veio a minha voz. Me sentindo no meu próprio corpo e ocupando o meu próprio espaço, me sentindo uma presença física no mundo, foi muito mais fácil conseguir ter a força de me posicionar e vocalizar as minhas vontades e minhas lutas.

Isso que eu conto é a minha experiência raspando o cabelo. Não sei se é a mesma para todo mundo, mas pelo que conversei com amigas que também rasparam, sinto que elas passaram por um processo similar. Como se você descascasse sua pele para renascer de maneira mais crua, mais tátil, mais real. Fui feliz sendo a minha própria Dalila. Tirar a minha ‘fonte da minha força’ foi a melhor coisa que já fiz por mim.

[caption id="attachment_1635" align="aligncenter" width="960"]Barbara Mastrobuono Pra quem só acredita vendo.[/caption]

(imagens: cabeloscurtos.tumblr.com e baldblackbeauties.tumblr.com)

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Por um mundo com menos caras legais

É hora de textão desabafo. Depois do ‪#meuprimeiroassédio e ‪#‎agoraéquesãoelas surgiram algumas respostas de homens do tipo #meaculpa e outras defesas piores que não quero nem comentar, e honestamente já deu.

Estou CANSADA de ver homem defendendo o assédio dele com a razão “mas eu sou uma ótima pessoa”. Querido, pode ser que você acorde cedo e lave prato e divida todas as contas possíveis do restaurante, que sua mãe trabalhe com você e você tenha várias amigas mulheres, que você se considere feminista e ache que todas nós temos o direito de votar. Pode ser, mesmo. Acontece que todos nós (sim, todos nós, eu inclusive, e sua mãe que trabalha com você) somos produtos de uma sociedade machista, e como tal, acabamos cometendo atitudes opressoras. Então, homem, caso você se veja sendo alertado ao fato de que cometeu uma atitude opressora, por favor nos poupe dos seus relatos de como você é um indivíduo fantástico. Você pode ser a pessoa mais maravilhosa do mundo, isso não te isenta de cometer atitudes opressoras. Afinal, tem muita mulher fantástica por ai que lavou muita louça e sempre dividiu conta que tá sendo estuprada, então a essa altura a gente sabe que ser fantástico não conta para nada. Se você, lendo as hashtags do primeiro assédio, lendo os textos do Agora é que são elas, percebeu que você também já teve atitudes opressoras, use isso como um momento de reflexão. Converse com seus amigos, veja o que podem fazer para desconstruir, para melhorar. Não vem pedir confete já que “olha, ofendi aqui, mas na verdade sou um cara super”. “Nossa, você sempre dividiu a conta? Ah, então tudo bem! Vou avisar aquela menina que você chamou de vadia pros amigos porque ela não quis te beijar, pode deixar que a gente te coloca no banco de dados feminista como ‘cara que sempre lavou a louça e na verdade é super legal'”. Meaculpa na delegacia ninguém tá fazendo né?

Acho engraçado também a velocidade com a qual homens que estão se envolvendo na defesa desses movimentos que estão brotando ultimamente pulam para defender o amiguinho que é legal mas foi acusado de machismo. Gente, se chama DESCONSTRUÇÃO, não diversão. Se fosse fácil ia chamar dia-na-praia, não vamos-desconstruir-e-tentar-derrubar-o-patriarcado-pras-mina-viver-em-paz. Porque acreditem, a única coisa pior que ter o seu espaço violado é depois ter que ouvir que o cara que violou o espaço é super legal então é pra você relevar. Dói ter que perceber que foi machista? Que machucou a menina? Que as pessoas vão achar você escroto pelo que fez? Que a sua ação teve significados que você não achava que teriam? Que você foi opressor, que colaborou para propagar um sistema opressor que tira vidas todos os dias? Dói. Mas dói muito, muito mais ver homens que dizem estar ajudando achando mais importante tirar o deles da reta porque são “caras legais” do que estar genuinamente interessados em fazer algo para mudar essa situação. Se metade da energia que os homens colocam em se justificar e tentar provar que eles são legais fosse posta em homens conversando um com o outro, tentando entender porque eles agiram desse jeito e tentando desconstruir juntos o machismo deles, a gente já estaria topless na praia com o aborto legalizado. Ou em um plano mais realista, talvez se os homens usassem suas plataformas de amplo acesso para explicar porque o que fizeram foi errado e machucou, ao invés de se justificar e tentar convencer todo mundo de como eles são caras ótimos, a gente já estaria andando de shorts na rua sem medo (parece tão pouco a se pedir né?).

Às vezes vale mais simplesmente ouvir, refletir, pedir desculpas. E pronto. Isso que vai fazer de você, não um cara legal que vai ganhar biscoito das feministas, mas uma pessoa humana, que entende a importância de tratar os outros com a mesma humanidade que espera que tratem você, entendendo de uma vez por todas que a dor do outro é mais importante que a sua justificativa. E que, no mundo real, onde mulheres são assassinadas todos os dias, não vai fazer a mínima diferença quantas louças você já lavou.
 

Arte da capa via.

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cabeloscurtos.tumblr.com e baldblackbeauties.tumblr.com)

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