Foi o que o professor do curso de alemão indagou Andressa ao ouvir que a estudante de Química Industrial da UFRJ praticava pole dance como hobby. Envergonhada, diante dos colegas que expressavam seu espanto com caras e bocas, imaginando o que a garota devia fazer pendurada num poste, Andressa tentou explicar que aquilo era um esporte como outro qualquer. “Tem até campeonatos mundiais. Até na Alemanha…”, argumentou. Hoje confessa que talvez tivesse tido outra reação diante da turma que, ao ouvir as palavras “pole dance”, já pensou ter uma colega que trabalhava em um strip club. “Eu sempre tentava mostrar que não era só uma dança sensual, que era esporte também. Isso foi um erro, eu acho. Temos que acabar com esse preconceito de que a parte sexy é algo que denigre a imagem da mulher”.
Na minha cabeça, e na de muitas pessoas, o pole dance sempre foi uma prática ligada à sensualidade. Sempre achei isso lindo, exatamente porque as mulheres que praticam sempre me pareceram tão seguras e empoderadas… Mas claro que nem todo mundo vê a sensualidade do pole dance como algo positivo. Muito pelo contrário, e é esse preconceito, como o que Andressa sofreu em frente do curso de alemão, que está prejudicando o pole dance como é conhecido. Para não lidarem com a “vergonha” de serem associados com strip clubs, se criou entre as/os praticantes de pole uma forte corrente que tenta negar as raízes sexy e influências das strippers – justamente as mulheres que fizeram a prática/dança/esporte (como se preferir chamar) popular.
A australiana e pole dancer Magan Joan publicou recentemente um texto no site da Peacock Polewear, em que questiona todo esse slut shamming na própria comunidade de pole dancers e, como argumento, defende o uso de salto altos para dançar. “Você já ouviu falar que o pole fitness descende do pole dance indiano ou chinês? Se sim, você provavelmente foi enganado. A maioria dos estúdios de pole dance foram criados por strippers. Na Austrália a maior parte deles era (de strippers), o que provavelmente é a razão para a grande e magnifica comunidade de pole sexy (no país)”.
Se você ainda não deu um Google em “australian pole dance” esse é o momento. Elas ahaaazam, principalmente no quesito sensualidade. No Miss Pole Australia, as competidoras não têm medo de rebolar o popozão, tirar a roupa e abusar do seu lado sexy nas coreografias, como mostra Michelle Shimmy, advogada e uma das mais famosas pole dancers do país. Junto com sua irmã, Maddie Sparkle, Shimmy criou a Pole Dance Academy, em Sidney. No site da escola, elas descrevem seu estúdio como um lugar onde todas podem se sentir confortáveis e sexys. Para elas diversão e sensualidade estão diretamente ligados. Assim como para muitas outras praticantes dessa linha mais picante, digamos assim.
Existem diferentes tipos de pole dance. A carioca Carol Martins, estudante de Psicologia da UFRJ e professora de pole dance, conta que começou no pole fitness há dois anos e meio, um tipo de pole que foca mais nos movimentos difíceis, na força corporal e na aparência física. É diferente do pole contemporâneo (ou pole art), que tem elementos da dança contemporânea, e está ainda mais distante do pole exotic, que é o que se popularizou com as strippers.
O preconceito contra o salto alto e o short de paetê
Foi dentro do pole fitness que se criou essa linha que tenta eliminar os movimentos extremamente sexys da prática, para que ela se torne um esporte e seja levada a sério. Por isso, no pole fitness, não se usa salto alto, nem shorts mega curtos ou chamativos. Também não se rebola estilo Nicki Minaj ou Valesca Popozuda. Essa preocupação com o “não ser sexy” é questionada por Megan Joan, em seu texto, e também por Carol. “Ao invés de tentar naturalizar esse lugar da stripper, que é o que a gente devia estar buscando, a gente está estigmatizando mais ainda essa profissão. Eu mesma, quando comecei, falava pras pessoas ‘eu faço pole dance, mas eu não sou stripper não, tá?’. Eu já chegava na defensiva, porque estava imersa em um meio em que era necessário desconstruir essa imagem da stripper o tempo todo. Depois eu fui ver que eu estava muito presa nesse discurso engessado. Por que, afinal das contas, qual é o problema em ser stripper?”. (Breve parêntese: esse texto não é sobre a prática do strip-tease, mas como foi mencionada muitas vezes, senti que deveria me manifestar e compartilhar da opinião de Carol: se uma mulher se sente sexy o suficiente, segura o suficiente e QUER trabalhar tirando a roupinha, então por que não deixar ela fazer isso em paz? Bora parar de condenar essa profissão…)
O início desse slut shamming entre a comunidade pole dance não veio exclusivamente de quem pratica, mas de quem, como os professores e colegas de Andressa, olham para as pole dancers como se elas fossem mulheres prontas para tirar a roupa, fazer movimentos sensuais e ficar à disposição dos olhares masculinos. E esse julgamento vem de todos os lados.
Carol e Andressa já sofreram muito com comentários de familiares, colegas de faculdade e semi-conhecidos quando ficam sabendo que as duas cariocas são pole dancers. “Já conheci gente que perguntava se eu tinha começado a dançar pra agradar meu namorado ou caras em baladas que perguntavam se eu podia fazer uma apresentação particular pra eles. Muito absurdo!”, relata Andressa. Além disso, sempre escutam críticas por postar suas fotos e vídeos das aulas de pole no Facebook. “Já me perguntaram se eu não tinha medo das pessoas acharem que eu era prostituta! Ou perguntam como meu namorado “deixa” eu fazer isso”, conta Carol, também obviamente indignada.
A reposta das duas paras tantos comentários absurdos é simples. Elas enchem o peito e revelam o motivo que as levou ao pole dance: se sentir bem consigo mesmas, para dançar, se divertir, estar bem com seus corpos. Ou seja, ambas praticam o esporte/a dança exclusivamente por elas mesmas. “E não pra ficar dançando pra macho!”, como brinca Andressa.
Essa convicção no discurso veio com o tempo e com a experiência. Hoje, Carol é professora em um estúdio de pole dance no Rio de Janeiro e conta que muitas de suas alunas (mulheres de todas as idades e jeitos) chegam ali com o objetivo de dançar para os maridos/namorados/parceiros, mas que isso vai mudando com o tempo. Conforme elas vão criando confiança em seus corpos e em seu lado mais safadinho.
Meu corpo forte e lindo
Sempre vi nas minhas amigas que praticam pole dance muita empolgação com o esporte e segurança e si mesmas. Imagino também que seja bem difícil se pendurar num poste de cabeça pra baixo sem ter confiança no próprio corpo e paixão pelo que faz.
E o pole dance é all about it. É sobre você deixar seus medos de lado. É sobre deixar sua zona de conforto e se encarar em posições, roupas e movimentos que talvez não fizesse na frente dos outros ou nunca tivesse pensado ser capaz de fazer. Acho que pole dance também é um pouco sobre o “ligar o foda-se e ser feliz”, não se importando com os olhares alheios.
Um exemplo de mulher confiante com sua aparência, dançando pole dance e sendo sexy as hell, é a britânica Emma Haslam, que deixou os jurados do Britain’s Got Talent de boca aberta. Emma entra no palco usando uma malha colada, cavada nas laterais da barriga, e se refere a si mesma como uma “big lady” que quer mostrar as pessoas que é boa no que faz. O fato de ser uma “big lady” não parece ser um problema para Emma em nenhum momento no palco. E talvez não seja na vida real também. Talvez por causa do pole dance? Posso acreditar que o fato de praticá-lo ajudou Emma Haslam, assim como para muitas outras mulheres, a fazer as pazes com sua aparência.
Em Carol, o pole dance também teve esse efeito positivo: “Ajuda muito com a autoestima, porque você fica se sentindo poderosa!”. Por ter movimentos muito difíceis, cada vez que uma iniciante consegue executar um deles, naquele momento, ela se sente a pessoa mais foda do universo. E com certeza, ela está sendo muito foda ao fazer os giros, escalar o poste e se coordenar com as coreografias. “Você consegue fazer todas aquelas coisas difíceis, então você vê que teu corpo é capaz. E gente não dissocia muito o corpo com o psicológico, então o empoderamento tá ligado com o fato de se ter um corpo capaz. Isso faz você ver que é capaz também de outras coisas”, observa Carol.
Mas não só a força do corpo faz a mulher se sentir poderosa. Todo o contato que a prática proporciona com a sensualidade abre várias portas para a percepção do próprio corpo como lindo e sexy.
“Eu não tenho a auto estima das mais elevadas e sempre tive vergonha do meu corpo. Conforme foram passando as aulas eu fui me soltando cada vez mais. Você não precisa ser magra, atlética, etc pra fazer pole dance”, conta a estilista de 25 anos, Carô Inoue. Boa forma ou idade não são importantes para fazer pole dance. A designer Thais Erre, também ilustradora do Ovelha, conta que no estúdio onde faz pole dance há mulheres de todas as idades e tipos de corpo. “E a gente acaba se deparando com a nossa própria imagem em meio a muitas outras possíveis, e todas lindas, saudáveis, se exercitando e conseguindo fazer coisas muito difíceis e legais”, relata Thais.
O pole dance é um esporte/uma dança em que você é obrigada a encarar seu próprio corpo, com seus defeitos e qualidades. E conhece-lo talvez de outra forma. Para Thais, o fato de ter que se encarar em roupas curtas e em posições não usuais fez toda a diferença na aceitação de seu corpinho: “Como a gente faz as aulas usando muito pouca roupa, só um top e um shortinho que ao longo do tempo você percebe que quanto mais curto mais fácil de executar certos movimentos, você acaba sendo “obrigada” a se ver semi-nua constantemente, e em posições que nem sempre são as que você gostaria de ver em uma foto. Isso fez toda a diferença pra mim, minha auto confiança aumentou muito e hoje em dia eu digo com toda a certeza que gosto muito do meu corpo, aprendi a gostar dele do jeitinho que ele é”.
Depois de ouvir tantos relatos das poderosíssimas praticantes de pole dance, me deu até vontade de começar a fazer aulas de uma vez. Só falta perder o medo de não se quebrar com os primeiros movimentos (confesso que não sou muito coordenada). Quem quiser um pouco de inspiração para me acompanhar nessa empreitada, aqui estão alguns links de outras feras no pole.
A Carô Inoue recomendou o pole art de Bendy Kate e Oona Kivelä que é outra pegada do que as das australianas do início do post.
Bendy Kate
Oona Kivelä
Outra fera mundialmente conhecida é a ucraniana Anastasia Sokolova que, inclusive, já esteve no Brasil, dando Workshops de pole dance.
No Brasil, ainda não temos muitos nomes específicos no pole dance, até pela diferença entre vertentes. Então mais uma motivação pra gente, né gurias?!
Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre.
“Ah, é aquilo que as strippers fazem?”
Foi o que o professor do curso de alemão indagou Andressa ao ouvir que a estudante de Química Industrial da UFRJ praticava pole dance como hobby. Envergonhada, diante dos colegas que expressavam seu espanto com caras e bocas, imaginando o que a garota devia fazer pendurada num poste, Andressa tentou explicar que aquilo era um esporte como outro qualquer. “Tem até campeonatos mundiais. Até na Alemanha…”, argumentou. Hoje confessa que talvez tivesse tido outra reação diante da turma que, ao ouvir as palavras “pole dance”, já pensou ter uma colega que trabalhava em um strip club. “Eu sempre tentava mostrar que não era só uma dança sensual, que era esporte também. Isso foi um erro, eu acho. Temos que acabar com esse preconceito de que a parte sexy é algo que denigre a imagem da mulher”.
Na minha cabeça, e na de muitas pessoas, o pole dance sempre foi uma prática ligada à sensualidade. Sempre achei isso lindo, exatamente porque as mulheres que praticam sempre me pareceram tão seguras e empoderadas… Mas claro que nem todo mundo vê a sensualidade do pole dance como algo positivo. Muito pelo contrário, e é esse preconceito, como o que Andressa sofreu em frente do curso de alemão, que está prejudicando o pole dance como é conhecido. Para não lidarem com a “vergonha” de serem associados com strip clubs, se criou entre as/os praticantes de pole uma forte corrente que tenta negar as raízes sexy e influências das strippers – justamente as mulheres que fizeram a prática/dança/esporte (como se preferir chamar) popular.
A australiana e pole dancer Magan Joan publicou recentemente um texto no site da Peacock Polewear, em que questiona todo esse slut shamming na própria comunidade de pole dancers e, como argumento, defende o uso de salto altos para dançar. “Você já ouviu falar que o pole fitness descende do pole dance indiano ou chinês? Se sim, você provavelmente foi enganado. A maioria dos estúdios de pole dance foram criados por strippers. Na Austrália a maior parte deles era (de strippers), o que provavelmente é a razão para a grande e magnifica comunidade de pole sexy (no país)”.
Se você ainda não deu um Google em “australian pole dance” esse é o momento. Elas ahaaazam, principalmente no quesito sensualidade. No Miss Pole Australia, as competidoras não têm medo de rebolar o popozão, tirar a roupa e abusar do seu lado sexy nas coreografias, como mostra Michelle Shimmy, advogada e uma das mais famosas pole dancers do país. Junto com sua irmã, Maddie Sparkle, Shimmy criou a Pole Dance Academy, em Sidney. No site da escola, elas descrevem seu estúdio como um lugar onde todas podem se sentir confortáveis e sexys. Para elas diversão e sensualidade estão diretamente ligados. Assim como para muitas outras praticantes dessa linha mais picante, digamos assim.
Existem diferentes tipos de pole dance. A carioca Carol Martins, estudante de Psicologia da UFRJ e professora de pole dance, conta que começou no pole fitness há dois anos e meio, um tipo de pole que foca mais nos movimentos difíceis, na força corporal e na aparência física. É diferente do pole contemporâneo (ou pole art), que tem elementos da dança contemporânea, e está ainda mais distante do pole exotic, que é o que se popularizou com as strippers.
O preconceito contra o salto alto e o short de paetê
Foi dentro do pole fitness que se criou essa linha que tenta eliminar os movimentos extremamente sexys da prática, para que ela se torne um esporte e seja levada a sério. Por isso, no pole fitness, não se usa salto alto, nem shorts mega curtos ou chamativos. Também não se rebola estilo Nicki Minaj ou Valesca Popozuda. Essa preocupação com o “não ser sexy” é questionada por Megan Joan, em seu texto, e também por Carol. “Ao invés de tentar naturalizar esse lugar da stripper, que é o que a gente devia estar buscando, a gente está estigmatizando mais ainda essa profissão. Eu mesma, quando comecei, falava pras pessoas ‘eu faço pole dance, mas eu não sou stripper não, tá?’. Eu já chegava na defensiva, porque estava imersa em um meio em que era necessário desconstruir essa imagem da stripper o tempo todo. Depois eu fui ver que eu estava muito presa nesse discurso engessado. Por que, afinal das contas, qual é o problema em ser stripper?”. (Breve parêntese: esse texto não é sobre a prática do strip-tease, mas como foi mencionada muitas vezes, senti que deveria me manifestar e compartilhar da opinião de Carol: se uma mulher se sente sexy o suficiente, segura o suficiente e QUER trabalhar tirando a roupinha, então por que não deixar ela fazer isso em paz? Bora parar de condenar essa profissão…)
O início desse slut shamming entre a comunidade pole dance não veio exclusivamente de quem pratica, mas de quem, como os professores e colegas de Andressa, olham para as pole dancers como se elas fossem mulheres prontas para tirar a roupa, fazer movimentos sensuais e ficar à disposição dos olhares masculinos. E esse julgamento vem de todos os lados.
Carol e Andressa já sofreram muito com comentários de familiares, colegas de faculdade e semi-conhecidos quando ficam sabendo que as duas cariocas são pole dancers. “Já conheci gente que perguntava se eu tinha começado a dançar pra agradar meu namorado ou caras em baladas que perguntavam se eu podia fazer uma apresentação particular pra eles. Muito absurdo!”, relata Andressa. Além disso, sempre escutam críticas por postar suas fotos e vídeos das aulas de pole no Facebook. “Já me perguntaram se eu não tinha medo das pessoas acharem que eu era prostituta! Ou perguntam como meu namorado “deixa” eu fazer isso”, conta Carol, também obviamente indignada.
A reposta das duas paras tantos comentários absurdos é simples. Elas enchem o peito e revelam o motivo que as levou ao pole dance: se sentir bem consigo mesmas, para dançar, se divertir, estar bem com seus corpos. Ou seja, ambas praticam o esporte/a dança exclusivamente por elas mesmas. “E não pra ficar dançando pra macho!”, como brinca Andressa.
Essa convicção no discurso veio com o tempo e com a experiência. Hoje, Carol é professora em um estúdio de pole dance no Rio de Janeiro e conta que muitas de suas alunas (mulheres de todas as idades e jeitos) chegam ali com o objetivo de dançar para os maridos/namorados/parceiros, mas que isso vai mudando com o tempo. Conforme elas vão criando confiança em seus corpos e em seu lado mais safadinho.
Meu corpo forte e lindo
Sempre vi nas minhas amigas que praticam pole dance muita empolgação com o esporte e segurança e si mesmas. Imagino também que seja bem difícil se pendurar num poste de cabeça pra baixo sem ter confiança no próprio corpo e paixão pelo que faz.
E o pole dance é all about it. É sobre você deixar seus medos de lado. É sobre deixar sua zona de conforto e se encarar em posições, roupas e movimentos que talvez não fizesse na frente dos outros ou nunca tivesse pensado ser capaz de fazer. Acho que pole dance também é um pouco sobre o “ligar o foda-se e ser feliz”, não se importando com os olhares alheios.
Um exemplo de mulher confiante com sua aparência, dançando pole dance e sendo sexy as hell, é a britânica Emma Haslam, que deixou os jurados do Britain’s Got Talent de boca aberta. Emma entra no palco usando uma malha colada, cavada nas laterais da barriga, e se refere a si mesma como uma “big lady” que quer mostrar as pessoas que é boa no que faz. O fato de ser uma “big lady” não parece ser um problema para Emma em nenhum momento no palco. E talvez não seja na vida real também. Talvez por causa do pole dance? Posso acreditar que o fato de praticá-lo ajudou Emma Haslam, assim como para muitas outras mulheres, a fazer as pazes com sua aparência.
Em Carol, o pole dance também teve esse efeito positivo: “Ajuda muito com a autoestima, porque você fica se sentindo poderosa!”. Por ter movimentos muito difíceis, cada vez que uma iniciante consegue executar um deles, naquele momento, ela se sente a pessoa mais foda do universo. E com certeza, ela está sendo muito foda ao fazer os giros, escalar o poste e se coordenar com as coreografias. “Você consegue fazer todas aquelas coisas difíceis, então você vê que teu corpo é capaz. E gente não dissocia muito o corpo com o psicológico, então o empoderamento tá ligado com o fato de se ter um corpo capaz. Isso faz você ver que é capaz também de outras coisas”, observa Carol.
Mas não só a força do corpo faz a mulher se sentir poderosa. Todo o contato que a prática proporciona com a sensualidade abre várias portas para a percepção do próprio corpo como lindo e sexy.
“Eu não tenho a auto estima das mais elevadas e sempre tive vergonha do meu corpo. Conforme foram passando as aulas eu fui me soltando cada vez mais. Você não precisa ser magra, atlética, etc pra fazer pole dance”, conta a estilista de 25 anos, Carô Inoue. Boa forma ou idade não são importantes para fazer pole dance. A designer Thais Erre, também ilustradora do Ovelha, conta que no estúdio onde faz pole dance há mulheres de todas as idades e tipos de corpo. “E a gente acaba se deparando com a nossa própria imagem em meio a muitas outras possíveis, e todas lindas, saudáveis, se exercitando e conseguindo fazer coisas muito difíceis e legais”, relata Thais.
O pole dance é um esporte/uma dança em que você é obrigada a encarar seu próprio corpo, com seus defeitos e qualidades. E conhece-lo talvez de outra forma. Para Thais, o fato de ter que se encarar em roupas curtas e em posições não usuais fez toda a diferença na aceitação de seu corpinho: “Como a gente faz as aulas usando muito pouca roupa, só um top e um shortinho que ao longo do tempo você percebe que quanto mais curto mais fácil de executar certos movimentos, você acaba sendo “obrigada” a se ver semi-nua constantemente, e em posições que nem sempre são as que você gostaria de ver em uma foto. Isso fez toda a diferença pra mim, minha auto confiança aumentou muito e hoje em dia eu digo com toda a certeza que gosto muito do meu corpo, aprendi a gostar dele do jeitinho que ele é”.
Depois de ouvir tantos relatos das poderosíssimas praticantes de pole dance, me deu até vontade de começar a fazer aulas de uma vez. Só falta perder o medo de não se quebrar com os primeiros movimentos (confesso que não sou muito coordenada). Quem quiser um pouco de inspiração para me acompanhar nessa empreitada, aqui estão alguns links de outras feras no pole.
A Carô Inoue recomendou o pole art de Bendy Kate e Oona Kivelä que é outra pegada do que as das australianas do início do post.
Bendy Kate
Oona Kivelä
Outra fera mundialmente conhecida é a ucraniana Anastasia Sokolova que, inclusive, já esteve no Brasil, dando Workshops de pole dance.
No Brasil, ainda não temos muitos nomes específicos no pole dance, até pela diferença entre vertentes. Então mais uma motivação pra gente, né gurias?!
Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre.
Foi o que o professor do curso de alemão indagou Andressa ao ouvir que a estudante de Química Industrial da UFRJ praticava pole dance como hobby. Envergonhada, diante dos colegas que expressavam seu espanto com caras e bocas, imaginando o que a garota devia fazer pendurada num poste, Andressa tentou explicar que aquilo era um esporte como outro qualquer. “Tem até campeonatos mundiais. Até na Alemanha…”, argumentou. Hoje confessa que talvez tivesse tido outra reação diante da turma que, ao ouvir as palavras “pole dance”, já pensou ter uma colega que trabalhava em um strip club. “Eu sempre tentava mostrar que não era só uma dança sensual, que era esporte também. Isso foi um erro, eu acho. Temos que acabar com esse preconceito de que a parte sexy é algo que denigre a imagem da mulher”.
[caption id="attachment_5204" align="aligncenter" width="614"]Andressa mostrando que “Sim, nós podemos” contra o preconceito[/caption]
Na minha cabeça, e na de muitas pessoas, o pole dance sempre foi uma prática ligada à sensualidade. Sempre achei isso lindo, exatamente porque as mulheres que praticam sempre me pareceram tão seguras e empoderadas… Mas claro que nem todo mundo vê a sensualidade do pole dance como algo positivo. Muito pelo contrário, e é esse preconceito, como o que Andressa sofreu em frente do curso de alemão, que está prejudicando o pole dance como é conhecido. Para não lidarem com a “vergonha” de serem associados com strip clubs, se criou entre as/os praticantes de pole uma forte corrente que tenta negar as raízes sexy e influências das strippers – justamente as mulheres que fizeram a prática/dança/esporte (como se preferir chamar) popular.
[caption id="attachment_5201" align="aligncenter" width="428"] Shimmy é uma das pole dancers mais conhecidas na Austrália. Foto de Kris Micallef[/caption]
A australiana e pole dancer Magan Joan publicou recentemente um texto no site da Peacock Polewear, em que questiona todo esse slut shamming na própria comunidade de pole dancers e, como argumento, defende o uso de salto altos para dançar. “Você já ouviu falar que o pole fitness descende do pole dance indiano ou chinês? Se sim, você provavelmente foi enganado. A maioria dos estúdios de pole dance foram criados por strippers. Na Austrália a maior parte deles era (de strippers), o que provavelmente é a razão para a grande e magnifica comunidade de pole sexy (no país)”.
Se você ainda não deu um Google em “australian pole dance” esse é o momento. Elas ahaaazam, principalmente no quesito sensualidade. No Miss Pole Australia, as competidoras não têm medo de rebolar o popozão, tirar a roupa e abusar do seu lado sexy nas coreografias, como mostra Michelle Shimmy, advogada e uma das mais famosas pole dancers do país. Junto com sua irmã, Maddie Sparkle, Shimmy criou a Pole Dance Academy, em Sidney. No site da escola, elas descrevem seu estúdio como um lugar onde todas podem se sentir confortáveis e sexys. Para elas diversão e sensualidade estão diretamente ligados. Assim como para muitas outras praticantes dessa linha mais picante, digamos assim.
Existem diferentes tipos de pole dance. A carioca Carol Martins, estudante de Psicologia da UFRJ e professora de pole dance, conta que começou no pole fitness há dois anos e meio, um tipo de pole que foca mais nos movimentos difíceis, na força corporal e na aparência física. É diferente do pole contemporâneo (ou pole art), que tem elementos da dança contemporânea, e está ainda mais distante do pole exotic, que é o que se popularizou com as strippers.
O preconceito contra o salto alto e o short de paetê
Foi dentro do pole fitness que se criou essa linha que tenta eliminar os movimentos extremamente sexys da prática, para que ela se torne um esporte e seja levada a sério. Por isso, no pole fitness, não se usa salto alto, nem shorts mega curtos ou chamativos. Também não se rebola estilo Nicki Minaj ou Valesca Popozuda. Essa preocupação com o “não ser sexy” é questionada por Megan Joan, em seu texto, e também por Carol. “Ao invés de tentar naturalizar esse lugar da stripper, que é o que a gente devia estar buscando, a gente está estigmatizando mais ainda essa profissão. Eu mesma, quando comecei, falava pras pessoas ‘eu faço pole dance, mas eu não sou stripper não, tá?’. Eu já chegava na defensiva, porque estava imersa em um meio em que era necessário desconstruir essa imagem da stripper o tempo todo. Depois eu fui ver que eu estava muito presa nesse discurso engessado. Por que, afinal das contas, qual é o problema em ser stripper?”. (Breve parêntese: esse texto não é sobre a prática do strip-tease, mas como foi mencionada muitas vezes, senti que deveria me manifestar e compartilhar da opinião de Carol: se uma mulher se sente sexy o suficiente, segura o suficiente e QUER trabalhar tirando a roupinha, então por que não deixar ela fazer isso em paz? Bora parar de condenar essa profissão…)
O início desse slut shamming entre a comunidade pole dance não veio exclusivamente de quem pratica, mas de quem, como os professores e colegas de Andressa, olham para as pole dancers como se elas fossem mulheres prontas para tirar a roupa, fazer movimentos sensuais e ficar à disposição dos olhares masculinos. E esse julgamento vem de todos os lados.
[caption id="attachment_5202" align="aligncenter" width="509"] Carol Martins fazendo pole dance na natureza[/caption]
Carol e Andressa já sofreram muito com comentários de familiares, colegas de faculdade e semi-conhecidos quando ficam sabendo que as duas cariocas são pole dancers. “Já conheci gente que perguntava se eu tinha começado a dançar pra agradar meu namorado ou caras em baladas que perguntavam se eu podia fazer uma apresentação particular pra eles. Muito absurdo!”, relata Andressa. Além disso, sempre escutam críticas por postar suas fotos e vídeos das aulas de pole no Facebook. “Já me perguntaram se eu não tinha medo das pessoas acharem que eu era prostituta! Ou perguntam como meu namorado “deixa” eu fazer isso”, conta Carol, também obviamente indignada.
A reposta das duas paras tantos comentários absurdos é simples. Elas enchem o peito e revelam o motivo que as levou ao pole dance: se sentir bem consigo mesmas, para dançar, se divertir, estar bem com seus corpos. Ou seja, ambas praticam o esporte/a dança exclusivamente por elas mesmas. “E não pra ficar dançando pra macho!”, como brinca Andressa.
Essa convicção no discurso veio com o tempo e com a experiência. Hoje, Carol é professora em um estúdio de pole dance no Rio de Janeiro e conta que muitas de suas alunas (mulheres de todas as idades e jeitos) chegam ali com o objetivo de dançar para os maridos/namorados/parceiros, mas que isso vai mudando com o tempo. Conforme elas vão criando confiança em seus corpos e em seu lado mais safadinho.
Meu corpo forte e lindo
Sempre vi nas minhas amigas que praticam pole dance muita empolgação com o esporte e segurança e si mesmas. Imagino também que seja bem difícil se pendurar num poste de cabeça pra baixo sem ter confiança no próprio corpo e paixão pelo que faz.
E o pole dance é all about it. É sobre você deixar seus medos de lado. É sobre deixar sua zona de conforto e se encarar em posições, roupas e movimentos que talvez não fizesse na frente dos outros ou nunca tivesse pensado ser capaz de fazer. Acho que pole dance também é um pouco sobre o “ligar o foda-se e ser feliz”, não se importando com os olhares alheios.
Um exemplo de mulher confiante com sua aparência, dançando pole dance e sendo sexy as hell, é a britânica Emma Haslam, que deixou os jurados do Britain’s Got Talent de boca aberta. Emma entra no palco usando uma malha colada, cavada nas laterais da barriga, e se refere a si mesma como uma “big lady” que quer mostrar as pessoas que é boa no que faz. O fato de ser uma “big lady” não parece ser um problema para Emma em nenhum momento no palco. E talvez não seja na vida real também. Talvez por causa do pole dance? Posso acreditar que o fato de praticá-lo ajudou Emma Haslam, assim como para muitas outras mulheres, a fazer as pazes com sua aparência.
Em Carol, o pole dance também teve esse efeito positivo: “Ajuda muito com a autoestima, porque você fica se sentindo poderosa!”. Por ter movimentos muito difíceis, cada vez que uma iniciante consegue executar um deles, naquele momento, ela se sente a pessoa mais foda do universo. E com certeza, ela está sendo muito foda ao fazer os giros, escalar o poste e se coordenar com as coreografias. “Você consegue fazer todas aquelas coisas difíceis, então você vê que teu corpo é capaz. E gente não dissocia muito o corpo com o psicológico, então o empoderamento tá ligado com o fato de se ter um corpo capaz. Isso faz você ver que é capaz também de outras coisas”, observa Carol.
Mas não só a força do corpo faz a mulher se sentir poderosa. Todo o contato que a prática proporciona com a sensualidade abre várias portas para a percepção do próprio corpo como lindo e sexy.
“Eu não tenho a auto estima das mais elevadas e sempre tive vergonha do meu corpo. Conforme foram passando as aulas eu fui me soltando cada vez mais. Você não precisa ser magra, atlética, etc pra fazer pole dance”, conta a estilista de 25 anos, Carô Inoue. Boa forma ou idade não são importantes para fazer pole dance. A designer Thais Erre, também ilustradora do Ovelha, conta que no estúdio onde faz pole dance há mulheres de todas as idades e tipos de corpo. “E a gente acaba se deparando com a nossa própria imagem em meio a muitas outras possíveis, e todas lindas, saudáveis, se exercitando e conseguindo fazer coisas muito difíceis e legais”, relata Thais.
[caption id="attachment_5205" align="aligncenter" width="565"] Bendy Kate em competição mundial de pole[/caption]
O pole dance é um esporte/uma dança em que você é obrigada a encarar seu próprio corpo, com seus defeitos e qualidades. E conhece-lo talvez de outra forma. Para Thais, o fato de ter que se encarar em roupas curtas e em posições não usuais fez toda a diferença na aceitação de seu corpinho: “Como a gente faz as aulas usando muito pouca roupa, só um top e um shortinho que ao longo do tempo você percebe que quanto mais curto mais fácil de executar certos movimentos, você acaba sendo “obrigada” a se ver semi-nua constantemente, e em posições que nem sempre são as que você gostaria de ver em uma foto. Isso fez toda a diferença pra mim, minha auto confiança aumentou muito e hoje em dia eu digo com toda a certeza que gosto muito do meu corpo, aprendi a gostar dele do jeitinho que ele é”.
Depois de ouvir tantos relatos das poderosíssimas praticantes de pole dance, me deu até vontade de começar a fazer aulas de uma vez. Só falta perder o medo de não se quebrar com os primeiros movimentos (confesso que não sou muito coordenada). Quem quiser um pouco de inspiração para me acompanhar nessa empreitada, aqui estão alguns links de outras feras no pole.
A Carô Inoue recomendou o pole art de Bendy Kate e Oona Kivelä que é outra pegada do que as das australianas do início do post.
Bendy Kate
Oona Kivelä
Outra fera mundialmente conhecida é a ucraniana Anastasia Sokolova que, inclusive, já esteve no Brasil, dando Workshops de pole dance.
No Brasil, ainda não temos muitos nomes específicos no pole dance, até pela diferença entre vertentes. Então mais uma motivação pra gente, né gurias?!
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Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre.
Nem epidemias se espalham de forma igualitária no Brasil. O vírus da zika tem um rosto que o representa até mais do que o inseto listrado de pernas longas. Esse rosto é o das mulheres de áreas mais pobres que sofrem diante das incertezas da possível microcefalia de seus bebês. “O zika tem distribuição de gênero, classe e raça”, diz a antropóloga Debora Diniz em entrevista à Ovelha.
Professora da Universidade de Brasília, Debora também é pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética, com a qual tem feito pesquisas e ações para garantir os direitos fundamentais de mulheres atingidas pela epidemia. Em 2012, ela fez parte do grupo que, junto com a Anis, encaminhou a ação ao STF que legalizou o aborto em caso de anencefalia. Agora o grupo se une de novo para encaminhar outra proposta ao STF que Debora explica ser diferente: “Não é só pelo aborto, é pelos direitos fundamentais das mulheres em uma situação de epidemia”. Para dar início a ação e abrir a mente da população para o debate, o grupo lançou o documentário Zika com histórias sobre a epidemia sob a perspectiva das mulheres.
O filme é uma tentativa de apresentar as reais vítimas do vírus da zika a um público que ainda pensa mais em mosquito do que nas mulheres afetadas. No Informe Epidemiológico de Microcefalia publicado dia 18 de maio pelo Ministério da Saúde, foram confirmados 1.384 casos de microcefalia no país, sendo 1.233 na região Nordeste. Quem mais sofre nesse cenário são as mulheres, desamparadas pelo Estado que lhe pede para não engravidarem e as incriminam por abortarem; pela Igreja que condena métodos contraceptivos e o aborto; e muitas vezes, por seus companheiros que, sem coragem e sem a obrigação de gestar, parir e amamentar seus filhos, simplesmente as abandonam.
Ovelha: Em que consiste essa nova ação que está sendo encaminhada ao STF e qual a diferença entre ela e a de 2012?
Debora Diniz:
Essa ação não é por interrupção da gestação por microcefalia do feto. Essa é uma ação de defesa dos direitos, em fase de epidemia, das mulheres e especialmente das mulheres pobres. Grande parte das crianças nascidas com a síndrome neurológica do zika está concentrada em quatro estados do país, todos na região Nordeste. Estamos falando, sim, de uma grave epidemia, com consequências para mulheres mais vulneráveis, mulheres nordestinas de zonas rurais, pobres com pouquíssimo acesso a políticas de postos de saúde, de transporte e de proteção social.
A ação tem cinco pedidos e está sendo composta em parceria com a Associação Nacional dos Defensores Públicos, a ANADEP. O primeiro é o amplo e irrestrito acesso à informação. Mulheres em idade reprodutiva têm que ser informadas que uma epidemia está em curso e que ela tem implicações e riscos para a saúde reprodutiva. Segundo, todas as mulheres em idade reprodutiva têm que ter acesso ao mais amplo e diverso pacote de métodos de planejamento familiar, como o repelente, que é a única forma de prevenção para aquelas mulheres que querem ter filhos, e aos métodos contraceptivos de longa duração e reversíveis.
O terceiro pedido é que as mulheres infectadas pelo zika, por alguma forma de avaliação diagnóstica, e que estejam em intenso sofrimento por todos os medos envolvidos da epidemia e das incertezas, possam ter acesso à interrupção legal da gestação se assim desejarem. Não estamos falando do direito à interrupção da gestação por um diagnóstico de qualquer singularidade neurológica no feto. Nós estamos falando de mulheres que, em regiões epidêmicas, infectadas pelo zika e grávidas, se encontram em intenso sofrimento mental e não desejam manter a gestação. O quarto pedido é que todas as mulheres que tiveram seus filhos diagnosticados com a síndrome tenham acesso aos serviços de saúde até o limite de uma estação de 50km do seu domicílio. O último é que todas as mulheres que tiveram os seus filhos com a síndrome congênita do zika tenham acesso ao benefício de transferência de renda da assistência social, sem recorte de renda. Esse auxílio já existe para famílias miseráveis e o que nós estamos postulando é que toda a família afetada tenha acesso a esse benefício.
Ovelha: Então não seria tanto uma ação simplesmente pela legalização do aborto em caso de diagnóstico, mas em garantir direitos de saúde mental e bem-estar das mulheres.
Debora:
Isso. E é muito importante ter essa clareza. É uma ação muito menos pela legalização do aborto. Essa é uma ação de planejamento familiar e de proteção à maternidade e à infância. Falar em planejamento familiar é falar de informação sobre métodos, aborto e como cuidar dos filhos.
Ovelha: Você fala bastante sobre o acesso à informação e, nessa situação de epidemia, o acesso a informação é extremamente importante. Porém, o pouco que se sabe sobre o vírus não está sendo passado devidamente às pessoas que mais estão sendo afetadas por ele. Como se pode melhorar o acesso à informação e o diálogo com as mulheres afetadas pelo zika?
Debora:
A primeira coisa é passarmos a falar novamente que temos uma epidemia. Hoje parece que ela sumiu de cena. Vive se falando da crise política e nem sequer falamos mais sobre o zika. Nós estamos diante da descoberta de uma síndrome e continuamos falando de microcefalia, aí começamos a nos confundir em todo o debate. Temos que falar em síndrome neurológica do zika. A microcefalia só é um dos sinais.
O 2º é começarmos a qualificar sobre o que estamos falando. Obviamente, eliminar o mosquito é uma ação importante, mas precisamos falar sobre como cuidar das principais vítimas da epidemia, que são as mulheres em idade reprodutiva. Essa distribuição de gênero traz uma série de demandas que não enfrentamos seriamente que é falar desses tabus num país que proíbe falar sobre gêneros nas escolas e em que não temos educação sexual nas escolas. Temos que falar sobre métodos de planejamento familiar, aborto e sobre como as mulheres vão cuidar das crianças com dependência. Ainda estamos falando mais de mosquito do que de mulheres e nós precisamos falar mais sobre mulheres. Temos que colocar mulheres e meninas no centro da epidemia.
Ovelha: Hoje a região mais afetada no Brasil é o Nordeste. Como essa discriminação regional e de classes se traduz na incidência do vírus da zika não só no Brasil, mas também em outros países da América Latina?
Debora:
Em toda a região, quando o vírus chega, ele tem que encontrar um vetor que já está entre nós há anos que, no caso, é o mosquito. A concentração do mosquito tem características históricas e sociais da desigualdade do país que é o saneamento, a urbanização, a superpopulação e a água parada. Nós podemos falar que uma epidemia pode infectar a qualquer uma de nós, digamos eu, você e a Amanda, que é uma das personagens do documentário Zika, mas isso não é verdade porque não estamos na mesma geografia de risco.
Uma vez infectadas, os riscos pra minha vida, pra sua e pra de Amanda são diferentes porque o acesso à informação, o acesso aos métodos de planejamento familiar e inclusive a um aborto seguro, mesmo que ilegal, são diferentes pelo marcador de classe. Isso já acontece em El Salvador, o segundo país com maior prevalência da doença, e em Honduras, só que com agravantes ainda maiores. El Salvador é um país em que mais de uma centena de mulheres estão presas porque tiveram um aborto espontâneo. Essa epidemia se cruza com um processo persistente de desigualdade e de opressão contra as mulheres que são anteriores ao adoecimento, como a criminalização do aborto. Então, nós precisamos falar que a epidemia espelha a desigualdade social, racial, regional e de renda desses países.
Ovelha: Você acredita que esses fatores social e racial da incidência do vírus da zika têm a ver com a pouca atenção que o assunto tem recebido na mídia?
Debora:
Eu não tenho a menor dúvida disso. O rosto que nos comove é o rosto que nós reconhecemos como sendo um dos nossos. O rosto da epidemia é um rosto que na história do Brasil não teve seu sofrimento reconhecido. As nossas sensibilidades não são espontâneas em nós, elas são treinadas pela desigualdade. Não é qualquer dor que nos comove, ela tem que ser uma dor próxima. Por isso que é tão importante ter começado a ação judicial com o filme, que é uma ferramenta pra contar a história que nós não queremos ver, nem ouvir.
Essa epidemia se cruza com um processo persistente de desigualdade e de opressão contra as mulheres que são anteriores ao adoecimento
Ovelha: Do lado de quem é contra a legalização do aborto no caso do zika, há pessoas que usam o argumento da “eugenia”. Como você avalia esse argumento?
Debora:
A discussão sobre o aborto é uma discussão que nos confunde, ela nos provoca os afetos. Vivemos hoje em um país em que o ácido fólico faz parte da nossa alimentação para prevenir de distúrbios de fechamento do tubo neural. Distúrbios de fechamento do tubo neural é uma palavra difícil pra falar malformação no feto. É uma medida preventiva que faz parte todos os dias da nossa alimentação. Nós dizemos às mulheres que comam ácido fólico e que não fumem na gravidez, tudo isso pra evitar adoecimento nela e no feto. Mas nós não chamamos isso de eugenia, certo? Nós chamamos isso de medidas preventivas.
Eugenia é uma palavra que carrega consigo uma história cruel e longa, que não tem nada a ver com a luta por igualdade dessas mulheres do Nordeste das quais estamos falando. Eugenia foi uma política de Estado de extermínio! Nós estamos falando aqui de direitos individuais, em uma situação de epidemia e de um Estado negligente com as mulheres pobres. Não estamos falando de aborto por nenhuma malformação, mas aborto por infecção pelo Zika. Estamos falando de mulheres que foram infectadas pelo Zika e que estão em sofrimento pelo estado de incerteza da epidemia. Em segundo lugar, eu não preciso falar só do direito das mulheres ao aborto ou só do direito das mulheres de cuidarem de seus filhos com deficiências em uma sociedade inclusiva. Nós não precisamos ter políticas egoísticas na luta pela igualdade. Nós temos que tornar mais complexas as nossas lutas.
Ovelha: Em outros países afetados pela epidemia do zika, como El Salvador, Colômbia e Equador, aconselharam as mulheres a não ficarem grávidas. O governo de El Salvador pediu oficialmente para que as mulheres evitem engravidar até 2018. De que forma esse tipo de política e mentalidade prejudica a discussão sobre a liberdade reprodutiva das mulheres na América Latina?
Debora:
Ela chega com um cenário restritivo de acesso à informação e a métodos de planejamento familiar, e nós temos ainda um cenário de uso de leis criminais para regular a reprodução em toda a região. Ainda há a dificuldade de agendamentos desses assuntos, uma vez que temos uma dificuldade de discutir direitos reprodutivos em toda região latino-americana. Isso pode ter duas razões: nós somos uma região muito patriarcal, com uma centralidade numa ideia de família, nas crianças e na maternagem; segundo, por uma forte penetração das igrejas cristãs, como católica e evangélica. O Estado brasileiro é cada vez mais essa sobreposição entre religião e política que é muito tendenciosa para as mulheres. Novamente, as principais vítimas são as mulheres.
Ovelha: Referente a sua carreira acadêmica e científica, você já enfrentou alguma dificuldade por ser mulher e por defender os direitos das mulheres?
Debora:
Na verdade eu fui demitida da Universidade Católica de Brasília no início da minha carreira. Acho que maior dificuldade do que perder o emprego não pode ter. Acho que não pode ter maior ato de discriminação do que deixar alguém sem renda e sem emprego. Mas isso é a experiência de se fazer vida intelectual engajada. Você tem que romper com ideias de neutralidade. Eu nunca vou ser neutra, mas isso não quer dizer que eu não seja confiável no que eu faço.
Ovelha: Você lançou recentemente o livro “Cadeia: Relatos sobre mulheres”, com histórias de mulheres presas. Como foi para você, uma mulher branca, professora acadêmica, encarar essas diferenças sociais tão de perto?
Debora:
A escrita do livro é a escrita desse desencontro, dessa perturbação por ser uma mulher branca, em liberdade, olhando, ouvindo, escrevendo sobre mulheres entre grades. Foi uma experiência transformadora. O livro foi de um descentramento da minha própria existência, de todos meus privilégios, a começar pelo da liberdade.
Ovelha: Como você tentou passar esse sentimento para a escrita?
Debora:
Principalmente por uma sensibilidade sobre como lidar com as vozes, formas, locais de expressão, e por nunca ter feito nenhuma pergunta a mulher presa. Eu nunca interpelei, eu só ouvi as histórias, então, eu não provoquei o que eu queria ouvir. Eu ouvi como era vivido.
Peacock Polewear, em que questiona todo esse slut shamming na própria comunidade de pole dancers e, como argumento, defende o uso de salto altos para dançar. “Você já ouviu falar que o pole fitness descende do pole dance indiano ou chinês? Se sim, você provavelmente foi enganado. A maioria dos estúdios de pole dance foram criados por strippers. Na Austrália a maior parte deles era (de strippers), o que provavelmente é a razão para a grande e magnifica comunidade de pole sexy (no país)”.
Se você ainda não deu um Google em “australian pole dance” esse é o momento. Elas ahaaazam, principalmente no quesito sensualidade. No Miss Pole Australia, as competidoras não têm medo de rebolar o popozão, tirar a roupa e abusar do seu lado sexy nas coreografias, como mostra Michelle Shimmy, advogada e uma das mais famosas pole dancers do país. Junto com sua irmã, Maddie Sparkle, Shimmy criou a Pole Dance Academy, em Sidney. No site da escola, elas descrevem seu estúdio como um lugar onde todas podem se sentir confortáveis e sexys. Para elas diversão e sensualidade estão diretamente ligados. Assim como para muitas outras praticantes dessa linha mais picante, digamos assim.
Existem diferentes tipos de pole dance. A carioca Carol Martins, estudante de Psicologia da UFRJ e professora de pole dance, conta que começou no pole fitness há dois anos e meio, um tipo de pole que foca mais nos movimentos difíceis, na força corporal e na aparência física. É diferente do pole contemporâneo (ou pole art), que tem elementos da dança contemporânea, e está ainda mais distante do pole exotic, que é o que se popularizou com as strippers.
O preconceito contra o salto alto e o short de paetê
Foi dentro do pole fitness que se criou essa linha que tenta eliminar os movimentos extremamente sexys da prática, para que ela se torne um esporte e seja levada a sério. Por isso, no pole fitness, não se usa salto alto, nem shorts mega curtos ou chamativos. Também não se rebola estilo Nicki Minaj ou Valesca Popozuda. Essa preocupação com o “não ser sexy” é questionada por Megan Joan, em seu texto, e também por Carol. “Ao invés de tentar naturalizar esse lugar da stripper, que é o que a gente devia estar buscando, a gente está estigmatizando mais ainda essa profissão. Eu mesma, quando comecei, falava pras pessoas ‘eu faço pole dance, mas eu não sou stripper não, tá?’. Eu já chegava na defensiva, porque estava imersa em um meio em que era necessário desconstruir essa imagem da stripper o tempo todo. Depois eu fui ver que eu estava muito presa nesse discurso engessado. Por que, afinal das contas, qual é o problema em ser stripper?”. (Breve parêntese: esse texto não é sobre a prática do strip-tease, mas como foi mencionada muitas vezes, senti que deveria me manifestar e compartilhar da opinião de Carol: se uma mulher se sente sexy o suficiente, segura o suficiente e QUER trabalhar tirando a roupinha, então por que não deixar ela fazer isso em paz? Bora parar de condenar essa profissão…)
O início desse slut shamming entre a comunidade pole dance não veio exclusivamente de quem pratica, mas de quem, como os professores e colegas de Andressa, olham para as pole dancers como se elas fossem mulheres prontas para tirar a roupa, fazer movimentos sensuais e ficar à disposição dos olhares masculinos. E esse julgamento vem de todos os lados.
Carol e Andressa já sofreram muito com comentários de familiares, colegas de faculdade e semi-conhecidos quando ficam sabendo que as duas cariocas são pole dancers. “Já conheci gente que perguntava se eu tinha começado a dançar pra agradar meu namorado ou caras em baladas que perguntavam se eu podia fazer uma apresentação particular pra eles. Muito absurdo!”, relata Andressa. Além disso, sempre escutam críticas por postar suas fotos e vídeos das aulas de pole no Facebook. “Já me perguntaram se eu não tinha medo das pessoas acharem que eu era prostituta! Ou perguntam como meu namorado “deixa” eu fazer isso”, conta Carol, também obviamente indignada.
A reposta das duas paras tantos comentários absurdos é simples. Elas enchem o peito e revelam o motivo que as levou ao pole dance: se sentir bem consigo mesmas, para dançar, se divertir, estar bem com seus corpos. Ou seja, ambas praticam o esporte/a dança exclusivamente por elas mesmas. “E não pra ficar dançando pra macho!”, como brinca Andressa.
Essa convicção no discurso veio com o tempo e com a experiência. Hoje, Carol é professora em um estúdio de pole dance no Rio de Janeiro e conta que muitas de suas alunas (mulheres de todas as idades e jeitos) chegam ali com o objetivo de dançar para os maridos/namorados/parceiros, mas que isso vai mudando com o tempo. Conforme elas vão criando confiança em seus corpos e em seu lado mais safadinho.
Meu corpo forte e lindo
Sempre vi nas minhas amigas que praticam pole dance muita empolgação com o esporte e segurança e si mesmas. Imagino também que seja bem difícil se pendurar num poste de cabeça pra baixo sem ter confiança no próprio corpo e paixão pelo que faz.
E o pole dance é all about it. É sobre você deixar seus medos de lado. É sobre deixar sua zona de conforto e se encarar em posições, roupas e movimentos que talvez não fizesse na frente dos outros ou nunca tivesse pensado ser capaz de fazer. Acho que pole dance também é um pouco sobre o “ligar o foda-se e ser feliz”, não se importando com os olhares alheios.
Um exemplo de mulher confiante com sua aparência, dançando pole dance e sendo sexy as hell, é a britânica Emma Haslam, que deixou os jurados do Britain’s Got Talent de boca aberta. Emma entra no palco usando uma malha colada, cavada nas laterais da barriga, e se refere a si mesma como uma “big lady” que quer mostrar as pessoas que é boa no que faz. O fato de ser uma “big lady” não parece ser um problema para Emma em nenhum momento no palco. E talvez não seja na vida real também. Talvez por causa do pole dance? Posso acreditar que o fato de praticá-lo ajudou Emma Haslam, assim como para muitas outras mulheres, a fazer as pazes com sua aparência.
Em Carol, o pole dance também teve esse efeito positivo: “Ajuda muito com a autoestima, porque você fica se sentindo poderosa!”. Por ter movimentos muito difíceis, cada vez que uma iniciante consegue executar um deles, naquele momento, ela se sente a pessoa mais foda do universo. E com certeza, ela está sendo muito foda ao fazer os giros, escalar o poste e se coordenar com as coreografias. “Você consegue fazer todas aquelas coisas difíceis, então você vê que teu corpo é capaz. E gente não dissocia muito o corpo com o psicológico, então o empoderamento tá ligado com o fato de se ter um corpo capaz. Isso faz você ver que é capaz também de outras coisas”, observa Carol.
Mas não só a força do corpo faz a mulher se sentir poderosa. Todo o contato que a prática proporciona com a sensualidade abre várias portas para a percepção do próprio corpo como lindo e sexy.
“Eu não tenho a auto estima das mais elevadas e sempre tive vergonha do meu corpo. Conforme foram passando as aulas eu fui me soltando cada vez mais. Você não precisa ser magra, atlética, etc pra fazer pole dance”, conta a estilista de 25 anos, Carô Inoue. Boa forma ou idade não são importantes para fazer pole dance. A designer Thais Erre, também ilustradora do Ovelha, conta que no estúdio onde faz pole dance há mulheres de todas as idades e tipos de corpo. “E a gente acaba se deparando com a nossa própria imagem em meio a muitas outras possíveis, e todas lindas, saudáveis, se exercitando e conseguindo fazer coisas muito difíceis e legais”, relata Thais.
O pole dance é um esporte/uma dança em que você é obrigada a encarar seu próprio corpo, com seus defeitos e qualidades. E conhece-lo talvez de outra forma. Para Thais, o fato de ter que se encarar em roupas curtas e em posições não usuais fez toda a diferença na aceitação de seu corpinho: “Como a gente faz as aulas usando muito pouca roupa, só um top e um shortinho que ao longo do tempo você percebe que quanto mais curto mais fácil de executar certos movimentos, você acaba sendo “obrigada” a se ver semi-nua constantemente, e em posições que nem sempre são as que você gostaria de ver em uma foto. Isso fez toda a diferença pra mim, minha auto confiança aumentou muito e hoje em dia eu digo com toda a certeza que gosto muito do meu corpo, aprendi a gostar dele do jeitinho que ele é”.
Depois de ouvir tantos relatos das poderosíssimas praticantes de pole dance, me deu até vontade de começar a fazer aulas de uma vez. Só falta perder o medo de não se quebrar com os primeiros movimentos (confesso que não sou muito coordenada). Quem quiser um pouco de inspiração para me acompanhar nessa empreitada, aqui estão alguns links de outras feras no pole.
A Carô Inoue recomendou o pole art de Bendy Kate e Oona Kivelä que é outra pegada do que as das australianas do início do post.
Bendy Kate
Oona Kivelä
Outra fera mundialmente conhecida é a ucraniana Anastasia Sokolova que, inclusive, já esteve no Brasil, dando Workshops de pole dance.
No Brasil, ainda não temos muitos nomes específicos no pole dance, até pela diferença entre vertentes. Então mais uma motivação pra gente, né gurias?!
Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre.