Pendure suas musas na árvore de natal

Esse ano, como forma de agradecimento por tudo que se passou em 2014, decidi decorar a minha árvore só com sentimentos doces. Junto dos bibelôs tradicionais estou pendurando fotos de pessoas que me inspiraram, de bons momentos, e das pessoas que eu amo na árvore. Aqui vou ensinar como fazer essas decorações, mas elas realmente não se restringem a árvore de natal (afinal, não é todo mundo que celebra o natal): podem ser usadas para decorar a casa, ou para dar de presente para o seu melhor amigx, para decorações de páscoa…

Foto I

Para esse tutorial vou usar uma foto da Maya Angelou, uma de minhas poetas preferidas (que, para o pesar de todos, faleceu esse ano), e uma de Billie Holiday, cujas musicas me ajudaram a sobreviver os dias mais pesados de 2014.

Para fazer seus próprios enfeites de natal você vai precisar de:

  • Fotos que quer usar no seu enfeite (pode ser de uma pessoa que te inspira, que você admira, de você e seus amigos, trechos de poemas ou musicas que você ama, enfim, o que deixar você mais feliz). Eu imprimi as minhas fotos usando uma impressora PB e depois recortei.
  • Uma tesoura
  • Papel colorido
  • Cola (Pritt ou branca, o que você preferir; dependendo do que você for usar para enfeitar sua decoração, pode ser cola quente também)
  • Coisas de decoração (eu estou usando glitter e pétalas de flor, mas isso vai de acordo com o gosto de cada um)

 

1. Faça o esqueleto da sua decoração

A primeiríssima coisa que você precisa fazer é recortar a sua foto no formato que achar melhor para a sua decoração. Eu escolhi cortar as duas fotos em uma forma retangular, mas isso foi por pura incapacidade de usar uma tesoura. Você pode cortar suas fotos de maneira circular, oval, etc. Depois disso, você vai cortar o papelão e colar sua foto em cima, criando uma base.

Eu colei a foto na Maya Angelou em uma base verde. Depois, escrevi a última estrofe do meu poema preferido dela, I know why the caged bird sings, em torno da foto.

The caged bird sings
With a fearful trill
Of things unknown
But longed for still
And his tune is heard
On the distant hill
For the caged bird
Sings of freedom.

Para a Billie, fiz uma base mais simples, só com papelão azul.

Billie

2. Decorate it!

Agora é hora da decoração pesada. Recorte um pedaço de papelão que seja maior do que o seu esqueleto. Você vai decorar esse pedaço, e em seguida colar o seu esqueleto em cima dele.

Não esqueça de deixar uma margem larga o suficiente para fazer o furinho no qual você vai passar o barbante! O melhor momento para fazer o furo é logo antes de começar a colar coisas no papelão. Para fazer o furo basta usar um furador ou uma tesoura (ou, se você é super bem preparada como eu, um prego). Depois, passe um fio por ele e amarre bem o nó.

Foto III

Agora é a melhor parte. Cole pétalas, jogue glitter, lã, lágrimas dos seus inimigos (no melhor espírito de natal), e o que mais o seu coração desejar.

foto IV

3. Junte tudo e… violà

Agora é só colar o seu esqueleto no papelão decorado, e pronto!

Dica: imediatamente depois de colar, coloque um livro gordo em cima da decoração para garantir que esteja colando sem rugosidades (mas antes, certifique-se de que não haja cola saindo pela lateral que possa manchar a capa do seu livro).

foto V

foto VI

Divirta-se!

Mais de Barbara Mastrobuono

Chega de silêncio

Esse texto ia começar como um texto sobre #meuamigosecreto. Eu ainda não participei da campanha, inicialmente porque sei que as pessoas para quem eu mandaria isso nunca iriam ler já que não as tenho na minha timeline faz tempo, mas provavelmente também por receio de abrir a caixinha chamada LEMBRANÇAS REPRIMIDAS QUE EU AINDA NÃO DIGERI que ocupa um espaço bem confortável na prateleira infinita chamada minha memória. Estou achando um movimento lindo, como acho lindos todos os movimentos que mostram que unidasvenceremos. O silêncio não reina mais entre as mulheres.

Lembro quando eu era nova, quando comecei a ser assediada na rua. O que mais me choca, mais do que os assédios terem acontecido, é o silencio que os rodeava/rodeia. Se você tem quatorze anos, passa na rua e um homem te chama de gostosa, você obviamente não é a única pessoa que ouviu. Mas ninguém fala nada. Pelo menos, era assim quando eu era mais nova. E não é só esse silêncio. Era o silêncio na minha casa também. Em casa somos eu e minha irmã, mas ninguém nunca veio falar a respeito de assédio com a gente (tirando um episódio infortúnio onde eu, já com vinte anos, fui censurada por usar um shorts na rua à noite já que “você não é mais criança”. Como se ser criança defendesse alguém de alguma coisa). Minha mãe nunca nos preparou para o que estava vindo da rua, do mesmo jeito que tenho certeza de que ela nunca foi preparada, e a minha vó, antes dela, também não. Eu e minha irmã nunca falamos entre nós sobre o que passamos nas calçadas, nas salas de aula, na aula de violino, no táxi. Eu tinha apenas uma amiga que falava sobre isso, uma menina que eu admiro muito e que era considerada uma vadia por todos ao nosso redor, inclusive pela família dela, por ser a única corajosa o suficiente para encarnar sua sexualidade. O silêncio nos cobre feito um manto, criando um arquipélago de mulheres, separadas por litros e litros de tudo aquilo que não dissemos. Que não dissemos uma para a outra, que não dissemos para o nosso agressor.

A primeira vez que me ocorreu que eu não precisava ficar em silêncio foi quando tinha vinte e dois anos e conheci uma das minhas heroínas da vida real, uma mulher que tenho a honra de chamar de amiga. A gente havia marcado de se encontrar em pinheiros, e quando eu cheguei no lugar marcado telefonei para ela para perguntar se ela estava chegando. Sua voz flutuou para mim do outro lado da linha “To chegan… QUE FOI?? QUE FOI??!!”. Me pediu licença e desligou o telefone. Quando ela chegou, fui correndo ver o que era, achava que ela tinha sido atropelada. Lembro até hoje o sorriso leve que ela me deu, como se estivesse falando sobre qualquer outra coisa, “Ah, nada, era só uns caras que tavam olhando para mim”.

Eu nunca vi uma mulher gritando com um tarado machista na rua – mas sei de muitas que o fazem. Inclusive, atualmente sou uma delas. Toda vez que meu coração pesa na hora de gritar, lembro da Barbara de quatorze anos, e como a vida dela teria sido diferente se um dia, voltando para a casa da escola, ela tivesse ouvindo uma mulher gritando com um tarado, mostrando para ele que quem estava errado era ele, não ela, não ela por estar na rua, por ser mulher e estar na rua. Talvez um dia uma menina de quatorze anos me veja gritando e saiba que ela não precisa ficar em silêncio.

Tenho muito orgulho das meninas de hoje em dia. São meninas de dezenove, quatorze, doze anos que não estão mais aqui para ser saco de pancadas. Elas gritam mesmo, elas apontam mesmo. Vi menina nova questionando imposição da ditadura de beleza branca, restrições de roupa, machismo na sala de aula, tudo. Meninas que gritam mesmo, não só com tarado na rua, mas com o patriarcado. Meninas liderando ocupações nas escolas paulistanas. Meninas cantando que duro é o seu racismo, não o cabelo delas. Meninas que andam na rua de mãos dadas com a namorada. O orgulho é tanto, nem cabe no peito. As coisas estão mudando. Estamos lentamente secando a água a nossa volta, construindo pontes entre nossas ilhas, entendendo que na verdade não somos ilhas porcaria nenhuma, somos é um continente inteiro, os homens que nos aguardem. Somos muitas e viemos armadas, e não vamos mais pedir o que é nosso por direito, vamos tomar das suas mãos com tudo que temos. Antes eu estava sozinha mas agora encontro voz nas minhas irmãs, e espero com todo o meu coração que algumas delas consigam encontrar voz em mim.

Enquanto isso, enquanto ouço as mulheres acordando à minha volta, milhares de pequenas vozes que se juntam e crescem e urram, que hoje começam delatando pelo #meuamigosecreto e amanhã estarão dando nome aos bois e arrastando para praça pública, entendo também que é só com o canto delas que consigo rasgar o silêncio que ainda reina em mim. Porque ele ainda reina, e reina soberbo… Talvez a razão principal pela qual não tenha conseguido participar do #meuamigosecreto seja que eu sei muito bem quem é o meu…
 

#Meuamigosecreto sou eu.

Sou eu toda vez que me calo perante um agressor.

Sou eu toda vez que deixo o medo do estupro me impedir de lutar pelo que eu acredito.

Sou eu toda vez que deixo o medo de estupro impedir uma amiga corajosa de lutar pelo que ela acredita.

Sou eu toda vez que deixo passar porque estou cansada de lutar.

Sou eu toda vez que esqueço uma irmã, quando me deixo cair nas picuinhas do dia a dia.

Sou eu toda vez que deixo o patriarcado vencer, quando deixo ele me convencer de que eu não tenho força, quando deixo ele me convencer de que eu nunca, nunca, nunca serei o suficiente.

Agora chega de silêncio.

 
E você, homem, que achou que a gente ia passar o resto das nossas vidas olhando para o chão enquanto você abusa da gente, é pra ficar com medo sim. Somos muitas, e nosso grito vai rasgar a sua carne.
 

Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.

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Para esse tutorial vou usar uma foto da Maya Angelou, uma de minhas poetas preferidas (que, para o pesar de todos, faleceu esse ano), e uma de Billie Holiday, cujas musicas me ajudaram a sobreviver os dias mais pesados de 2014.

Para fazer seus próprios enfeites de natal você vai precisar de:

  • Fotos que quer usar no seu enfeite (pode ser de uma pessoa que te inspira, que você admira, de você e seus amigos, trechos de poemas ou musicas que você ama, enfim, o que deixar você mais feliz). Eu imprimi as minhas fotos usando uma impressora PB e depois recortei.
  • Uma tesoura
  • Papel colorido
  • Cola (Pritt ou branca, o que você preferir; dependendo do que você for usar para enfeitar sua decoração, pode ser cola quente também)
  • Coisas de decoração (eu estou usando glitter e pétalas de flor, mas isso vai de acordo com o gosto de cada um)

 

1. Faça o esqueleto da sua decoração

A primeiríssima coisa que você precisa fazer é recortar a sua foto no formato que achar melhor para a sua decoração. Eu escolhi cortar as duas fotos em uma forma retangular, mas isso foi por pura incapacidade de usar uma tesoura. Você pode cortar suas fotos de maneira circular, oval, etc. Depois disso, você vai cortar o papelão e colar sua foto em cima, criando uma base.

Eu colei a foto na Maya Angelou em uma base verde. Depois, escrevi a última estrofe do meu poema preferido dela, I know why the caged bird sings, em torno da foto.

The caged bird sings
With a fearful trill
Of things unknown
But longed for still
And his tune is heard
On the distant hill
For the caged bird
Sings of freedom.

Para a Billie, fiz uma base mais simples, só com papelão azul.

Billie

2. Decorate it!

Agora é hora da decoração pesada. Recorte um pedaço de papelão que seja maior do que o seu esqueleto. Você vai decorar esse pedaço, e em seguida colar o seu esqueleto em cima dele.

Não esqueça de deixar uma margem larga o suficiente para fazer o furinho no qual você vai passar o barbante! O melhor momento para fazer o furo é logo antes de começar a colar coisas no papelão. Para fazer o furo basta usar um furador ou uma tesoura (ou, se você é super bem preparada como eu, um prego). Depois, passe um fio por ele e amarre bem o nó.

Foto III

Agora é a melhor parte. Cole pétalas, jogue glitter, lã, lágrimas dos seus inimigos (no melhor espírito de natal), e o que mais o seu coração desejar.

foto IV

3. Junte tudo e… violà

Agora é só colar o seu esqueleto no papelão decorado, e pronto!

Dica: imediatamente depois de colar, coloque um livro gordo em cima da decoração para garantir que esteja colando sem rugosidades (mas antes, certifique-se de que não haja cola saindo pela lateral que possa manchar a capa do seu livro).

foto V

foto VI

Divirta-se!

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