Minha brasilidade reduzida a uma bunda

[caption id="attachment_2196" align="aligncenter" width="1024"]Arte por Bárbara Malagoli (Baby C) para Ovelha Arte por Bárbara Malagoli (Baby C)[/caption]

O machismo nacional nos transformou em atração turística, assim como cachoeiras ou a fauna do Brasil. É com orgulho que se exalta que as mais belas mulheres do mundo estão no Brasil. Não só em propagandas que difundem os padrões de beleza tidos como típicos – os quadris largos, a cintura fina e o corpo bronzeado -, mas o jornalismo que pergunta aos gringos “E aí, o que vocês acharam das nossas mulheres?” também tem sua colaboração nisso tudo. É quase como se voltassemos às épocas coloniais e fossemos dadas como “presentes” aos europeus que chegam às terras prometidas.

No velho continente, o machismo estrangeiro consumiu essa ideia indiscriminadamente. A hiperssexualização da mulher brasileira e a “venda” dessa imagem no exterior fez com que nos tornássemos aqui “a mulher sensual e fácil de conquistar” ou “a mulher que já está acostumada a ser tratada assim ou assado”. Como se, por termos crescido em uma sociedade machista que nos transformou em objeto de admiração e deleite, tivéssemos que aceitar esse machismo e as consequências que ele traz.

Já pensei duas vezes antes de dizer que sou brasileira, mesmo tendo muito orgulho disso.

Quase nunca conversei com alemães sobre isso. Quando comentei com algumas amigas daqui sobre o episódio na festa de salsa, elas acharam uma falta de respeito, mas não conseguiram entender a ofensa que senti em ver o estereótipo da mulher brasileira ser usado contra mim. Não só dessa vez, mas em tantas outras. As minhas amigas brasileiras que moram na Europa conseguiram me entender. Elas já haviam passado por isso. Elas já haviam visto a reação dos rapazes na balada quando você diz que é brasileira. O “Uau, Brasil“, seguido de uma olhada maliciosa ou de um approach mais agressivo, ofende e machuca a todas nós de alguma forma. Para evitar tais desconfortos, algumas amigas já chegaram a mentir suas origens na balada, “sou italiana”, “sou grega”, “sou espanhola” são afirmações que pouco provocam excitação descontrolada nos estrangeiros. Já pensei duas vezes antes de dizer que sou brasileira, mesmo tendo muito orgulho disso. Ou de sambar ou rebolar em uma festa para evitar aquela olhada indiscreta para a região dos quadris ou o comentário “só podia ser latina/brasileira”.

Não quero ter vergonha de dizer de onde venho. Não quero mais que minha brasilidade seja medida pelo tamanho dos meus quadris. Quero ser reconhecida como brasileira pelo meu sorriso constante no rosto, por falar mais alto, por gesticular quando falo e, principalmente, pela minha alegria e personalidade aberta. Quero ser respeitada aqui e no Brasil. Apenas isso. E isso não acontece só quebrando estereótipos e preconceitos dos gringos, mas desmistificando a ideia da “típica brasileira” que o próprio Brasil construiu para si.

Escrito por
Mais de Débora Backes

Victoria: uma noite, uma garota, um take

Luzes brancas piscando e uma música techno muito alta são os primeiros personagens a aparecer em Victoria, filme alemão feito em Berlim. O cenário não podia ser algo mais berlinense: uma balada techno em um porão escondido, no centro da cidade. Uma garota dança sozinha de olhos fechados, empolgada pelo ritmo house. Prende o cabelo curto e vai ao bar, pede um shot de vodka e tenta puxar papo com o barman. Sem sucesso, ela pega a jaqueta e decidi ir embora. No seu caminho, quatro alemães bêbados – Sonne, Blinker, Boxer e Fuss – tentam passar pelos seguranças que os expulsam pelo nível de embriaguez. Já na rua, Sonne, numa clara tentativa de flertar com a garota, a convida a se juntar a eles: “What’s your name?”. “Victoria”, ela responde sorridente.

A história segue madrugada a dentro pelas ruas de Berlim. Victoria, a protagonista, é uma jovem de Madrid que se mudou para a capital alemã há três meses. Sem muitos amigos em Berlim, em uma única noite, a garota sai com quatro estranhos, é cúmplice no roubo de um carro, é ameaçada com uma arma por gangsters, assalta um banco, pega o cara que curte e se mete no meio de um tiroteio.

O mais interessante é que tudo isso acontece sem pausa, sem cortes. O filme todo foi feito em apenas UM TAKE. O filme levou duas horas e meia sem intervalos para os atores, diretor ou equipe técnica. Antes de assisti-lo, não conseguia imaginar como isso seria possível, mas é realmente assim: tudo acontece em sequência e parece muito real (claro que tudo foi filmado em um bairro só de Berlim). É como se a câmera fossem os olhos de alguém envolvido na trama. Ela se aproxima dos rostos, como se fossem os espectadores que estivéssemos ali observando as expressões de euforia, pânico e tristeza. O modo de filmagem te deixa muitas vezes sem ar pela quantidade de coisas tensas acontecendo.

Além disso, a personagem de Victoria traz algo interessante à história pela sua complexidade. Victoria não é apenas uma good girl going bad, como pode parecer no início do filme, em que ela bebe vodka e tenta timidamente fazer amizade com o barman da balada.

 
victoria 2
 
No começo do filme, eu achava que Victoria era só uma garota inocente tentando ser uma party girl, desesperada em busca de amigos e que, por isso, se deixava levar pelos três estranhos – no início são quarto, mas depois ficam só Boxer, Blinker e Sonne.  Isso, porém, só até a cena do piano dentro da cafeteria, em que ela trabalha e mora. Victoria e Sonne estão conversando e a jovem admite que sabe tocar piano. Curioso, ele pede mostre algo. Ela fecha os olhos e, como se possuída pelas notas, seus dados correm e saltam pelo teclado. É lindo! Nesse momento, pra mim, a personagem ganha uma muita força. Victoria conta, então, que viveu sua adolescência em um conservatório em Madrid, onde tinha que praticar piano sete horas por dia. Devido à extrema competição entre colegas, ela sentia nunca ter feito amigos de verdade ali. Depois da rejeição de seus professores, ela deixa a Espanha e chega na capital alemã. Em nenhum momento ela deixa claro os motivos para ter escolhido a Alemanha – ela não fala alemão e não conhece ninguém em Berlim. Talvez por uma vontade de aventura e de se conhecer longe da realidade que viveu dentro do conservatório musical.  Os motivos de nada ficam claros nesse filme.

Victoria parece ter sido realmente machucada pela rejeição de seus professores de piano. Ela chora escondida depois de terminar sua performance no instrumento, mas não se mostra abalada por isso ao longo do filme. Pelo contrário, ela vai ganhando mais força. Quando questionada por Sonne, Boxer e Blinker se poderia ajuda-los em algo – que é claramente ilegal -, ela não questiona muito e só vai. Como motorista dos rapazes, ela os leva até um estacionamento, onde eles encontram Andi, um gangster que cobra um favor de Boxer. Eles teriam que assaltar um banco naquela manhã e voltar com o dinheiro. A esse ponto, Victoria já está envolvida na história. Sonne tenta, porém, tirá-la da situação e a avisa que ela pode desistir e ir pra casa. Ela não aceita o conselho e decide ir junto e ser a motorista para que os três bandidos amadores executem o assalto.

 
victoria und sonne
 
Nesse momento, o espectador pensa “mas por quê? Por que ela não faz um escândalo, vai embora e deixa eles se f*** sozinhos?!”. Como disse, nenhum motivo fica claro nesse filme e nada é lógico. A complexidade da personagem não deixa suas razões claras. Pode ser que ela faça isso para se provar. Para fazer algo novo. Para testar limites. Por solidariedade aos novos amigos. Por um conjunto de fatores ou por nenhum deles. Às vezes, na vida real, não se precisa de motivos para se fazer esse tipo de loucura e talvez esse seja o caso de Victoria.

 
Victoria110515
 
Laia Costa (Victoria), atriz de Barcelona, recebeu o Deutscher Filmpreis 2015 de melhor atriz por sua impressionante atuação e talento na improvisação. Em entrevista para o site da revista alemã Spiegel, ela e o diretor Sebastian Schipper explicam que a estrutura do filme e diálogos foram montados no próprio set de filmagem. As cenas foram reconstruídas e mudadas várias vezes até o momento da filmagem. As conversas e interações entre personagens foram acontecendo conforme a câmera corria.

A barreira linguística também teve um papel importante no filme. Laia Costa é espanhola e não fala alemão, assim como sua personagem. E assim como Victoria e os três rapazes, Laia e seus colegas de set se comunicam em inglês. Isso com certeza trouxe mais realidade aos diálogos no filme que são, na maior parte, em inglês. Quando feitos em alemão, Victoria fica confusa – da mesma forma como a própria Laia deve ter ficado.

Nunca tinha visto um filme feito em um só take e achei muito impressionante. Ainda mais pela história, que me deixou super nervosa na cadeira do cinema. Depois de uma madrugada intensa, a garota acaba do mesmo jeito que começou: sozinha pela cidade alemã que nunca dorme. Foi apenas mais uma madrugada em Berlim.

 

Leia mais
" />