Era uma quarta-feira à noite e eu resolvi me aventurar numa festa de salsa na Tanzhaus NRW, uma escola de dança em Düsseldorf, na Alemanha. Por mais engraçado que isso possa parecer, eu nunca havia dançado salsa até vir para cá, há mais ou menos um ano, e ainda não danço bem, mas me arrisco. Acanhada pela desenvoltura dos dançarinos, resolvi apenas observar à beira da pista. Alguns rapazes se candidataram como meus parceiros de dança, mas neguei a proposta. Minha vergonha ainda impedia a tentativa. Um deles ficou para conversar, mesmo depois de ter o convite negado. Conversamos um pouco em alemão e, como é de costume – até pelo meu sotaque ao falar alemão -, ele logo notou que eu era estrangeira. “É, sou brasileira”, respondi. “Como eu pensava. Dá para perceber pela sua bunda que você vem da América Latina. Você tem uma bunda muito bonita. Uma bunda típica de brasileira”.
Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos.
O que, ao seu ver, deveria ser um elogio foi o motivo de um grande desconforto em toda aquela situação. Sem saber direito o que falar e sem acreditar no que acabava de ouvir, conversei mais um pouco e segui meu rumo para o outro lado do salão. Não sei se somente pela falta de tempo, ou por coincidência, nunca mais voltei àquele lugar para bailar salsa.
Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos. Parece que se eu não tivesse um corpo assim ou assado, não poderia levar o carimbo de “latina” ou de “brasileira”. Afinal, você não é uma brasileira completa sem aqueles típicos atributos físicos que a terra abençoada Brasil te deu, certo? Ah, não é bem assim…
Incomodada, comentei sobre minha experiência com algumas amigas brasileiras que também vivem do lado de cá do oceano. Não fiquei surpresa ao saber que muitas já haviam ouvido coisas do tipo. Os comentários não estão sempre só relacionados ao corpo, mas a outras coisas classificadas como “típico” da feminilidade brasileira. “Ué, você nasceu no Brasil e não sabe sambar?”, “Cadê o rebolado brasileiro?”, “Você não quer me ensinar alguns passos de samba… Na minha casa… Só a dois?”. Esses comentários revelam as expectativas dos gringos sobre a mulher brasileira. Sobre como ela se comporta, como ela dança, como ela flerta – ou espera receber uma cantada – e como ela se parece ou deve parecer.
O machismo nacional nos transformou em atração turística, assim como cachoeiras ou a fauna do Brasil.
Isso tudo ficou mais claro pra mim durante a Copa do Mundo no Brasil, que acompanhei da Alemanha mesmo. As propagandas referentes ao evento do ano me causavam grande incômodo e certa vergonha alheia. Eram comuns as imagens de mulheres morenas em trajes de carnaval, exibindo seus corpos sarados e sua “beleza exótica” que os europeus tanto admiram. Em um caso específico que me chamou atenção, vi a figura de uma mulher morena com a camisa do Brasil, e um alemão ao seu lado, usando a camisa da Alemanha – nunca vi a imagem de um homem brasileiro com uma mulher alemã em propagandas. Para alguns, poderiam ser simples imagens e vídeos, mas a mensagem que eu recebi foi a seguinte: “ei, gringo! Quando você chegar no Brasil é isso que você vai encontrar. E você pode conquistar uma dessas pra você”.
Era uma quarta-feira à noite e eu resolvi me aventurar numa festa de salsa na Tanzhaus NRW, uma escola de dança em Düsseldorf, na Alemanha. Por mais engraçado que isso possa parecer, eu nunca havia dançado salsa até vir para cá, há mais ou menos um ano, e ainda não danço bem, mas me arrisco. Acanhada pela desenvoltura dos dançarinos, resolvi apenas observar à beira da pista. Alguns rapazes se candidataram como meus parceiros de dança, mas neguei a proposta. Minha vergonha ainda impedia a tentativa. Um deles ficou para conversar, mesmo depois de ter o convite negado. Conversamos um pouco em alemão e, como é de costume – até pelo meu sotaque ao falar alemão -, ele logo notou que eu era estrangeira. “É, sou brasileira”, respondi. “Como eu pensava. Dá para perceber pela sua bunda que você vem da América Latina. Você tem uma bunda muito bonita. Uma bunda típica de brasileira”.
Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos.
O que, ao seu ver, deveria ser um elogio foi o motivo de um grande desconforto em toda aquela situação. Sem saber direito o que falar e sem acreditar no que acabava de ouvir, conversei mais um pouco e segui meu rumo para o outro lado do salão. Não sei se somente pela falta de tempo, ou por coincidência, nunca mais voltei àquele lugar para bailar salsa.
Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos. Parece que se eu não tivesse um corpo assim ou assado, não poderia levar o carimbo de “latina” ou de “brasileira”. Afinal, você não é uma brasileira completa sem aqueles típicos atributos físicos que a terra abençoada Brasil te deu, certo? Ah, não é bem assim…
Incomodada, comentei sobre minha experiência com algumas amigas brasileiras que também vivem do lado de cá do oceano. Não fiquei surpresa ao saber que muitas já haviam ouvido coisas do tipo. Os comentários não estão sempre só relacionados ao corpo, mas a outras coisas classificadas como “típico” da feminilidade brasileira. “Ué, você nasceu no Brasil e não sabe sambar?”, “Cadê o rebolado brasileiro?”, “Você não quer me ensinar alguns passos de samba… Na minha casa… Só a dois?”. Esses comentários revelam as expectativas dos gringos sobre a mulher brasileira. Sobre como ela se comporta, como ela dança, como ela flerta – ou espera receber uma cantada – e como ela se parece ou deve parecer.
O machismo nacional nos transformou em atração turística, assim como cachoeiras ou a fauna do Brasil.
Isso tudo ficou mais claro pra mim durante a Copa do Mundo no Brasil, que acompanhei da Alemanha mesmo. As propagandas referentes ao evento do ano me causavam grande incômodo e certa vergonha alheia. Eram comuns as imagens de mulheres morenas em trajes de carnaval, exibindo seus corpos sarados e sua “beleza exótica” que os europeus tanto admiram. Em um caso específico que me chamou atenção, vi a figura de uma mulher morena com a camisa do Brasil, e um alemão ao seu lado, usando a camisa da Alemanha – nunca vi a imagem de um homem brasileiro com uma mulher alemã em propagandas. Para alguns, poderiam ser simples imagens e vídeos, mas a mensagem que eu recebi foi a seguinte: “ei, gringo! Quando você chegar no Brasil é isso que você vai encontrar. E você pode conquistar uma dessas pra você”.
Era uma quarta-feira à noite e eu resolvi me aventurar numa festa de salsa na Tanzhaus NRW, uma escola de dança em Düsseldorf, na Alemanha. Por mais engraçado que isso possa parecer, eu nunca havia dançado salsa até vir para cá, há mais ou menos um ano, e ainda não danço bem, mas me arrisco. Acanhada pela desenvoltura dos dançarinos, resolvi apenas observar à beira da pista. Alguns rapazes se candidataram como meus parceiros de dança, mas neguei a proposta. Minha vergonha ainda impedia a tentativa. Um deles ficou para conversar, mesmo depois de ter o convite negado. Conversamos um pouco em alemão e, como é de costume – até pelo meu sotaque ao falar alemão -, ele logo notou que eu era estrangeira. “É, sou brasileira”, respondi. “Como eu pensava. Dá para perceber pela sua bunda que você vem da América Latina. Você tem uma bunda muito bonita. Uma bunda típica de brasileira”.
Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos.
O que, ao seu ver, deveria ser um elogio foi o motivo de um grande desconforto em toda aquela situação. Sem saber direito o que falar e sem acreditar no que acabava de ouvir, conversei mais um pouco e segui meu rumo para o outro lado do salão. Não sei se somente pela falta de tempo, ou por coincidência, nunca mais voltei àquele lugar para bailar salsa.
Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos. Parece que se eu não tivesse um corpo assim ou assado, não poderia levar o carimbo de “latina” ou de “brasileira”. Afinal, você não é uma brasileira completa sem aqueles típicos atributos físicos que a terra abençoada Brasil te deu, certo? Ah, não é bem assim…
Incomodada, comentei sobre minha experiência com algumas amigas brasileiras que também vivem do lado de cá do oceano. Não fiquei surpresa ao saber que muitas já haviam ouvido coisas do tipo. Os comentários não estão sempre só relacionados ao corpo, mas a outras coisas classificadas como “típico” da feminilidade brasileira. “Ué, você nasceu no Brasil e não sabe sambar?”, “Cadê o rebolado brasileiro?”, “Você não quer me ensinar alguns passos de samba… Na minha casa… Só a dois?”. Esses comentários revelam as expectativas dos gringos sobre a mulher brasileira. Sobre como ela se comporta, como ela dança, como ela flerta – ou espera receber uma cantada – e como ela se parece ou deve parecer.
O machismo nacional nos transformou em atração turística, assim como cachoeiras ou a fauna do Brasil.
Isso tudo ficou mais claro pra mim durante a Copa do Mundo no Brasil, que acompanhei da Alemanha mesmo. As propagandas referentes ao evento do ano me causavam grande incômodo e certa vergonha alheia. Eram comuns as imagens de mulheres morenas em trajes de carnaval, exibindo seus corpos sarados e sua “beleza exótica” que os europeus tanto admiram. Em um caso específico que me chamou atenção, vi a figura de uma mulher morena com a camisa do Brasil, e um alemão ao seu lado, usando a camisa da Alemanha – nunca vi a imagem de um homem brasileiro com uma mulher alemã em propagandas. Para alguns, poderiam ser simples imagens e vídeos, mas a mensagem que eu recebi foi a seguinte: “ei, gringo! Quando você chegar no Brasil é isso que você vai encontrar. E você pode conquistar uma dessas pra você”.
De janeiro a novembro de 2015, mais de 950 mil refugiados e imigrantes chegaram na Europa pelo Mediterrâneo. Aproximadamente 16% desses recém-chegados no continente europeu eram mulheres e 24% crianças. Para esses dois grupos, a jornada para um lugar seguro é mais pesada e perigosa. Além de ter que lidar com a fome, frio, falta de abrigo e condições minimamente humanas de sobrevivência, esses grupos são postos sobre risco de abusos e violências sexuais.
Muitas dessas mulheres e meninas fogem exatamente disso. Em seus países de origem, elas seriam obrigadas a se casarem, ou seriam transformadas em escravas sexuais por algum grupo radical. Fugiram, como qualquer pessoa nessa situação faria. Mas tristemente encontram no seu caminho e em seu destino o mesmo machismo que sempre as transformaram em meros objetos.
Entre 2 e 7 de novembro de 2015, a Agência da ONU para Refugiados (UNHCR, na sigla em inglês), juntamente com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a Comissão para Mulheres Refugiadas (WRC), realizou uma pesquisa de campo para entender os riscos que mulheres e crianças estavam enfrentando nessa jornada. Os resultados foram divulgados em um longo e chocante relatório com dados, relatos pessoais e recomendações às autoridades responsáveis pela recepção dos refugiados.
Durante o pouco tempo de trabalho, o time da ONU observou que os casos de violência sexual direcionados ao gênero (Sexual and Gender-Based Violence, na expressão em inglês) não se limitam somente a casamentos precoces e forçados, mas também a violência doméstica, estupros, abusos sexuais e psicológicos, e ao uso do sexo como moeda de troca. A SGBV – sigla em inglês usada no relatório – é reconhecida, ao mesmo tempo, como motivo pelo qual as mulheres deixaram seus países de origem e uma realidade durante sua viagem em busca de asilo.
Farah, por exemplo, uma mulher afegã entrevistada para a pesquisa, deixou seu país para ir com seus oito filhos para a Europa – sendo deles, sete meninas com menos de 17 anos. Eles haviam se refugiado no Irã, onde seu marido e um dos filhos foram mortos. Depois que um tio das crianças ameaçou vender uma das meninas para casamento, Farah decidiu fugir para salvar sua filha. Ao longo da viagem, suas meninas demonstraram ter muito medo dos outros homens que viajavam junto.
O medo não é infundado. Assim que tentam embarcar para a Europa, as mulheres continuam a sofrer investidas agressivas masculinas. Como é o caso de Oumo, que fugiu de um país da África subsaariana devido à perseguição política de sua família: seu cunhado foi assassinado e sua irmã despareceu. Enquanto tentava chegar à Grécia, foi duas vezes obrigada a se relacionar sexualmente com homens para conseguir alcançar seu destino. Na primeira vez, para ganhar um passaporte falso. Na segunda, com outro homem, para entrar em um barco saindo da Turquia.
Eu não tive escolha”, disse ela à entrevistadora, “sinto que vou enlouquecer.
O relatório constatou ainda uma falta de preparo das autoridades em prevenir e lidar com esse tipo de violência. Algumas acomodações que recepcionam os refugiados, como a de Samos na Grécia, não têm separação entre homens e mulheres nos dormitórios e banheiros. Essas condições aumentam os riscos de violências e abusos sexuais. Além disso, são oferecidos poucos (ou nenhum) serviço médico e psicológico adequados para lidar com casos de SGBV (Sexual and Gender Based Violence).
Poucas condições para ajudar mulheres grávidas
Há um número grande de mulheres grávidas que tentam fazer essa viagem por terra e mar para chegar ao continente europeu. Sem escolha e com a esperança de uma terra sem guerra para seus filhos, muitas começam a viagem com a gravidez já bastante avançada. Em um posto da Cruz Vermelha, em Tabanovce na Macedônia, foram registradas 16 grávidas entre 128 pessoas que passaram por ali em um turno de 12 horas. Boa parte delas havia sofrido um estresse psicológico muito grande e, por isso, tinha altos riscos de complicações.
Tehmina atravessava a Grécia já com 9 meses e meio de gravidez quando entrou em trabalho de parto. Ela queria chegar à Alemanha para ter o bebê, mas não podia mais esperar. Tehmina teve o bebê na Grécia. Em apenas algumas horas após o parto, ela e o recém-nascido deixaram o hospital para continuar caminhando.
Fatah, Oumo e Tehmina são apenas três tristes histórias entre milhares que continuam se repetindo, enquanto estamos aqui discutindo se a Europa deve aceitar ou não a entrada de ainda mais refugiados. Elas mostram que a questão é muito maior que isso. Enquanto discutíamos isso, foram esquecidas as mínimas condições para que essas mulheres pudessem chegar em um lugar seguro. Um lugar onde não tivessem que passar por humilhações como estupro, abusos sexuais e nem usar seus corpos como moeda de troca. Elas provam que a discussão sobre os refugiados vai muito além do “abrir ou não as fronteiras”.