Lady sings the blues

Billie Holiday | Ovelha

Hoje comemoramos o centenário de Billie Holiday, nossa querida Lady Day. A moça foi uma das cantoras de jazz mais talentosas da história da música, cantando ao lado de nomes como Louis Armstrong e Artie Shaw. Holiday foi uma das primeiras cantoras negras a trabalhar com uma orquestra branca, e na década de 30 ela deu voz ao nascente movimento pela igualdade racial estadounidense com a canção Strange Fruit.

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Trata-se de uma versão musical do poema homônimo de Abel Meerpol, escritor judeu que criou Strange Fruit após ver uma foto de dois jovens negros linchados em Marion, Indiana. A foto aterrorizadora mostra Thomas Shipp e Abram Smith pendendo de uma árvore como um grotesco evento de entretenimento local, os espectadores brancos causalmente espalhando pela relva, olhando para a câmera com olhos perturbadoramente descompromissados. Na época Billie Holiday trabalhava para a Columbia Records. O selo proibiu-a de gravar a canção, mas Holiday não desistiu e liberou a música pelo selo alternativo Commodore. Strange Fruit foi a primeira canção a chamar atenção ao problema dos linchamentos nos Estados Unidos. David Margolick, autor de Strange Fruit, livro que descreve a trajetória da canção, descreve bem a sensação causada pela canção na época: “Por todo o país, adolescentes tocavam ‘Strange Fruit’ uns para os outros com uma sensação furtiva, como se o fruto em questão não fosse estranho, mas proibido”.

Qualquer um que já ouviu Billie Holiday cantando sabe que não existem palavras para descrever a emoção visceral que ela injeta em suas canções. Por isso não vou nem tentar. Deixo vocês com Strange Fruit, e com uma sensação de gratidão – pela força, pela luta e pela dor, tão necessária, para não esquecer.

 

 

Strange Fruit

Southern trees bear a strange fruit

Blood on the leaves and blood at the root

Black bodies swinging in the southern breeze

Strange fruit hanging from the poplar trees

 

Pastoral scene of the gallant south

The bulging eyes and the twisted mouth

Scent of magnolias, sweet and fresh

Then the sudden smell of burning flesh

 

Here is fruit for the crows to pluck

For the rain to gather, for the wind to suck

For the sun to rot, for the trees to drop

Here is a strange and bitter crop

 

Fruta Estranha

Árvores do sul produzem uma fruta estranha

Sangue nas folhas e sangue nas raízes

Corpos negros balançando na brisa do sul

Fruta estranha penduradas nos álamos

 

Pastoril cena do valente sul

Os olhos inchados e a boca torcida

Perfume de magnólias, doce e fresca

Depois o repentino cheiro de carne queimada

 

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem

Para a chuva recolher, para o vento sugar

Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair

Aqui está a estranha e amarga colheita

Mais de Barbara Mastrobuono

Mea culpa? Queremos mais

Imagine esta cena: você está andando na rua quando um estranho passa, estica a perna e faz você tropeçar. O que você está fazendo, você pergunta. Não é certo fazer as pessoas tropeçarem no meio da rua. Nossa, responde o estranho, percebo que as minhas ações fizeram parecer que sou uma pessoa que tropeça os outros na rua, mas prometo que essa nunca foi minha intenção. Eu sinto muito. Vou refletir a respeito disso, diz o estranho. E então ele vira e vai embora, deixando você estatelada no meio da rua.

Imagine esta cena: uma atriz brasileira extremamente conhecida escreve um texto a respeito de feminismo. Nesse texto, ela põe que a mulher só estará verdadeiramente livre do machismo quando ela mesma chegar ao glorioso nível conhecido como “ser homem”. Além dessa asneira grotesca, ela ainda por cima descreve sua babá negra como uma “mulata mineira que causava furor por onde passasse”, sendo ‘elevada’ pelos homens “uivando, ganindo, gemendo nas obras”. Alguns dias depois a atriz brasileira extremamente conhecida publica um “Mea culpa”, assumindo, mas não explicando, o racismo e machismo de seu texto. Meses antes desse acontecimento, uma campanha de homens assumindo a culpa do machismo deles intitulada “Mea culpa” ganhou espaço na mídia e nas redes sociais.

Imagine esta cena: uma produtora que trabalha para um museu de grande relevância cultural em São Paulo tem seu corpo violado por parte de um dos integrantes do coletivo de fotografia que irá expor no dito museu. Enquanto ela pousava para uma foto, o agressor se sentiu no direito de passar a mão no peito dela. Depois da agressão, o coletivo, o museu e a produtora se reúnem para deliberar a respeito do ocorrido, e chegam ao acordo de que o agressor não poderá atender à abertura da exposição, mas, honrando seu nome de agressor, ele aparece mesmo assim. O coletivo então (só então) publica uma carta aberta onde dizem rechaçar “qualquer atitude preconceituosa, racista, homofóbica e machista”. Não se pronunciam a respeito de terem escolhido manter o fotógrafo no coletivo.

Esse texto não tem como objetivo criticar ainda mais o texto que a Fernanda Torres publicou no espaço #AgoraÉQueSãoElas ou o acontecido com o coletivo de fotografia SelvaSP na ocasião de sua exposição no MIS, ou falar sobre os inúmeros casos públicos de machismo no nosso dia a dia. Alguém percebeu uma semelhança entre os três exemplos acima? Em todos eles, vemos uma situação onde o agressor poderia ter ajudado a vítima, mas escolhe em vez disso “assumir a culpa” e seguir em frente, feliz e satisfeito com o fato de que deixou claro para tudo e todos que rechaça atitudes machistas, racistas e homofóbicas (insira aqui os seus aplausos). A diferença? O primeiro exemplo é inventado, os outros podem ser encontrados facinho facinho a um clique de distância. São só dois exemplos, mas eu poderia ter enchido a tela.

Tenho ficado um pouco preocupada ultimamente. Quando li a respeito do ocorrido entre o coletivo SelvaSP e a produtora do MIS, corri para a página deles para ver se eles tinham se pronunciado. Haviam sim, mas honestamente? Grandes bostas. Somos contra o machismo e homofobia? Que ótimo queridos, fico muito grata. Agora, vocês estão conscientemente escolhendo manter o seu nome afiliado a um fotógrafo acusado de assédio sexual. Vocês têm todo o direito de fazer essa escolha, mas se vocês de fato estão comprometidos a refletir, como dizem em sua carta aberta, convêm explicar o raciocínio por trás dessa escolha. A mesma coisa vale para a carta da Fernanda Torres. Fico muitíssimo feliz que ela se prontificou em colocar o quanto lhe foi elucidado que ela de fato estava sendo machista e racista. Porém. Porém. Não convêm agora usar o amplo espaço de fala dela, não para explicar que ela nunca teve a intenção de ser machista, mas sim para explicar o porquê de sua fala ser considerada machista e racista? De explicar porque você não pode sensualizar o assédio da sua babá negra? Explicar que mulheres negras têm sido sujeitas a objetificação e sexualização em um nível infinitamente maior que mulheres brancas, e que isso data desde a época da colonização quando as mulheres negras eram estupradas pelos colonizadores? O ideal não seria usar esse espaço de fala para ensinar, educar, ajudar aqueles que você expôs ao seu racismo e machismo naturalizado? Usar esse espaço, não para garantir a todos que foi sem querer, mas para mostrar o que você aprendeu quando aprendeu que o que você falou foi errado, e contribuir para que outros não cometam o mesmo erro que você?

Eu escolhi usar esses dois exemplos mas tenho uma lista infinita de escolhas na ponta dos dedos. Com a popularização e aceitação midiática maior dos movimentos sociais temos observado uma movimentação interessante do mercado, a do abraçar a causa. Temos propagandas abraçando o feminismo, programas de televisão, revistas. Temos pessoas que cobram, e por conta dessas pessoas temos grandes artistas de televisão que se sentem pressionados o suficiente a escrever uma carta de retratação. E é ai que entra a segunda parte do que tem me incomodado.

Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio.

Nos dois casos que eu citei, o que mais me surpreendeu, a razão por eu ter escolhido eles como exemplos, foi a resposta do público após a divulgação dos pedidos de desculpas. Qual foi a minha surpresa em ver comentários na página do coletivo de fotografia exaltando a coragem deles de terem publicado uma retratação. O alívio no suspiro coletivo das pessoas ao lerem a carta de “Mea Culpa” da Fernanda Torres. Ufa, pensamos coletivamente, acho que no fim das contas ela não era racista. Que sorte. Eu gostava tanto dela.

Precisamos exigir mais de nossos ofensores acidentais. Sim, que bom que a Fernanda Torres pediu desculpas. Mas, honestamente? É o mínimo do mínimo. E fazer uma carta falando que sente muito e não parar para levantar a pessoa que derrubou no chão – isso é inaceitável. E está na hora de tomarmos isso como inaceitável. Como preguiçoso, como trabalho dúbio. Sim, precisamos ter flexibilidade, ter paciência, dedicação, vontade de educar. Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio. Significa cobrar mais, significa exigir aquilo que nos é devido: não pedidos-de-desculpas-panos-quentes pra livrar sua barra com as feministas, mas sim ações engajadas, que de fato promovam mudanças nos danos causados pelas suas ações. Não é impossível, tivemos um exemplo muito bom disso com a carta aberta da sorveteria Me Gusta, depois de um caso de homofobia praticado por um funcionário no ano passado. A sorveteria não só assumiu responsabilidade pelo ocorrido, como se responsabilizou por educar os funcionários a respeito de homofobia e promoveu um beijaço LGBT na própria sorveteria. Uma curiosidade importante: o gerente de comunicação da sorveteria é gay. Não é a toa que estavam preparados para remediar o mal que foi causado em seu estabelecimento.

Chega de pedidos meia-boca de desculpa. Chega de falta de comprometimento na hora de remediar o que o seu “acidente” causou. Somos muitas. É não é de migalhas que uma multidão sobrevive.

 

Ilustração feita com exclusividade por Natália Schiavon.
 

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Trata-se de uma versão musical do poema homônimo de Abel Meerpol, escritor judeu que criou Strange Fruit após ver uma foto de dois jovens negros linchados em Marion, Indiana. A foto aterrorizadora mostra Thomas Shipp e Abram Smith pendendo de uma árvore como um grotesco evento de entretenimento local, os espectadores brancos causalmente espalhando pela relva, olhando para a câmera com olhos perturbadoramente descompromissados. Na época Billie Holiday trabalhava para a Columbia Records. O selo proibiu-a de gravar a canção, mas Holiday não desistiu e liberou a música pelo selo alternativo Commodore. Strange Fruit foi a primeira canção a chamar atenção ao problema dos linchamentos nos Estados Unidos. David Margolick, autor de Strange Fruit, livro que descreve a trajetória da canção, descreve bem a sensação causada pela canção na época: “Por todo o país, adolescentes tocavam ‘Strange Fruit’ uns para os outros com uma sensação furtiva, como se o fruto em questão não fosse estranho, mas proibido”.

Qualquer um que já ouviu Billie Holiday cantando sabe que não existem palavras para descrever a emoção visceral que ela injeta em suas canções. Por isso não vou nem tentar. Deixo vocês com Strange Fruit, e com uma sensação de gratidão – pela força, pela luta e pela dor, tão necessária, para não esquecer.

 

 

Strange Fruit

Southern trees bear a strange fruit

Blood on the leaves and blood at the root

Black bodies swinging in the southern breeze

Strange fruit hanging from the poplar trees

 

Pastoral scene of the gallant south

The bulging eyes and the twisted mouth

Scent of magnolias, sweet and fresh

Then the sudden smell of burning flesh

 

Here is fruit for the crows to pluck

For the rain to gather, for the wind to suck

For the sun to rot, for the trees to drop

Here is a strange and bitter crop

 

Fruta Estranha

Árvores do sul produzem uma fruta estranha

Sangue nas folhas e sangue nas raízes

Corpos negros balançando na brisa do sul

Fruta estranha penduradas nos álamos

 

Pastoril cena do valente sul

Os olhos inchados e a boca torcida

Perfume de magnólias, doce e fresca

Depois o repentino cheiro de carne queimada

 

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem

Para a chuva recolher, para o vento sugar

Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair

Aqui está a estranha e amarga colheita

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